O médico e apresentador Dr. Fabrício Lemos recebeu, no programa Médico 24 Horas, exibido nesta segunda-feira (19) na capa do ac24horas.com e nas redes sociais oficiais do jornal, o médico infectologista Alan Areal, em uma entrevista extensa e técnica voltada aos principais desafios da infectologia na Amazônia, com ênfase especial nas hepatites virais B e Delta, doenças endêmicas e de alto impacto na saúde pública do Acre.
Com 22 anos de atuação médica no estado e quase 15 dedicados à infectologia, Alan Areal destacou sua trajetória profissional ligada à assistência, à pesquisa científica e à gestão médica. Atualmente doutorando pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Areal explicou que sua pesquisa de doutorado aprofunda estudos iniciados no mestrado, realizado na Universidade de Brasília (UnB), sobre hepatite B e hepatite Delta, consideradas entre as formas mais agressivas da doença no mundo quando associadas.

Foto: Iago Nascimento/ac24horas
Durante a entrevista, o infectologista explicou de forma didática as diferenças entre as hepatites. Ele ressaltou que a hepatite Delta não existe sem a hepatite B, sendo considerada uma complicação grave. “O vírus Delta depende do envelope do vírus B para completar seu ciclo. Por isso, quem está imunizado contra a hepatite B automaticamente está protegido contra a Delta”, explicou. Segundo Areal, a forma Delta é mais agressiva, com maior risco de cirrose, câncer de fígado e necessidade de transplante hepático.
A realidade amazônica, especialmente em áreas rurais e ribeirinhas, agrava o cenário. “Ainda temos uma cobertura vacinal baixa na zona rural. A maioria dos meus pacientes é de áreas não urbanas, ribeirinhos e moradores de ramais. Sena Madureira, por exemplo, tem uma característica única, é banhada por quatro rios, o que historicamente contribuiu para a disseminação da doença”, relatou. Ele lembrou episódios históricos como a chamada “febre negra de Lábrea”, quando famílias inteiras morriam em poucos dias sem sequer terem diagnóstico.
Alan Areal alertou que Sena Madureira e Cruzeiro do Sul concentram as maiores incidências de hepatite B e Delta no Acre. “Nossa pesquisa mostrou que a hepatite Delta da Amazônia Ocidental é uma das mais agressivas do mundo”, afirmou. Um dos exemplos citados foi o acompanhamento de uma criança de sete anos com carga viral extremamente elevada. “É um vírus com capacidade de replicação gigantesca”, disse.

Foto: Iago Nascimento/ac24horas
Sobre tratamento, o infectologista explicou que, para hepatite B, os antivirais mais utilizados são tenofovir e entecavir, geralmente de uso prolongado. Já para a hepatite Delta, as opções ainda são limitadas no Brasil. “O tratamento disponível pelo Ministério da Saúde é o interferon peguilado, que tem muitos efeitos colaterais e resultados ainda insatisfatórios. Existem antivirais mais modernos em uso na Europa e nos Estados Unidos, mas ainda não disponíveis aqui”, explicou. Apesar disso, Areal destacou histórias de sucesso, como a de um paciente jovem de Sena Madureira que, após mais de dez anos de acompanhamento, conseguiu realizar um transplante hepático. “É uma vida inteira de cuidado até chegar a esse momento. Quando dá certo, é muito gratificante”, relatou.
Além do aspecto clínico, a entrevista abordou o papel institucional do médico no Conselho Regional de Medicina do Acre (CRM-AC), onde Alan Areal atua há quase uma década na diretoria, atualmente como primeiro secretário. Ele reforçou que os cargos são honoríficos e exigem grande dedicação. “Não há salário. É uma honra representar os médicos acrianos e, principalmente, cuidar da sociedade. Um conselho forte protege melhor a população”, afirmou.

Foto: Iago Nascimento/ac24horas
Areal também destacou a importância da fiscalização médica no interior do estado e da integração entre instituições. “O papel judicante e fiscalizador do CRM é fundamental para garantir uma medicina de qualidade, com ética, humanização e segurança ao paciente”, disse. Segundo ele, a infectologia ganha ainda mais relevância com o início do inverno amazônico, período marcado por aumento de doenças infecciosas relacionadas a enchentes, água contaminada e precariedade sanitária. “Medicina não é só tratamento, é prevenção e informação”, reforçou.
Ao final, o infectologista defendeu a valorização dos profissionais de saúde e a permanência de médicos especialistas no Acre. “Precisamos formar especialistas, mas também criar condições para que eles permaneçam aqui. Minha pesquisa é feita no Acre, com pacientes do Acre, porque é aqui que está o desafio e é aqui que precisamos avançar”, concluiu.
Veja a entrevista na íntegra:


















