“O que uma mãe não faz pelo filho”. Essa frase calha muito bem a uma acreana que passou a fazer e vender produtos especiais depois que o filho foi diagnosticado com uma grave intolerância à lactose. A economista Lidiane Magalhães Ferreira também já sofria com intolerância quando soube que o filho apresentava a mesma disfunção. Entretanto, foi com o pequeno Artur, aos 9 anos, que ela teve de “se virar” e encontrar novas maneiras de colocar alimentação à mesa sem as proteínas do leite.

Surgiu então o Empório Coisas da Lid, voltado exclusivamente à inclusão alimentar. Tudo começou há quase 10 anos, quando Lidiane descobriu que tinha uma severa intolerância aos derivados do leite. A descoberta foi uma verdadeira peregrinação entre médicos e consultas, que naquela época ainda não tinham facilmente esse diagnóstico como têm atualmente. “Eu já tinha desordens desde criança, tinha os sintomas, mas não conseguia identificar a doença e por isso sofri durante muitos anos”.

Pouco depois ela criou um blog para compartilhar receitas que não apresentassem nenhum ingrediente com leite. “Também acabei me isentando do glúten por questões de saúde e depois descobri uma intolerância à soja”, explica, alertando que cerca de 70% dos intolerantes a lactose também não conseguem fazer a digestão da soja.

A intolerância é diferente da alergia. Na primeira, falta a enzima que digere a lactose, que é um açúcar. Já a alergia é uma resposta do sistema imune a uma proteína do leite de vaca, o que torna o problema mais grave. “Quando descobri que meu filho também tinha esse problema eu já tinha o blog, mas não o divulgava muito porque era uma coisa mais pessoal. Mas quando um filho seu tem um problema, você se esforça mil vezes mais”.

A opção dos alimentos industrializados zero lactose foi interrompida quando mesmo ingerindo esses produtos a criança passava mal. “Depois de um tempo, você não consegue mais consumir porque esses produtos têm a enzima lactase junto com o leite de vaca, então mesmo com a enzima, a gente continua tendo os sintomas”, disse Lidiane. Foi aí que Artur precisou retirar todos os derivados de leite da alimentação.

Nesse momento, a mãe se deparou com um novo desafio. “Como toda criança, ele quer brigadeiro, bolo, biscoito, quer comer igual qualquer outro da idade dele, e tive de aprender muito mais porque não estava mais fazendo comida só para mim, estava fazendo também para ele e o paladar de uma criança é bem mais seletivo”.

Os sintomas de intolerância à lactose são muitos e podem acabar confundindo as pessoas. Eles podem ocorrer como diarreia, prisão de ventre, dor de cabeça, náuseas, vômitos, candidíase, dor no estômago, gases, refluxo. “Tudo isso pode ser da lactose e a pessoa não sabe. Por isso que até chegar a um diagnóstico, os pacientes podem demorar anos. Com o glúten é ainda pior. Os médicos apontam que se não for tratado nem diagnosticado a tempo pode até desencadear um câncer pela doença celíaca”, destaca a economista.

Empório Coisas da Lid – se uma criança gosta, qualquer outra pessoa vai gostar

A mãe acabou se esforçando com o novo estilo de alimentação do filho e aumentou sua dedicação ao blog. Até então, ela conciliava com seu trabalho na Federação das Indústrias do Acre. Mas com a chegada da pandemia perdeu o emprego e começou a pensar em outra forma de ganhar dinheiro. “Tinha que me virar, pois estávamos com a renda bem restrita sem a minha e após muito pensar, resolvi fazer isso: montar um negócio robusto, com mais coisas”.

Foi nesse momento que começou a nascer o protótipo do Empório Coisas da Lid, totalmente voltado a uma alimentação saudável e inclusiva. A loja, que atualmente funciona de forma virtual, oferece produtos que nenhum outro lugar ou supermercado tem. “Vendemos coisas diferentes. Como ainda somos uma cidade pequena, os supermercados não oferecem tanto essas opções por não ter muita saída, uma vez que vendem só um ou outro [produto], sem ser em larga escala”.

Lidiane decidiu vender tudo que gosta de comer, tudo que faz parte de sua alimentação, como leite de amêndoas, açúcar de coco, cereal de cacau, bolo, queijo, tudo sem lactose, sem glúten e sem soja. “Hoje eu consigo comer uma pizza feita de massa sem glúten, queijo e catupiry vegano, no dia e na hora que eu quiser, porque consigo oferecer isso”.

Antes disso, para conseguir comer uma pizza sem glúten e sem leite, ela tinha de viajar ou comprar produtos em outros estados, porque por aqui não encontrava nada do tipo. “Como já tenho intolerância há algum tempo, sempre que viajava voltava com muitas coisas que aqui não tem. Já conhecia várias marcas e produtos antes de criar o empório, então sei selecionar os melhores produtos”.

A pesquisa para trazer produtos também inclui comparação de preços, já que esse tipo de alimentação especial possui naturalmente um valor mais alto. “Nem todo mundo tem orçamento para comprar, então vejo os que têm boa qualidade e com um valor acessível e trago para o empório”. A loja atua com duas vias: vende produtos que o cliente já compra pronto para consumir e as farinhas para que a pessoa faça seus produtos em casa, como bolos e pizzas.

No blog, que está inserido dentro do site do empório, Lidiane ensina como usar os produtos, como farinhas de pão, bolo, os mix, que são combinações de farinha para alimentação sem glúten e possuem bom resultado final. “A pizza, o bolo, o pão, eles têm um mix de farinha específicos para cada textura e formato tradicional. Facilita até para quem não sabe cozinhar, bastando acrescentar outros poucos ingredientes, como óleo e ovo”.

No site ela também vende bolos que ela mesmo produz. “Num primeiro momento, queria oferecer no empório uma gama maior de produtos para que todo mundo tivesse acesso. Mas posteriormente, num segundo momento, quero abrir uma confeitaria”. O plano é chegar a produzir seus próprios produtos. “Futuramente, alguém que tenha alergia ao leite de vaca vai conseguir sentar à mesa e partilhar um cupcake com achocolatado, um milk-shake. Quero avançar pra isso”. O empório Coisas da Lid, além de produtos de mercearia comuns, sem alergênicos, tem uma linha de produtos orgânicos e laticínios veganos e chocolates também.

Inclusão alimentar

A inclusão alimentar é muito mais do que alimentação. É compartilhar momentos especiais com quem gosta e poder viver uma vida normal com outras pessoas que não possuem nenhuma restrição alimentar. Apesar de hoje já ter mais produtos especializados, ainda é difícil manter uma vida social ativa por conta desse problema.

Por isso, o empório surgiu, para mostrar aos intolerantes que se ele quiser tomar um sorvete, ele pode, pois existe o produto vegano, assim como o pão de hambúrguer sem glúten que ela comercializa, pão doce e o creme de avelã. “Já tem alguém fazendo e trazendo isso para perto, e é muito bom porque entra na questão da inclusão”.

Ir a um aniversário e não poder comer o que tem ou ir a um restaurante e sair sem fazer uma refeição por falta de opções a intolerantes são situações que frustram o paciente. “Dificilmente as pessoas fazem uma preparação diferenciada para você por questão de saúde. É muito triste e frustrante ir ao restaurante e sair de lá sem comer nada. A companhia é legal, mas compartilhar uma refeição é muito importante, é o básico da convivência”, lamenta Lidiane.

A alimentação inclusiva faz com que você tenha a oportunidade de sentar ao lado de outra pessoa e conseguir partilhar uma refeição. Meu negócio tem o papel comercial, mas tem a questão de dar oportunidades a alguém comer normalmente como outra pessoa.

“Tem clientes que me dizem: poxa, não acredito que você tem isso. Tenho feito contato com vários nutricionistas para mostrar que têm em Rio Branco essas opções e fiz uma sondagem. Ouvi que são muitas pessoas intolerantes e procuram nutricionista porque não sabem o que comer”.

Adaptação ao novo

Se adaptar a uma nova alimentação não é tarefa fácil. Em todos esses anos lidando com a intolerância à lactose, Lidiane pode notar que a maior procura de clientes em relação aos seus produtos tem sido de mulheres entre 30 e 40 anos. “Se uma pessoa já tem uma alimentação basicamente saudável, ela vai sentir menos a diferença com os novos ingredientes, mas são todos muito saudáveis e deliciosos”.

Hoje nem ela nem o filho sentem falta do queijo normal, da pizza, do bolo ou pão com trigo. “Já me acostumei. Hoje Artur está com 12 anos, mas a adaptação aos alimentos foi difícil. Foi devagar. Tive que ir tirando aos pouquinhos. O paladar foi se adaptando para que ficasse 100% vegano”. Hoje ele come tudo que tem no empório e gosta.

Tudo que é comercializado no Coisas da Lid é sem glúten e sem leite. São brigadeiros, queijos, requeijão, pães, cafés, manteigas, bolos, iogurtes, entre outros. “A família aqui em casa já se adaptou. Comemos igual”, diz a economista. Segundo ela, a adaptação requer tempo, mas há uma luz no fim do túnel para os intolerantes. “Há possibilidades. Hoje o comércio online está aí para todo mundo.

Atualmente, além de Rio Branco, Lidiane já possui clientes na cidade de Cruzeiro do Sul, já que lá também não se encontra esses produtos com facilidade. “Não é só uma questão comercial, é de cuidado com o outro. Fazemos um atendimento quase que personalizado, não é algo tão simples”.

Até mesmo os supermercados estão mudando a forma de vender esses produtos. Antes, eles ficavam numa seção separada só de produtos naturais, agora já começaram a espalhar pelo ambiente. “Já vemos na seção de macarrão ele com e sem glúten. Isso mostra que já está se tornando mais comum essa doença e a venda desses alimentos. Tem cereal matinal com e sem glúten e isso é muito bom porque algumas pessoas não têm conhecimento e passam a ver ali os produtos.

Magalhães lembra que produtos sem glúten e sem leite não são naturais, são industrializados da mesma forma, mas muitos com menor quantidade de ingredientes, o que os tornam mais saudáveis. “Por exemplo, nosso cereal matinal é feito de farinha de arroz vermelho, que é integral, tem açúcar, cacau e um pouco de sal, que entra como conservante, uma redução de ingredientes, bem mais saudável”.

Com uma procura visivelmente maior por alimentos a intolerantes a lactose, o mercado vem de certa forma barateando os preços, com um valor bem mais abaixo do que era encontrado há cerca de 5 ou 10 anos. “A demanda está sendo maior. Hoje tem muito mais pessoas recebendo diagnóstico porque hoje se investiga muito mais que antes”.

Dessa forma, a indústria também vem se aprimorando e evoluindo. Já é possível o paciente intolerante encontrar pão bisnaguinha, pão francês sem trigo, bolachas, torradas, queijo que derrete. “Antes era inimaginável ver isso e na realidade são todos uma delícia. A maior parte dos laticínios hoje são a base de castanha”, comemora a mulher.

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