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Cauteloso, estrategista e líder visionário de um negócio que já dura 24 anos. Empresário que gera, diretamente, 300 empregos no Acre. O ac24horas, por meio do caderno Gente, Economia e Negócios, conta um pouco da história de um empreendedor filho de agricultores, nascido em Populina, cidade do interior do estado de São Paulo, e que aprendeu, dede cedo, a dar valor ao trabalho.

Tendo o Acre como uma terra de oportunidades, o empresário afirma gostar de vender. Ele conta que aos 13 anos tornou-se foi cobrador de ônibus. Seis anos depois, aos 19, trabalhou, durante 45 dias, como motorista de ônibus. Aos 20, começou a rodar o Brasil inteiro dirigindo um caminhão. Foram quatro anos de aventuras, trabalho e muita, muita estrada. Hoje, com 54 anos, é um dos empresários mais bem sucedidos do estado do Acre. Esse homem é José Carlos Castilho, o proprietário do Grupo Frios Vilhena.

Demonstrando ser um homem apaixonado pelo o que faz, Zé Carlos [como gosta de ser chamado] revela ainda o seu esporte favorito: a prova de laço, Segundo ele, o hobbie influenciou os filhos a também passarem a gostar de cavalos. Zé também fala que o maior baque sofrido não foi na área financeira, mas a perda do filho, num acidente de carro.

Temente a Deus, o empresário exalta a família e lembra os primeiros passos que deu para vencer no ramo do comercio distribuidor.

zezeA ENTREVISTA

Eram, pontualmente, 10h da manhã da quinta-feira, dia 26 de março. Conforme combinado, o jornalista Marcos Venícios, editor-chefe do ac24horas, e responsável pelo caderno Gente, Economia e Negócios, após confirmar horário de entrevista, chegou à Rua Raimundo Gama, no bairro Abrahão Alab, em Rio Branco. Naquele endereço, a sede da empresa Frios Vilhena.

Logo na chegada, o jornalista notou grande movimentação de caminhões, cargas e funcionários. Era uma manhã normal de intenso trabalho. Logo na recepção da empresa, Marcos pediu para falar com “Seu Zé Carlos”. De pronto, foi atendido pela funcionária que recebe os visitantes.

Ao ser informado que a sala do empresário ficava no 1º pavimento do prédio, o editor foi orientado a se dirigir até o espaço que fica depois de um longo corredor, cujo acesso se dá por uma escada com 22 degraus. Nesse momento, Zé já aguardava a equipe de reportagem. Ao subir as escadas, constatou-se uma empresa dividida em vários setores administrativos. A porta da sala de Zé Carlos ficava no final desses departamentos, local onde estavam ao menos 10 funcionários, todos sentados, usando novos e avançados computadores.

Ao adentrar a sala do empresário, Marcos viu que Zé Carlos falava ao telefone. O assunto? Mais um negócio sendo fechado. Questionado sobre a conquista, Zé não contou qual seria, mas afirmou ser um “segredo”.

A sala, apesar de ficar num lugar bem escondido e discreto, é ampla e aconchegante, e tem vista para a entrada da distribuidora. Lá dentro, fotos espalhadas pelas paredes. Além disso, Zé Carlos coleciona vários troféus conquistados em provas de laço, competições disputadas nas horas vagas. Sem meias palavras e aparentando estar preparado para a entrevista, Zé demonstra calma e simplicidade, aquela que faz questão de ter com todos.

ac24horas: vamos começar a entrevista?

Zé Carlos: Tô aqui pra isso [Demonstrando bastante receptividade]

ac24horas:  Zé Carlos, vamos desenrolar essa prosa com perguntas básicas, quero saber quem é você?

Zé Carlos: Me chamo José Carlos Castilho, tenho 54 anos e nasci em Populina, localizada no interior do Estado de São Paulo, uma cidade bem pequena, próxima de Fernandópolis e São José do Rio Preto.

ac24horas: prossiga… fala mais um pouco dos teus pais, da tua juventude…
Zé Carlos:
Meus pais, seu João Carreiro e Dona Jandira, que eram produtores rurais, saíram de São Paulo e eu era uma criança ainda. Fomos na época para Rondonópolis, no Mato Grosso, em busca de trabalho, oportunidades, inclusive meu pai tem uma história bem bacana, ele foi carreiro de boi. Ele era um transportador. Hoje a gente transporta num caminhão, antigamente ele fazia isso num carro de boi, fazia a mudança das pessoas. Passava mais de 72 dias fora de casa fazendo mudança pelo Estado de São Paulo, numa época que era meio sertão.

ac24horas: E o trabalho, como foi essa relação com o primeiro emprego?
Zé Carlos:
Eu comecei a trabalhar com 13 anos de idade. Eu era cobrador de ônibus. Naquela época a gente podia trabalhar quando era menor. Eu acho muito importante que isso continuasse… A vida da gente tem uma base… se você acostuma a ralar cedo, você acostuma a trabalhar. Quando você não acostuma trabalhar, depois de velho é mais complicado [Risos].

ac24horas: Essa questão de trabalhar novo; você fez isso com seus filhos também?
Zé Carlos:
Meus filhos desde pequenos trabalham comigo na empresa. De manhã eles iam para a escola, e a tarde, ficavam aqui comigo fazendo o dever de casa e aprendendo alguma coisa.

ac24horas: E seus outros trabalhos?
Zé Carlos: 
Depois fui trabalhar como motorista de ônibus. Fiquei só 45 dias por enjoar mesmo. Era muito complicado trabalhar. Ai depois dessa fase eu fui ser motorista de caminhão, caminhoneiro. Eu tinha uma vontade imensa de viajar. Viajei por uns quatro anos; conheço esse Brasil inteiro dirigindo caminhão. Eu tinha aquela vontade de conhecer as coisas, mas antes quando eu dirigia ônibus, aconteceu uma situação inusitada. Eu estava no Rodoviária de Cuiabá, e uma mulher não quis embarcar porque não ‘iria viajar com um moleque dirigindo’. Na época, eu tinha 19 para 20 anos [Gargalhadas].

ac24horas: E porque você veio para a região Norte?
Zé Carlos:
Eu fiquei com eles lá e depois, em 1979, quando eu tinha 19 anos, eu migrei para Rondônia com um amigo meu. Eu não tinha estudo, vim no braço, com a cara e a coragem de conhecer e tentar a vida. Eu e esse amigo não sabíamos nem o que íamos fazer. Nós fomos na rodoviária de Cuiabá e compramos as passagens para Ji-Paraná e ficamos tão perdidos que acabamos ficando em Vilhena.

ac24horas: E você estava disposto a tentar uma nova vida, em busca de trabalho?
Zé Carlos: A ideia era arrumar trabalho mesmo. Sempre gostei muito do comércio. Eu cheguei em 79 em Rondônia, e depois em 1981 eu fui para Roraima, fiquei seis meses lá e depois retornei para Vilhena. Em Vilhena, passado certo tempo eu casei e em 1988 eu vim para o Acre. Faço este ano, com a minha esposa, a Vandiria, 30 anos de casados. Nesse tempo, tive três filhos e até agora três netos.

ac24horas: E como foi essa história de vir para o Acre? O que atraiu você?
Zé Carlos
Eu era representante comercial em Rondônia, vendia o café Urupá lá de Ji-Paraná. Uma vez, pedi para o meu patrão uma região nova para trabalhar. Ele ofereceu a região de Mato Grosso. Eu disse que não queria MT porque já conhecia. Eu queria Acre ou Roraima. Ai meu patrão disse que o café Urupá já estava no Acre há nove anos, mas que não conseguia penetrar no mercado, pois na época existia um concorrente forte: o Café Zaire. Ai eu encarei o desafio e resolvi vir conhecer. Eu cheguei no Acre em 1988…olhei, gostei e já aluguei em uma casa. E no dia 3 de agosto de 1988 eu vim com mala, cuia, o filho Keoma e a mulher que já estava grávida da filha Kenia. Aluguei um caminhão, coloquei as coisas dentro e peguei a BR-364. Só que eu tive que logo em seguida retornar a Vilhena para Kenia nascer, eu não conhecia ninguém no Acre. Tive que retornar só para ela nascer.

ac24horas: Você diz que sempre gostou do comércio. Você acha que essa foi uma escolha fundamental em sua vida?
Zé Carlos:
A febre de querer ser caminhoneiro passou cedo. Eu vendia café e secos e molhados ai depois o patrão resolveu dividir as vendas: um venderia café, e o outro venderia os secos e molhados. Eu fiquei com o café e graças a Deus me dei muito bem, consegui fazer um bom trabalho e vim para o Acre como representante. Quando cheguei ao Acre eu tinha o propósito de trabalhar dois anos como representante, e depois tocar a minha vida com algum negócio;  tentar uma carreira solo.

ze3aac24horas: E o teu planejamento de dois anos, para iniciar a carreira solo, iniciar o próprio negócio?
Zé Carlos
: Então, eu não consegui sair da empresa como eu queria. Os meus patrões não queriam que eu saísse e me enrolaram quatro meses para me demitir. Ai eu acertei com eles e de fato iniciei minha vida de empreendedor. Nem imaginava que eu ia vender frios. Eu comecei no Acre vendendo cereais, arroz, feijão e outros grãos.

ac24horas: E a carreira solo no Acre, como iniciou?
Zé Carlos
: Eu montei meu primeiro depósito, que era alugado, no bairro Estação Experimental. Ai depois, teve um final de ano e eu viajei de férias, no inicio de 1991, visitar a família e amigos no interior de São Paulo e na volta para casa encontrei um amigo meu lá em Cacoal (RO), e ele me convidou para montar uma distribuição de frios. Eu disse na época que não entendia nada de frios. Ai esse meu amigo veio aqui, na época de carnaval, só que ai eu já tinha trazido também um amigo meu lá da época do Café Urupá, para morar aqui em Rio Branco, para trabalhar junto comigo. Ai foi nessa época que nós três montamosa Frios Vilhena. Nessa época [Risos] o único que tava mais ou menos bem de vida era eu, pois tinha uma saveiro , o Ivan tinha um motocicleta e o Jair não tinha uma bicicleta nem pra montar em cima, mas na época apareceu uma bandeira para a gente defender, que era a Aurora Alimentos, lá de Santa Catarina. Eles confiaram na gente e montamos uma revenda de Aurora aqui na capital.

ac24horas: E como foi o inicio da Frios Vilhena?
Zé Carlos
: A gente não tinha nem um freezer para guardar os frios. Só que na época o governo tinha a Cageacre (Companhia de Armazéns Gerais e Entreposto do Acre)lá na Vila Acre. No inicio nós pegávamos a tabela de preços da Aurora, colocávamos a nossa margem de lucro e saia vendendo nos comércios. Quando a gente fechava a carga, a gente passava um fax para Aurora fazendo um pedido. Eles carregavam o caminhão de mercadoria e mandava. Quando a carga chegava aquino caminhão, a gente acertava um valor para o motorista fazer as entregas para a gente e o que sobrava a gente colocava no refrigerador da Cageacre. Era só eu, Ivan e Jair para fazer essas coisas, pensar, vender e distribuir.

ac24horas: Como era vender na década de 80 aqui no Acre?
Zé Carlos:
Talvez era até melhor do que hoje. Apesar das dificuldades quando se fala em estrada, que era bem pior do que hoje. Era complicado, na época de inverno, eu colocava a mercadoria no barco e ia até Sena Madureira pelo rio.  Eu também atendi muito Boca do Acre dessa forma. Em Brasiléia era um sacrifício danado, a gente ia de inverno a verão, mas ia atolando direto.

ac24horas: E a empresa expandiu-se com essa sociedade de amigos?
Zé Carlos:
Dois anos depois nós montamos uma filial em Rondônia, na cidade de Cacoal, e começamos a crescer. Na época nós compramos uma participação de uma empresa de frios lá em Vilhena também e na época nós ficamos com Rondônia quase inteira, menos Guajara-Mirim, que existe um amigo nosso lá até hoje que vendia Aurora antes que a gente. Ele dominava a região de Guajará e parte da Bolívia. Ai depois nós abrimos uma filial em Manaus, que existe até hoje, que é do Ivan. Ai certa vez, num leilão que teve lá no parque de exposições, conversando com meu amigo Marquinhos, ele me perguntou aonde tinha um Estado onde a gente poderia vender Aurora. Ai eu disse que tinha Roraima e revelei que esse negócio tava na mão, mas que ainda não tinha um parceiro para começar a empreitada. Nós combinamos, o Ivan, eu, o Jair e esse Marquinhos de irmos para Roraima e gostamos da região e montamos o negócio lá de sócio.

ac24horas: A empresa cresceu, imagino que o faturamento também, o que ocorreu para essa sociedade ser desfeita?
Zé Carlos:
Eu resolvi desfazer a sociedade. Tanto o Ivan quanto o Jair tinha parte aqui comigo em Rio Branco. Eu também tinha participação nos negócios de Manaus e Rondônia. Nós negociamos numa boa, eu fiquei só aqui no Estado, com a estrutura que montamos aqui e o Ivan ficou com o negócio em Manaus e o Jair com estrutura de Rondônia. Em Roraima, hoje o Marquinho toca o negócio lá sozinho, sem eu não ter nenhuma participação. Hoje eu só trabalho no Acre.

ac24horas: Você se considera um bom vendedor, um bom negociante?
Zé Carlos:Eu sempre digo o seguinte: eu não posso dizer que sou um bom vendedor, mas na medida do possíveleu faço as coisas acontecerem. Eu gosto muito de vender, para mim a melhor profissão que tem é a de vendas porque a gente faz o salário da gente, faz o nosso horário. Se você trabalhar mais, você vai ganhar mais. Eu digo que vender é muito bom, só que não é para qualquer um.

ac24horas: Porque não é para qualquer um?
Zé Carlos:
Porque muitas vezes as pessoas pegam o notebook, o palmtop e uma pasta e sai dizendo por ai que é vendedor…não é assim, tem que ter um jogo de cintura, tem que ter aquela queda para o negócio. O vendedor tem que chegar no comércio e ele tem que sentir mais ou menos até aonde ele pode ir naquele comércio. Conversando com o cliente, você vai fazendo uma analise do que você pode vender para ele. O bom vendedornão é aquele que entope o comércio de mercadoria, é aquele que vende mercadoria que gira no mercado.  Se o cara vender aquela mercadoria, e o comerciante não conseguir repassar para o cliente, ele pode até te pagar no vencimento, mas vai ficar insatisfeito com a sua venda pois ficou com a mercadoria sem girar. Isso eu falo por nós aqui da empresa, eu fico antenado com os meus compradores evendedores direto . O segredo do nosso negócio aqui é a nossa compra, comprar bem. Se comprar produto que não gira, vai ficar aqui no nosso deposito, eu vou ter prejuízo. Eu deixo um produto que tem giro para ter espaço para um que não gira. Temos que ficar antenados a isso.

ac24horas: E como vocês fazem para não ter esse prejuízos?
Zé Carlos:
Nós sempre buscamos informações lá de fora com a nossa equipe de vendas para ver o que o mercado necessita para ai sim comprarmos. Se a gente comprar muito na escura, a gente pode se atrapalhar e não conseguir vender. Esse é o segredo do meu negócio. Eu sempre procuro pagar as minhas contas em dias, porque isso não é para encher o peito não, mas sim por ser um dever do homem comprar e pagar. Para termos um bom relacionamento com nossos fornecedores temos que ter pontualidade em nossos pagamentos . Então, isso é uma das coisas que a gente sempre frisa aqui. Procuramos atender bem nossos clientes, nosso fornecedores. E é isso que nós faz forte nesses últimos 24 anos.

ac24horas: Como foi sair da saveirinho para se tornar um empresário forte, como foi esse choque de realidade?
Zé Carlos:
Na verdade eu acho que ainda não cai na real até hoje. Porque eu me sinto um funcionário da minha empresa. Até hoje me considero um funcionário mesmo. Eu acho que tenho que ter os meus horários aqui, cumprindo com os meus deveres. Eu não me sinto o dono, eu me sinto um funcionário. Logicamente que eu ainda não ando de Saveiro, mas também eu não tenho problema de dirigir um caminhão até hoje. Eu sempre digo que quando precisarem, eu tô pronto.

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ac24horas: Como é a tua relação com os funcionários?
Zé Carlos:Eu faço questão de falar com todos os meus funcionários, tento manter essa boa relação. Atualmente eu tenho quase 300, não vou te dizer que sei o nome de todos, porque o negócio cresceu, é muito difícil você ter um maior domínio de tudo. Hoje eu tenho filiais em Cruzeiro do Sul e Brasiléia. Inclusive em Brasiléia eu montei um atacarejo. O empreendimento agora vai fazer um ano no mês de maio.

ac24horas: Com esse negócio da cheia do rio Acre lá em Brasiléia, você teve algum prejuízo?
Zé Carlos:
Sem dúvida. A gente tem prejuízo porque deixa de vender, não pelo questão da água atingir o negócio, isso não aconteceu, graças a Deus. Mas você perde por deixar de vender. Quando a gente tá bem, nosso vizinho tem que tá bem também. Quando tá ruim para o vizinho, para a gente não tá bem. Muitos clientes e consumidores da gente ficaram alagados. Ficou faltando mercadoria lá na loja porque não tinha como atravessar pelo rio e aqui em Rio Branco, por causa da cheia, nós estamos perdendo vendas até hoje. Muitos clientes da gente ainda não se recuperaram.  E nós sabemos que tudo isso atrapalha. Essa complicação começou de Assis Brasil para cá: Passou em Assis, passou em Brasiléia, passou em Xapuri , chegou em Rio Branco e agora está em Boca do Acre (AM). É uma situação complicada, mas todos nós fomos atingidos de alguma forma.  Eu tenho imagens de entregadores despachando mercadoria de barco lá em Boca do Acre…

ac24horas: E a empresa, apesar as filiais atende em todo o Acre?
Zé Carlos:
Atendemos em todo o Acre e parte do Amazonas. Tenho vendedores em Boca do Acre e até em Pauini. Tenho uma equipe que faz entregas em Santa Rosa, todos os municípios. Onde tem demanda, a Frios Vilhena está lá. Nós damos um jeito de mandar de avião, de barco, de caminhão. A gente dá um jeito, só não para a morte.

ac24horas: Como é o Zé Carlos patrão, é uma pessoa acessível?
Zé Carlos:
Meus funcionários, desde as pessoas da limpeza aos meu gerentes, tem acesso a mim. Eles falam comigo na hora que quiserem. Na medida do possível eu tento resolver os problemas, fico ajudando, não sou um cara negativo, de dizer não. O que estiver ao meu alcance eu estou fazendo. Um exemplo disso, em ajudar o próximo, é que eu fui nomeado como representante do Hospital do Câncer de Barretos no Acre. Eu posso tá te atendendo aqui, mas se alguém chegar com algum problema desse tipo, eu paro e dou o devido encaminhamento com a parte administrativa da empresa aqui. É uma doença que judia muito das pessoas e quando vem alguém procurar aqui, eu procuro atender da melhor maneira possível.  É muito sofrido isso.

ac24horas: Como você se tornou o representante do Hospital de Barretos aqui no Acre?
Zé Carlos:
Foi a indicação de um coordenador lá de Rondônia. Esse amigo indicou meu nome, me ligaram e eu disse que podia fazer sim. No ano passado eu não fiz, mas em 2013 nós fizemos um leilão no Parque de Exposições e arrecadamos R$ 365 mil para o Hospital. Vamos fazer um outro leilão agora no dia 6 de setembro. Eu perdi meu pais com câncer, mas isso não foi o primordial para eu abraçar a causa, a questão é ajudar mesmo, fazer o bem ao próximo. Além da gente ser um empresário, de ser arrecadador de impostos, nós também temos que ter o lado humano também. Nessa questão, eu me esforço mesmo para ajudar.

ze_888ac24horas: Zé, com uma visão tão ampla assim para os negócios, acredito que você já tenha tido algumas dores de cabeça também. Teria como destacar algum fato que lhe marcou nessas mais de duas décadas?

Zé Carlos:A gente tem aborrecimento com várias coisas, no dia a dia nosso, afinal de contas trabalhamos com seres humanos e os seres humanos são cheios de falhas, mas eu me considero um cara muito feliz com a minha vida, minha família.[Nesse momento, Zé Carlos fica cabisbaixo ao lembrar do filho que morreu] A única coisa que pesa para mim foi a perca do meu filho mais velho há cinco anos num acidente de carro em Rio Branco. O Keoma tinha 22 anos. O nome foi inspirado num filme de bang-bang que eu gostava de assistir e o nome do artista era Keoma. Eu botei isso na cabeça e falei isso para a minha mãe. Ela disse que eu era doido de escolher um nome feio desse. A minha filha que é a segunda se chama Kenia, um nome da Índia. E também tem o mais novo, o caçula, o João Benedito Castilho Neto, inspirado no meu pai.

ac24horas: Então a questão que mais pesou foi a morte do filho?
Zé Carlos:Sim, com certeza. Eu acho que eu não vou passar por outra dor dessa não. Lembrei do caso do Betão agora. As circunstâncias foram diferentes, mas a perca é igual. A gente não tá preparado para a perca de um filho. É a coisa que mais pesa na minha vida é essa. A gente espera se enterrado por um filho, nunca ao contrário. Eu senti um baque muito grande, passei uma temporada para baixo, mas Deus é muito pai, ele tem o propósito dele. Eu aprendi a conviver com ele (Keoma) e sem ele. Guardo ele no meu coração. [Neste momento, Zé Carlos se levanta da mesa e aponta para um mural com fotos de várias fases de Keoma, da infância a fase adulta]Especial_ze_carlos_rancho

ac24horas: Que é a família hoje para você?
Zé Carlos: A família é a minha base de sobrevivência. Eu consegui uma coisa que poucas pessoas conseguem, minha família mora toda comigo, filhos, genro e nora. Moramos no meu Rancho batizado com o nome do meu pai, Rancho João Carreiro. Moramos no mesmo local, mas em casas separadas. Cada um tem a sua. E o legal de tudo isso é que sempre almoçamos e jantamos juntos. Somos muitos unidos e agradeço a Deus por isso. O meu genroFabrizio foi um filho que eu ganhei, cara inteligente, bacana e trabalhador. Eu me considero um pai e vô presente. Os meus dois filhos homens sempre gostaram do que eu gosto, de cavalo, gostavam de laçar, sempre me acompanhava nas competições de laço desde pequeno. A minha filha Kenia também participava da prova dos tambores. Eu tive o prazer de certa vez ganhar a prova de laço no profissional e meus filhos ganharem o troféu no amador. Foi um privilégio. Parece uma besteira, mas para quem gosta, é um orgulho só.
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ac24horas: Com esse negócio crescendo, você não precisou se reciclar, estudar?
Zé Carlos: Eu não terminei nem a oitava série. Eu sou vivo pela minha experiência, por comprar e vender, como eu já te disse. Eu fiz alguns cursinhos, mas nada demais. Quando a minha esposa fazia a faculdade de administração de empresas era eu que ajudava ela fazer os trabalhos do curso, não por ter estudado, mas sim pelo conhecimento adquirido. Eu sempre falo para os meus, que não troco a minha faculdade da vida pela a de vocês não.  Eu sempre fui muito bom em matemática na escola, era a matéria que eu mais gostava, as melhores notas era matemática e atéhoje eu uso bastante a minha cabeça para fazer conta.

ac24horas: Com essa lucidez para os negócios, você tem total controle da tua empresa, você centraliza as coisa para si?
Zé Carlos:
Na verdade eu tenho muitas informações através de um programa que custou R$ 40 mil no ano de 2006. Um programa bem completo, um dos mais usados no Brasil hoje nesse nosso ramo. Então, eu tenho informações das minhas filiais diariamente, na hora que quiser. Apesar dos problemas com internet que teve na região de Brasiléia por causa da alagação, eu sempre tenho me informado. Eu tenho o Fabrizio, meu genro, que é meu gerente também. Ele é o meu braço direito, e me ajuda muito. Eu tenho vários gerentes que me auxiliam. Eu preciso dessas pessoas, eu sozinho não conseguiria dar conta disso tudo aqui não. Essa equipe é responsável por filtrar essas demandas para mim, me auxiliando sempre.

ac24horas: E a tua rotina?
Zé Carlos: Eu moro numa chácara na estrada do Quinari já fazem uns 20 anos, mas se você chegar lá em casa às 6h da manhã é bem provável que você não em encontre mais. Com certeza eu já estou aqui na empresa. Gosto de vir para cá cedo, não tenho horário para sair daqui não. Também não paro aqui, eu resolvo muitas coisas fora da empresa.  A empresa é pequena…

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ac24horas: Uma empresa pequena de 300 funcionários?
Zé Carlos: Eu sempre digo que a minha empresa é a maior da rua [Risos].

ac24horas: Você trabalha só com a Aurora?
Zé Carlos:
De frios e embutidos eu trabalho só a com a Aurora, mas eu trabalho com iogurtesda indútria Vigor, leite e derivados da Piracanjuba. Nós temos cerca de 2 mil itens variados para distribuição, desde biscoito, energético, farinha de mandioca, ração para cães e gatos. Se eu pudesse vender só frios, eu venderia só isso. Frios é fácil de vender, mas como estamos numa região pequena, nós temos que ter um portifólio, uma maior variedades de produtos para ter um faturamento maior

ac24horas: Você deve ter outros tipos de negócios ou não?
Zé Carlos:
Eu tenho uma fazenda chamada Dona Jandira, em homenagem a minha mãe. É uma fazenda pequena, faz mais de 20 dias que eu não vou lá por causa da correria, porque meu negócio mesmo é a empresa. Lá (a fazenda) é mais para gastar dinheiro. Tem pessoas que conseguem viver de fazenda, o fazendeiro de fato, no caso eu não sou fazendeiro, tenho uma cabeças de gado, gosto de cavalo, até hoje participo de provas de laço.

ac24horas: Hoje a fazenda é mais para lazer?
Zé Carlos:
Eu não acho. É um pequeno negócio. Se paga, consegue se manter, mas sempre tem que ter uma ajudinha dos Frios Vilhena [Risos]. Esse negócio de lucro é relativo. Eu tenho umas carretas, mas elas não me dão lucro. Ela só transporta para mim. Teve uma época que eu tinha muitos caminhões e resolvi me livrar, vendi todos e depois resolvi comprar de novo. Aqui na nossa região, é muito complicada por não ter retorno para os caminhões. O cara traz a carreta cheia de mercadoria, mas retorna com ela vazia, ou seja, duas viagens e só uma carga, e por isso não compensa. As vezes é mais vantajoso eu mandar um caminhão daqui a Santa Catarina pegar os produtos Aurora, do que pagar frete para trazerem para mim. Mas mesmo com os meus caminhões rodando, ainda tenho a necessidade de fazer frete, a demanda é grande.especial_ze_carlos_fszenda

ac24horas: Você se considera um estrategista, você pensa muito antes de tomar uma decisão?
Zé Carlos: Eu penso muito, mas em algumas coisas a gente faz loucuras. Um coisa minha, que resolvi investir contrariando muita gente foi em Brasiléia, a abertura do Atacarejo lá que me custou inicialmente cerca de R$ 6 milhões. Montei uma loja muito moderna lá que as pessoas dizem que ela poderia está aqui em Rio Branco por ter mais gente, mas eu lembrei que na capital tem mais gente, mais consumidores, mas a concorrência também é muito grande. Eu tinha que ampliar a minha estrutura em Brasiléia, então eu aproveitei fiz logo um negócio grande, bonito e moderno. É uma experiência, sé dé certo, eu posso trazer aqui para Rio Branco ou levar para outro lugar. Brasiléia foi um negócio audacioso. Hoje, eu estou satisfeito, mas inicialmente eu fiquei meio preocupado, não fiz estudo, foi coisa da minha cabeça mesmo. Comprei o terreno e resolvi construir ali e não troquei ideia com pessoas do ramo não. Acho que pensaram que eu era um louco, mas de inicio ninguém tinha essa visão moderna do negócio, de que seria grande e que daria certo. Graças Deus, estamos lá, gerando emprego e renda. Quando você vê a cara de felicidade dos funcionários de trabalharem em um lugar moderno, que abre portas, isso é muito bom. É um prédio construído com o que tem mais de moderno na engenharia, com captação da água da chuva, um sistema de fossa química, que faz o tratamento adequado do liquido que vai para o esgoto. Nós temos também um sistema de iluminação artificial na loja durante o dia, que é muito moderno e chegou recentemente no Brasil.

ac24horas: Você tem alguma arrependimento, Zé Carlos?
Zé Carlos:
Não. Não tenho arrependimento algum. As coisas que eu fiz na minha vida são coisas boas. Posso até ter errado algumas coisas, mas sem maldade, sem intenção. Eu sempre procuro fazer as coisas que tem uma base, não podemos ficar atirando para todo o lado. Eu acho que vim para o Acre na época certa. Eu adotei o Acre como o meu Estado, eu gosto daqui. Tenho meus parentes em São Paulo, mas aqui no Acre eu só tenho uma irmã. A cada dois ou três anos eu pego umas férias e dou uma viajada…na primeira semana eu passo bem tranquilo, mas na segunda me dá uma vontade voltar, não consigo ficar muito tempo longe.

ac24horas: Você já passou por alguma situação perigosa, de correr o risco de quebrar?}
Zé Carlos:
São poucas as empresas nesse ramo do comércio que não passam por aperto financeiro. A gente vende muito a prazo e geralmente alguns clientes não tem grande compromisso de pagar no prazo. Hoje tem dinheiro sobrando na conta, amanhã fica apertado, a conta fica estourada, mas já tive uns prejuízos muito grandes em governos anteriores. Eu nunca vendi direto para o governo, mas indiretamente eu atendia sim esse pessoal que a gente chama de pasteiro, né? O cara faz a cotação de produtos e ganha lá a licitação. Ai o cara dizia para mim que ganhou uma concorrência de 15 mil quilos de charque. Ai resolvi repassar a mercadoria para o cara na intenção de receber quando ele recebesse do governo. Isso dava um rolo, tinha vez que o cara dizia que não recebeu do governo e tinha dia que o governo falava que o cara tinha pago o rapaz. O fato é que eu não recebia, e quando recebia, demorava demais.

ac24horas: Hoje você tem negócios com o atual governo?
Zé Carlos:
Hoje não. Não vendo. Aquele pessoal aventureiro não compra mais da gente, eles compram direto da indústria.

ac24horas: E por falar em governo, como é o Zé Carlos, tem amigos político, é partidário, aonde você se localiza no jogo do poder?
Zé Carlos:
Eu não tenho partido. As vezes eu falo para os meu amigos políticos assim: você faz a política e eu toco a minha empresa.[Risos] Eu nunca tive queda por politica. Já tive até convite para me filiar num partido , mas deixa pra lá, eu não pretendo, nem se o cara me garantir que eu estou eleito, mas eu não quero. Meu lado é comércio, eu amo, eu gosto, só me vejo dentro do comércio. Não me vejo mexendo com outra coisa, nem com fazenda. Eu acho que cada um tem que está na sua. Você pode ver que é muito difícil conciliar em ser comerciante e político, são coisas diferentes, mas eu tenho um bom relacionamento. Eu acho que nós empresários nunca tivemos uma relação tão próxima com o governo como temos hoje.

Ac24horas: Porque você exalta esse relacionamento tão próximo?
Zé Carlos:Até uns anos atrás, a gente(empresários) era visto como um sonegador de impostos. Na realidade, há muitos anos atrás, isso parou. Aquelas pessoas que trabalhavam sonegando, onde a sonegação era maior que o lucro. Aquela pessoa que vendia com base no imposto ficava fora do mercado. Só que esses que sonegavam, infelizmente ou felizmente, eles não estão mais no mercado. Quando o negócio foi apertando, eles foram ficando fora do mercado. O fato é que eu só compro tudo na nota fiscal para não correr risco algum.ze4b

ac24horas: Você tem alguma relação com atual governador?
Zé Carlos: Tenho sim. Nesses momentos difíceis com alagação do rio Acre e rio Madeira, ele (governador Sebastião Viana) foi muito parceiro da gente. A gente se reunia duas vezes por semana para encontrar uma saída para a situação. Agora novamente ele tá apoiando todo mundo, apoiando as empresas. Tenho um relacionamento muito bom tanto com o governo quanto com os deputados. As coisas hoje são bem diferentes do passado . Hoje tem muito o que ser feito, mas estão fazendo aos poucos. Sempre eu ouço da boca do governador é que ele quer o Estado tendo sua própria vida, que não dependa apenas do governo. E nisso ai estamos crescendo na indústria e em vários setores.  Agora temos o projeto do peixe, temos a Acre Aves, a Dom Porquito e outras empresas que estão crescendo.

ac24horas: Você chegou a entrar no negócio do Peixes da Amazônia?
Zé Carlos:
Eu não entrei não. Fui apenas convidado. Eu disse para eles que produzissem o peixe que eu vou ajudar a vender. É um negócio muito bom.

ac24horas: Como você vê o Acre daqui alguns anos?
Zé Carlos:
Eu vejo como o Estado do futuro. Nós temos tudo aqui, clima bom, chove pra caramba, nós temos terras boas… então não tem como o Acre não crescer. É só da oportunidade que ele vai embora. Falta o pessoal acreditar mais na produção de grãos, hoje a gente foca muito na pecuária. Nós temos muitas chances, o que plantar aqui no Acre produz. Se plantar soja, é uma excelente produção, milho nem se fala. Os empresários estão vindo aos poucos. O pessoal daqui tá começando a se interessar pelas novas oportunidades. No Brasil, por exemplo, não existe uma produção de bovinos com melhor qualidade do que no Acre. Aqui já existe experiência de o fazendeiro criar 6 cabeças de gado em 1 hectare de terra, enquanto a média é um 1 gado e meio pelo mesmo tamanho de terra. São essas coisas que nos deixam animado com o futuro.

ac24horas: Como é a relação dos empresários do seu ramo aqui no Acre?
Zé Carlos:Eu já presidi a Associação dos Distribuidores e Atacadistas do Acre Presidente (Adacre), cujo o atual presidente é o Pedro Neves, da Eco Acre. O nosso relacionamento é muito bom, poderia ser melhor. Como a gente é muito ocupado, falta passar alguns tipos de informações, minhas para eles, deles para mim, até para nos ajudarmos. Infelizmente esse ramo aqui exige muito da gente. Ou você tá dentro, focado, ou você tá fora. Mas existe uma boa relação sim, bons colegas. Existe as briguinhas lá no comércio, onde os nossos vendedores querem vender mais do que os outros, mas aqui, entre a gente, é tudo na paz. É uma classe unida, mas poderia ser melhor.

ac24horas: Como você ver o empresariado no Acre?
Zé Carlos:Nós somos uns guerreiros, nossa carga tributária é enorme. Sobreviver nesse meio não é fácil. Quanto mais aumenta a tributação, maisdiminui o nosso lucro. Eu sempre falo: Antes quando a gente ia comprar um carro a gente não pensava muito comprava. Hoje só para comprar os pneus dos carros a gente tem que se planejar muito.  Hoje é tudo muito difícil, muitas vezes temos que adiar algumas demandas por causa desse arrocho tributário. Os impostos aumentam cada vez mais e nossa margem de lucro só despenca. Não é fácil ser empresário, tem que ter sangue no olho.

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