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Resgatar o debate público deveria ser do interesse de todos no Acre

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Escrever sobre as coisas do Acre é um bom desafio. Assumi o compromisso de manter esta coluna inspirado no exemplo do mestre Orlando Sabino, da coluna aqui ao lado, e motivado pelo desejo de ver retornar uma tradição acreana de outros tempos: o bom debate público de ideias. Não qualquer debate e sim a conversa debatida que fala do modo de vida tipicamente nosso, dos sonhos de futuro que se alimentam das lembranças que sustentam quem somos e de onde viemos.


Infelizmente, essa prática foi interditada há algum tempo, quando viramos uma terra de extremismos e famílias divididas. É bem verdade que a pandemia ajudou. Na nova realidade que se impôs, diante da impossibilidade da saudável troca de ideias nos meios públicos ou nos encontros de finais de semana em família, a maioria de nós passou a se alimentar de “informação” e opinião nos famigerados grupos de WhatsApp e nas fake news encontradas aos montes no Facebook. O resultado imediato está aí, perceptível na falta de alegria nas pessoas ou nos baixíssimos índices de cobertura vacinal de nossas crianças – raiva e negacionismo hoje nos caracterizam como coletividade.


No longo prazo, a interdição do debate público traz consequências piores ainda. Ela compromete o trânsito de ideias, dificultando o saudável choque de opiniões que faz avançar a compressão social sobre assuntos de interesse público – algo necessário na preparação da sociedade para as grandes decisões políticas que, na democracia, frequentemente precisa tomar. Na ausência de consensos sociais ou mesmo de uma opinião pública razoavelmente constituída, prevalecem o preconceito e a ignorância. Uma coletividade apática e desnorteada, como estamos, vira presa fácil para o discurso de ódio e a manipulação religiosa.

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A boa notícia é que, ainda que timidamente, algo começa a acontecer. Aos poucos, seminários e oficinas de debates vão sendo retomados e vez por outra, estudiosos e pesquisadores publicam textos de opinião.  O Gazeta Entrevista, clássico programa da TV local, volta a ganhar relevância sob a batuta do competente jornalista Itaam Arruda. Veja o exemplo deste AC24Horas, que passou a publicar editoriais periódicos com a visão do portal sobre assuntos relevantes da vida acreana. É um bom estímulo. Quem dera seja seguido por outros veículos de mídia. Quem sabe logo mais vejamos Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Brasileia e outras de nossas cidades pululando de ideias, fervendo de debates, encontros e conferências; quem sabe vejamos podcasts sendo produzidos aos montes abordando temos mais interessantes que fofocas das subcelebridades locais, e as redes sociais sejam tomadas por conversas saudáveis sustentadas por argumentos sinceros.


Quem sabe voltemos a ser uma comunidade pulsante que reflete sobre os desafios da vida e se conecta com o espírito do seu tempo. Uma comunidade assim é forte, poderosa e sabe para onde quer ir; enxerga o caminho a ser trilhado. É uma coletividade formada por um povo que aprendeu a fazer escolhas políticas e sabe cobrar resultados dos governantes.


Uma sociedade madura é dona do próprio destino e desenvolve a capacidade de repelir oportunistas vazios e se proteger do egoísmo de grupos minoritários que atuam exclusivamente na manutenção (ou ampliação) de seus privilégios. Isso me faz acreditar na urgência da tarefa de resgatarmos o debate público, de amadurecermos como uma comunidade de ideias que aprende unida, ainda que com saudáveis diferenças e democráticos conflitos de interesses. Essa deveria ser uma tarefa de todos. Ou, ao menos, daqueles que compreendem a extensão e profundidade dos desafios a nós impostos pelo tempo presente e pelo lugar especial que ocupamos no mundo.


 


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