As manifestações populares em frente aos nossos quartéis militares alimentaram o golpismo
Os advogados do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos demais acusados de terem participado das diversas tentativas de golpe de Estado, não mais estão discutindo se houve ou não as tais tentativas, mas sim, o grau de participação dos seus clientes.
Nem mesmo a exposição feita pelo general Augusto Heleno na condição de ministro chefe do gabinete de segurança institucional, numa reunião ministerial comandada pelo então presidente Jair Bolsonaro, bastou para revelar que as tentativas golpistas, de fato, existiam. Vejamos o que o dito cujo sugeriu: “se tiver que virar a mesa é antes das eleições”. Esta declaração, nada democrática, foi feita no mês de julho de 2022, alguns meses antes das eleições presidenciais.
A primeira demonstração tornada pública e que o golpe estava em curso, materializou-se quando os seus planejadores conseguiram manter as manifestações populares em frente aos quartéis militares das nossas forças armadas, sobretudo, no mais simbólico deles, o quartel-general de Brasília. Não por coincidência, e sim de caso pensado, a multidão que invadiu e depredaram as sedes dos nossos três poderes partiu exatamente das vizinhanças do referido quartel.
Logicamente, nem todos àqueles que participaram das invasões de 08/01/2023 devem ser igualmente responsabilizados, até porque, muitos deles sequer sabiam quais as verdadeiras intenções dos golpistas, algo bastante comum nos chamados crimes de multidão. A estes, tanto a anistia quanto a minoração de suas punições, seriam aceitáveis, mas dado a natureza do crime, aos seus organizadores, influenciadores e financiadores, todos os rigores da lei.
Daí a pergunta que não pode calar: caso o então presidente Jair Bolsonaro, enquanto comandante em chefe das nossas forças armadas, houvesse proibido as manifestações populares nas vizinhanças dos nossos quartéis as mesmas teriam se arrastado por tanto tempo?
Alegar que o ex-presidente Jair Bolsonaro não sabia e que nunca se envolveu com o golpe em debate de Estado, é sim, um desafio aparentemente inatingível para os advogados que buscam defendê-lo. Portanto, nada contra as teses levantadas pelos seus advogados, afinal de contas, em toda e qualquer sociedade democrática que se preze, o direito de defesa é um dos mais legítimos, ainda quando comparado com todos os demais direitos.
Como discordo, em número, gênero e grau, do radicalismo político que tomou conta do nosso país, só espero uma coisa: que as punições aos golpistas sejam proporcionais aos seus crimes.