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As caixas de contar bolinhas num país “democrático”

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Aconteceu recentemente uma experiência rotineira num país longínquo chamado Brazuela. Em todas as escolas do país, os professores realizaram um exercício com suas turmas. Os alunos iriam escolher entre duas bolinhas, uma vermelha e outra azul, e colocar em uma caixa que, no caso, eram basicamente de dois tipos. Uma de aço, nova, que vamos chamar de caixa A, enquanto as outras eram antigas, de papelão, que vamos chamar de caixa P. As turmas tinham tamanho variado, mas vamos combinar que tinham 100 (encarem como 100% de qualquer número) alunos.

Ao fim do dia, no mesmo instante, os professores abriram as caixas para contar as bolinhas. Quando somaram tudo, havia 51% de bolinhas vermelhas e 49% de bolinhas azuis. Normal, os alunos gostam um pouco mais das bolinhas vermelhas e estamos conversados. Só que não. 

Vários professores, entre eles um enxerido (vamos chamá-lo de Dieguito), que não fazia parte do exame, foi examinar as caixas e notou que as caixas P apresentavam uma distorção, de modo que, apuradas estatisticamente, elas davam como resultado quase sempre mais bolinhas vermelhas do que deveria acontecer segundo uma ciência chamada matemática. No gráfico acima (um exemplo de Gauss) isso quer dizer que o comportamento das duas caixas (curvas) teria que ser muito próximo uma da outra, praticamente superpostas e não com a distância encontrada. É quase impossível que acontecesse. Tipo ganhar na mega-sena duas vezes seguidas.

Além disso, havia centenas de casos em que as 100 bolinhas na caixa de uma turma eram todas vermelhas e nunca eram todas azuis. Os casos em que havia 99, 98, 97 bolinhas vermelhas também eram comuns nas caixas P, mas acontecia muito menos com as bolinhas azuis. Outro detalhe: Todas as caixas que deram ZERO bolinha azul eram do tipo P. Enquanto isso, nas caixas A o comportamento era normal, não havia essa disparidade.

Quando foi anunciado o resultado do levantamento que o Dieguito fez, muita gente em Brazuela que já desconfiava das caixas ficou brava. Como assim? Quer dizer que por causa da caixa ser de aço – A, ou de papelão – P, os alunos se comportam diferentemente? Impossível. Em seguida, muitos alunos das turmas em que as bolinhas eram todas vermelhas apareceram para dizer que haviam escolhido bolas azuis e se perguntaram: cadê a bolinha azul que eu coloquei na caixa? Ninguém sabia.

O Dieguito fez então outros cálculos e chegou a conclusão de que, se as caixas de papelão fossem de aço, ou, se elas se comportassem normalmente como as caixas de aço, o resultado teria sido o inverso. Ou seja, na verdade os alunos escolheram mais bolinhas azuis do que vermelhas. Mas, como? Bem, partindo do pressuposto de que os alunos não mudam de ideia por causa da caixa que, aliás, eles nem desconfiavam de que tipo eram, o Dieguito suspeita que muitas caixas de papelão causadoras do problema, tem um mecanismo estranho que convertem bola azul em vermelha ou desaparecem com as bolinhas azuis, ou, às vezes, somem com a caixa toda, então, na contagem total milhões de bolinhas azuis desaparecem. Algo parecido já havia acontecido na experiência de 2014. Os caras das bolinhas azuis procuraram ajuda, mas várias empresas confirmaram em relatório público que as caixas não são verificáveis. Naquele país, depois de colocar a bolinha, o aluno tem que confiar na caixa e no contador das bolinhas. Algumas perguntas estão sem respostas em Brazuela:

– As distorções encontradas pelo Dieguito e outros professores que refizeram e ratificaram os cálculos, vão ficar por isso mesmo? 

– Os alunos que colocaram bolinhas azuis, mas a caixa apareceu com 100% de bolinhas vermelhas vão ficar sem resposta? 

– O experimento vai ficar valendo com o resultado distorcido? 

– Os jornais vão dizer que tinha mais vermelho, mesmo a ciência matemática dizendo que tinha mais azul? 

– A autoridade do diretor do sistema escolar é mais importante do que a verdade das caixas?

– Os outros países que também fazem o experimento não saberão que as caixas de Brazuela mudam a cor das bolinhas?

Como se trata de uma ficção em construção, ainda não se sabe o fim da história, mas logo ela será contada, mesmo que em Brazuela muitas instituições e profissionais outrora sérios e confiáveis estejam embaixo da mesa, se borrando, com medo de enfrentar a verdade, entregando-se à servidão como diria Ethiene de La Boethie, porque isso lhes garante sossego e, ocasionalmente, algumas migalhas que caem do banquete dos poderosos.

Algo grande e digno está acontecendo porque a liberdade é um valor intrínseco ao ser humano. Quem dela renuncia, por segurança ou interesses mesquinhos, não é suficientemente forte para barrar aqueles que a veem como o ar que respiram. Ouvi falar que em Brazuela, os alunos insatisfeitos com a contagem distorcida estão reclamando e prometem não se acalmar até que tudo se esclareça e o Diretor seja destituído com toda a desonra que possa merecer.


Valterlucio Bessa Campelo escreve às sextas-feiras no site ac24horas e, eventualmente, no seu BLOG, no site Liberais e Conservadores do Puggina, na revista Navegos e em outros sites.

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