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Da seca extrema à cheia histórica: entenda os fatores que fazem o Acre viver nova emergência

Fotos de Sérgio Vale/Ac24horas
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Poucos meses separam o ápice de uma seca severa e a chegada de enchentes devastadoras no Acre. Para entender as crises sucessivas que levaram emergência para o estado é preciso considerar ao menos três fatores:


a influência do El Niño;

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o atraso do “inverno amazônico”, como é conhecida a estação chuvosa na região;


o impacto do aquecimento do Oceano Atlântico;


Juntos, os fenômenos climáticos fizeram o Rio Acre mudar completamente de panorama em um intervalo curto no mês de fevereiro. No dia 15, seu nível era de 7,06 metros. Já no dia 22, subiu 5,97 m metros no período de 24 horas em Assis Brasil, cidade por onde entra no país. Atualmente, já chegou aos 17,52 metros na capital, Rio Branco. Esse rio inundou sete cidades.


o Acre enfrenta cheias que atingem 100 mil pessoas, com 19 das 22 cidades do estado (86%) em situação de emergência, áreas sem energia elétrica, aulas suspensas, plantações perdidas e o registro de quatro mortes. Apenas nos abrigos mantidos pela prefeitura de Rio Branco são mais de 4,3 mil pessoas alojadas, segundo a Defesa Civil Municipal.


Os três fatores dos meses de caos


1. O El Niño: impacto no padrão das chuvas



Em outubro de 2023, o nível das águas do Rio Acre estava tão baixo que era possível ver destroços de naufrágios no leito do curso d’água. A seca extrema que assolou o estado é coerente com uma das ocorrências recentes mais severas do El Niño declarada desde 8 de junho de 2024.


O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico e ocorre a cada dois a sete anos. A duração média é de doze meses, gerando um impacto direto no aumento da temperatura global.


Tradicionalmente, o fenômeno causa secas no Norte e Nordeste do país (chuvas abaixo da média), principalmente nas regiões mais equatoriais; e provoca chuvas excessivas no Sul do país e no sudeste do país.

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Atualmente em declínio, ele teve impacto mais direto na diminuição da precipitação em diversos estados amazônicos.


“O que a gente está verificando é que as condições meteorológicas e as massas de ar estão cada vez mais instáveis. Principalmente, quando associadas a grandes eventos. Estamos em ano de El Niño. Toda a faixa oeste da América do Sul está tendo eventos meteorológicos extremos”, explica o meteorologista e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Rafael Coll Delgado.


A desconfiguração da estação chuvosa por conta do El Niño é, justamente, o segundo fator que influencia nas enchentes observadas nas últimas semanas.


2. Atraso do ‘Inverno Amazônico’: o ápice da precipitação


Outro fator importante para entender as atuais enchentes no Acre é o fenômeno conhecido como ‘Inverno Amazônico’, que nada mais é que o período de chuvas na Amazônia.


Localizado em uma zona próxima à linha do Equador, o Acre tem clima equatorial caracterizado por altas temperaturas e umidade. O verão geralmente dura entre os meses de junho a agosto. Já o inverno vai de outubro até março.


Em abril e maio, há um período de transição das chuvas para a seca e em setembro a transição de volta ao período chuvoso. O ápice da estação pluvial ocorre geralmente entre janeiro e março. Com isso, sobem os níveis dos rios em toda a região amazônica, já que chove muito, principalmente nas nascentes destes mananciais.


Renato Senna, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Amazônica (INPA), explica que as características da estação chuvosa são céu encoberto e chuvas contínuas, diferentemente do que se tem observado nas últimas semanas.


De acordo com o meteorologista, com o prolongamento das secas, houve uma espécie de atraso na estação chuvosa.


“A situação de chuvas que estamos vivendo agora na região era para ser observada em novembro. Essas pancadas muito rápidas e volumosas são características de transição de estação, e não da estação chuvosa”, analisa Senna.


Ele também pontua que as chuvas volumosas na região de nascentes no estado contribuíram para a subida rápida do nível dos rios. “Quando as pancadas acontecem muito próximas à cabeceira dos rios, o nível sobe muito rápido. Mas, a tendência é também descerem rapidamente se a chuva não for contínua”, avalia.


Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operação e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) lembra que, anteriormente, bacias dos rios Madeira, Acre, Tapajós e a parte Sul da Região Amazônica estavam com chuvas muito abaixo da média.


Com a configuração desta conjuntura atual com chuvas volumosas não somente no Brasil, mas na parte da selva peruana e no Norte da Bolívia, houve uma rápida elevação no nível dos rios.


3. Aquecimento do Atlântico: mais nuvens carregadas ao norte


O último fator indicado pelos especialistas como responsável pelo caos observado na região é o aquecimento do Oceano Atlântico – ainda que de maneira mais indireta.


De acordo com Seluchi, a águas do Oceano Atlântico que estão um pouco mais quentes ao norte do Equador do que ao sul, o que contribui para a desconfiguração da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).


Contextualização: a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) é um encontro de ventos na região do Equador. É dos principais sistemas meteorológicos causadores de chuva em parte das regiões Norte e Nordeste do Brasil, segundo o Inmet.


Como é bastante sensível à temperatura do Oceano Atlântico, esse sistema acaba não conseguindo se estabilizar na região amazônica, como seria esperado para esta época do ano.


Cheia do Rio Acre em Brasiléia

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