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Sinuca de bico

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Vamos combinar o seguinte:

1- Todo e qualquer movimento de greve feito dentro dos parâmetros da lei é um sagrado direito do trabalhador;

2- As perdas salariais dos servidores públicos se acumularam ao longo de vários anos, portanto, a recomposição do poder de compra é necessária e urgente.

3- Que o governo errou ao gerar uma expectativa.

Agora reflita e responda com toda sinceridade que lhe for possível:

Qual o governante, por pura maldade ou birra, negaria a correção salarial ao segmento mais influente politicamente no Acre, qual seja, o funcionalismo público, em um ano no qual o governante se submeterá à reeleição? A vontade de ganhar é um punhal afiado.

Não tenho dúvidas que nenhum governante, pensando com responsabilidade nas consequências do amanhã, daria o passo maior que a perna.

É useiro e vezeiro o adágio popular que diz que dinheiro não aguenta abuso.

Em gestão pública, o mel que adoça as decisões de hoje terá o gosto de fel amanhã se não forem bem calculadas.

Do lado dos oponentes, não há novidade, pois estão apenas cumprindo o papel de vender facilidades. Ficariam mal na fita se dessem razão a quem está na condução da gestão.

Torcem duplamente contra o reajuste. De um lado, para desgastar o governo; de outro, como sempre imaginam que serão vencedores, para não encontrarem o caixa em situação de difícil recuperação.

Observem que nenhum dos candidatos lançados ao cargo de governador omite quaisquer opiniões sobre o tema. Ficam apenas na surdina incentivando os cabeças dos movimentos.

Entre todos os defeitos e virtudes dos meus três mandatos consecutivos como deputado estadual, “não jogar pra galera” foi, ao mesmo tempo, pecado e perdão.

Pecado porque perdi muitos votos com o tal do discurso coerente; perdão porque não enganei tampouco criei expectativas inalcançáveis.

É possível a concessão de um percentual de aumento salarial, por menor que este seja? Do ponto de vista técnico e legal, não.

Hoje, os limites impostos pela famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal estão extrapolados.

Do ponto de vista político é possível uma reposição salarial linear? Sim, mas não mais que 6% ou 7%. E isso porque o próprio mecanismo inflacionário fará a receita crescer nominalmente e possibilitaria isso.

Ao propor a redução do IPI para tentar ganhar a eleição, o governo federal diminuirá as receitas dos entes federados.

É possível um aumento diferenciado para Educação? Talvez sim. E como ficaria a situação dos demais? Isso contemplaria a PM? Os agentes penitenciários? Os gestores públicos? E os funcionários que recebem complementação ao salário mínimo?

Quanto ao piso salarial, o presidente Bolsonaro jogou a bomba nas mãos dos governadores e prefeitos e correu pra não ouvir o barulho da explosão.

Há um outro fator que alguns querem esconder, embora seja muito grave e importante: a Previdência do Estado está quebrada.

Seja o próximo governador Gladson Cameli ou outro qualquer, se o cabresto não for segurado com as duas mãos vai faltar dinheiro para pagar os aposentados.

Um assunto dominou a batalha política nos últimos três anos: a contratação dos aprovados dos cadastros de reservas. O que muitos não consideram é que isso aumentou o custo da folha.

Fato é que o governador encontra-se numa sinuca de bico: se conceder um aumento ou abono que não agrade os servidores, perderá votos. Sofrerá o desgaste da responsabilidade.

Se der um aumento atrativo, quebra o Estado e nos próximos meses a possibilidade de atraso de pagamento é iminente. Entretanto, neste caso, seria aplaudido pela irresponsabilidade, ainda que por pouco tempo.

Resta saber como se comportará a parcela que entenderá que a distância entre a vontade e a possibilidade não é tão curta e que não podemos reprisar um filme de terror chamado o “ Atraso”.


Luiz Calixto escreve todas às quartas-feiras no ac24horas.com

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