Conecte-se agora

Transporte coletivo luta contra declínio e mantém empregos na pandemia

Empresas de ônibus perderam quase R$ 4 milhões por mês circulando sem demitir funcionários e sem demanda

Publicado

em

O sistema de transporte público coletivo em qualquer capital do Brasil é sempre pauta de intensos debates. Séculos se passaram desde que o modelo foi implementado e até os dias atuais há discussão de como se pode melhorar e agregar maior número de passageiros satisfeitos. Na capital do Acre, o sistema vem passando por uma remodelagem a fim de aprimorar os serviços oferecidos à população. No entanto, ainda lida com os prejuízos acarretados pela devastadora pandemia do novo coronavírus. As empresas que atuam em Rio Branco, São Judas Tadeu e Via Verde, tentam contornar a perda de 83% dos passageiros e cerca de R$ 40 milhões.

Assim como demais setores da economia a nível mundial, o transporte coletivo também sofreu impactos negativos com a suspensão da maior parte das atividades comerciais devido ao alastre da Covid-19. Porém, com uma diferença: enquanto outras empresas puderam se adaptar a novas ferramentas de vendas (delivery;e-commerce), o transporte público era praticamente obrigado a manter veículos na rua, mesmo sem passageiros suficientes, no auge da pandemia.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

A expectativa para os próximos meses em Rio Branco é de progresso entre os trabalhadores e o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo do Estado do Acre (Sindcol-AC), mesmo após a crise sanitária ter provocado uma verdadeira avalanche de problemas ao sistema, que já se encontrava numa situação instável em meio à troca de gestão no município e falta de entendimento entre prefeitura, empresas e Câmara de Vereadores.

Os meses de abril e maio de 2020 foram os piores dos últimos anos para o transporte público local. O sistema perdeu quase dois milhões de passageiros num único mês no pico da pandemia. As empresas da capital acreana chegaram a perder em média quase R$ 4 milhões por mês por causa da pandemia. “Só de 2020 a 2021 houve queda de 66% de passageiros nos ônibus. Mas acreditamos que os coletivos podem recuperar esse passageiro, bem como a receita nesse período pós-pandemia. Com as aulas retornando e a cidade se movimentando novamente, a tendência é o passageiro voltar”, explica o presidente do Sindcol no Acre, Aluízio Abade.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

As empresas de transporte coletivo alegam que passaram a lidar com um cenário complicado desde o final de 2019, quando passou a ser permitido o funcionamento do táxi compartilhado, também conhecido como táxi-lotação em Rio Branco. “Com isso, houve queda de passageiros usuários do sistema. Não houve a fiscalização determinada pela justiça, não tivemos tempo de nos adequar ao táxi compartilhado e à demanda que foi subtraída do sistema. Em seguida veio a pandemia, que desorganizou toda a nossa estrutura financeira”, lamenta Abade.

Os transportes coletivos saíram de um faturamento de quase R$ 6 milhões mensais e caíram para um rendimento de R$ 1,5 milhão até este mês de setembro. Aluízio destaca que na pandemia o comércio em geral fechou, deixando de gerar custo de energia elétrica, de pagamento de funcionários e muitos outros aos comerciantes. “Já nós, não. Nós não paramos na pandemia, rodamos todos os meses com custo de óleo diesel, de mão-de-obra, de garagem etc, tudo isso sem transportar passageiro”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

E foi justamente esse fator que ocasionou quase que uma decadência total do transporte coletivo, pois acabou tirando a capacidade de investimento que essas empresas de ônibus poderiam possuir. “Aí veio atraso de folha de pagamento, de manutenção de veículo. E o poder público constantemente fiscalizando e vendo que realmente não estamos ainda com demanda. Isso desencadeou nessa desorganização financeira do sistema”, salienta o presidente do Sindcol.

Abade ressalta que todo o sistema de transporte público, quando este não consegue cobrir sua própria despesa por determinado motivo, o município tem por obrigação (constante em contrato) entrar com subsídio, um apoio monetário concedido por uma entidade a outra entidade, no sentido de fomentar o desenvolvimento de uma atividade ou o desenvolvimento da própria. “E infelizmente nós não tivemos nenhum tipo de ajuda, conforme confirma relatório oficial recebido pela prefeitura”.

Impasse na prefeitura

Segundo os empresários, após a troca de gestão municipal, o prefeito Tião Bocalom (Progressistas) demorou a entender como de fato funciona o transporte coletivo, acumulando uma série de imprevistos ao sistema. “Juntou tudo isso. Percebemos essa dificuldade porque até o novo governo se adaptar, demorou. Normalmente, acham que nós somos bicho papão. E não existe isso no transporte. Passamos quase um ano tentando fazer a prefeitura entender o que é o transporte público”, diz Aluízio, afirmando que em dezembro de 2020 haveria o aporte de mais de R$ 2 milhões, que foi barrado pelos vereadores na Câmara.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O município ainda tenta fazer o mesmo aporte, que de acordo com as empresas, trata-se de uma antecipação de receita. “O que o prefeito está propondo é a desoneração de tarifa para a gente tentar buscar o passageiro. Ele incentiva o passageiro a andar de ônibus, incentiva o comércio e empresários a contratar funcionários que não só moram próximos de seus locais de trabalho, mas de outros bairros, fazendo com que haja circulação na cidade”, garante o Sindcol.

Abade assegura que o repasse dos R$ 2,5 milhões pode fazer com que o transporte público melhore, a prefeitura receba receita e que o cidadão pague mais barato na tarifa de ônibus. “Vai gerar emprego e receita. E ainda podemos agregar passageiro no coletivo, conservar uma mesma quilometragem, aumentando o número de usuários”.

O trabalho vem sendo realizado para que não haja uma queda do sistema como a que ocorreu em Rondônia, que passou por um sistema bastante deficitário com o advento do táxi compartilhado, que tomou o mercado de passageiros. “Nesse caso, a frota foi muito reduzida. Ultimamente a prefeitura de Porto Velho fez uma nova licitação para tentar recuperar o sistema. Então a cidade está rodando com 40 ônibus. Aqui em Rio Branco vai rodar a partir do mês que vem com 100 ônibus”.

Cabo de guerra na Câmara Municipal

O Sindcol acredita que a atitude de alguns vereadores da capital em não querer permitir o aporte às empresas não compromete a São Judas Tadeu ou Via Verde, mas unicamente um benefício da sociedade. “Só dificulta para os usuários do transporte coletivo, porque a tarifa está sendo reduzida e eles [vereadores] querem votar contra. É meio complicado. Não sabemos a forma com que o prefeito vai conduzir isso, mas o certo é que a Câmara aprovasse esse projeto em prol do usuário”.

Na comparação de arrecadação entre 2019 e 2020 é possível observar uma queda brusca nos números, tanto de receita quanto de usuários. “Nós conseguimos usar os planos do governo federal, o Benefício Emergencial, onde as empresas pagavam 30% do salário dos funcionários e o governo 70%. Como reduziu carro na rua, a gente reduziu a quantidade de pessoas. Uma equipe trabalhava 10 dias, depois outra mais 10 e outra também 10 dias, mas não mandamos ninguém embora. A frota só ficou reduzida”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O “X” da questão atualmente se resume às despesas que as empresas estão tendo que manter sem obter receita para tal. “Se você pega a despesa de diesel e a receita, não cobre. Você sai de uma receita de R$ 5 milhões em novembro de 2019 e entra numa receita de R$ 1,8 milhão, fica insustentável perder R$ 3 milhões do dia para noite e a despesa continuar a mesma. Dessa forma, o sistema fica em decadência”.

Transporte clandestino

O sistema espera que a prefeitura de Rio Branco passe a atuar com uma fiscalização mais séria em cima do transporte clandestino e tente ajustar, colocar regras no modelo de táxi compartilhado, para que não interfiram no sistema coletivo dos ônibus. Abade acredita que deve-se criar uma modalidade para o táxi compartilhado ou lotação. “Que não seja como transporte público, mas transporte de táxi. Que haja espaço para todo mundo”.

Para o Sindcol, não há justificativa para o táxi sair do ponto final junto com o ônibus, uma vez que o coletivo carrega uma demanda maior, teoricamente mais baixa da classe, e o táxi passe nos pontos atraindo passageiros pagantes e deixando o passageiro do vale transporte no ônibus. “Isso quebra completamente o sistema. Acho que a prefeitura tem que achar um caminho sim para o táxi compartilhado, que já foi bastante agredido pelo sistema do Uber, mas que tenha regras diferentes do ônibus e não seja um concorrente do transporte coletivo”, declara Aluízio.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O transporte coletivo torce para que a volta às aulas, no próximo mês de outubro, e o provável aumento da demanda, consiga voltar com a frota total e atender a população e continuar com os funcionários que não foram dispensados. “O nosso compromisso com o sindicato era não demitir na pandemia, garantir o trabalho de todos, porém nós carregamos um custo alto de folha de pagamento que tem que ser resolvido com urgência. Acho que o poder público deveria estar caminhando nessa forma que está, com desoneração de tarifa, e que a Câmara aprove esse projeto do repasse para que isso possa ocorrer”, diz o presidente do Sindcol.

O aporte financeiro será usado pelas empresas para pagar os salários dos trabalhadores do transporte coletivo e reduzir a tarifa de ônibus em 50 centavos. O superintendente de Transportes e Trânsito de Rio Branco, Anízio Alcântara, afirmou recentemente que a prefeitura busca puxar para si o pagamento das gratuidades (pessoas que usam o transporte público sem pagar) para que se possa reduzir a passagem de ônibus.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O Conselho Tarifário de Rio Branco já aprovou por unanimidade a redução no preço da passagem de ônibus de R$ 4 para R$ 3,50, após entender que a desoneração favorece os usuários do transporte coletivo da capital acreana. A ideia agora, segundo o Sindcol, é focar em tentar baixar ainda mais a tarifa que já ganhou uma redução. “Vamos trabalhar com a desoneração dos estudantes também. Talvez o estado e o município, assumindo o subsídios dos estudantes, essa tarifa pode chegar a 3 reais”, garante Abade.

A RBTrans afirma que a redução pode representar um grande avanço. “Reduzindo a gratuidade, reduz a tarifa do usuário. Isso é só o primeiro passo de uma grande luta e sequência de trabalho que vai ter continuidade até ter valores menores para população e com a qualidade de serviço diferente do que está hoje. Não se pretende baixar a tarifa e continuar como está nos coletivos. As duas coisas estão caminhando”, assegura.

Gente - Economia e Negócios

Cachaça Jibóia, a bebida que vem atraindo a atenção do mundo para o Acre

Publicado

em

Mesmo sem tradição alguma na produção de bebidas alcoólicas, o estado do Acre tem entrado nas listas e indicações mais importantes do país quando o assunto é cachaça. Isso graças ao surgimento da indústria Potio, que produz a cachaça Jibóia, uma das maiores inovações e promessas em bebidas destiladas nos últimos anos. A qualidade no processo de produção da Jibóia tem impressionado os maiores especialistas do ramo. Tanto que a fábrica, localizada no município de Acrelândia, tem recebido pedidos de sete estados e diversas visitas a fim de saber como um produto de tamanho requinte e delicadeza tem sido feito na Amazônia.

Apesar do reconhecimento em outros estados e até países, o consumidor local desconhece o valor do produto feito no Acre. A empresa é 100% acreana, pensada e criada pelo engenheiro eletricista e advogado riobranquense Jakson Soares, que morou um tempo em Curitiba e decidiu se tornar Mestre Cachaceiro desde 2014. Soares fez curso em Minas Gerais e especialização na USP. Dois sócios também integram o plano de negócio da indústria, que é extremamente fundamentado, elaborado para os próximos 10 anos. Atualmente, a empresa está se preparando para lançar novos produtos que serão comercializados a partir de 2022: as cachaças saborizadas de Jambu, Guaraná e Açaí.

“A ideia de montar esse negócio veio porque não existia esse tipo de negócio no Acre. Tudo vinha de fora, 100% da bebida alcoólica que era consumida aqui vinha de fora, então nossa ideia foi montar essa empresa aqui, gerar emprego, renda e, principalmente fazer um produto acreano, essa é a nossa ideia principal. Eu e dois sócios começamos isso aqui do zero”, relata Jakson. A construção da indústria Potio, que fabrica a cachaça Jibóia, começou em 2014, mas foi em março de 2018 que a marca foi consolidada e entrou efetivamente em operação.

“Foi então que lançamos nosso primeiro produto, a aguardente Jibóia, ainda na garrafinha de plástico,mais conhecida como buchudinha. Hoje a gente domina um ciclo inteiro. A gente planta cana, temos nosso canavial com 50 hectares de cana”, explica o empresário, que também está plantando um novo canavial para produzir canas e bebidas experimentais, com diferentes matérias-primas e totalmente orgânicas. A indústria está fechada no momento, pois o novo período de safra começa no próximo mês de novembro e vai até meados de março.

Canavial da fábrica Potio, que produz a cachaça Jibóia, tem 50 hectares de cana e deve aumentar para 150 ano que vem

Canavial da fábrica Potio tem 50 hectares de cana e deve aumentar para 150 ano que vem – FOTO: Sérgio Vale/ac24horas

“A gente colhe as canas em carretinhas. O local onde hoje é a indústria, antigamente era uma serraria, e tudo foi derrubado. A nossa indústria como é hoje eu mesmo desenhei. Muitos detalhes aqui chamam atenção, principalmente de quem vem de fora conhecer. Recentemente, recebemos o masterblender Nelson Duarte, que era da Ypióca, o maior do Brasil. Ele ficou aqui uma semana e há cerca de 10 dias nós recebemos Natanael, que faz a melhor cachaça do país”, comenta Soares.

O que mais tem impressionado fora do estado é o fato de a Jibóia ser produzida na Amazônia, mais precisamente no Acre, onde os maiores centros de compras são extremamente longes e a logística é mais complicada. “Nossas dificuldades são extremas. Na Amazônia, é uma briga eterna fazer esse tipo de produto, pois é uma luta contra os passarinhos, contra os insetos, contra a umidade, a temperatura e temos que fazer tudo diferente. Tanto que as pessoas que já vieram aqui disseram: ‘Como vocês conseguem produzir aqui? Porque tudo eu faço diferente lá no Sul’, destaca.

Processos

A cachaça Jibóia é diferente e o criador sabe e faz questão de ser assim. A indústria Potio busca produzir tudo dentro dos padrões de qualidade de certificação internacional, não à toa que a fábrica foi desenhada obedecendo critérios para essa certificação internacional, o que a difere de tantas outras também feitas Brasil afora. São no mínimo seis processos que a matéria-prima da cachaça acreana passa para seguir em produção. Inúmeras filtragens e pasteurização é o que torna a Jibóia essencialmente especial, sendo a única cachaça pasteurizada do país.

Indústria é lavada diariamente antes e depois da produção da cachaça, além da pasteurização, processo único em cachaça no país

Indústria é lavada diariamente antes e depois da produção da cachaça, além da pasteurização, processo único em cachaça no país

“O trator traz a cana, temos uma máquina colheitadeira onde as carretinhas descarregam na esteira, que leva e picota a cana para depois jogá-la dentro de uma moenda”, salienta Jakson, afirmando que a fábrica é dividida entre salas e áreas. A primeira área é a recepção da cana, mais à frente fica a sala de moagem, sendo todas identificadas.

“Os detalhes técnicos são muito importantes porque hoje somos quase um modelo nacional nesse quesito técnico, de padrão construtivo. Nessa sala de recepção, por exemplo, recebe muito líquido, então a gente lava ela todos os dias, antes e depois da produção. Há barreiras de proteção para que não caia nada de líquido para fora quando a gente está produzindo”.

A fábrica inteira é feita com paredes térmicas, laváveis e de aproximadamente 7 metros. Assim que chega, a cana passa pela peneira rotativa para limpeza e retirada dos bagaços, depois vai para o decantador, onde retira os bagaços menores e depois para o tanque de transferência. A partir deste momento a produção da cachaça é realizada em objetos 100% inox. “A matéria-prima não passa mais em nenhum momento por madeira, plástico, cimento, nada. É 100% inox porque a gente lava a fábrica todos os dias antes de produzir”.

Jakson Soares formou-se e se especializou como Mestre Cachaceiro fora do estado, em 2014

Jakson Soares formou-se e se especializou como Mestre Cachaceiro fora do estado, em 2014 – FOTO: Sérgio Vale/ac24horas

Na época da safra, trabalham cerca de 15 pessoas na linha de produção, que é completamente lavada com água quente, ácido peracético e álcool 70% todos os dias pela manhã. Enquanto uma parte dos trabalhadores colhe a cana, a outra está lavando a fábrica. “Chega a cana, a gente mói, faz o caldo de cana, produz durante todo o dia, e no final do expediente lava tudo de novo. A gente usa bastante água para manter a qualidade. Tudo isso para garantir um padrão de qualidade diferenciado, porque nós fazemos bebida,e bebida é alimento, então temos que garantir o mínimo de padrão de segurança alimentar”, diz Jakson, que completa: “posso garantir que tem muita gente fazendo bebida alcoólica que não chega nem perto disso, desse cuidado”.

Salas

A primeira a sala que inicia o processo de produção da cachaça Jibóia é a de moagem. Todas elas possuem pia inox, dispenser com papel, sabão bactericida e água quente e fria. Os ambientes são separados, ou seja, um processo não se mistura com o outro e não há contaminação. As portas abrem e fecham rapidamente para não permitir a entrada de insetos. Depois de moído, o caldo de cana passa por inúmeras filtragens. Os cantos das paredes são todos arredondados no chão para não acumular líquido. A pintura é de epóxi, refeita anualmente.

Local que produz a bebida está localizado na entrada do município de Acrelândia, a cerca de 116 km da capital do Acre

Local que produz a bebida está localizado na entrada do município de Acrelândia, a cerca de 116 km da capital do Acre – FOTO: Sérgio Vale/ac24horas

Em seguida passa pela sala de tratamento, onde o caldo de cana é filtrado até ficar bem limpo e seguir com o tratamento. “Tratar é verificar a quantidade de açúcar que tem no caldo de cana, o PH e a temperatura dele. A gente estabiliza tudo isso, só que a gente trata o caldo de cana de uma forma que poucas indústrias fazem no Brasil. A gente pasteuriza o caldo de cana, que elimina bactérias, insetos. Além de filtrar, a gente pasteuriza, e isso em termos de qualidade é um diferencial muito grande, porque o que eu obtenho aqui é um caldo de cana excelente”, destaca Soares.

O tratamento dá todos os números da qualidade do produto e é onde se coloca o fermento no caldo de cana para dar início ao trabalho de fermentação em tanques de 5 mil litros. Ao todo, líquido passa por 26 filtros. Jakson salienta que todo o controle da pasteurização é eletrônico. “Nossa água é tratada, a gente tem uma Estação de Tratamento de Água (ETA). Nosso processo de produção é em linha, isso significa que ele entra e sai todo em linha reta”.

Após o tratamento do caldo de cana e colocação do fermento, ele vira o mostro, que vai para a sala de fermentação. Esse é um dos processos mais importantes da produção de bebidas e cachaças. O líquido fica descansando por 48 horas, fermentando. O fermento transforma o açúcar em álcool. “Aqui acontece a mágica e isso tem que ser controlado, o tempo, temperatura, a fermentação, se há contaminação ou não. E esse controle é feito por um circuito de água gelada e serpentina. A sala esquenta e se passar de 32°C o fermento morre. Então temos sempre que estar resfriando o líquido em tanques de 10 mil litros cada um”.

Outro diferencial da indústria Potio na fabricação da cachaça é que a empresa só utiliza cana fresca. A cana tem de ser colhida e moída o mais rápido possível. O proprietário afirma: “A gente não estoca cana, porque é um ser vivo, e quando corta desenvolve bactéria, inseto, açúcar e ela começa a produzir compostos químicos que atrapalham no processo de uma boa bebida”. Dessa maneira dá muito mais trabalho, mas garante a qualidade da cachaça Jibóia.

Quando o caldo de cana zera o açúcar, depois de ser fermentado, onde a levedura come todo o açúcar e o transforma em álcool, é transferido para outra sala. “A gente tem que separar a levedura, então segue para a sala de uniformização”. Lá, passa pela centrífuga, que separa o fermento que está dentro, o devolve para ser reutilizado e o que sobra chama-se vinho. Este fica 24 horas descansando para seguir para o próximo passo.

“Nossa fábrica foi desenhada para ser toda redundante, o que significa que se tiver contaminação em um tanque, eu paro esse tanque, isolo ele, e trabalho com o outro, sem a fábrica parar. Tudo isso para garantir o produto sem contaminação e não perder também”, revela. Depois de ter virado vinho, o líquido vai para a sala de destilação. “Aqui a gente pega o vinho, que é um líquido com álcool dentro, ferve de um lado, condensa do outro, e separa o álcool. Tudo isso controlado com medidores eletrônicos. Controlamos temperatura, pressão e velocidade do líquido que está entrando. Se quero mais forte ou mais fraco, basta alterar as configurações”.

A primeira cachaça Jibóia, na garrafinha de plástico, tinha teor alcoólico de 38%. Agora, a marca só produz em garrafas de vidro, em duas opções: com teor de 40% e 48%. “A gente destila alto, a 55%, só que a gente derruba essa graduação a 48%, diluindo, inserindo água. É nesse processo também que se produz o álcool 70%, só que utilizando muito mais cana. Nesse caso, o gasto é muito maior e o equipamento não foi feito para esse tipo de produção, então o rendimento não é o ideal”.

Em seguida entra a sala de padronização, que equilibra, padronizando o teor alcóolico, no caso da nova Jibóia, a 40% e 48%. “Temos os equipamentos de medição, de controle. A gente tem laboratório próprio. A gente destila, separa o líquido, filtra novamente, e fica estocado. Uma parte é álcool 70% e outra destilado”. Por último, entra a parte do envasamento. O líquido é estabilizado por um tempo antes de ser armazenado em garrafas. “Ainda aqui a gente filtra novamente. Todos os processos são conferidos. A gente tem uma planilha de controle e uma linha semiautomática de envasamento. Agora estamos montando uma linha manual também para poucas quantidades e também para os próximos produtos que nós vamos montar”, diz Jakson Soares.

Projetos socioambientais

Empresa atua ainda com nove projetos socioambientais e parcerias com o município e a Ufac

Empresa atua ainda com nove projetos socioambientais e parcerias com o município e a Ufac – Foto: Sérgio Vale/ac24horas

A indústria Potio tem se dedicado a desenvolver projetos pela causa socioambiental. Ao menos nove projetos estão para serem encaminhados, sendo que alguns deles já estão em funcionamento. Entre eles, a utilização da água da chuva tratada para diluição, fornecimento da ETA para análise de água no município e doação de caldo de cana para escola municipal utilizar na merenda das crianças.

“Como hoje a gente só faz cachaça na garrafa de vidro, a gente compra a garrafa de fora, da fábrica, não usadas e vamos implementar um programa de recompra de garrafas.Ou seja, o consumidor vai poder trazer a garrafa que eu compro de volta, recebe desconto para compra de outra garrafa cheia. Vou fazer o tratamento e reutilizar a garrafa. Isso é ambientalmente correto”, diz o mestre cachaceiro.

A empresa doou 5 mil litros de álcool durante um dos piores momentos da pandemia de Covid-19 no estado do Acre. Para isso, foi usado quase todo o canavial. Outra peculiaridade é que a água usada para baixar a graduação de 55% para 48% da cachaça é proveniente da chuva. “Somos a única indústria do Brasil que usa água da chuva no processo produtivo de bebida alcoólica”, garante o empresário.

Um tanque de 30 mil litros recolhe água da chuva para que seja tratada. “Ela é filtrada e desmineralizada. Temos um tratamento de água e ela é sempre analisada na Unidade de Tecnologia de Alimentos (Utal), da Universidade Federal do Acre (Ufac). Hoje, quem bebe a Jibóia, bebe água da chuva”, brinca. Segundo Jakson, especialistas vêm ao estado só para ver o que a Potio tem feito de inovação, como essa. “Não é muito difícil fazer isso, basta ter um tanque e montar um tratamento. Temos outros processo também de limpeza da água de um lago que usamos para fazer a limpeza da fábrica. Essa água passa pela nossa ETA”.

Entre os projetos consta ainda a criação de um viveiro próximo ao canavial. Lá, haverá plantação de cana, árvores nativas e frutíferas para reflorestamento. “Vamos fazer doação dessas mudas, campanhas de reflorestamento para ajudar nessa questão. A gente quer pegar pequenos agricultores, fornecer a muda da cana, ele vai plantar e a gente vai garantir a compra dessa cana. Vamos ajudar os pequenos agricultores aqui da região. Queremos abranger bastante pessoas”, assegura.

O bagaço da cana usada para fabricação da cachaça serve para fazer adubo orgânico. A empresa já doou 200 toneladas de bagaço de cana para a prefeitura de Acrelândia fazer adubo e utilizar em hortas. “Vamos fazer uma plantação orgânica de cana para fazer um produto orgânico. Algo que já até combinei com a prefeitura, já que a gente pasteuriza caldo de cana, é o fornecimento de caldo de cana pasteurizado para escola primária de Acrelândia quando voltarmos a produzir, porque hoje eles tomam suco de pozinho e o caldo será muito maia saudável”. A ideia é enviar pelo menos uma vez por semana o caldo de cana pasteurizado para a escola.

Reconhecimento

Novas embalagens têm cachaça com teor alcoólico de 40% e 48%, ideias para drinks ou beber "pura"

Novas embalagens têm cachaça com teor alcoólico de 40% e 48%, ideias para drinks ou beber “pura” – Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Mesmo que o consumidor local ainda não conheça a fundo o produto da terra, fora do estado e em outros países a cachaça Jibóia já é sinônimo de qualidade e bom gosto. A bebida possui diversas certificações que confirmam a procedência confiável e única. “Nosso produto tem o selo de empresa sustentável e o selo reciclável. A nova Jibóia vem em duas apresentações, em cores diferentes. Ela tem o registro do Ministério da Agricultura, pois é a única indústria registrada no Acre para produzir bebida alcoólica. Temos registro para exportação e o selo holográfico, que significa garantia, que não dá para falsificar nosso produto”.

O símbolo da cachaça é a cobra jiboia, cujo nome surgiu por três motivos: era o apelido de Jakson em sua primeira graduação, era o animal colocado em potes de vidro com cachaças e significa proteção aos indígenas. “Na embalagem é possível sentir o relevo da pele de cobra. Antigamente tinha muito nas casas aqueles potes de vidro com cobra e cachaça dentro, isso também contribuiu para o nome. Depois de já ter registrado a marca, descobri que a jiboia é um animal sagrado para as etnias indígenas no Acre, o que casou muito bem. Ribeirinhos e comerciantes de Rio Branco ainda utilizam a cobra para se proteger dos roedores, principalmente em depósitos de milho e afins. E é a única cobra que o Ibama permite criar como animal de estimação, pois não é venenosa. E se não tem roedor, não tem outro tipo de cobra no local”, diz o mestre.

A cachaça possui na garrafa o ‘cachaçômetro’, para o consumidor verificar o quanto consegue ingerir. “Nossas garrafas são todas numeradas, têm as bandeiras do Acre e do Brasil, o que é ideal para dar de presente. Na embalagem as cores formam uma cruz, que é uma referência à terra de Vera Cruz, que foi o primeiro nome que o Brasil recebeu ao ser descoberto por Pedro Álvares Cabral. E a cachaça é a bebida típica do Brasil. E Potio, o nome da nossa indústria, significa bebida em latim”.

Jiboia é só o primeiro produto de muitos que a fábrica pretende lançar. Hoje, a empresa se orgulha por ser uma das poucas que não vende um produto apenas, mas uma verdadeira experiência. “Quando alguém compra um produto desse, está comprando uma história, essencialmente qualidade e a experiência de consumir um produto que ajuda nas causas ambientais”. A fábrica foi inteiramente desenhada pensando em expansão e na maneira de oferecer melhor qualidade.

“Essa fábrica tem o mesmo sistema de indústria de automóvel, isso significa que eu posso duplicar o tamanho dela sem parar de produzir e sem contaminar. A fábrica vai contar daqui a um tempo com sistema de som e câmeras. Um processo novo, há somente duas indústrias hoje no Brasil que fazem a fermentação com música clássica, porque segundo estudos, as ondas da música clássica reverberam melhor com as leveduras e vamos fazer isso também”, diz Jakson.

Qualidade diferenciada

Todo o processo de fabricação da cachaça Jibóia, do início ao fim, dura aproximadamente 7 dias até chegar na parte de padronização. Depois da padronização, é preciso que o produto fique mais seis meses descansando. O ideal, segundo Jakson, é produzir e deixar a cachaça descansando por seis meses em tanques de inox. Ele reafirma que o produto tem uma qualidade diferenciada, mas que o acreano não reconhece como deveria.

Fábrica possui tanques internos em inox de 5 e 10 mil litros no processo de produção da cachaça Jibóia

Fábrica possui tanques internos em inox de 5 e 10 mil litros no processo de produção da cachaça Jibóia – FOTO: Sérgio Vale/ac24horas

“Às vezes as pessoas acham que o santo de casa não faz milagre. Fora do estado a Jibóia está super reconhecida, ficamos entre as 250 melhores cachaças do Brasil, um feito muito grande, e agora estamos concorrendo novamente. A gente tem um produto com padrão exportação. O mundo da cachaça já conhece a Jibóia, sabe que ela existe, sabe da qualidade”. No próximo mês de janeiro a indústria acreana vai receber um especialista da Inglaterra que percorre países do mundo inteiro para conhecer bebidas destiladas diferentes.

“Ele entrou em contato comigo esse mês de outubro. As pessoas acham interessante a maneira como trabalhamos. A gente tem um controle de tudo que fazemos. Os especialistas estão impressionados com o que a gente está conseguindo fazer aqui, porque produzir na Amazônia é muito difícil e fazer um produto diferenciado como esse é muito bacana. Eles se impressionam também com as técnicas que a gente utiliza aqui para desenvolver a cachaça. Isso tem chamado bastante atenção, tanto que estão vindo conhecer um produto do Acre”.

A meta atual da Potio é exportar seus produtos. “Até o primeiro trimestre de 2022 vamos exportar. Será a primeira exportação de uma indústria de bebidas do Acre. Vamos fazer uma certificação internacional também para exportar para Europa”. A fábrica conta com o conhecimento do engenheiro agrônomo Victor Bezerra, de 25 anos, que veio de Belém (PA) há dois meses trabalhar por meio de uma parceria da indústria com a Ufac.

“Estou ajudando a melhorar a produção da cana. Quando cheguei aqui, me deparei com uma produtividade muito abaixo do que é considerado o mínimo para produção de cana, inclusive abaixo da metade. Meu objetivo aqui é melhorar a produção de cana da fábrica, principalmente com manejo, adubação adequada, controle de plantas invasoras, porque isso é o que baixa muito a produtividade de um canavial, assim como não saber controlar os problemas que estão acontecendo”. Sem o profissional, a marca acabava com alguns problemas diários. O projeto que permitiu a vinda do agrônomo dura cinco anos. Pelo planejamento, a cada ano virá um residente.

Expectativas – cachaça envelhecida e turismo destilado

Indústria já está trabalhando no projeto de cachaça envelhecida, que deve ser comercializada em 2022

Indústria já está trabalhando no projeto de cachaça envelhecida, que deve ser comercializada em 2022 – FOTO: Sérgio Vale/ac24horas

A Portio também está empenhada em produzir bebidas envelhecidas, o que acarretará em mais padrão aos produtos que já são elaborados. A ideia é estar auxiliada pelo Senai, uma vez que pretendem usar madeira local, para treinar pessoas na confecção dos barris e gerar uma nova economia local. “Hoje o barril vem de fora. São produtos especiais, os barris de envelhecimento possuem 250 litros cada um, são madeiras diferentes, como castanheira, bálsamo, murano e jequitibá”, comenta Soares.

Na empresa, oito barris estão sendo amaciados para envelhecer bebida. “Nessa semana já vamos enchê-los. Eles vão ficar um ano aqui dentro e depois vamos fazer blend, que é misturar madeira ou cachaça nova com uma mais antiga. Esse é nosso projeto de cachaça envelhecida, que iremos colocar para comercializar em 2022”. Na ocasião, a marca pretende comercializar no modo ‘adote um barril’, onde o cliente poderá comprar um barril com bebida envelhecida, deixar na empresa onde será mantido ou levar para casa.

Jakson quer tornar o local um ponto de turismo voltado a produtos destilados. “A gente quer que as pessoas que venham ao Acre e conheçam o nosso empreendimento. Uma van irá buscar o turista e ele vai aprender o processo da cachaça, provar, poder comprar. Já estamos nos preparando para receber as pessoas para esse tipo de turismo. Isso é bom para a região, para o estado. Gerar emprego, oportunidade de negócio, movimentar pessoas”.

A ideia é montar uma lojinha próximo da fábrica para comercializar produtos da marca Jibóia. “A Potio tem que ser referência de bebida de qualidade a nível nacional, um produto que represente o estado do Acre, a Amazônia e o Brasil. Representar da melhor forma possível, com extrema qualidade e todo cuidado que a gente tem. Nossa meta de exportação já está estabelecida, além de estarmos nos melhores restaurantes de Rio Branco, São Paulo, Porto Velho, Curitiba, Fortaleza, em Santa Catarina e Minas Gerais”.

A empresa começou com um produto simples, de elástico, quando ainda estava aprendendo a engatinhar, reconhecendo o mercado, fazendo testes, e agora possui um produto de vidro, de alto padrão, com nível diferenciado. “A gente não pode errar de forma alguma, vamos ter as bebidas saborizadas, lançar outras linhas, teremos cachaças envelhecidas. Tudo isso num plano de negócio de 10 anos, para mantermos tradição e qualidade. Temos um produto de forma contínua, reconhecido nacionalmente. Os acreanos precisam conhecer um pouco mais nosso produto, da indústria, ter orgulho que hoje nós temos uma bebida alcoólica com padrão de qualidade. A gente produz cachaça e também fazemos nossa parte social e colaboramos com isso”, declara o empresário.

 

O Mestre Cachaceiro Jakson Soares ensina como degustar uma cachaça de qualidade, veja:

 

video

 

Continuar lendo

Gente - Economia e Negócios

Bar focado no público LGBTQIA+ no Acre acolhe gays, héteros e trans em comunhão

Empreendimento ganhou público ao oferecer liberdade e segurança a clientes e colaboradores

Publicado

em

Um lugar onde os garçons se vestem e se comportam como se identificam na sociedade, onde héteros assistem ao futebol no telão ladeados de gays, trans, bissexuais e lésbicas sem discriminação. As palavras de ordem que gerem o estabelecimento são duas: liberdade e segurança. São com elas que o Recanto Food e Beer, localizado na Avenida Ceará, busca fazer integrar um grupo seleto e amplo na capital acreana.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

O projeto inicial previa um espaço mais recatado, mas transformou-se num ambiente grandioso e acabou caindo no gosto de um público maior do que o proprietário imaginava. Há cerca de três meses, o advogado Gabriel Santos, 26 anos, divide seu tempo com o escritório de advocacia e as mesas de bar. A ideia principal da empresa permaneceu, que era a de criar um espaço único e seguro ao público LGBTQIA+.

“Justamente para fugir de confusão. Quando eu pensei em criar o Recanto, em 2020, queria um bar que agradasse tanto a mim quanto aos meus amigos. Tinha que ser confortável e que fizesse as pessoas se sentirem tranquilas, em paz e em segurança”, explica. E foi com foco nesse formato que nasceu o que figura atualmente como o único bar especificamente voltado a esse segmento em Rio Branco.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

À princípio, Santos cogitava abrir um bar universitário, só que chegou à uma conclusão: iria limitar o conceito do negócio, já que seria voltado somente a esse público, e ele próprio já não é mais universitário há cinco anos. “Vi que tem um monte de gente mais velha que frequenta os bares e que não seria tão viável”. Então surgiu a ideia de um bar aberto à diversidade, acessível e seguro. “Aí pensamos nesse conceito, num bar voltado ao público LGBT, que estava carente aqui em Rio Branco, e que também acolheria os universitários, que é o nosso público maior”.

Ocorre que o empreendimento caiu no gosto de todos os grupos de clientes. É massiva a presença de amigos comemorando aniversário, casais, pais e filhos. “Não imaginei que o bar fosse atingir todos os públicos, mas o intuito foi esse. A gente focou nisso, mas mesmo assim achei que seria bem mais limitado do que é hoje, totalmente diverso”, diz o empresário, destacando que ao ver pessoas de todas as idades no local, escutando música, tomando uma cerveja tem a certeza de que o negócio deu certo.

Dificuldades

Assim como todo empreendedor, o advogado também encarou desafios tortuosos para conseguir tirar o projeto do Recanto do papel. Abrir o estabelecimento foi uma verdadeira saga para Gabriel, que nunca havia tido contato com o mundo empresarial antes. “Outro dia li uma frase que diz que empreender é resolver problemas. E de fato, é muito problema, desde burocráticos, até os mais simples. Na prática, a gente vê que a teoria é muito mais complexa, o empreendedor no Brasil sofre muito com intervenção do estado e das burocracias”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Tanta dificuldade, para Santos, acaba atrapalhando quem também deseja empreender e gerar riquezas ao estado e ao país. “O segundo desafio foi a gente se adaptar à realidade da pandemia da Covid-19. Tive a ideia do bar em setembro de 2020 e era para ser algo mais parecido um clube do que exatamente um bar, só que tivemos que adiar”. Ele reorganizou a empresa para tentar abrir em fevereiro de 2021, mas a pandemia ainda estava com força e resolveu abrir um delivery.

Pontapé inicial

O sistema de entrega de pizzas funcionou de maio até julho, quando o Recanto ficou com 30% do espaço voltado somente para pizzaria. “Em agosto deste ano o foco era apenas pizza, só que no final do mesmo mês a gente se sentiu confortável em abrir para o público, tendo em vista os altos índices de vacinação e a redução dos casos”. O Recanto Food e Beer foi o primeiro espaço a exigir carteira de vacinação para entrada de pessoas no estado. “E provavelmente vamos ser os primeiros a exigir as duas doses da vacina”, afirma o proprietário.

Outro desafio notado com a abertura oficial do bar ao público foi conseguir conscientizar os clientes para que possam se comportar obedecendo às regras sanitárias impostas pelo novo coronavírus. “Tudo é muito desafiador, principalmente para quem não tem muita experiência na área gastronômica, de bar. Sou advogado, nunca fui empresário”, comenta.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Antes do Recanto, a capital do Acre já possuiu outros bares semelhantes, com foco na diversidade de gêneros. Hoje, como bar voltado ao público LGBTQIA+, o Recanto é a única referência em atuação. Gabriel apresenta uma peculiaridade que é a de “mostrar a cara” na representação do bar.

“Isso é muito raro de acontecer, porque geralmente o dono não quer aparecer, fica mais nos bastidores. Todo mundo sabe que sou dono do Recanto e se sente à vontade para falar comigo. Os clientes me dão dicas, falam sobre o som, sobre a luz. E somos muito abertos a críticas, tanto positivas quanto negativas. A galera elogia muito, dizendo que é um ambiente novo, que a cidade estava precisando. Essa é a frase que eu mais ouço, acompanhada sobre como o ambiente é agradável. Aqui as pessoas esbarram umas nas outras já pedindo desculpas”, destaca.

Diferencial

Além do proprietário, os clientes e colaboradores se unem quanto ao orgulho de ter ajudado a “construir” o Recanto. Gabriel diz que o feedback que recebe do público que frequenta o local é abundantemente positivo. “Falam muito que aqui é um lugar em que as pessoas ficam à vontade e se sentem em casa. As pessoas dizem: isso aqui é uma extensão da minha casa”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

As atrações também são um diferencial do espaço, que busca agradar todos os gostos e faz jus ao termo diversidade. “Sempre falei que abrir um bar LGBT lotado é desafiador, porque na cabeça das pessoas, a sigla é uma só, mas não, é um grupo muito mais amplo. São gays, lésbicas, travestis, héteros, bissexuais, uma série de pessoas com gostos completamente diferentes. Então agradar o público inteiro era um desafio desde o início”, relata o dono.

O bar toca rock, forró, funk, pop, faz festa temática e apresenta samba, com público dividido em todas as noites. Para Gabriel, algumas pessoas ainda têm a ideia de que por se tratar de um bar LBGT, só vai tocar artistas como Lady Gaga e Pabllo Vittar. “Mas não é assim, o próprio público LGBT é eclético, gosta de tudo, então tento trazer aqui um pouco de tudo e aquilo que eu gosto. Tenho prazer em ouvir e presenciar”.

O movimento é intenso e faz com que o bar tenha uma equipe de trabalhadores que varia bastante de quarta-feira a domingo.Às quartas e quintas há menos clientes, mas a partir de sexta-feira aumenta consideravelmente a quantidade de pessoas. “Nossa equipe, em dia de pico, chega a 40 pessoas para atender todo mundo bem”. Alguns colaboradores chegam ao local antes da abertura, outros durante e ainda um grupo no pós-festa, como o pessoal da limpeza, sem contar os colaboradores indiretos para manutenção do espaço.

Um ou outro desavisado que não entende o conceito do bar já chegou a causar constrangimento no amiente. “Já houve um caso em que um homem perguntou sobre as bandeiras que ficam expostas e falamos que eram sobre orientações sexuais. Ele se levantou e foi embora com raiva. Mas no geral quem vem sabe o público que vai encontrar, e são todos muito tranquilos. Desde que abrimos ao público, nunca tivemos nenhuma ocorrência de briga”. .

Emprego a jovens e comunidade LGBT

Gabriel garante que o Recanto não vende cerveja, mas serviço e bem-estar. Para ele, o principal diferencial do bar é que a maioria dos colaboradores é feita de pessoas muito jovens, muitos deles tendo a primeira experiência com o trabalho remunerado. “Tem deles que estão aprendendo a carregar bandeja agora, trabalham para complementar a renda, para ajudar na universidade, então sempre falo que aqui é uma experiência para o futuro, um trabalho de passagem, e não para trabalhar para sempre”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

A maioria dos funcionários é inexperiente e se encontra no primeiro emprego. “Recebemos gente aqui que nunca trabalhou na vida e a gente abre as portas, ensina, mostra como se faz. O que sempre falamos para eles é que tem que ter disposição para trabalhar. Tem que ter hospitalidade, porque a nossa regra é ser hospitaleiro. Não saber a técnica do trabalho, a pessoa pode aprender, mas se não sabe ser educado, você não aprende com mais de 20 anos. O resto a gente consegue”, salienta o empresário.

O advogado tenta como empreendedor dar o máximo de autonomia para que seus colaboradores consigam produzir mais. “Se a pessoa se sente mais livre, consequentemente, na minha visão, você vai produzir muito mais do que se você tiver um padrão rígido, com a faca no pescoço toda hora. Aqui, a gente respeita a individualidade de cada um, que se veste do jeito que quiser, tem o cabelo do jeito que quiser. “Tem o avental para identificar quem está trabalhando, mas sobre vestimenta, comportamento, é livre, até porque se a gente quer virar um espaço que respeita a diversidade e individualidade, precisamos ser os primeiros a respeitar isso na nossa equipe. Se a nossa equipe não puder se expressar na maneira de se vestir, de falar, como vamos vender isso para os clientes?”, questiona.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Angel é uma transsexual de 20 anos e integra a equipe do Recanto. Como pessoa trans, ela entende que não há muita oportunidade de emprego na sociedade, mas desde que entrou no bar, foi muito bem recebida e respeitada. “Fui recebida de braços abertos e aqui me sinto segura. É uma oportunidade de um milhão. Eu não vou ter outra oportunidade dessa lá fora, aqui é tipo uma família, aqui acolhe todo mundo e recebemos todos os públicos”, conta.

Ela destaca o fato de poder se vestir do jeito que se porta na sociedade normalmente, sem restrições ou imposições. “Aqui sei que não vou ser discriminada pelo que eu sou. Alguns clientes me veem como um exemplo. Quando me veem na entrada, atendendo, ficam felizes por me ver aqui. É bem melhor do que eu estar fazendo prostituição, me vendendo”, afirma.

Os funcionários têm liberdade para trabalhar dançando, brincando, podem, inclusive, sentar à mesa e conversar com amigos. “A gente quer os nossos garçons, que a nossa equipe esteja integrada com os clientes. Tem cliente que diz que o garçom parece um amigo que está bebendo junto, que não deixa faltar bebida na mesa. É engraçada a percepção que o público tem da nossa equipe. Servindo, dançando, cantando, pulando. E todo mundo sabe o limite, é algo muito natural”, diz Gabriel.

Expectativas

O dono do Recanto afirma estar aprendendo ainda a empreender e que é muito difícil a tarefa, que sofre mutações diariamente. “Quando imaginei o Recanto, era algo totalmente diferente do que é hoje. Nosso plano de negócios inicial não tinha nada a ver com o que o bar é hoje. E ele foi se transformando até chegar a esse ponto, de se adaptar à realidade do momento e a demanda que o público tem sem perder nossa própria identidade”.

O empresário acredita que o local vai conseguir se adaptar no período pós-pandemia, na nova demanda de pessoas que vai começar a sair de casa. “Queremos atender o público jovem que vai atingir a maioridade agora, que nunca havia frequentado um pub antes. Vamos ter que estar abertos a toda essa gama de pessoas que vai buscar viver novamente e acho que a nossa tarefa está aí, oferecendo um serviço de excelência, sendo o mais hospitaleiro possível e o resto a gente vai conseguindo”.

O objetivo é tocar a música do momento, ter a decoração que está em alta, mas sempre mantendo os princípios bem claros, de que é um ambiente seguro, acolhedor e diverso. “Independente da época, de quem estiver tocando, ou do público que estiver frequentando, sempre vai ter gente no Recanto. Meu objetivo é criar um negócio a longo prazo, não de 2 ou 3 anos, queremos que as novas gerações possam vir, um público totalmente novo”. Segundo Santos, o que move a empresa é também ter a missão de fazer a primeira acolhida aos jovens que estão iniciando a vida social. “Daqui uns anos os pais estarão trazendo os filhos, todo mundo se confraternizando”, conclui.

Continuar lendo

Gente - Economia e Negócios

De mãe para filha: a continuidade do sucesso empresarial na família Melo em Cruzeiro do Sul

Empresas geridas por mãe e filha tiveram aumento em mais de 100% nas vendas mesmo com a pandemia e veem surgimento de nova clientela

Publicado

em

Não é exagero dizer que o comércio está no sangue de Núcia de Sales Melo, 50 anos, dona das lojas A Cruzeirense Magazine e Cabana Mix, localizadas em Cruzeiro do Sul. Neste mês de outubro, ela firma mais uma sociedade com a filha, Maria Eduarda de Melo Bardi, a Duda, para iniciar um novo empreendimento, com foco em móveis populares. Mãe e filha também almejam abrir outras lojas em mais cidades do Acre.

Formada em Pedagogia pela Universidade Federal do Acre (Ufac), Núcia optou pelo comércio na década de 1990, como sócia na empresa da família. Entretanto, desde 2018 ela mantém uma sociedade apenas com a filha. As empresárias vivem uma fase de grande ascensão empresarial, realidade de poucas mulheres na região do Vale do Juruá.

Dos sete empreendimentos que ela teve e tem com a família, todos apresentaram sucesso e geram emprego e renda para Cruzeiro do Sul. Na Cruzeirense Magazine, há móveis, eletroeletrônicos, itens de decoração, vestuário e calçados para toda a família, além de utensílios para cama, mesa e banho. A Cabana Mix vende roupas e calçados de marcas famosas, como Arezzo. O novo empreendimento, localizado no centro da cidade de Cruzeiro do Sul, terá móveis com preços mais populares.

A presença de Núcia nas empresas não se restringe ao escritório. Filha de comerciante e conhecedora do ambiente desde antes mesmo da adolescência, ela transita no espaço de 3.241 metros quadrados divididos em três andares, onde estão dispostos mais de 100 mil itens, com a desenvoltura dos que dominam o negócio e se adaptam aos novos tempos.

No comércio, atende e prospecta demandas de clientes. Vê entrar ao local compradores que conhece desde a década de 1990, quando iniciou, mas também comemora a conquista diária de novos clientes. Tem ainda os que nem pisam na loja, mas compram tudo de forma online, o que durante a pandemia de covid-19 foi o diferencial, potencializando os negócios. A coragem e o espírito empreendedor fez a diferença: A Cruzeirense Magazine se firmou alcançando um crescimento superior a 100 % de faturamento e aumento da clientela. Tudo porque apostou e investiu em marketing digital e vendas online, o que já era feito de forma mais tímida antes da pandemia.

Sua filha, Duda, advogada com formação MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), soma com a mãe na coragem e no espírito empreendedor. Em meio à pandemia e pagando dívidas, elas resolveram transformar as lojas de roupas e de móveis, que até então dividiam um único espaço, o que demandou recursos e reforma nas instalações físicas. A integração do espaço resultou em otimização, economia e satisfação da clientela, que gostou da modernidade e ampliação do local.

Transformação

O primeiro passo foi transformar a loja em um magazine. “O nosso objetivo era deixar a loja mais prática. Por que o cliente tinha que sair de uma loja, pagar as contas lá, sair, entrar por outra porta, fazer outras compras, pagar de novo no mesmo crediário, se podia comprar nas duas, fazer uma parcela só e fechar uma compra só? Então mudamos e economizamos caixas, pacotes. Porque antes era um caixa lá, outro caixa aqui, um pacote lá e outro aqui. Principalmente a gente ficou com uma ideia de unidade dentro da empresa, até pros nossos colaboradores”, relata Núcia.

Duda afirma que tudo valeu a pena, mas que foi necessário ter coragem para assumir os compromissos bancários que oportunizaram a obra de reforma e as mudanças. “A gente falou assim: é agora ou nunca. Vamos aproveitar que a loja está fechada, por causa da pandemia, e vamos fazer as coisas que precisam ser feitas. Quebramos as paredes. Primeiro trocamos todo o piso de um andar e subimos o infantil pra lá, descemos o masculino. O início da pandemia pra gente foi de obras. Tínhamos acabado de reformar a Cabana, a gente estava pagando as contas da reforma de lá, e tivemos que fechar a loja. Foi na cara e na coragem. Como todo empresário, principalmente no nosso ramo, recorremos ao banco, a gente sempre recorre ao banco. Trocamos a fachada da loja com o financiamento também, do Banco da Amazônia, mas a gente foi fazendo o que precisava. E a clientela gostou dessa interação assim. É uma loja única, é um magazine, onde se encontra tudo. As vendas aumentaram depois disso, entendeu? E os clientes ficam satisfeitos”.

A praticidade de Duda descende da mãe e da avó, porque, assim foi criada. Núcia levava as duas filhas para a loja desde quando elas eram pequenas. Queria que elas conhecessem a mesma realidade que a mãe, Agamedina, havia ensinado a ela. Hoje Duda agradece pela responsabilidade que recebeu da mãe. “Lembro uma vez que cheguei em casa umas seis horas da manhã de uma festa e minha mãe só acordou, me deu um chá e falou: ‘Pode tomar um gole e abrir a loja’. Outra vez eu e a Fernanda, a gente estava dormindo, e ela pediu para a secretária lá de casa colocar o telefone no meu ouvido. Aí ela falou assim: ‘Você não tem vergonha, não, de tá dormindo enquanto seus pais estão trabalhando?”.

Fernanda fez Medicina e Duda, Direito. Núcia relembra que no começo não queria Duda nas empresas, preferia que ela seguisse o Direito em uma carreira jurídica, mas o destino agiu de outra forma. “Agradeço muito a meu pai por minha filha ser minha sócia hoje, porque foi ele que trouxe ela pra dentro da empresa e que segurou a barra dela. Sempre pensei em um concurso público, que ela tivesse estabilidade, que seria uma juíza. Hoje eu entendo que estabilidade não é um concurso público, não é de jeito nenhum”.

A sua firme vontade e o apoio de seu Epitácio Melo, seu avô, fizeram Duda permanecer no mundo dos negócios. “Eu queria fazer Administração e fiz Direito. Aí minha mãe ligou e falou que me pagaria um salário por mês para ficar em Fortaleza estudando pra passar em um concurso, ter uma vida mais tranquila, família, ter férias, décimo terceiro. Eu falei que não queria e que voltaria para Cruzeiro para trabalhar. Aí eu voltei…Era comerciante mesmo que eu falava. E meu avô me incentivava muito. Lembro que minha primeira venda foi com 12 anos e meu avô pagou a minha comissão. Ele pagou, ele fazia questão”.

Aumento de 100% nas vendas com a pandemia e negócios digitais

Em meio à pandemia, em 2020, a A Cruzeirense Magazine aumentou em mais de 100% as vendas e manteve os funcionários. De quarentena em casa, a clientela demandou itens da linha branca (geladeira e outros eletrodomésticos), móveis, além de itens de home office. Para a compra, buscava comércios com vendas online, o que a empresa tinha para oferecer. “As pessoas ficaram mais em casa por causa da pandemia e trocaram os móveis. Passaram a cozinhar mais e quiseram fogões e geladeiras novos. As roupas e calçados não tinham saída, mas o crescimento foi de cerca de 120% nas vendas de móveis e eletrodomésticos. As pessoas queriam deixar a casa mais confortável. Home office também. Para melhorar, as pessoas compraram cadeiras de escritório, mesinhas. Chegou a faltar os produtos da linha branca. Neste período, o marketing digital, as redes sociais e as vendas online mais que dobraram nossas vendas. Esse é um caminho que não tem mais volta, o do uso da tecnologia para impulsionar as vendas. Tem esse nicho dos jovens, que acompanham tudo pelas redes sociais. E aí vai morar só, ele é jovem, ele é ligado, ligado na moda atual, na decoração com um design atual. É um novo público, que resolve tudo pelas redes sociais e estamos prontos para atender com excelência”, conta Núcia.

O uso da tecnologia para divulgar e vender seus produtos durante a pandemia foi o diferencial da A Cruzeirense Magazine. Foi graças à Duda, sempre antenada nas redes sociais e com o conhecimento técnico adquirido com o MBA, que a empresa deu um salto no período considerado mais crítico para o comércio. Do enxoval do bebê à máquina de lavar roupas, tudo é mostrado nas redes sociais da empresa e o cliente faz a compra e recebe tudo sem sair de casa, mesmo que more na mesma rua da loja ou na capital, Rio Branco. Essa possibilidade já existia antes da pandemia, por meio do site, mas foi aprimorado e ampliado. Os vendedores foram treinados para vender usando as redes sociais.

“Eu sempre usei muito o Instagram e investi em propaganda na internet, na divulgação das lojas desde quando ainda estávamos com meu avô, mas eu era muito questionada por isso. Já aqui na nossa loja, os funcionários não acreditavam naquilo que eu falava. Antes da pandemia falava que tinha que tirar foto, mandar pros clientes. A gente já tinha uma pessoa que cuidava do nosso Instagram. Quando a loja ficou fechada por causa da pandemia, eles começaram a acreditar e aí começaram. Ainda bem que já estávamos preparadas no ramo de marketing digital. Quando começou a dar certo todo mundo acreditou. Quando eu morava lá em Fortaleza já fazia o Instagram aqui da loja, da Cabana, eu sempre fui muito antenada assim com a internet. Pensava que estava acontecendo aqui (em Fortaleza) que é cidade grande, lá é pequeno, também dá certo. O MBA na FGV serviu muito também, mas eu fui pra muitos congressos. Passei uns dois anos e todo mundo perguntava pra quê, que não agregava em nada e a realidade atual e o feedback dos clientes, mostrou que a gente estava no caminho certo”.

Todas as etapas da venda no Magazine podem ser feitas por meio das mídias sociais. “O WhatsApp e o Instagram da loja já são direcionados para área de vendas. Você quer vendedor de roupa ou você quer vendedor de móveis, e aí já vai mandando as fotos e já faz a venda direta”, explica Eduarda. A venda de roupas e calçados, que no período crítico da pandemia teve grande queda, já voltou ao normal e com crescimento nas duas lojas.

As empresas têm atualmente 60 funcionários e as contratações estão abertas. A busca é por um perfil diferenciado de vendedor. “Não tem mais volta. É daqui pra frente e o funcionário já vai ter que vir com essa habilidade. A pessoa que tem vergonha de postar, de tá aí buscando a mídia, não vai ter lugar, eu acho, em loja, em atendimento”. Outra lição da pandemia é a necessidade da organização financeira, com capital extra, para evitar os altos juros bancários. “A gente não estava preparado, então tivemos que apelar para o banco neste período de crise com alta de juros. Mas também não devemos entrar em pânico, porque depois tudo dá certo”, lembra Núcia.

Vendas para Rio Branco

Na contramão da compra da capital para o interior, a Cruzeirense vende itens para clientes de Rio Branco. Além da linha branca, o que mais vende é guarda-roupas, em uma viagem de mais de 600 quilômetros. O que acontecia de maneira tímida se intensificou na pandemia e, dependendo do valor da compra, o frete grátis.

“Nós já mobiliamos apartamentos e casas inteiras. Antes eram pessoas que eram clientes nossos, foram embora para Rio Branco ou alguma família que conhecia a loja. Com o avanço do marketing digital, a clientela de Rio Branco, que não conhecia a empresa de Cruzeiro do Sul, passou a pedir os produtos da loja. Queremos expandir cada vez mais essa venda para a capital. A pessoa faz a compra, paga por Pix e recebe lá. A gente tem link de cartão também. A pessoa mesmo entra no link, faz sua forma de pagamento, em dez vezes no cartão, igual a uma venda por site”, explica Núcia.

O começo de tudo, com o patriarca, Epitácio Tomé de Melo

O começo da vida empresarial de Núcia e da filha Duda foi com o patriarca da família, Epitácio Tomé filho, com quem Núcia diz ter aprendido tudo o que sabe. Juntos e com o irmão, Epitácio Junior, montaram negócios de sucesso, como A Cruzeirense, a Quilo a Quilo e a Cabana Mix. Cresceram, diversificaram em itens, buscaram públicos diferenciados, do mais popular ao mais sofisticado, mas sempre mantiveram a qualidade e a inovação nos produtos ofertados. Além da A Cruzeirense do Mercado, mais popular, outra foi aberta na rua Pedro Teles, com estrutura mais moderna.

Antes de Núcia nascer, o pai, Epitácio, já era comerciante junto de seu irmão, João Melo, nas décadas de 60 e 70, em Cruzeiro do Sul. Vendiam secos e molhados e depois abriram a Casa Melo e a Super Móveis Melo. A mãe, Agamedina, incentivava Núcia e os irmãos para o trabalho e para que fossem junto com o pai. Ela foi tendo cada dia mais intimidade com o comércio. Na década de 90, com o pai já atuando sozinho, surgiu a loja A Cruzeirense e Núcia assumiu novas funções, como o gerenciamento da empresa.

“Minha mãe, Agamedina Sales Melo, era professora, estudava. Então ela foi pra esse lado da educação. A gente foi crescendo e meu pai e meu tio sempre trabalharam com muita dificuldade financeira, tudo sempre foi muito apertadinho e isso foi sendo repassado pra gente. Eu lembro até as vezes em que a minha mãe dizia: “Não pode gastar muito! Não pode gastar muito porque essa casa não é nossa, é do banco, tudo é do banco (risadas)”. Nós somos quatro filhos, eu sou a mais velha. Depois vem a Núbia, a Núria e o Epitacinho. O tempo foi passando e a gente sempre teve fartura, nunca faltou nada na nossa vida graças a Deus, mas meus pais passaram pros filhos sobre as dificuldades, a realidade mesmo. E meu pai sempre foi muito vendedor. Lembro que quando começou a venda de televisão, em Cruzeiro do Sul, ele foi um dos primeiros que vendeu aqui com meu tio. Era da marca Telefunken. A gente assistia televisão, aí vinha alguém e comprava a televisão que a gente estava assistindo (risadas) e ia embora. Ele vendia mesmo a TV”.

Eduarda diz que esse “espírito terrorista das dificuldades e do mundo real”, que Núcia recebeu da mãe dela, Agamedina, também passou para os próprios filhos em casa. “Essas coisas das dificuldades, ela repassou pra gente também, pros filhos também e a gente trabalhava todo sábado na loja. Eu e minha irmã fomos estudar fora, mas nas férias vínhamos e trabalhávamos. Era sempre esse ‘terrorismo’ em casa também e assim como meu avô Epitácio vendia as TVs que os filhos estavam assistindo, eu já tirei Havaianas do pé no meio da loja pra vender também pra cliente que gostou e queria. É de família. Desde pequena queria vender e não era pelo dinheiro, eu queria vender mesmo. Levava canetinhas e camisetas para vender na escola”, lembra.

Já na década de 90, Núcia morava em Rio Branco quando os pais a chamaram para atuar na A Cruzeirense. A lembrança da infância e da adolescência nas lojas do pai e do tio ainda era presente nela e Núcia voltou à terra natal e assumiu o gerenciamento da loja. “Meus pais me chamaram com a ideia dessa loja. Minha mãe deu esse nome: A Cruzeirense, ali no Mercado. Minha mãe tinha passado no concurso da Receita estadual e não queria, nem poderia, ficar dentro do comércio. Eles me chamaram pra voltar de dois filhos que seria meu pai, meu irmão e eu. Então A Cruzeirense começou disso. O nome da empresa é Epitácio Melo e Filhos. A gente vendia muita coisa porque viajava, ia vendo outras coisas e o meu pai também é muito inovador. Eu administrava, fazia compras, cuidava do financeiro, ajudava nas vendas. Eu gerenciava a loja toda. Meu irmão era jovem e teve até que ser emancipado na época para se tornar sócio. Ele gostava muito dessa coisa de fazenda, então era muito envolvido com isso. Das minhas irmãs, a Núbia é advogada e a Núria, dentista. Então eu e meu irmão seguimos nessa sociedade. Em 2007, abrimos a loja da rua Pedro Teles, que depois virou duas até agora em 2018, que é A Cruzeirense. A gente vendia só móveis e eletros, porque lá no Mercado não havia espaço para os móveis e o estacionamento era ruim. Em seguida, fizemos o outro prédio para confecções”, pontua Núcia.

Nesse meio tempo, Duda, que havia se formado em Direito na Unifor, em Fortaleza, voltou para Cruzeiro do Sul, virou sócia da empresa e passou a gerir a loja Cabana Mix, especializada em multimarcas. Entre 2018 e 2019, Núcia, o pai e o irmão fizeram uma cisão na sociedade e Duda se tornou sócia da mãe.

“Com a Duda na sociedade nós já éramos quatro. Chegou ao ponto em que estava na hora da divisão, de um próximo passo. A gente deu esse passo, e hoje eu e a Duda temos nossa empresa, a Melo & Melo”, diz. Para a .empresária este foi um processo natural, o de perceber que estava na hora

“E quem percebeu que estava na hora foi meu avô, Epitácio. Pra ver como ele está à frente do tempo dele. Percebeu que estava na hora e tomou a iniciativa para a cisão. Esses dias, meu avô falou que a gente precisa de um depósito maior, ou seja, ele sabe que vendemos muito, nos acompanha e torce por nós”.

Sucesso de mãe para filha

Núcia tem quatro filhos: Fernanda, Eduarda, Ana e João. Com Duda a relação perpassou as bases familiares, o que nem sempre foi fácil. Como aprendeu com a mãe, Núcia pôs as filhas para trabalhar na loja para que entendessem a importância do trabalho e da empresa, mas queria a estabilidade funcional delas por meio de concursos. Quando Duda passou a demonstrar total interesse em seguir a vida empresarial, tentou fazê-la desistir, mas não houve jeito e há seis anos a jovem passou a ser sócia na empresa da família e, em seguida, só da mãe.

As relações nem sempre são harmônicas, mas uma complementa a outra. Núcia dá os meios, as asas e a coragem, e Duda executa. “Eu sempre falo pra todo mundo, já falei até pra minha mãe que eu não sou empreendedora, ela que é e tem a coragem de fazer as coisas. Eu tenho mais medo, mas eu gosto de executar. Minha mãe é mais ‘vamos, vamos fazer que vai dar tudo certo’ e eu vou lá e executo. Ela é corajosa e faz a gente acreditar que as coisas darão certo. Por exemplo, na pandemia, imagina reformar uma loja, reformar uma fachada, pegar dinheiro em banco com tudo fechado? Mas com a coragem que vem dela, faz realmente dar tudo certo”.

Para ter certeza que tudo realmente daria certo, Núcia exigiu que Duda, assim que terminou a faculdade, fizesse o exame da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, para poder atuar na área de formação, em caso de necessidade. “O que ninguém tira de você é o estudo. Eu falei ‘se algo der errado’, se Deus quiser não vai dar, aí você pega um papel, uma folhinha branca, um sulfite e escreve Dra. Maria Eduarda, OAB número tal”.

Quando Duda entrou para o negócio, o objetivo inicial era que ela tomasse conta da loja Cabana Mix, que vende roupas multimarcas, diferenciadas, com valor agregado. Ela ficou poucos meses só lá e ia para A Cruzeirense quando a mãe viajava. Núcia passou a viajar mais para visitar feiras. Até que Duda exigiu uma mesa e um computador para ela no local.

“É uma grande parceria, mas a gente teve dificuldades de adaptação no começo porque eu estava fora há oito anos e voltei para a casa da minha mãe e fomos trabalhar juntas. A gente é muito parecida e se eu tivesse a OAB nessa época, eu não estaria mais aqui, porque a gente tinha muito arranca-rabos e nosso relacionamento era estremecido. Nessa época quem me protegia era meu avô, que fazia questão que eu continuasse trabalhando. Minha mãe me chamou com um salário baixo, baixo, baixo, que eu acho que era pra ver se eu desistia, e aí eu tive que vender meu carro e comprar outro. Eu ainda tinha que pagar a parcela do meu carro e o que eu ganhava só dava pra isso, na verdade (risadas). Mas eu coloquei na minha cabeça que era só um período e que ia passar. É tanto que eu não queria fazer a prova da OAB, porque eu sabia que eu fizesse e tivesse outra coisa pra fazer, eu ia desistir. Só fiz a prova da OAB quando eu senti que eu já estava mais segura no trabalho, já sabia qual era o meu papel aqui. E o que minha avó passou para minha mãe, de não sermos ricos, ela passou para mim e durante o tempo em que eu morei fora, a gente andava de ônibus, calculava quanto é que a gente ia precisar por mês, até o lanche da escola, e ela mandava exatamente aquilo, porque ela dizia que adolescente não tinha que ter dinheiro sobrando. Depois, já na faculdade, veio o carro”.

Aos 50 anos, Núcia ainda não pensa em parar, mas tem a certeza de que Duda estará preparada para ficar à frente de tudo. “Mesmo que seja uma empresa familiar, não pode eternizar. Tem a hora que você para de produzir. Eu quero chegar nesse momento, eu quero me aposentar, eu quero isso pra mim mesmo que eu faça outra coisa. Mas eu quero. Eu não quero ficar pra sempre dentro da loja”.

Casada, Duda, está grávida de 4 meses de uma menina. O objetivo é seguir trabalhando ao lado da mãe e, quem sabe, já preparar a filha, para ser a nova geração de mulheres na A Cruzeirense. “Ela vai crescer aprendendo a trabalhar. Pode fazer outra coisa da vida dela, não tem problema, mas ela vai ter que aprender a ter responsabilidade né, mãe? Igual a gente aprendeu”.

Qualidade que atinge terceira geração de clientes

Ao longo de décadas, A Cruzeirense tem sido referência de qualidade em Cruzeiro do Sul. Diversidade, qualidade dos produtos e atendimento personalizado sempre foram o diferencial do negócio da família. Núcia e Duda seguem em busca constante da excelência e já vendem itens para a terceira geração de cruzeirenses. Apostam no aprendizado constante e em dar brilho na prata da casa, qualificando os colaboradores, crescendo e se desenvolvendo com o município.

“Nosso intuito é sempre prezar pela qualidade com a diversidade de produtos. Comprar na A Cruzeirense já é tradição, uma coisa passada de mãe para filho, né? Desde sempre eles vão na loja. E nós estamos sempre aqui, somos a cara da loja e garantimos atendimento personalizado. Pergunto sempre pros clientes o motivo de comprarem aqui e eles se referem à qualidade. Quando a pessoa pensa ‘eu quero uma roupa boa pro meu filho, eu vou na Cruzeirense. Eu quero um roupeiro bom, eu vou na Cruzeirense Magazine’. É tanto que a gente já tentou trazer pra cá produtos com menos qualidade, mas com preço mais baixo, mas não saem”, acrescenta Duda.

Muitos clientes mobíliam e decoram toda a casa com produtos da loja. Há também os que compram os móveis antes mesmo de terem o imóvel. “Eu tenho um cliente que vai construir e já comprou muita coisa. Tem uma pessoa que havia comprado uma geladeira tinha dois anos, esperando terminar pra gente entregar. E é legal também quando falam assim: ‘Na minha casa quero os móveis da Cruzeirense, porque eu quero só coisa boa’, sabe? A Cruzeirense virou sinônimo de qualidade. A gente pensa todo dia em melhorar, crescer pelos clientes, porque Cruzeiro do Sul merece. Até os clientes novos, que Cruzeiro do Sul tá com muitas pessoas novas, e eles entram e falam que não imaginavam que Cruzeiro do Sul tinha uma loja assim igual a Cruzeirense Magazine, que iam encontrar de tudo, tipo de departamento, que nunca imaginaram que podiam comprar roupa pros filhos tão boas, nunca que poderiam ir na Cabana Mix e encontrar Arezzo. A gente gosta de usar e a gente confia, a gente gosta também de oferecer. A gente usa os nossos produtos diariamente. A gente usa, a gente consome o que a gente vende”.

A confiança da clientela garante fidelidade que perpassa as gerações. Núcia relembra de pessoas para as quais vende desde a década de 90 ainda no Mercado, e que agora vende para os netos. Alguns desses antigos clientes são do tempo da fichinha verde de crediário da loja. “Lembro da Lucila Brunetta vindo comprar roupa para as meninas dela pequenininhas, uma delas, a Sofia. E agora, a Sofia estava aqui esses dias já comprando pra filha dela. São três gerações de mulheres usando nossos produtos. Eu já atendia essas meninas, com sandalinhas daquela época da Grendene que vinha com brinquedinho e tem vários outros casos. Eu fico muito feliz”.

A excelência da empresa passa pela atualização constante de ideias, estoques e aprendizados. Núcia e Duda se mantêm de olho em tudo o que surge no mercado, participam de feiras e eventos do setor e investem também na qualificação dos 60 colaboradores. Até em viagens de férias, as duas não param de aprender sobre como melhorar cada vez mais. O número de clientes aumentou depois da pandemia com a divulgação, com a internet, com os meios de comunicação e com os investimentos no marketing. Viajar, se atualizar, é fundamental para elas também porque, cada viagem, é um aprendizado. Em viagens de férias, aproveitam a oportunidade para aprender a melhorar a empresa. Ao entrar em lojas da área em que atuam, observam tudo: o que está vendendo, o que é tendência, o que está no auge. Uma ida ao shopping é uma pesquisa.

“Eu acho que a vida do empresário, do comerciante é assim. Você está viajando, mas não para de trabalhar nunca. Você vai pra uma viagem, sei lá, de saúde, mas a oportunidade que você tem de analisar alguma coisa e vê dali o que você pode aplicar não pode ser perdida Isso é contínuo e você trabalha no celular 24 horas. Quando a gente vai numa feira tem o networking. A gente aprende com os outros empresários. Há uma troca. Eles perguntam pra gente, a gente pergunta. Há trocas de experiência, de produtos, de marcas, do que vende, não vende. E isso é muito interessante. Então a gente tenta ser sempre muito bem atualizado”.

Fazer a prata da casa brilhar também é garantir retorno positivo da clientela. Elas optaram por ter pouca rotatividade entre os colaboradores e têm funcionários como a Ergleide, no grupo desde os anos 90. “A pessoa vem aqui e procura a vendedora que sabe até a cor da roupa que ela mais gosta e eu acho que esse é o ponto positivo de não ter muita rotatividade de funcionário. A gente investe em cursos e aperfeiçoamento. Daqui, só sai quem quer”, explana Duda.

Como o número de funcionários é grande, as empresárias optam por fechar pacotes de capacitação dentro da empresa mesmo. “A gente traz consultores de Rio Branco, já trouxemos de outros lugares, pra dar cursos aqui. A gente passava o final de semana em cursos às vezes, de aperfeiçoamento de vendas, atendimento ao cliente. E, sempre pro final do ano, a gente faz um encontrão assim de incentivo, de inteligência emocional, essas coisas. O último curso foi de mídias sociais para eles entenderem o Instagram, Facebook. Não tem mais volta”.

Responsabilidade social com Cruzeiro do Sul

Os sete empreendimentos de que Núcia fez parte geraram e geram emprego e renda no município, seguem crescendo e se desenvolvendo junto com Cruzeiro do Sul. Casada com o presidente da Associação Comercial do Vale do Juruá, Luís Cunha, Núcia é presidente do Centro Educativo Adilis Nogueira Maciel – Ceanom, centro de cultura ligado à Associação, que promove ações de cidadania e cursos de música. A mãe de Núcia, Agamedina, realiza o mesmo trabalho na instituição desde a década de 90.

“Me sinto, hoje com muita responsabilidade social em relação ao município. Nós geramos empregos aqui, contribuímos com o município. Além disso, tem as questões sociais que nos envolvemos como no Ceanom, que busca preparar as pessoas para o mercado de trabalho. É uma instituição que dá o peixe, mas também dá a vara de pescar. Também em pequenas ações do dia a dia, podemos fazer a diferença. Aqui na loja, por exemplo, separamos o lixo, o que os colaboradores já adotam também, e assim as ações se multiplicam”.

Nova Loja

O sucesso na continuidade dos negócios será mais uma vez comprovado com a expansão dos empreendimentos. Neste mês de outubro, mãe e filha vão abrir uma nova loja de móveis no Centro de Cruzeiro do Sul, próximo à Praça dos Taxistas. Será um espaço menor com produtos mais populares para atender a clientela que circula pela região central.

“Será uma loja menor onde o cliente comprará mais rápido, sem precisar subir escada e com produtos mais baratos. O público que vem dos ramais, vem de barco e gosta de ficar no Centro é o que queremos alcançar. Empreender é isso, é você sempre está sonhando com os próximos passos. Mesmo que esses passos demorem muito, você está sempre sendo movido por alguma coisa. A gente sonhou muito com a abertura das duas lojas juntas e realizou. Agora abriremos essa nova de móveis”.

O desejo de crescer e fazer parte do desenvolvimento da cidade, segue nas gerações. Núcia se diz emocionada que a semente plantada por seu Epitácio e dona Agamedina, agora com ela e Duda, vira árvore frondosa no caminho de sucesso iniciado por ele. A empresária lembra que o nome A Cruzeirense foi ideia de Agamedina, “a general”.

“Meu pai é um homem de coragem e inovador. Minha mãe sempre foi nossa general, a pessoa que também tinha uma visão, e a gente conseguia realizar. Então ela sempre foi nosso suporte e nosso pilar emocional, eu acho. Quando houve necessidade, já chegou a tirar licença para ficar na empresa. Agora é aposentada do Estado, não gosta de ficar em comércio, mas gosta de tá metendo o bedelho. Ela é a que manda, e sei que eles ficam felizes com nosso sucesso, porque a semente que plantaram, virou árvore frondosa, que seguirá dando bons frutos”, conclui Núcia.

Continuar lendo

Gente - Economia e Negócios

Made In Acre: camiseta para viagem deu vida à marca que chegou a artistas internacionais

Publicado

em

Um empreendimento que além de levar o nome do Acre ainda proporciona uma verdadeira viagem pela cultura acreana. Na loja, o cliente pode deitar numa rede, comprar e comer castanhas e até beber água direto do filtro de barro com um nostálgico copo de alumínio. Assim é a Made In Acre, que em menos de dois anos consolidou seu espaço no mercado atingindo artistas de renome internacional.

A loja iniciou sua atividade em dezembro de 2019, vendendo apenas camisetas com a frase que deu nome à empresa. Hoje já disponibiliza 16 tipos de produtos. A visão empreendedora veio da publicitária Rayssa Alves e da empresária Juliana Pejon. Rayssa é uma acreana de 30 anos e Juliana veio de São Paulo há mais de 20 anos, se diz acreana de coração junto de sua família, que tem tradição no ramo empresarial do estado.

A Made In Acre conseguiu unir a modernidade com o rústico num ambiente milimetricamente pensado para ser o que é hoje, muito mais que uma simples loja de vestuário. Além de vender camisetas, chinelos, bonés, ela busca resgatar a história do único estado que, literalmente, lutou para ser brasileiro.

Tudo começou numa viagem de carnaval ocorrida há dois anos, quando um grupo de oito amigas, entre elas Rayssa e Juliana, decidiu curtir a festa em Recife (PE). A dupla teve a ideia de fazer uma camiseta para identificar o grupo no aeroporto e durante todo o carnaval. “Na camisa estava escrito ‘Made in Acre’, só que não do jeito que é hoje, e sim com outro layout. Era o bloquinho das amigas do Acre”, contam.

Elas nem imaginavam que essa simples atitude faria tanto sucesso, a ponto de se tornar uma fonte de renda. “Todo mundo gostou, tanto as pessoas de lá [Recife] quanto os moradores daqui [Acre]. Isso porque nosso estado ainda é um evento lá fora, um assunto. As pessoas, quando nos viam, falavam: vocês são do Acre? O Acre existe? A gente postou foto com a camiseta e começaram a perguntar onde tínhamos feito”.

Transformando o acaso em negócio

Era madrugada quando Rayssa e Juliana estavam saindo de uma das festas de carnaval, sentadas numa calçada a espera do Uber, no momento em que perceberam estar diante da possibilidade de transformar o acaso em um negócio. “A gente estava conversando sobre isso, sobre as camisetas, quando eu disse: amiga, não acha que ao invés de a gente falar como que a gente fez [a camiseta], a gente fazer e vender isso?”, questionou Rayssa.

Juliana prontamente respondeu: “caramba amiga, que legal. É isso”. Ela já tinha todo o conhecimento sobre loja, sobre como lidar com empresa, uma vez que já atuava com roupas e sua família também já possuiu indústria têxtil fora do Acre. “Pensamos o seguinte: Juliana entrava com essa parte da administração e eu, que sou formada em publicidade, conheço de marketing, entrava com a criatividade, a parte de criação, design e tudo mais”.

A ideia ornou perfeitamente, mas até então mirava somente a comercialização de camisetas. No entanto, as amigas começaram a perceber que a Made In Acre não seria algo pequeno. “A marca se transformou. Hoje a gente fala que a Made In Acre é um sentimento dos acreanos, onde a gente consegue materializar nos produtos algo mais profundo. Começamos a ver como os acreanos estavam carentes de algo que representasse a gente do Acre, o valor, que resgatasse a nossa história, que tivesse essa vida”.

Do surgimento da ideia (fevereiro de 2019) até a concretização do projeto (dezembro de 2019), passaram-se 10 meses. Entretanto, veio a pandemia do novo coronavírus, que impactou o percurso natural da empresa. “Isso foi uma preocupação para nós, assim como para todos os empresários, mas especialmente porque estávamos começando”. Contudo, as empreendedoras observaram que, como as pessoas estavam ficando mais em casa, ou não podiam vir ao estado por causa da Covid-19, a loja poderia se tornar uma referência para presentear.

“Tinha gente que morava fora, mas que estava aqui, assim como tinham pessoas daqui que estavam fora e com isso começamos a receber muitos pedidos para enviar nossas camisetas para fora do estado. A gente cresceu muito nesse período, aliado aos nossos conteúdos que passamos a publicar nas redes sociais da marca. Isso fez as pessoas se aproximarem mais, que elas interagissem, principalmente com a série ‘Minutos da Nossa História’, que era postada no Instagram”.

Na pandemia, as proprietárias colocaram para funcionar as entregas por meio do delivery. O sistema agradou tanto a clientela que permanece até hoje. “Pegou muito bem e continuamos com ele porque deu certo. As pessoas ainda falam para a gente que a loja vem resgatando o amor pelo estado, pela curiosidade sobre a história do Acre e muito mais e as entregas facilitam isso”.

Junção do moderno com o tradicional

Rayssa e Juliana fazem questão de mostrar que a Made In Acre não é só para venda de produtos de cunho regional, mas que se diferencia daquilo que é comercializado em outros estabelecimentos, como os do Mercado Velho, por exemplo. “A gente une a modernidade com a nossa história e o nosso intuito era mostrar para as pessoas que isso era possível”.

Para elas, o público só pensava no Acre lembrando elementos regionais, com características da Amazônia, mas que o estado não é só isso. “Outro pensamento era de que nossos produtos não teriam tanta qualidade quanto os de fora. E começamos a bater nesse ponto, de que podemos ter, sim, coisas de valor. Infelizmente não conseguimos com que nossa produção seja 100% acreana ainda por falta de estrutura local, falta de fábricas, mas o que a gente consegue fazer aqui, a gente faz”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Entre os 16 produtos vendidos com a marca Made In Acre, estão: camisetas, bonés, chinelo, garrafas, pochetes, mochilas, máscaras, lenço para pet, body infantil e o diferencial, os acessórios indígenas, que podem compor o look ou a decoração de casa. “Dessa forma as pessoas veem que esses objetos podem ser modernos, que podem ser usados no dia a dia. Eu e Juliana usamos diariamente para as pessoas verem também como são peças versáteis”.

O espaço físico da loja valoriza aquilo que representa o estado, os costumes e as peculiaridades do acreano. “As pessoas percebem isso e falam que é a nossa cara. Conseguimos colocar o conceito na loja. A gente também disponibiliza livros para os clientes lerem aqui, livros que são doados, falando sobre a história do Acre. Eles podem simplesmente sentar na rede e ler. Apesar de termos herdado a rede do povo nordestino, faz parte da nossa história”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Rota do turismo e referência

Antes de se voltar especificamente para as vendas, Rayssa e Juliana se preocupam com a experiência vivida pelos turistas e clientes acreanos dentro da Made In Acre. “Quando chegam aqui a gente conversa, pergunta de onde é, se conhece tal coisa, a gente sempre leva informação, conteúdo para a pessoa saber que nossa intenção não é só ela vir aqui e comprar. A gente não faz isso, a gente não quer que a pessoa tenha essa sensação de entrar, comprar e ir embora. A quer troca, conversa”.

Se o cliente não morar no Acre, ele recebe instruções, dicas, orientações de onde ir e o que fazer pelo estado no período de sua estadia. “Em meio tudo isso, a gente vai fazendo nosso trabalho. Estamos começando a receber muitos turistas. A gente percebe o quanto o Acre está aberto e como está aumentando a vinda de pessoas de fora, que chegam só para conhecer o estado, para ir ao Crôa, na Serra do Divisor, nas aldeias, o ecoturismo está muito valorizado”.

Foto: Sérgio Vale/ac24horas.com

As donas da marca ainda pretendem expandir o negócio e tornar a loja algo muito maior do que se encontra atualmente. Sem entrar em detalhes, as proprietárias têm planos de construir filiais em outras cidades, já que a necessidade de aumentar o espaço já é sentida. “Temos sonhos grandes para daqui dois anos, aproximadamente”.

O encontro com o astro Alok

O envolvimento, mesmo que indireto, entre o Dj Alok, internacionalmente conhecido, e as camisetas da Made In Acre deu ainda mais força ao processo de divulgação que a marca já vinha trabalhando. O produtor musical brasileiro está fazendo um projeto com os indígenas do Brasil e vem tendo contato com alguns indígenas, um deles Mapu Huni Kuin, do Acre. “Ele também é um amigo nosso [Rayssa e Juliana]. Mapu falou que foi convidado para fazer essa gravação e a gente falou para ele levar um presente. Mandamos camisetas para a família toda em junho desse ano”.

A dupla credita que teve sorte porque Mapu criou uma amizade sincera com Alok. “Eles tiveram uma conexão muito grande durante a gravação, então quando o Mapu entregou o presente para ele, que eram as camisas, tinha muito mais sentido. Não era uma marca, não foi a Made In Acre que mandou para o Alok, foi o Mapu, um amigo que entregou o presente, ou seja, mais significado, mais sentimento”.

Elas agradecem por terem tido a oportunidade de fazer parte desse momento. “Tudo fez muito sentido, as camisas, com tudo que ele estava fazendo em prol dos indígenas. Ele se familiarizou com isso e sentiu no coração de fazer aquelas postagens”, relatam sobre a publicação que o ícone da música eletrônica fez mencionando a loja em seu Instagram. “A gente não pediu e nem imaginávamos que isso iria acontecer. Quando a gente viu a postagem, a gente não acreditava, porque ele marcou. Tem noção do quanto deve valer um @, uma menção do Alok?”, brincam.

A loja também conseguiu atrair mais seguidores de várias partes do país e do mundo depois desse episódio. “As pessoas sempre chegam aqui e comentam esse fato. O discurso dele em Brasília, usando outra camisa nossa, também foi muito especial. Essa a gente mandou antes de lançar e tocou muito ele”. O Dj é conhecido por usar as peças em seu dia a dia dele. “Quando vimos que ele usou naquela situação, a gente falou: ele entendeu, fez todo o sentido. E é isso mesmo que a Made In Acre quer, mesmo que não tenhamos o contato direto com ele, ele abraçou a marca e isso nos faz ficar muito gratas”.

Antes da loja, Rayssa trabalhava no marketing de empresas e vídeos autônomos. A produção da marca é dela, assim como os vídeos que fazem e as fotografias. Hoje Juliana também participa das criações. “A gente também pega referência de outras criações e a gente traz para Acre de alguma forma. Temos alguns parceiros que estão começando a entrar com a gente, como ilustrador, designer, pois não estamos conseguindo mais parar só para criar devido a demanda”.

Até agora, a Made In Acre lançou três coleções, apesar de sempre lançar um produto ou outro entre elas. “Somos muito intuitivas, quando vemos que alfo, uma frase, dá para pegar, a gente lança. Não esperamos acontecer. A gente viu a brincadeira do governador [Gladson Cameli] na frase ‘Mim Dê Que Eu Tomo’ tentamos adaptar para a loja. Num final de semana fizemos isso e foi um sucesso essa tiragem. Tanto que até hoje as pessoas ainda perguntam sobre ela”.

Agora, a marca quer lançar uma nova coleção voltada mais para a Amazônia e aos povos da floresta, que é com o que elas estão se conectando bastante no momento. “A gente quer trazer camisetas com os nomes das medicinas para mostrar para as pessoas que temos isso aqui no Acre, que é nosso, e também para quem vem em busca disso. A gente acha que as pessoas vão ter essa referência”.

Continuar lendo

Bombando

Newsletter

INSCREVER-SE

Quero receber por e-mail as últimas notícias mais importantes do ac24horas.com.

* indicates required

Leia Também

Mais lidas

Copyright © 2021 ac24Horas.com - Todos os direitos reservados