Já escrevi antes e, de vez em quando, faço referência a Dietrich Bonhoeffer, teólogo e pastor luterano alemão, executado pelo regime nazista em abril de 1945. Ele não escreveu um livro ou deixou uma obra publicada sobre o assunto, mas entre seus escritos prisioneiros nos legou uma reflexão que atravessa décadas e continentes com perturbadora precisão. Em seu ensaio “Sobre a Estupidez”, Bonhoeffer nos fala de algo sutil e, ao mesmo tempo, devastador. Uma teoria da estupidez, ou, o processo pelo qual homens inteligentes, sob o impacto do poder, perdem gradualmente a capacidade de pensar por si mesmos e destroem tudo ao redor, inclusive a si mesmos, com a consciência absolutamente tranquila. João é um desses homens.

A estupidez não é uma condição permanente, é um fato, uma decorrência. Esse ponto é fundamental para que a análise seja justa e, ao mesmo tempo, implacável. João tem um cargo, uma base e credibilidade dentro de seu campo ideológico. À sua maneira, como diria Bonhoeffer, ele é um homem de certa independência. O problema está no que o poder, a vaidade e o narcisismo fizeram com ele ao longo do tempo, ressalvando que qualquer um pode cometer estupidezes, ninguém está livre disso. Este articulista já as cometeu e penso mesmo que nenhum adulto é virgem nessa seara. Não vai aqui, portanto, um insulto a quem quer que seja, é uma constatação à luz de um pensador alemão.

A decisão de João foi, aos olhos do mundo externo, desconcertante: renunciar à segurança de um cargo conquistado para lançar-se como candidato a um mais elevado numa disputa que não poderia vencer. Mas João não vê dessa forma. E aqui reside o cerne do diagnóstico bonhoefferiano. João acredita, com convicção genuína e inabalável, que vai ganhar. Não é cinismo, nem blefe. É algo muito mais grave, é a crença sincera de um homem cujo mapa mental foi paulatinamente descolado da realidade pelo ecossistema que o cerca. Seus apoiadores o aplaudem, suas redes sociais devolvem apenas ecos de si mesmo. E João, imerso nesse ambiente de validação, simplesmente deixou de ler o mundo como ele é. Passou a lê-lo como precisa que seja.

Bonhoeffer descreveu esse mecanismo com precisão. Fatos que contradizem sua lógica simplesmente não merecem crédito. É exatamente o que acontece com João. Os poucos aliados que o alertam “não entendem o momento”. O histórico eleitoral não se aplica porque “desta vez é diferente”. O isolamento político é interpretado como sinal de que incomoda os poderosos. Cada evidência contrária é absorvida e reprocessada como confirmação. O sistema de crenças de João é fechado, autorreferente e impermeável.

E é precisamente aqui que Bonhoeffer faz sua distinção mais perturbadora: o estúpido é mais perigoso que o malvado. O malvado sabe o que faz. Hesita, às vezes recua, carrega o peso da consciência. No sentido bonhoefferiano, João age honestamente, com consciência plena. Ele avança com a energia e a convicção de quem acredita estar cumprindo um destino. 

O dano a si mesmo, porém, é onde a tragédia atinge seu ponto mais alto. João renuncia a um cargo real por uma vitória imaginária. Perde credibilidade acumulada por anos em nome de uma campanha que o ecossistema ao redor dele infla artificialmente. Sua base política se fragmenta, seu capital simbólico se dissolve. E tudo isso acontece enquanto João sorri, discursa e acredita estar no melhor momento de sua carreira. Cada perda concreta é reinterpretada como investimento. A realidade sangra e João não sente.

Bonhoeffer escreveu que o homem nessa condição foi privado da possibilidade de pensar com autonomia. João não decidiu sua candidatura. Foi decidido por ela. Foi decidido pela adulação de seus seguidores, pela vaidade que o poder alimentou durante anos, por financiadores que têm interesse em sua movimentação independentemente do resultado, pelos herdeiros de seu espólio e até pelo adversário. João acredita que é o sujeito da ação, mas, na verdade, é seu objeto, pensa que escolheu ser candidato para vencer quando foi “escolhido” para perder. Age com liberdade aparente enquanto é inteiramente movido por forças que não controla e mal percebe.

O remédio, para Bonhoeffer, nunca foi externo. A libertação, quando vem, é sempre um ato interior, é a recuperação dolorosa da autonomia do pensamento, a coragem de perguntar a si mesmo: “estou pensando, ou estou sendo pensado?”. Se perguntar ao espelho, seguirá em frente, em direção a uma derrota que não consegue ver, causando danos que não consegue medir, perdendo o que não consegue contabilizar.

No dia da eleição, a realidade fará o trabalho que a razão não pôde fazer. E João, finalmente confrontado com o resultado, provavelmente encontrará uma explicação adequada ao seu narcisismo. Bonhoeffer não nos deixou com uma solução simples. Nos deixou com uma pergunta urgente e desconfortável, válida para João e para qualquer um que observe a cena: “em que medida somos também instrumentos de sistemas que pensam por nós e chamamos isso de convicção?”.


Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, “Arquipélago do Breve”, encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.