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Violência no trânsito já matou 90 pessoas no Acre em 2023

O número formal do Detran é de 89 mortes em 2023. Mas essa contabilidade ainda não tinha levado em conta a morte do mototaxista Márcio Castro, ocorrida na última sexta-feira (22). Na prática, são 90 vidas a menos. O mesmo número do ano passado. Ainda há uma semana para o ano terminar. Não se sabe quem vai morrer no trânsito ao sair de casa em Rio Branco. A fiscalização é falha. As campanhas não sensibilizam o cidadão que se sente vulnerável em uma cidade permissiva com quem comete infrações graves. MP quer retorno dos radares. Dia 27 haverá encontro de instituições que pode mudar cenário.
ITAAN ARRUDA (TEXTO) E SÉRGIO VALE (FOTOS)
por Itaan Arruda

O enterro do líder comunitário e mototaxista Márcio Castro, ocorrido na última sexta-feira (22), empatou a estatística de “mortes no trânsito” com o ano de 2022. Oficialmente, com números repassados pelo Detran/AC, foram 89 mortes em 2023, mas o falecimento de Castro ainda não havia sido notificado. O placar macabro marca 90 a 90. Ainda falta uma semana para 2023 superar a estatística de vítimas fatais do ano passado.


O que torna mais violento o ano de 2023 nessa comparação estatística é um conjunto de fatores que transitam da agressividade dos episódios (tecnicamente, chamados de “sinistros”), passando pela desfaçatez e cinismo dos motoristas alcoolizados até chegar à falta de uma política pública sistemática e integrada abarcando Detran, RBTrans e PRF.


São vários episódios graves que ocorreram no trânsito em 2023. Em Rio Branco, os casos mais recentes chamam atenção. No início de dezembro deste ano, uma adolescente de 16 anos saiu de uma casa noturna com sinais de embriaguez. Ela havia pegado o carro dos pais escondido. Dirigia na Estrada Dias Martins na contra mão que colidiu frontalmente com um motociclista por aplicativo que transportava um passageiro. Tanto o motociclista por aplicativo Felipe Moreira da Silva quanto o DJ Mauro Neto têm quadro clínico classificado como grave. E lutam por viver.


A adolescente é filha de um policial. Por meio de uma representação do Ministério Público, a Justiça determinou internação provisória da jovem por 45 dias no Instituto Sócio-Educativo do Acre. A defesa da adolescente até tentou um pedido de habeas corpus, mas o desembargador Júnior Alberto negou o pedido.


O caso teve muita repercussão também porque circulou nas redes sociais um áudio atribuído à adolescente demonstrando cinismo e desumanidade. “Sabe o que eu tenho mais medo?”, pergunta a voz, supostamente identificada à menina.


“Não é nem das minhas fotos vazarem, é de vazar uma foto feia. Imagina! Falarem em todo canto de uma foto feia minha? Aí eu não vou entender legal, não. E outra, quando eu voltar para o meu Instagram, que agora atualizou para ver quem visualizou o perfil, vou estar mais famosa que a Kim Kardashian. Anota aí! E não fiquem com inveja não!”, teria dito a causadora do acidente.


Outro detalhe que chamou atenção nesse episódio foi o erro de procedimento relacionado ao DJ Mauro Neto. A família do jovem só foi informada da situação dele 12 horas depois do acidente. Em tempo: Mauro Neto teve traumatismo craniano, teve um dos pulmões perfurados, fratura no fêmur, fratura exposta da tíbia e costelas fraturadas.


O motociclista teve fratura da bacia em dois lugares, uma das pernas foi esmagada, além de escoriações por todo o corpo.


Adolescente dirigia na contramão na Estrada Dias Martins, supostamente sob efeito de álcool, quando colidiu com motocicleta

Márcio Castro, mototaxista e líder comunitário, voltava de uma corrida na Estrada do Calafate no domingo passado quando foi atingido por um carro, dirigido por um motorista que também aparentava sinais de embriaguez. Márcio Castro foi enterrado na última sexta-feira.


Alan Alves, colega de profissão de Márcio, foi um dos coordenadores do protesto de mototaxistas e entregadores por aplicativo realizado em frente ao Ministério Público. “É preciso que sejam retomadas as fiscalizações. Não estão tendo mais. A situação é de insegurança total para nós que somos profissionais do trânsito”.


No Acre, dos 282.995 condutores habilitados, 39.234 são de condutores que Exercem Atividade Remunerada. São os chamados “CNH EAR”. São os mais vulneráveis por dependerem da qualidade do trânsito para garantir renda.


Porto Acre_ Outro caso recente de muita repercussão foi o ocorrido na Avenida João Barbudo, na Vila do Incra, em Porto Acre. O motorista Francisco Alves Moreira da Silva, 59, matou o jovem trabalhador Welisson Araújo dos Santos que saia do trabalho junto com o amigo em uma motocicleta. Na audiência de custódia, o juiz Manoel Pedroga decretou prisão preventiva de Francisco Alves.


No momento da ocorrência, o motorista precisava ser amparado pelo policial para entrar na viatura. Ele não conseguia andar por si, supostamente pelo elevado grau de embriaguez.


Justiça manteve preso preventivamente Francisco Alves Moreira da Silva. Supostamente bêbado, não conseguia sair do carro sem ajuda do policial

“Parceria com PRF e RBTrans precisa melhorar”, avalia presidente do Detran/AC

Taynara Martins. Foto: Sérgio Vale


A presidente do Detran/AC, Taynara Martins, avalia que a integração entre os agentes de segurança no trânsito no Acre precisa melhorar. É uma frase diplomática. Quando ela afirma que “precisa melhorar”, está sugerida a ideia de que o trabalho em parceria existe. Só não tem feito ações eficazes.


“A parceria com a PRF e RBTrans precisa melhorar já que o Detran tem buscado uma maior integração, mas esbarra na não disponibilidade dos dois órgãos em acompanhar nossas ações de educação e fiscalização visto que eles têm efetivo menor”, avalia Taynara Martins, presidente do Detran/AC.


Taynara Martins foi a única gestora em trânsito que se disponibilizou a falar com a reportagem. O destaque fica para a RBTrans, cujo gestor, Benício Dias, afirmou que não poderia se pronunciar para o repórter específico porque havia “politização” do tema e que havia sido orientado a não falar.


No Acre, o Detran possui apenas 70 agentes da autoridade de trânsito no quadro efetivo e mais 1.000 policiais militares credenciados para atuar no trânsito.


“Celebramos um termo de cooperação com a Polícia Militar para ter um policiamento exclusivo de trânsito em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, tanto na parte urbana quanto rural”, pontua a presidente.


Ela adianta que até fevereiro de 2024 será publicado o edital de concurso para as áreas administrativa e de fiscalização.


"O Detran hoje trabalha educação de trânsito através de campanhas educativas nas rádios, tv’s, sites, out doors e in door. Investimos nessas formas de educação quase um milhão e meio com nosso contrato de mídia" Foto: Sérgio Vale

Radares devem voltar a ser instalados: MP quer retorno

O uso dos radares como instrumento de fiscalização deve voltar a fazer parte da rotina das autoridades de trânsito. Em uma reunião recente com Detran, RBTrans e integrantes do Ministério Público, ficou evidente a resistência das autoridades municipais na reinstalação dos equipamentos. Possivelmente, o cálculo da autarquia municipal guarde relação com fatores políticos.


Cabe ao Município a implementação e manutenção da fiscalização eletrônica. Falando de uma maneira mais clara: se hoje a Capital é uma cidade vulnerável ao crime no trânsito; se hoje a cidade é permissiva com quem dirige em velocidade acima do permitido na via, isso é uma decisão da Prefeitura de Rio Branco em não fazer o que tem que ser feito. O que motiva essa omissão ninguém sabe. A RBTrans deu o silêncio como resposta.


O fato é que desde a política de fragilização que o Governo Federal implementou de 2019 a 2022 (os radares, as multas e até a cadeirinha dos bebês do banco de trás dos veículos foram alvos de críticas presidenciais), a fiscalização eletrônica praticamente foi banida da agenda pública.


É preciso esclarecer que a competência administrativa na fiscalização do trânsito é de competência do Município. Operações “Álcool Zero” por exemplo, com a regularidade que havia no Acre, praticamente desapareceram.


Pra mim, tinham que voltar os radares


Dia 27 de dezembro está marcada uma reunião com todas as instituições de trânsito no Ministério Público do Estado do Acre. O MP quer a volta dos radares.


O Detran tem feito pressão sobre a RBTrans para que o quadro mude. Houve uma reunião recente que pode ter consequências práticas. “Foi decidido que assinaremos em breve um termo de cooperação onde colocaremos todo nosso setor de engenharia e estatística à disposição da RBTrans para auxiliar no estudo e processo para implementação da fiscalização eletrônica”, revelou a presidente do Detran/AC, Taynara Martins.


“Pra mim, tinham que voltar os radares”, opina a jovem Rafaela Matos Lira, 27. Ela é esposa de Renã Felipe, motociclista por aplicativo que teve a perna arrancada em um acidente na Rua Rio de Janeiro em 31/07, próximo ao Cemitério São João Batista (ver abaixo).


Educação mudou forma de abordar o cidadão

O Detran/AC mudou a forma de abordar a Educação no Trânsito. “Somente com as abordagens físicas nas vias não conseguíamos alcançar todo o Estado”, afirma a presidente Taynara Martins. “O Detran hoje trabalha educação de trânsito através de campanhas educativas nas rádios, tv’s, sites, out doors e in door. Investimos nessas formas de educação quase um milhão e meio com nosso contrato de mídia”, calcula Martins.


É preciso investir mais porque o cidadão não tem visto. “É preciso campanhas. Mais ainda”, reclama Alan Alves, mototaxista.


“A gente não vê acontecendo nada e todo mundo anda do jeito que quer, na velocidade que quer”, relata Rafaela Matos Lira, motociclista e esposa do profissional que teve a perna arrancada em acidente em julho deste ano.


Frota total do Estado do Acre

2019 283.895 veículos


2020 297.436 veículos


2021 306.292 veículos


2022 320.414 veículos


2023 346.798 veículos (até novembro)


Receita Detran AC / 2021

Serviços de Habilitação e veículos – R$ 64,9 milhões


Multas – R$ 11,17 milhões


Total – R$ 76,16 milhões


Receita Detran AC / 2022

Serviços de Habilitação e veículos – R$ 90,54 milhões


Multas – R$ 16,90 milhões


Total – R$ 107,44 milhões


Veja os flagrantes registrados pelo fotógrafo SérgioVale

O intrigante roteiro do dia 31 de julho de Renã Felipe, pai da Heloá, e o Salmo 91 sussurrado

O dia estava quente naquela manhã de 31 de julho. Renã Felipe Bezerra da Silva, 32, pai da Heloá, estava desde cedo na rua, trabalhando como Moto Uber, o mais recente refúgio para quem tenta manter alguma renda, em uma terra onde emprego formal é moeda rara. Ele estava com pouco menos de um mês naquela função.


Havia vendido um carro velho. Comprara uma moto com o objetivo de juntar algum dinheiro trabalhando como motociclista por aplicativo. Depois, venderia a moto dele e a da esposa, Rafaela Matos Lira, 27. Comprariam um carro um pouco melhor que o anterior. Esse era o plano.


O calor era intenso. A manhã estava com o ar abafado: o clima que castigou o Acre este ano. Era quase insuportável ficar com a cabeça envolvida pelo capacete naquela temperatura e ainda desviar dos perigos do trânsito de Rio Branco, capital do Acre, um estado com frota calculada pelo Detran em 346.798 veículos.


Passava pouco mais das 11 horas da manhã quando o aplicativo sinaliza o pedido de um novo cliente. Era para buscá-lo em uma das ruas nas imediações do Colégio Acreano, região central. Renã Felipe aceitou a corrida e partiu rumo ao cliente. Ao chegar ao local combinado, em pouco tempo, um jovem sobe na motocicleta, pega o capacete e eles partem. Mal havia dado a partida na moto, quando, parado em um semáforo, vê a mensagem no celular (o aparelho fica suspenso à altura do campo de visão, acomodado em um suporte preso ao guidão). “Amigo, você não está vindo me buscar?”


A pergunta foi feita pelo passageiro que acionou o Moto Uber. Renã Felipe raciocinou rápido, já desconfiado de quem sentara na garupa.


_ Você não é Fulano de Tal?, perguntou Renã ao passageiro intruso.
_ Não.
_ Você pediu Moto Uber?
_ Pedi. Não era você?
_ Acho que não. Você vai para o Segundo Distrito?
_ Não. Vou para o Abrahão Alab.


Com o cliente errado na garupa, naquele calor, aquele diálogo abafado pelo acolchoamento do capacete, a fome já apertando, Renã decidiu.


_ Eu cancelei a corrida do passageiro que eu havia aceitado pela plataforma, combinei com o passageiro já ali na garupa um preço e partimos”, lembra o pai da Heloá, mal sabendo que aquela decisão mudaria para sempre a sua vida.


Já passara das 11h30min. Renã e o passageiro seguiam pela Rua Rio de Janeiro, no sentido Centro-bairro.


_ Eu estava a uns 40 quilômetros por hora, no máximo, lembra.


Quando fez a curva do Cemitério São João Batista, não foi possível desviar da fatalidade. No sentido contrário, o empresário Caio Henrique de Oliveira Poersch, filho do advogado Florindo Poersch, dirigia um carro modelo Onix, de cor preta. Poersch invadiu a pista por onde vinham o pai de Heloá e o passageiro.



A cena é chocante. O garupa é arremessado contra uma estrutura de um canteiro de obras. Quebrou um braço e o fêmur de uma das pernas. Teve alta do Hospital de Urgência e Emergência uma semana depois.
Renã Felipe, o pai de Heloá, não teve tanta sorte.


_ Minha perna ficou presa e eu voei, lembra.


A perna esquerda de Renã Felipe foi, na prática, arrancada do corpo na altura da tíbia (canela). Mas a situação se agravou porque além de uma porção da perna arrancada, a parte de cima, entre a tíbia e o fêmur, estava esmagada. O impacto da batida também causou uma lesão no plexo braquial do braço esquerdo. Quando a lesão é leve, há tratamento e recuperação. No caso do pai da Heloá, no entanto, a batida foi tão forte que amassou também a esperança de normalidade. A imprensa à época noticiou a possibilidade de perda do braço. O que não ocorreu.


_ Mas dificilmente vou voltar a ter movimento com esse braço, lamenta, olhando para a parte do corpo presente, mas imóvel.


Ambulâncias do Samu foram acionadas. Renã acomodou a cabeça no capacete enquanto os médicos e enfermeiros manejavam o que sobrou da perna esquerda. A cena é inacreditável. A perna arrancada do corpo e com o celular na mão, consciente, avisando a esposa da tragédia.


_ Eu só pensava na minha filha. Eu só pensava na Heloá. Perdi sangue, mas não tive hemorragia. E quando, já dentro da ambulância, eu quis desmaiar e perder os sentidos, a enfermeira disse: ‘fica acordado, rapaz! Tu não disse que queria viver por causa da tua filha?’ Aquilo ali foi como se ela tivesse injetado energia pura em mim: eu acordei e cheguei consciente ao hospital.


Renã telefonou para esposa com perna já arrancada do corpo. “Só gritava pela minha filha” Foto: Sérgio Vale​

Salmo 91 foi sussurrado e passou a ser uma referência

No Hospital de Urgência e Emergência, os profissionais de Saúde foram unânimes na avaliação: o caso de Renã Felipe é pouco comum. Diante da gravidade do trauma, ele não ter tido uma hemorragia intensa, nem uma parada cardíaca, é algo raro. Dos quase 30 dias no hospital, 19 foram na UTI.


Entre uma sequência de medicamentos e outra, o estado clínico de semiconsciência trouxe situações intrigantes.


_ Uma das coisas que me lembro é do silêncio e da escuridão da UTI. Só ouvia muito aqueles barulhos das máquinas bip!… bip!… bip…!


Mas uma certa noite, Renã não viu. Ele ouviu algo que não tinha nem dimensão da força que lhe daria, além da imagem da filha, Heloá.


_ Sabe aquela sensação que você tem quando alguém está falando perto ao seu ouvido? Assim, sussurrando…? Aquele calor perto do ouvido…? Pois é! Eu senti essa sensação. Mas eu não conseguia abrir o olho direito. Não via nada. Estava meio escuro. Eu só lembro que a voz falava pra mim:


_ “Lê o Salmo 91! Lê o Salmo 91! Ele vai te dar força!” Eu nem sabia qual era o Salmo 91! Eu só sei que depois desse dia eu tive o melhor sono da minha vida!


Renã Felipe é agradecido pelo tratamento que recebeu no Hospital de Urgência e Emergência.


_ Eu fui muito bem tratado. Não tenho do que reclamar. Só uma vez que eles tiveram que fazer um dreno no meu pulmão porque ele estava enchendo de sangue. Ali foi dor, menino, ó! Fora isso, não tenho o que falar mal de lá.


Depois que um grande ferimento na região da axila esquerda sarar e que conseguir uma prótese, Renã Felipe vai tentar vender confecção junto com a esposa, Rafaela, para garantir a sobrevivência. Não está depressivo. Está até bem humorado e com 30 quilos a menos.


O responsável pelo acidente, o empresário Poersch, ajuda com a compra de alguma medicação, transporte para fisioterapia ou consultas.


Salmo 91 (fragmentos)

Deus, o nosso protetor
A pessoa que procura segurança no Deus Altíssimo
e se abriga na sombra protetora do Todo- Poderoso
pode dizer a ele:


“Ó, Senhor Deus, tu és o meu defensor e o meu protetor.
Tu és o meu Deus; eu confio em ti”.
Deus livrará você de perigos escondidos
e de doenças mortais


Você não terá medo dos perigos da noite
Nem de assaltos durante o dia


Ainda que mil pessoas sejam mortas ao seu lado,
E dez mil ao seu redor,
você não sofrerá nada.
(…)


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