Temos no Brasil, todos sabem, um sistema partidário fragmentado e um presidencialismo de coalizão no qual o Centrão ocupa um papel incontornável: é a engrenagem que viabiliza governos e estabiliza maiorias congressuais. Uma espécie de pêndulo movido pelas circunstâncias. Não podemos, contudo, confundir esse poder de sustentação com uma alternativa política — uma verdadeira terceira via. O Centrão não se estrutura como projeto de Estado, apenas opera como mecanismo de poder. Nem sequer tenta alcançar um ideário, somente arbitra interesses, sua força decorre do aluguel da governabilidade, não de uma visão de país. Seus membros são, portanto, exploradores da fragilidade do executivo que nunca obtém sozinho a maioria parlamentar.
Uma terceira via apresentaria um programa coerente, capaz de se contrapor tanto à direita quanto à esquerda com um horizonte próprio de desenvolvimento, inclusão e estabilidade institucional. O Centrão ocupa esse espaço no eleitorado, mas, ao contrário, move-se por pragmatismo, administrando demandas.
A ausência de ideário é a primeira marca. Não há no Centrão um compromisso orgânico com um projeto socioeconômico, ou de reformas estruturais. O que existe é a defesa de pautas fragmentadas, aleatórias, articuladas por bancadas regionais e setoriais. Essa linha conduz a um segundo traço: o fisiologismo. Cargos, emendas e controle de orçamentos tornam-se moedas de troca permanentes. O resultado é uma política orientada pelo curto prazo, pouco permeável a reformas que redistribuam poder, simplifiquem o sistema tributário, racionalizem o Estado ou enfrentem privilégios.
Além disso, o Centrão não se coloca como polo autônomo. Aproxima-se de quem governa, ou seja, independentemente do perfil ideológico governante, ele se habilita a apoiá-lo. Cumpre, assim, uma função de estabilização, mas abdica de apresentar um caminho próprio e, por isso mesmo, como é pendular, enfraquece o governo a que serve ocasionalmente. Por isso não pode ser lido como terceira via: falta-lhe projeto de nação, coerência e uma presença efetiva junto ao eleitorado como interlocutor e portador de um conjunto de ideias.
Visitemos a história recente e essa dinâmica fica confirmada. De Sarney a Lula III, o Centrão está ali, móvel, plástico, se comportando conforme a situação, emprestando a tal governabilidade. Não pensem que essa engrenagem brasileira é criação nossa. A diferença é que em outras democracias multipartidárias, raramente as coisas se apresentam de modo tão fisiológico. Em sistemas parlamentares europeus, partidos centristas frequentemente atuam como pêndulo em coalizões, negociando apoio em troca de ministérios ou políticas setoriais que são anunciadas e implementadas claramente. Ou seja, há um centro programático, ao invés do fisiológico tupiniquim.
Essa engrenagem brasileira produz efeitos políticos e sociais visíveis, mas muitas vezes inconsistentes e de curto prazo. A governabilidade torna-se constante negociação de varejo, sujeita a sobressaltos e acordos de curto prazo. As reformas estruturais ficam em compasso de espera, bloqueadas quando ameaçam alterar o status quo.
Do lado da sociedade, cresce a desconfiança na política, justificada pelos escândalos quase diários e percebida como espaço de trocas, mais sensível ao varejo de interesses do que ao bem comum. Como exemplo, tome-se o caso da anistia dos manifestantes de 08 de janeiro. O Centrão não tentou, efetivamente, pacificar o país enfrentando a fúria punitiva do STF. Com suas demandas atendidas no governo ou no judiciário, parlamentares de todos os matizes cederam ao concerto Lula-STF, enquanto centenas de injustiçados ainda penam em prisões ou exilados.
Para 2026, uma parte desse esse Centrão está se agrupando no PSD do Kassab. Infelizmente, não visa apresentar uma terceira via programática, mas apenas aproveitar uma nesga de viabilidade eleitoral, aberta entre a direita representada por Flávio Bolsonaro e a esquerda representada por Lula da Silva. Pretenderá se dizer “contra o radicalismo”, esse discurso que no Brasil agrada a mídia isentona enquanto o PIX está chegando. A outra parte (PP, UB, PR…) está aguardando saber para que lado sopra o vento, mas, mesmo assim, dificilmente fará um ingresso coeso em qualquer candidatura em virtude das acomodações locais.
Aguardemos ainda alguns meses para sabermos quem levantará a bandeira do “nem um nem outro”. Eduardo Leite, Ratinho Jr. ou Ronaldo Caiado? Não sabemos, mas os três se habilitam a encarar o desafio das próximas eleições apostando na efetividade do discurso “nem Lula, nem Bolsonaro”. Embora o PSD seja governista de altos acordos, a vaga está mais para o opositor Ronaldo Caiado, que não viria para sentar-se no banco de reservas, do que para Eduardo Leite que abraça pautas woke como se fosse PSOLista.
Segundo o próprio Kassab, que sonhava com a adesão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a seu ajuntamento, há um número de eleitores estimado em 1/3 que não estaria com Flávio Bolsonaro nem com Lula da Silva, o que seria suficiente para justificar um “Tertius” no processo. Então, pode-se dizer com toda certeza, que não será desta vez que os centristas darão nascença a um projeto de país, no máximo dividirão a cena política turbinando a si mesmos. Continuemos com a bendita polarização.
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, “Arquipélago do Breve”, encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.














