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Alcoolismo: a busca pelas “infinitas 24 horas de serenidade e sobriedade”

Histórias de pessoas que procuram equilíbrio de uma vida sem álcool, mesmo com a tentação rondando os sentidos a todo instante. No Alcoólicos Anônimos, o processo de cura diário usa uma ferramenta poderosa para evitar o próximo gole: o diálogo.
Por Itaan Arruda
Timidamente, eles vão chegando. Alguns mais comunicativos, outros mais introspectivos, se reúnem no adro da Paróquia São Jorge, no bairro Placas, periferia de Rio Branco. Entre uma discreta conversa e outra, alguém toca um pequeno sino, semelhante aos que eram usados por freiras e padres para interromper o recreio da meninada. O badalo gera um desconforto, um silêncio, como se fosse a imposição de uma disciplina. “Tá na hora de entrar”.
Em uma modesta sala da paróquia, 11 pessoas compactuam histórias de agonia e sofrimento, testemunhadas por frases motivacionais pregadas por todas as paredes. O que acontece ali no Grupo de A.A União das Placas, acontece em outras seis comunidades, só na Capital. São mais cinco em Cruzeiro do Sul. No Bujari, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Brasileia e Feijó há um grupo em cada cidade. São 17 em todo Acre.
Em cada uma dessas reuniões, são 10, 15, 20 vidas que se desnudam em depoimentos duas vezes por semana. Os tropeços são constantes. Mas, com disse um dos presentes, “a recaída faz parte da doença; não faz parte do programa”.
O trabalho de psicólogos, psiquiatras, médicos e assistentes sociais parceiros do Alcoólicos Anônimos é muito dificultado por um fator quase óbvio: o álcool é tolerado socialmente. A publicidade é encantadora, traz apelo a um mundo idealizado de beleza e alegria, condicionadas ao próximo copo. Na televisão, os programas de humor se revezam colocando a figura do ébrio de uma maneira brincalhona e festiva. Nas letras das canções mais populares, nos amores frustrados e na alegria desmedida, a bebida é sempre um bálsamo encantador.
A indiferença em relação a esses “elementos de encanto” precisa ser reconstruída: fazer com que esses apelos sejam indiferentes ao indivíduo. O alerta “beba com moderação” é uma obrigação legal necessário para um gatilho de advertência, mas pouco eficaz para quem está tão vulnerável.

A.A União das Placas: duas reuniões por semana. Confissões de vida dilaceradas pelo consumo do álcool

A.A União das Placas: duas reuniões por semana. Confissões de vida dilaceradas pelo consumo do álcool
A.A União das Placas: duas reuniões por semana. Confissões de vida dilaceradas pelo consumo do álcool
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A.F é um alcoólatra em recuperação. Franzinho, gestos rápidos, quase pronto a reagir a alguma agressão. Em todos os depoimentos, são repetidas frases feitas, já constantemente ouvidas, mas que precisam ser ditas a todo instante, como um mantra, como uma ladainha.
“Através dessas últimas vinte e quatro horas, eu busco sobriedade”, confessa para si A.F, um antigo peão nas fazendas de Porto Acre. Ele está “há seis anos evitando o primeiro gole”.
Essa medida de tempo “um dia após o outro sem beber”, para quem está em recuperação, é importante. Tão importante que vem referendada ao final de cada fala pelo próprio coordenador dos trabalhos, ele próprio uma pessoa que passou pelos mesmos problemas dos colegas. “Rogo ao Poder Superior que te conceda infinitas vinte e quatro horas de serenidade e sobriedade”.
W.V.L destoa dos demais. Um pouco mais corpulento, calvície de capitalista bem sucedido e olhos claros protegidos por grossas lentes. É um dos mais antigos no grupo. Chegou ao A.A em 6 de janeiro de 1999. São 25 anos de “infinitas 24 horas”. “Na verdade, eu bebia quando queria, mas não parava quando queria”, lembrou.
É uma frase emblemática para expor o conceito. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a dependência do indivíduo ao álcool, com uso constante, descontrolado e progressivo.
Na rotina de levar os netos à escola todos os dias, a sensação de estar sendo útil traz bem estar. “Muita gente me pergunta porque eu levo e trago meus netos todos os dias para a escola se eu não ganho nada com isso. Ora, eu estou fazendo mais por mim do que por eles. Minha mente fica ocupada com coisa boa. Não penso em beber”.

Ele não frequenta bar: ele frequenta posto de combustível

Enock da Conceição Galvez nasceu há 35 anos no município de Plácido de Castro. Há 17 anos em situação de rua, não tem pudores em se identificar. Nos últimos tempos, os bares e mercearias onde comprava o “Camelim” ou o álcool de tampa azul já não lhe satisfaziam a ansiedade. Ele passou a beber etanol, comprado em postos de combustíveis. “Se eu não tomar etanol, eu não calibro os nervos, não!”, afirma.
Enoque da Conceição Galvez: “se eu não tomar etanol, eu não calibro os nervos, não!”
Consegue dinheiro vendendo latinhas ou pedindo nos sinais. Passa a noite em um prédio no bairro Capoeira, onde diz “tomar de conta de um prédio abandonado”. Enquanto estava conversando com a produção da reportagem, um amigo lhe trouxe uma garrafa de álcool, dessas comuns usadas em limpeza de casa. “Esse aqui também é bom. Esse aqui dá”.
José Valdemar da Silva Parente tem 43 anos. Bebe desde os 10. A fala é acompanhada de tiques nervosos. “Não consegui largar ainda o álcool”, afirma. “Meu sonho é sair dessa situação, mas não tenho nenhum apoio de ninguém”.
José Valdemar da Silva Parente bebe desde os 10 anos. Hoje, aos 43, reconhece que não conseguiu largar “ainda”
Haroldo Borges de Almeida, 53. É uma dessas figuras que consegue transmitir calma. Sorrindo, diz que “bebe desde que estava dentro da barriga da mãe”. Brincalhão, fala a verdade. “Comecei a beber quando tinha 14 anos de idade”. Nega que tenha outro tipo de dependência. “É só o álcool mesmo. Nem cigarro, nem outro tipo. Só a cachaça mesmo”. Afirma que consegue ficar três ou quatro dias sem beber
Haroldo Borges de Almeida bebe desde os 14 anos

Pessoas em Situação de Rua em Rio Branco, Acre: Um Problema de Saúde Pública

Janes Peteca
A capital do Acre, Rio Branco, enfrenta um problema crescente com a população em situação de rua, estimada em cerca de 200 pessoas que fazem uso de álcool. Dentro desse grupo, há uma preocupação adicional com aqueles que utilizam álcool de carro, conhecido como etanol, como forma de se intoxicar. Este problema é particularmente grave, afetando tanto jovens quanto idosos.
As pessoas em situação de rua que utilizam álcool estão espalhadas por diversas áreas de Rio Branco, incluindo:
Centro
Bosque, especialmente nas mediações da Praça do Juventus
Comara
Quinze
Mercado Elias Mansur
Vale do Açaí
Sobral
Esperança
Tancredo Neves
São Francisco
As razões que levam essas pessoas a se tornarem alcoólatras são variadas, mas dois fatores principais se destacam:
1. Separação: problemas familiares e rompimentos de relacionamentos têm um impacto significativo, levando muitos à rua e ao uso de álcool como uma forma de lidar com a dor emocional.
2. Pandemia de COVID-19: A pandemia trouxe um aumento na vulnerabilidade social e econômica, contribuindo para que mais pessoas acabassem em situação de rua e com problemas de alcoolismo.
Ausência de Drogas Ilícitas
É importante destacar que muitos desses indivíduos não fazem uso de outras drogas ilícitas, o que aponta para um problema específico de alcoolismo entre a população em situação de rua de Rio Branco.
Necessidade de Políticas Públicas
A solução para este problema envolve a implementação de políticas públicas focadas na prevenção e na saúde dessas pessoas. Infelizmente, atualmente o estado do Acre não possui uma casa terapêutica equipada com uma equipe multidisciplinar, incluindo médico, enfermeiro, psicólogo e assistente social. Este tipo de infraestrutura é crucial para abordar o alcoolismo como uma questão de saúde pública, em vez de um problema de ordem policial.
Propostas de Intervenção
Para enfrentar essa questão de forma eficaz, algumas ações podem ser consideradas:
Criação de Casas Terapêuticas: estabelecimento de centros de tratamento que ofereçam suporte médico, psicológico e social.
Programas de Prevenção: desenvolvimento de campanhas educativas e programas de prevenção ao alcoolismo, especialmente focados em populações vulneráveis.
Reintegração Social: projetos que visem a reintegração dessas pessoas à sociedade, oferecendo oportunidades de emprego e moradia digna.
Apoio Psicossocial: aumento do suporte psicossocial para ajudar na resolução de problemas familiares e emocionais que contribuem para o alcoolismo.
O enfrentamento do problema do alcoolismo entre a população em situação de rua em Rio Branco requer um esforço conjunto do governo, da sociedade civil e de organizações não-governamentais para implementar soluções eficazes e sustentáveis.
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Itaan Arruda

Jornalista, apresentador do programa de rádio na web Jirau, do programa Gazeta em Manchete, na TV Gazeta, e redator do site ac24horas.


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