Por Tácio Júnior
Há uma cena que se repete, quase como um capítulo mal escrito de uma novela antiga: um veículo parado no meio da BR-364, lama até os eixos, o motorista em silêncio, olhando o horizonte como quem pergunta a Deus — ou ao Estado — se ainda há saída. Claro que esta descrição trata-se apenas de licença poética como expressão da realidade posta. Mas a maior verdade em tal cena é que essa estrada não é apenas asfalto. Ela é promessa. E promessa quebrada dói mais que buraco.
Em seu trecho acreano, a BR-364 liga Rio Branco a Cruzeiro do Sul, mas hoje parece ligar o Acre à frustração. O fato é de que não se trata apenas de infraestrutura precária. Trata-se de tempo perdido, de mercadoria que não chega, de alimento que encarece, de gente que se sente abandonada. Como explicar a um pai de família do Juruá que milhões e milhões foram anunciados e que o problema seria resolvido, se o que ele vê é a viagem virar um risco diário? Anúncio alimenta esperança, mas é a execução que sustenta a fé.
Há também o cansaço invisível, aquele que não aparece em relatórios. O cansaço de quem planeja a vida contando com a estrada e precisa, de repente, reaprender a esperar. Esperar o ônibus desatolar, o caminhão chegar, o remédio não faltar. Quantas decisões pessoais e econômicas ficam suspensas no meio do caminho?
Com o presidente Lula, o governo federal voltou a olhar para o Acre, é verdade. Os números existem, os discursos também. Mas estrada não se governa no papel. Governa-se na experiência concreta, no dia em que chove, no trecho que cede, no ônibus que atola. É aí que a política deixa de ser abstrata e se torna julgamento.
O DNIT no Acre não é vilão de novela, tampouco pode ser tratado como bode expiatório fácil. Há limites técnicos, climáticos e históricos. Mas também há falhas de ritmo, de presença, de comunicação. Quando a população não entende o que está sendo feito, nem quando, nem por quê, o silêncio vira ruído. E o ruído vira desgaste.
Talvez o maior erro esteja aí: tratar a BR-364 apenas como obra, quando ela é narrativa. Cada atraso reescreve essa história do ponto de vista de quem vive nela. E nenhuma assessoria, por mais bem-intencionada, consegue disputar versão com a lama.
Será que faltou escuta? Será que faltou urgência compatível com a importância simbólica dessa estrada? Ou será que, mais uma vez, subestimou-se o quanto a BR-364 é emocionalmente central para o acreano?
No fim, a estrada virou espelho. E o reflexo não é bom para ninguém. Enquanto a BR-364 continuar sendo travessia de incertezas, qualquer governo — por mais recursos que anuncie — caminhará sobre lama política. Porque no Acre, mais do que em qualquer outro lugar, estrada não é obra: é vínculo. E vínculo, quando se rompe, cobra explicações.
Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre


















