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Na semana da Amazônia, a floresta de todos queima sob a ganância de poucos

Sobrevoo na região sudoeste do Pará e detectou focos de fogo, desmatamento e garimpo em unidades de conservação. Nesta foto, fogo no município de Trairão. (Foto Marizilda Cruppe/Amazônia Real/Amazon Watch/17/09/2020)
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Estão tocando fogo na floresta, a nossa floresta. Não há palavra para descrever a estupidez de uma atitude dessas. Destruir a mais rica floresta tropical do planeta, sob o argumento mentiroso da “chegada do progresso”, é um absurdo que, na história, só tem paralelo com a escravização dos negros africanos que por aqui durou até há pouco mais de um século atrás, feita sob a desculpa de que “pretos infiéis não são humanos”.


Não falo aqui dos pequenos produtores. Estes, diante da completa ausência do poder público, ainda são obrigados a recorrer ao fogo como forma de limpar suas diminutas áreas de produção agrícola ou criação de gado. Temos que falar das grandes áreas na região da famigerada AMACRO – quase sempre área pública grilada e convertida na marra, por meio de grandes queimadas. São áreas tão grandes que é impossível a um produtor descapitalizado fazer tamanho estrago na floresta.

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Região que compreende a fronteira do Amazonas com Acre e Rondônia, a AMACRO é responsável por quase um terço das queimadas na Amazônia, com destaque para os municípios de Humaitá e Lábrea.


Os indícios são que criminosos estão “aproveitando” o último ano de Bolsonaro no governo para fazer o que não será possível depois. Hoje, o Brasil não dispõe dos meios básicos para coibir a invasão de terra pública, nem sua derrubada e queima. O atual governo desestruturou propositadamente os órgãos federais responsáveis pela proteção desse patrimônio do povo brasileiro. A consequência estamos vendo aí. Aliás, mais que vendo, estamos sentindo no ar difícil de respirar e nos olhos ardendo de fumaça.


Quem ganha com isso? Uma coisa é certa: o povo não é. Ganham os invasores de terra pública; ganham os gananciosos que desprezam o futuro, na certeza que poderão usufruir da riqueza apropriada do patrimônio público, e convertida em vistosas fazendas à custa da destruição de uma floresta que a natureza levou milhões de anos para gerar.


Triste cinco de setembro de 2022. Nessa data, em que deveríamos saudar e honrar a riqueza que herdamos de Deus sob a forma de uma floresta verde, densa, rica, diversa e que cumpre serviços ambientais fundamentais para o equilíbrio climático do planeta, há que se lamentar a impotência de uns e a indiferença de outros.


Um dia, a exemplo do quanto nos escandaliza hoje a simples ideia que no passado humanos, cristãos em particular, viram com naturalidade a escravização violenta dos negros, haveremos de lamentar a falta de determinação em enfrentar a ganância dos que destroem nossa floresta.


Isso é tão certo quanto o nascer do sol amanhã. Porque viveremos com cada vez mais intensidade as consequências da substituição da floresta por áreas abertas. Inevitavelmente, o clima ficará mais quente, as chuvas mais raras, o solo mais seco e os rios com cada vez menos água. Até mesmo regiões distantes sentirão os efeitos. Os conhecidos “rios voadores”, que irrigam as plantações de boa parte do Centro-Oeste e do Sudeste, serão menos densos, comprometendo o ciclo anual de chuvas naquelas regiões.


O que acontecerá aos bolsonaros, aos grileiros e seus aliados do garimpo e da exploração ilegal de madeira? Seguramente, nada que possa ser considerado justo pagamento pelos crimes que cometeram. Agora, aos pequenos produtores e aos moradores de nossas cidades, submetidos a um ambiente natural cada vez mais hostil, sobrará a dureza de uma vida cara, cheia de privações e desprovida das condições mínimas de dignidade e prosperidade humana.


Assim como violentar e explorar negros, na forma da escravidão colonial, durante séculos produziu a riqueza de alguns, a destruição de nossas florestas hoje alimenta a ganância de uns poucos, que agem protegidos pela omissão do poder público e pela indiferença de quem acha que isso não lhe diz respeito.


 


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