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Diário do Acre: Comunidade Mato Grosso e Epitaciolândia – Parte II

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A barriga já estava encontrando com espinhaço, quando chegamos no Ramal do Mato Grosso. Messias apontou pro campo de futebol e mandou encostar. Farofinha já estava pegado no prato, mandou subir e nos servirmos. Cozidão de comer suando, logicamente pedi a farinha pra fazer um pirão e a pimenta pra temperar.


Farofinha estava animado como de costume, me contou como foi o último bingo que fizeram na comunidade, para ajudar uma amiga que precisava de uma cirurgia. Tem sido rotineira essas coisas por aqui. Bingo, rifas, torneios, o povo se vira como pode, para cuidar um dos outros, na dificuldade. Se gabou de ser o melhor narrador da área e das tentativas de incentivar o esporte na comunidade.


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Dentro do Mato Grosso pegamos o Ramal São José. O mato quase cobria o caminho e a lama era um desafio. O inverno ainda nem começou direito, mas por aqui parece que nunca foi embora. Com dificuldades chegamos na casa do Marinho. Quando encostamos, ele ainda estava chegando do roçado para o almoço. Quis dividir um prato conosco, mas já estávamos cheios. No meio da conversa, negociamos alguns litros de banha de porco, um litro de óleo em dois de porco foi a troca. Ainda tenho da banha lá em casa.



Queria ver o Doutor da Borracha, que está morando por ali. Eu o conheci quando ainda morava em Assis Brasil e eu trabalhava no CTA (Centro de Trabalhadores da Amazônia). As cores enchem os olhos de alegria e os detalhes mostram o esmero do doutor e da sua família com o feitio do artesanato. “Doutor não tá”, me disse seu filho, enquanto eu admirava as sandálias. Perdi a última que o Doutor me deu, lamentei. Diga que o Cesário que trabalhou no CTA esteve por aqui e deixou um abraço!


De chapelão e óculos escuro Adalberto conversava na varanda, quando encostamos. Bom de prosa, deu conta de todos os amigos e amigas do ramal. O céu começou a nublar e resolvemos apertar o passo, ainda tínhamos algumas visitas e encarar o ramal de baixo de chuva não é uma boa ideia!



Paramos rapidinho na casa do João Mota, ele também estava apressado, de saída para o roçado, mas ao nos ver fez questão de acalmar nosso avexa-me, servindo um suco de graviola gelado enquanto proseávamos. Messias perguntou como estava o vizinho Toinho e a nega. “Estão em casa e já estão melhor de saúde. Se forem lá cuidado com a porteira, tem um cavalo que foge quando deixam ela aberta”.


No alto de um morro ficava a casinha do Toinho e da Nega. Chegaram há pouco da cidade. Nega estava na rede, ainda meio baleada de um tratamento que está fazendo. Messias me contou das proezas que Toinho fazia no campo. Toinho lamentou não poder mais jogar o futebol que tanto gostava. Os dias difíceis estão passando já já tudo se acerta a esperança é o que mantém todos de pé.


Seu Antônio Gaúcho estava limpando o terreiro. Chegamos e a chuva chegou junto fazendo todos subirem rápido para a varanda da casa. Assim que a chuva passou, voltamos para o ramal da laranjeira e entramos rapidinho no ramal do Tucundubá, para conversar com Paulo e tomar um café quentinho.


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Antes de encerrarmos nossas visitas, de saída pelo ramal do 21, Messias insistiu que eu tinha que conhecer o Bem-te-vi, um bom amigo que ele tem no ramal e que conta muitas histórias do sindicato do tempo que morava em Xapuri. Ele estava certo, me identifiquei de cara com bem-te-vi que me contou dos empates, do tempo de Chico Mendes, dos forrós que levantavam poeira e da luta dos seringueiros pela terra. Bem-te-vi me fez um pedido e eu não pude negar. “Quando voltar traga uma bandeira vermelha com a estrela”, apontou pro alto da porteira e disse que lá ia colocar, para que todos no ramal saibam que é um companheiro que mora nesse lugar.



Cesário Braga escreve todas às sextas-feiras no ac24horas.com


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