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Diário do Acre / Alto Juruá /Porto Walter / Parte 1

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Os trabalhadores já subiam e desciam o porto com mercadorias, quando embarcamos nas canoas para subir o Juruá, Gena comandava o timão do barco onde fomos eu e o Arenilton. O barco da Ângela foi conduzido pelo Roney esposo dela. Nos pés era possível perceber que apenas eu não conhecia bem o segredo do rio, portos e barrancos! Era o único que não calçava um par de sandálias de dedo.

O rio já dava sinais de cheia, mas ainda era possível ver lindas praias de areia branca. Atracamos na comunidade bananalzinho e, de pronto, subimos na casa da dona Lucinha. O filho dela estudava na varanda sob a supervisão do professor Adão!

Dona Lucinha nos ofereceu água e café, pediu que não reparássemos na água. O poço da comunidade, além de dar água com gosto de ferrugem, estava com um problema na bomba. Bebemos a água do rio mesmo. Professor Adão não perdeu a oportunidade de pedir ajuda a Ângela. Ele mora a 600 metros dos postes, mas a casa dele ainda não tem luz elétrica. Olhou pro meu boné e disse “quando esse homem voltar, eu tenho certeza que a luz chega”

Algumas casas adiante paramos para conversar com seu Raimundo e dona Jocimar que, ao avistarem o Gena, já pediram pra subir e foram tratar de um auxílio doença para seu Raimundo, diagnosticado com hanseníase. Pra passar o calor, fomos tomar uma VIP (morango, coco queimado e leite), na casa ao lado.

Larguei as botas no barco e subimos no porto do Carlito, já na comunidade natal. Ele estava pegado com o feitio de uma cadeira. Marceneiro de profissão, Carlito pitava um cigarro de fumo forte, no canto da boca, enquanto dava forma a madeira. Se gabou de algumas pescarias, enquanto falava das dificuldades do dia a dia. Na saída, levamos um cacho de banana maçã, já pensando no almoço.

Era mais de meio dia, quando chegamos na comunidade Vitória. Encontramos seu Sabazinho tecendo uma malhadeira na varanda. Esquentamos conserva e completamos com arroz e farinha, sem esquecer das bananas. Sabazinho, entre muitas histórias, nos contou de quando namorava a esposa dele, nos anos 70. O pai dela sempre os observando. O mais longe que ia era pegar na mão. Hoje em dia tá tudo mudado.

Arinilton não se fez de rogado e contou uma história pro Sabá. Diz que um Véi, daqueles bem Véi, procurava remédio para levantar. Um gaiato lhe recomendou pão! Mais que depressa o Véi foi a padaria e pediu um saco de pão. A atendente surpresa perguntou quantas pessoas moravam na casa do Véi, para ele querer tanto pão. O senhor respondeu “eu e minha velha”. A atendente falou: – mas vai ficar duro! Então o vei disse, pois me vê dois. Seu sabá não parou de rir até irmos embora.

Na Califórnia fomos na casa do seu Candiri, fundador da comunidade. Há 14 anos, o rio levou a antiga casa e todos foram pra Porto Walter. Ele permaneceu com seus filhos por ali e começou tudo outra vez. Soldado da borracha, ostenta com orgulho um quadrinho do tempo da seringa e de casamento.

Num porto bem alto, na comunidade reforma, conheci seu Bebé. Ele passou um café forte, enquanto me falava da carestia, sem deixar de agradecer a Deus por tudo. Sempre em frente, no estirão do Buenos Aires, topamos seu Amadeu. Ele e o filho dele recolhiam uma manga. Paramos pra ver o que tinha na canoa. Eram 6 maparás. Gena pediu dormida, desconfio que já foi pensando no cozido de peixe que teria na janta.

Enquanto dona Maria preparava o cozido, Arinilton e seu Amadeu disputavam quem contava o melhor causo. A disputa só parou quando o caldo já estava nos pratos. O peixe estava delicioso. Enquanto armávamos as redes, Amadeu contou uma de cruviana. As luzes se apagaram e o rangido das redes balançando nos fez adormecer na cozinha coberta de palha.

Diário de um Acreano

Diário do Acre: Caminhada de Marechal Thaumaturgo para o Jordão

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Às duas e pouco da madrugada, ainda era possível ver estrelas no céu da Vila Restauração, em Marechal Thaumaturgo. Carneirinho colocou uma água no fogo pra fazer o café, enquanto eu juntava as coisas na mochila. Sorriso e nosso barqueiro estavam atrasados. O combinado era sair às três do Porto.

Sorriso chegou sem o barqueiro e avisou que passou na casa dele, mas não conseguiu acorda-lo, uma bebedeira na noite anterior derrubou nosso barqueiro. Com a farofa no saco e de café tomado, fomos atrás de outro barqueiro, para começar o trajeto. Eram cinco horas da manhã quando Mauricelio atracou no porto para seguirmos.

Eu, Sorriso e Mauricelio subimos o Tejo até a entrada do Riozinho, um igarapé bem seco que dá acesso até o início da caminhada. Sorriso se animou com a espuma que descia o igarapé. “Deve ter chovido um pouco nas cabeceiras”, porém não o suficiente para que não tivéssemos que descer da canoa diversas vezes para empurra-la, nas cachoeiras e balseiros.

A cachoeira do inferno é a maior do trajeto e impressiona pela beleza. Mauricelio, que habilmente desviava de todos os balseiros e subia as pedras mesmo com pouca água, já reclamava da volta. Sem minha ajuda e do Sorriso é um pouco mais difícil passar alguns obstáculos, mas é como dizem, pra baixo todo o santo ajuda.

Sorriso apontou de longe a última casa de moradores que existe no Riozinho. “Daqui pra frente não mora mais ninguém”. Em uma das praias que descemos para a canoa seguir, um rastro de veado às margens chamou atenção, assim como algumas pegadas de gente. Acho que os meninos estavam caçando por aqui ontem, afirmou Sorriso me ensinado sobre a caça de canoa com lanterna, às margens do igarapé.

A barraquinha, ponto de saída para a caminhada é uma pequena casinha de madeira, onde alguns atam as redes e passam a noite para sair bem cedo para a caminhada. Já era manhã quando chegamos, aproveitamos para comer uns biscoitos a próxima parada séria no meio do trajeto no Santo Dumont, fronteira de Marechal com Jordão.

Começamos a caminhada num ritmo forte, pelo menos era o que eu achava, Sorriso nunca esboçava cansaço ou coisa parecida, sempre ficava me alugando, perguntando se eu queria voltar. Com uma hora de caminhada a proposta do Sorriso já parecia tentadora, mesmo sendo impossível voltar. A essa hora Mauricelio já estava na metade da viagem de volta para Vila Restauração. Muita taboca serrava o caminho que nos obrigava a andar sempre curvado o que aumentava a dificuldade e meu cansaço.

Rapidamente tomei toda a água que levávamos e ficava perguntando ao Sorriso onde tinha outro igarapé para tomar mais. O calor e umidade eram intensos. O tempo de chuva se formou e o vento balançava as árvores com força. -“Se chover vamos parar?” Perguntou Sorriso. “Podemos ficar num oco de pau! Sempre em frente era meu lema, vamos seguir na chuva, não quero dormir na mata.

A chuva molhava a bota e a mochila que a essa altura parecia pesar uns 500 quilos. Sorriso tomou minha mochila para continuarmos seguindo. Quando chegava em um igarapé eu deitava na água para descansar e pedia a Deus forças para continuar a andando.

O passo já era lento e Sorriso falava em dormimos pelo menos no Santo Dumont. Metade da viagem, eu perguntava o tempo todo se ainda estava longe, ele repetia sempre, daqui umas duas horas chegamos e essas duas horas nunca passavam. Mesmo persistindo na caminhada, parecia que o centro ficava cada vez mais longe. Já chamava o ponto de Centro do Mundo tamanha era a distância para chegar.

A chuva cessou um pouco antes de um igarapé onde bebi uns dois litros d’água. Perguntei mais uma vez ao Sorriso se estava longe, ele repetiu, duas horas. Só se for de relógio de grande, porque essas duas horas não chegam nunca. Enquanto reclamava vi um clarão no meio da mata e lá estava a casinha de madeira, descanso para os viajantes e caçadores chamada Santo Dumont .

Comemorei como se ganhasse uma copa do mundo, subi a pequena escada e desabei deitando no chão frio de madeira. Sorriso tirou a farofa da mochila para almoçarmos, já estávamos com mais de cinco horas de caminhada e passava das uma. Farofa de carne e frango desfiados servidos no saco de plástico temperados com a fome e cansaço, estava deliciosa.

– “E aí? Vamos dormir aqui? Ou tu aguenta chegar no Jordão?”, perguntou Sorriso! Sempre em frente, sigamos. Sorriso avisou que dali pra frente o caminho era melhor, pois a prefeitura do Jordão através do ex-vice prefeito Demir Figueiredo havia limpado a picada na mata. Descobri depois que a esposa do Demir é da restauração e que ele buscou ela de pés e a levou para o Jordão!

O caminho em frente era uma estrada de seringa limpa, porém as subidas de terra eram desafiadoras, a cada ladeira não deixava de reclamar e torcer por terras mais planas. Nessa parte boa vamos sempre correndo pra chegar mais rápido, afirmou Sorriso, que parecia que tinha começado a caminhar naquele momento. Nas encostas de morros o caminho ficava perigoso, ele é estreito e ainda estavam escorregadios da chuva.

Sorriso me contou sobre um casamento coletivo no Jordão que casais da Vila Restauração fizeram. Vieram o caminho de pés os noivos, as noivas de avião. Diz que o casamento foi adiado uns dias por que tinha uns índios brabos rondando o caminho. Fiquei em dúvida! Será que o sorriso estava querendo me fazer medo, ou era mais uma das muitas histórias desse caminho, utilizado principalmente pelos times de futebol do Jordão e da Vila Restauração, que alternavam campeonatos nas cidades.

Uma árvore tombada no meio da trilha me assustou, caiu havia pouco na chuva. Se estivéssemos por ali na hora seria uma tragédia. O sol foi se pondo e os mosquitos começaram a incomodar, assim como as câimbras nas duas pernas. Minha vontade era parar! Vamos dormir aqui gritei para Sorriso! Só falta umas duas horas ele gritou de lá. Sorriso e suas duas horas.

Aqui é o roçado da última casa do ramal, afirmou Sorriso me mostrando uma plantação de macaxeira no meio da mata. Daqui duas horas chegamos! Pensei, por que alguém planta um roçado tão longe!!! Já não tinha sol quando despontamos num clarão! Era o fim da mata, sentei no capim ofegante feliz por ter chegado do outro lado. Sorriso ganhou o capinzal e voltou com uma palma de banana, que havia deixado ali para amadurecer a última vez que esteve por lá.

Agora é só seguir no Ramal, tem um rapaz mais adiante que pode nos levar de moto até a beira do rio. Tirei as botas para seguir na lama enquanto iluminávamos a caminhada com a lanterna do celular do Sorriso. Uma meia hora a frente, encostamos na cada do senhor Gildo Nascimento. Pedi água e perguntei ao filho dele Lucas se nos dava uma carona de moto até a beira do rio. Uns 10 minutinhos adiante.

Do lado de cá do rio era possível ver a cidade de Jordão e a movimentação de domingo na igreja de São Sebastião. O rio Tarauacá estava cheio e não seria possível cruzar de pés como eu havia programado. Pegamos uma canoa emprestada e chegamos, cansados e com fome. Depois de um espetinho na esquina do mercado do Jordão me despedi do Sorriso! Segui para um lado e ele para o outro! Gritei, amanhã nos vemos! Ele sorriu como sempre!

Veja o resumo de cada momento:

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Cesário Braga escreve todas às sextas-feiras no ac24horas.com

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Diário do Acre: Vila Restauração e Marechal Thaumaturgo

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Acordamos com as galinhas e, antes do sol nascer, já estávamos na beira do rio Tejo subindo para a Vila Restauração. Mesmo com a chuva da noite anterior, o rio ainda estava seco. Eu, Aldemir e Bumba tivemos que empurrar a canoa nas cachoeiras para chegar. A chegada na vila é deslumbrante. No meio da floresta, os moradores do maior povoamento rural de Marechal desafiam o isolamento.

Uma escadaria de madeira do porto vai até uma pequena casinha, a qual dá acesso as calçadas de tijolos que se estendem por boa parte da vila. Bumba esperou na canoa, Aldemir voltaria para Marechal, foi apenas me acompanhar até a casa do nosso amigo Carneirinho. O trajeto curto se estendia nas paradas para conversar e saber como estava a família de cada morador que encontramos no caminho.

Aldemir avistou o Sorriso de longe, chamou, e sem deixar de me alugar dizendo que eu não conseguiria fazer o trajeto, perguntou se ele não tinha coragem de me acompanhar na caminhada até o Jordão. “- Vai ficar por onde?”, perguntou Sorriso. “Mais tarde nós vemos lá no Carneirinho”, afirmei, enquanto seguíamos.

Carneirinho estava no roçado, quis ir lá, mas, o Aldemir me advertiu que eram duas horas a pé pra ir e voltar! Vamos esperar, já basta o desafio de amanhã. Yuan filho mais novo do Carneirinho roteou pra mim a internet 4g da TIM que existe na Vila. Depois de dois dias de barco pra chegar na restauração, tudo já não parecia mais tão distante. Aldemir voltou pra trás antes do Carneirinho chegar! Yuan me fez companhia e respondia pacientemente todas as minhas indagações.

Carneirinho chegou pouco antes do almoço, trouxe mamão e abacaxi do roçado. Foi chamar uma filha na casa ao lado para preparar uma galinha caipira pro almoço. A esposa dele estava em Rio Branco num retorno ao médico. Mal terminei de comer e fomos atrás do Sorriso, após, combinarmos a viagem, me levaram para visitar a vila.

A vila mudou muito desde a última vez que fui por lá. Uma pracinha no centro e as calçadas de tijolos dão um charme à comunidade. Encontrei o barqueiro que iria nos levar de manhã até a barraquinha, ponto de saída para a caminhada até o Jordão! Falei que queria sair às 5h, ele sugeriu sairmos às 3h! O igarapé está seco e a viagem poderia demorar mais do que prevíamos. Olhei para o Sorriso que acenou com a cabeça. Combinado, saímos às 3h.

Dona Carlandia nos chamou pra varanda e nos ofereceu uns Vips, mesmo com o calor, eu preferi um cafezinho. Um vendedor viajante que chupava um vip perguntou de onde eu era e o que fazia pelas bandas da restauração. Contei a todos que queria fazer a travessia de Marechal para Jordão de pés. Entre as risadas, os olhares me julgavam se conseguiria ou não concluir a empreitada.

Fui conhecer a família do Sorriso. Seu Israel e Dona Ana estavam na varandinha de madeira com os filhos mais novos tentando contato por telefone com uma filha que está morando em Cruzeiro do Sul. Enquanto bebia uma água gelada, alguns trabalhadores estavam no terreno fazendo medições. Reconheci o Adão, me contou da instalação de água que estão fazendo na vila. Dona Ana disse que a obra será mais uma benção de Deus.

“Vamos ver o parque solar e depois atrás de merendar”, sugeriu Sorriso. O parque impressiona pela tecnologia. As placas solares produzem energia para todas as famílias da vila. Aline estava deitada na rede se embalando, quando chegamos atrás da merenda, já era tarde, não tinha mais nada pra comer. Enquanto Aline reclamava do preço do gás, assistia da janela os meninos brincando no campo da vila.

Aproveitamos e fomos no comércio da Marta para comprar alguns biscoitos para levar na viagem e refrigerante, para dividir com quem passava o tempo na casinha vendo o sobe e desce no porto. Carne de caça, peixes, farinha, tinha de tudo. Sorriso pediu para um dos que subiam separasse umas curimatãs gordas que ele queria comprar. Na venda do Pedro Camurça, um boteco disfarçado, o som estava animado. Conheci o Segurança que dava conta de tudo na vila. Pedro me chamou pra voltar mais tarde. Agradeci, mas tinha que acordar cedo no outro dia.

O sol já estava se pondo quando voltei pra casa do Carneirinho. Comemos o que tinha sobrado da galinha, enquanto falávamos da vila. Carneirinho que viu a comunidade crescer, desde o tempo dos patrões, mesmo entusiasmado com a luz, lamentava as dificuldades financeiras dos moradores que continuam escravos da farinha, que pouco rende para quem a faz.

Me preparava para o banho, quando fui chamado por uma moça da comunidade, que me pediu ajuda para comprar material e fazer uns VIPs pra vender no jogo, que aconteceria no dia seguinte. “É pra pagar internet e minha faculdade on-line”, afirmou a moça. Após o banho gelado, estiquei o cortinado e fui dormir, ouvindo ao longe um culto e pensando que ainda se tem muito por fazer por lá.

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Diário de um Acreano

Diário do Acre: Alto Juruá e Porto Walter – Parte 2

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Cedo desfizemos a dormida para liberar a cozinha. Seu Amadeu passou um café pra despertar e já começou cedo com os causos. Pediu para demorarmos mais um pouquinho, mas ainda tínhamos muito caminho pela frente. Arrumamos as coisas, agradecemos a dormida, comida e conversa. Seguimos adiante.

Fomos tomar café na casa do Chiu, um pequeno comerciante da margem do rio. Assim que chegamos, ele serviu café, leite, bolachas, torradas e farofa de conserva. Lamentei ter deixado as bananas no Amadeu. Tentei pagar pela comida, seu Chiu não quis receber. Insisti, pois não é bom abusar da hospitalidade, mas não adiantou nada, nem sair devendo para a próxima ele permitiu!

Paramos no Chicão, mais uma pequena comunidade no curso do Juruá rio acima. Conheci o Tuti e sua esposa Simoni. Ângela avançou pra cozinha com a Simoni, enquanto eu, Gena, Roney e Arinilton conversávamos com Tuti na varanda. Na conversa sobre as pescarias, Tuti falou do vizinhos, que tinham trazido uns peixes mais cedo. As meninas estavam na cozinha tratando. Fui lá conferir.

Bodós, branquinhas, maparas e um cuiú-cuiú. As bacias estavam cheias. Ângela me pediu pra esperar, ainda era cedo, mas a Simoni já estava torrando uns peixes para levarmos. Avistei um cercado dividindo um pedaço da cozinha. Simoni me chamou pra mostrar seu bixinho de estimação, um Caititu bem novinho. Com um saco de farofa de peixe nas mãos, nos despedimos.

Entramos pela cozinha na casa da Zeneide. O esposo dela enrolava um cigarro de fumo e nos serviu um café! As crianças chegaram pra perto, quando viram a Ângela com alguns bom-bons. A conversa no chão da cozinha era animada e muito afável, mas os rapazes da casa permaneciam na sala atentos a TV, um deles avisou que, como se fosse um acontecimento, começava o globo esporte.

Paramos rapidinho na comunidade Lindalva. Fui conhecer o Alan! Enquanto esperávamos, Chica, uma macaca barriguda da comunidade, chamava a atenção de todos, ela estava um pouco chateada por estar presa. Tinha tomado banho e lhe deixaram ali na pequena serraria até ela secar! Alan estava em um almoço de aniversário algumas casas adiante. Nos convidaram pra comer, agradecemos e seguimos.

Entramos no Igarapé Grajaú. Já era mais de meio dia! O ronco do motor concorria com os roncos da barriga! Chegamos a casa do Jonas, onde pedimos dormida e umas panelas para fazer o almoço. Na cozinha, a dona da casa estava pegada na massa para fazer Beléu. Os peixes na farofa da Simoni estavam ótimos e não deu pra quem quis.

Arenilton e Gena voltariam dali, mas antes de sair, Gena me convidou para conhecer um amigo dele, algumas casas adiante. Era uma construção imponente, 18 metros de casa toda amarelinha, feita de Angelin. Na cozinha, Pita nos recebeu de braços abertos. Lavei bem os pés antes de subir as tábua vermelhas encerradas, faziam gosto de ver.

Nos despedimos do Gena e Arinilton, que iriam voltar, e seguimos por um lago do Grajaú, para uma comunidade um pouco mais adiante. Chegamos na casa da Dona Doca. Enquanto a Ângela proseava, aproveitei para fazer uma ligação do orelhão da comunidade, sempre é bom matar um pouquinho da saudade de casa.

Fomos tomar um sorvete e, durante a conversa, me disseram que é a casa de um mágico. Mal terminamos o sorvete e ele chegou! Conhecido como Mister M, que além de tudo é o padeiro da comunidade, buscou 4 pães na padaria e nos convidou pra subir. A conversa chegava ao fim e não aguentei, pedi pra ver uma mágica! E maravilhado sai com a mágica e a felicidade de todos.

Voltamos para a casa do Jonas, tomamos banho no igarapé, jantamos galinha, fomos convidados para um aniversário e não perdemos a oportunidade de comer bolo. A felicidade de todos estava nos pequenos detalhes. Apegados com Deus, a vida por aqui parecia melhor de se viver.

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Diário de um Acreano

Diário do Acre/Rio Tejo/Marechal Thaumaturgo

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O sol ainda dormia, quando levantamos para seguir viagem. Pelado, que nos hospedou na Pedra Pintada, no alto Rio Juruá, passou um café que tomamos com bolacha e beiju. Bolacha não é café disse pelado. Se não for uma farofa ou carne, pra mim não é café e mandou a filha dele esquentar uma carne seca de veado na brasa do fogão a lenha. Enquanto a carne ficava pronta, nos despedimos e começamos a baixar o Juruá, rumo a entrada do Tejo.

Aldemir pediu pra encostar na casa do Adaildo, na Comunidade Piranha, ainda nas margens do Juruá. Ele não estava, sua esposa Sandra nos disse que ele estava em uma derrubada perto da vilinha da comunidade Pau-Brasil. Ele foi ajudar a abrir o caminho para a energia, disse Sandra, esperançosa de que a luz possa chegar em sua casa. Nos despedimos rápido, Sandra estava pegada plantando o roçado, não é bom incomodar.

Ao longe, uma senhora deu com a mão, Bumba imediatamente fez a volta. Nas margens do rio ninguém nega um chamado. A senhora pediu passagem para o filho dela até a comunidade matrinchã. Rapidamente, ele já subiu e nos disse que ia atrás de fazer umas diárias limpando campo. Os dias estão difíceis, emprego não existe e até umas diárias estão raras por aqui.

Deixamos o Juruá para começar a subir o Tejo, a fome já era grande. Aldemir sugeriu pararmos no Pedão, um amigo que fiz na última viagem ao Tejo. Subimos e dona Chica se ofereceu para cozinhar umas matrinchãs que Pedão tinha trazido há pouco. Já era tarde e, pra não incomodar, bastava esquentar a conserva e arrumar um pouco de farinha. Um pouquinho do feijão do almoço completou a refeição.

Enquanto comíamos, Chica preparava um café quente e Pedão enrolava um piuba. A conversa estava animada e chegou até os tempos de meninos, quando os celulares e televisão não tinha vez. Marconde, filho do pedão, se gabou de como jogava peteca e lembrou de uma vez que o Pedão com raiva jogou todas no rio. As crianças, deitadas no chão da cozinha, assistiam atentas a conversa. Parei e percebi como o tempo passa ligeiro.

O Tejo ainda não está muito seco, os bancos de arreia e a pausada são obstáculos permanentes. Pequenas corredeiras de pedras, chamadas por aqui de cachoeiras, são constantes e deixam a viagem ainda mais bonita, assim como os paredões de floresta que margeiam boa parte do rio. A cada porto que passamos, o aceno dos moradores nos faz sentirmos em casa e mostram a hospitalidade da beira dos rios acreanos.

Já era noite quando encontramos Francilda, no barco com os filhos, subindo para a casa da mãe. Desconfiamos que não ia na mãe, estava subindo para assistir a novela num vizinho que tem placa solar. Nos ofereceu dormida e desceu conosco para casa. No céu, os relâmpagos clareavam as matas anunciando chuva grossa. Subimos um instantinho o porto e já descemos pra tomar banho nas águas quentes do Tejo.

A galinha foi logo pra panela e a conversa na cozinha coberta de palha tava animada. Cafú, esposo da Francilda nos falou das caçadas, não deixou de comentar o jogo do Brasil e, com felicidade, nos convidou para seu aniversário, um forró no dia 29. Já havia convidado o nosso amigo Ordonis e a Sol que confirmaram que iriam. Aldemir já disse que ia também.

A lamparina no centro da cozinha iluminava as panelas cheias. Sebastiana, irmã da Francilda, chegou na casa com seus meninos e não faltou assunto. O sereno começou a cair e esfriou a casinha de madeira. Eles ainda estavam na cozinha conversando, quando deitei na rede e fiquei só ouvindo. Ainda ouvi quando Francilda falou pro Cafú antes de dormir: – na próxima vez que o Cesário vier aqui, já vamos estar na casa nova”. Agradeci a Deus por tudo.


Cesário Braga escreve todas às sextas-feiras no ac24horas.com

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