
Nunca é demais mostrar visões coerentes da realidade e, com isso, ser, talvez, didático, para que mentes abertas possam rever suas convicções muitas vezes adquiridas em leads e leituras rasas, ou, quem sabe, apenas enunciadas por adesão a grupos. Me refiro aos rótulos esquerda-direita e suas subdivisões. Aviso que a negação dos termos é conversa mole de quem não conhece uma nem outra.
No Brasil, a campanha antibolsonarista promovida pelo menos há oito anos pela mídia e sites pré-pagos, fez surgir no debate público uma falsa “extrema-direita” malvadona com o objetivo de empurrar a sociedade para a esquerda. Entretanto, não é difícil demonstrar como realmente são as coisas nesse tema. Sem absoluta rigidez, posto que há variações transversais, podemos dividir o espectro ideológico da sociedade a partir dos seguintes termos:
a) Extrema-direita – Desprezo pelo pluralismo e instituições; ultranacionalismo; busca retornar a um passado idealizado, frequente xenofobia e imposição moral rígida; o Estado deve controlar a sociedade, proteger “os puros” e esmagar opositores.
b) Direita Populista – Atua na democracia, mas questiona o “sistema”, ultraliberal ou protecionista, com foco no “soberanismo” e fechamento de fronteiras; foco no combate ao “progressismo”, moralidade como arma política de mobilização; líderes carismáticos e o uso da máquina pública contra “inimigos internos”.
c) Direita Conservadora – Respeito rigoroso às leis, à Constituição e à ordem estabelecida, rejeita revoluções; pró-mercado; defende a propriedade privada, mas aceita ações estatais para manter a estabilidade social; valoriza a família, religião, ordem e costumes herdados – mudanças devem ser graduais; o estado serve para garantir a segurança, a justiça e a continuidade histórica da nação.
d) Liberal e Libertária – Vê a democracia apenas como uma ferramenta para proteger os direitos e liberdades individuais; defende a desregulamentação total, privatizações, repúdio a impostos e subsídios; o estado não deve se meter na vida privada, costumes são escolhas individuais; estado mínimo, o estado deve apenas garantir contratos, segurança e propriedade.
e) Centro-Direita – respeito pelo pluralismo, diálogo com a oposição e cooperação internacional; economia social de mercado, mas com o estado garantindo uma rede de proteção social; pragmatismo acima da ideologia – aceita o multiculturalismo e adapta-se facilmente a mudanças sociais; estado enxuto, focado em gestão técnica, sustentabilidade e bem-estar social.
Do lado canhoto, digo, à esquerda, também há nuances bastante visíveis:
f) Extrema-Esquerda – Revolucionária, vê a democracia liberal como uma “farsa burguesa”. Defende a ruptura total do sistema; abolição do capitalismo, fim da propriedade privada dos meios de produção. elimina as classes sociais; a moralidade e os costumes burgueses tradicionais são vistos como ferramentas de opressão a serem abolidas; ateísmo de estado, vê a religião como o “ópio do povo” ou uma instituição de controle social que legitima a desigualdade.
g) Esquerda Radical / Identitária – atua no sistema democrático, mas acusa as instituições de serem estruturalmente racistas, machistas e opressoras; defende forte expropriação, taxação extrema de grandes fortunas e estatização de setores chave; a favor da liberação das drogas; foco máximo nas lutas identitárias (raça, gênero, orientação sexual), crítica ao clero tradicional, pode adotar crenças espirituais alternativas ou indígenas.
h) Institucional / Sindical – Fortemente ligada aos sindicatos e movimentos sociais; estado Indutor e Intervencionista; aceita a propriedade privada, mas quer o estado controlando áreas que define como estratégicas (petróleo, energia, bancos etc.); foco na classe; prioriza direitos trabalhistas, moradia e saúde e faz a guerra cultural; Defende aborto, ideologia de gênero, mas tem conexão com alas progressistas da Igreja Católica e Evangélica.
i) Social-Democracia – Defesa da democracia representativa. Acredita em mudar o sistema por dentro, via leis e eleições, rejeitando autoritarismo; aceita que o capitalismo gera riqueza, mas cria desigualdade, deseja o livre mercado altamente regulado; defende liberdades civis, emancipação feminina, igualdade matrimonial e direitos reprodutivos (aborto); vê a religião como um direito fundamental e pessoal.
j) Centro-Esquerda – Foca em governabilidade, buscando alianças com o centro e a centro-direita; apoia o livre mercado, a globalização e até privatizações, políticas de transferência de renda focalizadas (como o Bolsa Família original); pautas morais alinhadas ao progressismo moderno, liberação das drogas, aborto, feminismo etc.; acomoda confortavelmente líderes religiosos em suas fileiras e promove tolerância inter-religiosa e direitos humanos.
Desenhando, pode-se representar da seguinte forma:

Assim explicado, como é cabível neste espaço, fica fácil entender que no Brasil NÃO EXISTE extrema-direita relevante e, mais, que o Bolsonarismo está mais longe dela do que o Lulopetismo está da extrema-esquerda, a não ser que o observador distorça a “Janela de Overton” (leiam a respeito) e enxergue o mundo só até a letra C, como abaixo.

Com essa visão estreita, normalmente utilizada por formadores de militantes nas universidades, nos sindicatos, na mídia e nos meios culturais, tudo que estiver à direita de D é extrema-direita, o que só atesta a ignorância ou má-fé do declarante.
E o centro, ele existe? Sim. Ele existe na sociedade, o que não existe é um centro representado no parlamento brasileiro. Aquilo que chamamos de Centrão, não é o centro acima representado pelas letras I, J, E e D. O que se forma naquele ajuntamento do Congresso Nacional é um centro desideologizado de interesses, um mercado de votos, movido a emendas parlamentares, cargos e favores do Estado. O centro não tem um projeto para o Brasil, não é uma terceira via, não persegue pautas legítimas, se esconde do debate e opera no subterrâneo do poder em busca de projetos pessoais, entre eles o enriquecimento ilícito, poder de nomeação e prestígio pessoal e familiar.
Sendo assim, essa faixa da população – o centro, que em número é tão importante quanto a esquerda ou a direita propriamente dita, fica órfã de representação e se move de modo pendular nas eleições, atraída por eventos ou discursos que pareçam consistentes. O mais recente é usar o farisaísmo de “nem um, nem outro”, para esconder suas vergonhas. Essa corrida para o centro é mero oportunismo.
Agora que a direita emergiu, os fariseus a atacam como responsável pela polarização que, aliás, é resultante e não vetor da radicalização. Estejamos, portanto, precavidos contra aqueles que em sua verborreia militante adotam a postura neutra, para inculparem a direita e obterem o falso diploma de bom mocismo. Em momentos de decisão, a neutralidade é cúmplice do mal.
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, “Arquipélago do Breve”, encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.