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‘Messias negro’, maconha e poligamia: como é a religião de Bob Marley

O músico jamaicano Bob Marley, em foto de 1976 Imagem: AFP PHOTO
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O filme “Bob Marley: One Love” narra a história da lenda do reggae e também traz à tona o rastafári, religião seguida pelo cantor, e influencia até hoje muito do gênero musical jamaicano. O rastafári tem origem jamaicana, mas com influências africanas (especificamente da Etiópia) e cristãs.


Origens do rastafári

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A religião rastafári foi fundada na década de 1930 como parte de uma profecia do ativista Marcus Garvey. Participante do movimento negro dos EUA e da Jamaica, ele profetizou, segundo a crença: “Olhem para a África! Quando um rei negro for coroado, o dia do livramento está próximo”.


Nesta época, Ras Tafari Makonnen (Ras significa príncipe; daí vem o nome rastafári) se torna imperador da Etiópia —país africano que não foi colonizado. Ele escolheu o nome de Haile Selassie 1º e foi nomeado pela Igreja Ortodoxa Etíope como “Rei dos Reis, Senhor dos Senhores e Conquistador da Tribo de Judá” —títulos esperados de um salvador.


O jamaicano Leonard Howell é considerado o fundador da religião, ao fazer essa conexão da profecia de Marcus Garvey com a coroação de Haile Selassie 1º, na Etiópia. O imperador passa a ser considerado Jah, o Deus encarnado. Howell cria a primeira comunidade rastafári de que se tem notícia, onde as pessoas são autossuficientes e evitam o contato com a “Babilônia” (sociedade capitalista).


A religião virou uma forma de resistência, libertação do colonialismo e de volta à África na Jamaica. Alguns seguidores, inclusive, preferem chamar o rastafári não de religião, mas de um estilo de vida. A Jamaica foi um país colonizado pela Coroa Britânica, em que a maioria da população negra era escravizada e dominada por uma minoria branca.


A base é crer que Haile Selassie é realmente o Messias negro e que veio salvar a população africana da diáspora da opressão, daquilo que eles chamam de Babilônia. Para eles, a Babilônia representa um símbolo da cultura capitalista, escravagista e que se acha superior. Debora Pamplona, professora da UFC (Universidade Federal do Ceará) e autora de tese de doutorado sobre a religião rastafári


Selassie convidou jamaicanos a retornar para o continente e viver na Etiópia, considerada Sião, a terra prometida para os rastafáris. Em vida, o imperador chegou a doar terrenos para que rastafáris lá vivessem. Apesar disso, ele negou ser Deus encarnado em entrevistas.


A religião rastafári não é centralizada. Há fiéis mais conservadores que vivem em comunidades autossuficientes, que plantam aquilo que comem, e outros, mais liberais, que apenas seguem de forma individual, evitando os perigos da Babilônia. Haile Selassie dizia que a “fé é privada” e que não deveria ter intermediários.


Em comum, os seguidores da religião buscam uma conexão com a natureza (evitando uso de itens artificiais e priorizando a alimentação natural), consomem maconha (como forma de elevação espiritual e tratamento de enfermidades) e rejeitam a Babilônia.


Em algumas comunidades é comum que haja poligamia (Bob Marley teve 12 filhos com diferentes parceiras). Também há membros que não cortam o cabelo e até locais em que as mulheres menstruadas ficam separadas dos homens —isso ocorre por uma interpretação do Antigo Testamento que diz que “quando uma mulher tiver o fluxo de sangue da menstruação, ficará impura por sete dias, e quem nela tocar ficará impuro até o entardecer”.


Os dreadlocks são uma característica de boa parte do movimento. O uso do cabelo e barbas grandes, sem cortar e muitas vezes sem pentear, é também inspirado no Antigo Testamento e uma forma de resistência cultural.

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Outra característica da filosofia rastafári é recorrer ao que a terra oferece para curar. “Eles se curam com chás, com a ganja. Não precisam de coisas da Babilônia”, explica Debora.


Apesar da importância para a Jamaica, a religião rastafári é seguida por 1,1% da população. A maioria da população (cerca de 65%) é protestante.


E o reggae? E Bob Marley?


Rastafáris desenvolveram um ritmo próprio chamado Nyabinghi. Ele é tocado em vigílias com diversos tambores. Nessa celebração, são feitas orações e há o consumo de ganja (a maconha).


O reggae é um gênero totalmente baseado no toque Nyabinghi. O que o Bob Marley fez foi colocar guitarra, baixo e outros elementos. E as músicas falam justamente das crenças rastafári, como a crítica à Babilônia e menções a Jah.
_Debora Pamplona


Bob Marley acabou sendo o maior ícone da religião rastafári. Também foi o grande propagador da religião por meio da sua música e vida.


Morte de Bob Marley


O cantor foi diagnosticado com melanoma (câncer de pele) no dedão do pé enquanto estava no Reino Unido. O caso era grave a ponto de o médico ter sugerido a amputação do membro para que não se espalhasse pelo corpo. Ele tinha um melanoma acral, um câncer de pele que não é causado por exposição ao sol e com maior incidência na população negra.


A amputação é para ter uma margem de segurança, pois esse é um melanoma extremamente agressivo e que se dissemina rapidamente pelo corpo. Mesmo hoje em dia, a recomendação seria essa, pois nem com a evolução da ciência seria possível tratar apenas com radioterapia ou quimioterapia.
_Veridiana Camargo, oncologista do hospital Beneficência Portuguesa.


Ele se recusou a fazer o procedimento e recorreu a terapias alternativas. Diferentes fontes dizem que ele não quis amputar por questões religiosas, enquanto outras dizem que Bob estava com medo de que comprometesse seu desempenho nos palcos e o impedisse de jogar futebol. Ele chegou a se submeter à radioterapia, mas sem sucesso, e morreu em maio de 1981, aos 36 anos.


Fonte: UOL – SPLASH


 


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