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O Leão e o Javali: Esopo explica algo da política do Acre

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Mais uma vez um amigo me pergunta porque não escrevo sobre a política local, ainda mais agora que anda tão agitada às vésperas da definição de nomes e cargos a entrarem no processo eleitoral. Repetir-lhe que ainda estamos vivendo o momento em que, segundo Tancredo Neves “é mais sábio escolher o adversário do que o aliado”, além disso já existem bons e preparados articulistas e palpiteiros nos sites e redes sociais dando conta do recado.


O amigo compreendeu que meu campo não é bem esse, mas insistiu. “Isto você já disse, mas quero saber o que você acha dessa confusão entre os partidos que ganharam o governo”. Tratando assim, de algo específico, achei que não custava nada pensar a respeito. Foi aí que me lembrei de uma velha fábula atribuída a Esopo, um grego que morreu mais de 500 anos antes de Cristo e que ao longo da vida deixou muitos escritos na forma de fábula. Diz-se que algumas ele criou e outras recolheu do saber popular. O fato é que o gênero não produziu até hoje nada comparável, tanto em número e simplicidade quanto em mensagens diretas ou subliminares que cada uma contém. Algumas eram antigamente usadas no ensino infantil, não sei se ainda é o caso.


Uma delas, a que lembrei para satisfazer a curiosidade do meu amigo acerca da política local é a do Leão e o Javali. É a seguinte.


“Em determinada região, sob um calor infernal, havia um poço usado pelos animais para beber e se refrescarem. Eles iam, se satisfaziam e tomavam cada um seu próprio rumo. Até que certa vez. Coincidiu de chegarem juntos ao poço, o Leão e o Javali, que tinham suas diferenças, mas mantinham-se longe um do outro de modo que pudessem sobreviver pacificamente. Porém, naquele dia, pelo direito de desfrutarem do poço, iniciaram uma briga.


Conta-se que o Javali, embora gozasse de status inferior na floresta, quando obrigado enfrentava o Leão e, embora levasse a pior, não raro, deixava marcas no Rei da Floresta. O leão, por sua vez, embora sabendo que tinha todas as chances de derrotar o Javali, sabia que sob nenhuma hipótese sairia incólume daquele enfrentamento. Mesmo assim, se engalfinharam e ficaram se mordendo e se encarando. A luta talvez demorasse mais algum tempo, mas um dos dois, certamente o Leão, sairia vencedor.


Até que os dois olharam para cima e perceberam um bando de abutres em uma árvore como se estivessem em uma plateia, aguardando o resultado macabro daquele embate. Eram pacientes. Os abutres sabiam que ao cabo um dos dois restaria morto e isto significaria alimento para todo mundo.


O leão, já arranhado, mas experiente, chamou então o Javali e lhe disse: Você está vendo os abutres? Enquanto a gente se esfola aqui embaixo, eles ficam lá em cima apenas de olho, esperando que eu te mate. O que você acha da gente parar com isso?


O Javali, já bastante lanhado, não perdeu a oportunidade e disse: Tens razão. Vamos apertar as mãos e nos lavar e refrescar juntos. Outro dia, se for necessário, a gente continua.


Feito o pacto, o Leão e o Javali se banharam, beberam da água e assistiram o revoar dos abutres.


Pronto. Esta é a fábula e este é meu comentário sobre a política local, disse eu ao meu amigo. Ele entendeu, mas não se conteve e perguntou: Você acha que isso ainda é possível? 


“Não sei”, respondi. Ainda arrisquei: Veja bem, foi necessário que ambos vissem e identificassem os abutres não os confundindo com outras aves, que suas feridas não fossem mortais a ponto de um achar que a luta estava a um golpe de ser ganha e, por último, que seus ódios mútuos pudessem ser adiados. Ah! Foi necessário também que houvesse chance e tempo para um diálogo minimamente racional. Infelizmente, não estamos vivendo tempos de racionalidade, pelo contrário. É o que penso, mas, só penso.



Valterlucio Bessa Campelo escreve às sextas-feiras no ac24horas e, eventualmente, em seu BLOG, no site LIBERAIS E CONSERVADORES, de Percival Puggina, na Revista Digital NAVEGOS e em outros sites de notícias.