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Fitar o mundo

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Parece que de repente tudo conspira contra a humanidade, nos colocando na fase mais crítica da existência humana. Na verdade, isso não é de agora. Essa tendência já vem de algum tempo, mas está claro que a pandemia do novo coronavírus agrava a questão.


Me inquieta o apego exagerado das pessoas ao celular, diria até com contornos de dependência da internet. E veio a crise sanitária antecipar em alguns anos o uso das ferramentas virtuais para o trabalho, educação, e-commerce e como meio seguro de de contato com familiares e amigos frente à necessidade do isolamento social.

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Não se trata de ser contra à inovação tecnológica, pelo contrário, também utilizo essas ferramentas. O que me preocupa é a desumanização que esfria as relações interpessoais e as reações aos problemas e tragédias do mundo de hoje.


Ainda há poucos anos reagíamos com empatia e comoção a queda de um avião, das Torres Gêmeas em Nova York, ao incêndio na Boate Kiss em Santa Maria, ao flagelo das guerras do Afeganistão e Iraque, aos conflitos entre Israel e Palestina.


Hoje o Brasil caminha para 500 mil mortes pela Covid-19 sem que isso desperte a consciência nacional. É a banalização da morte. As famílias que perdem seus entes queridos sofrem pelos mortos, que sequer podem velar, e pela indiferença. Tudo se resume a números e estatísticas. Mesmo os milhões que se infectaram e venceram esse aterrorizante vírus sobrevivem na incerteza de possíveis sequelas.


Celebramos a ciência e a conquista da vacina, que a maioria dos brasileiros ainda esperam resignados. Mas falta empatia e solidariedade nessa hora mais sentida da vida das presentes gerações. Sinto a falta da conversa, do diálogo presencial. Do abraço fraterno e do apertar de mãos como gesto de amizade.


Para além da pandemia, é perceptível que as pessoas perdem, cada vez mais, a capacidade de se indignar diante dos feminicídios, da violência contra crianças, contra pessoas LGBT. É urgente recuperar o dom do amor e da humanidade.


Já não é segredo nem novidade a ameaça dos negócios tecnológicos à democracia e às relações interpessoais. Evgeny Morozov, em seu livro “Big Tech – A Ascensão dos Dados e a Morte da Política”, mostra que já não é relevante se as mensagens disseminadas são verdadeiras ou falsas. Só importa se elas viralizam, uma vez que é pela análise de nossos cliques e curtidas, prossegue ele, que as empresas tecnológicas produzem seus enormes lucros. O que gera mais visualizações torna-se “verdade”. Sob a ótica das plataformas digitais, as fakes news são apenas conteúdos mais lucrativos.


A inovação tecnológica é importante para o crescimento econômico, a criação de novos modelos industriais, a telemedicina, aumento da produtividade, geração de riqueza. Mas vale tentar responder a pergunta feita por Francisco Gaetam e Virgílio Almeida em artigo publicado no Jornal Valor Econômico, em 03 de junho de 2019: “Ao olharmos para o futuro, surge nova questão: qual o impacto do avanço digital nas arraigadas desigualdades brasileiras?”


Outro questionamento inquietante faz Noam Chomsky no livro “Quem manda no mundo?”: “Quais princípios e valores regem o mundo?”.  Noam diz que essa pergunta deveria ser a mais importante nas mentes dos cidadãos dos Estados ricos e poderosos, que desfrutam um extraordinário legado de liberdade, privilégio e oportunidade – graças às lutas daqueles que vieram antes deles – e que agora se veem diante de escolhas fatídicas a respeito de como responder a desafios de grande importância humana”.


Minha avó me ensinou que para ver a verdade nas pessoas era preciso fitar – para ela, olhar nos olhos, sentir intenções, nivelar sentimentos. Pois bem, para mim os contatos virtuais jamais substituirão o fitar.


Sigo acreditando no toque humano que sensibiliza, no aconselhamento que orienta e na solidariedade que humaniza.

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Raimundo Angelim escreve todos os sábados no ac24horas.com


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