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O astrólogo!

Foto: reprodução
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Apesar da religião em que foi criado proibir consulta aos mortos, cartomantes, ciganas, búzios, runas, baralhos e astros, quando se deu por gente Samuel Araújo estava lendo horóscopo de jornal.


Primeiro por curiosidade, depois foi percebendo acasos flagrantes na arte babilônica de ler e interpretar os astros dadas as coincidências de sua personalidade com as características do seu signo. A descoberta foi incrível. Pisciano do primeiro decanato.


Criou o gosto pelo pecado de saber o oráculo. Nascia uma neurose. Deus o estava vendo, era proibido, tinha vergonha de si como Adão e Eva nus no Paraíso. Por isso mesmo lia escondido para que ninguém percebesse. Deus o via, o diabo também. Era um inferno, mas a busca por conhecimentos ocultos o instigava e o atraía como um vício.


Estava tudo lá. Amor, dinheiro, saúde e coisas ruins também. Chegou ao ponto de não iniciar o dia se não lesse o horóscopo do jornal A Gazeta. Passou anos consultando o que os astros diziam sobre o que deveria ou não fazer naquele dia. Quando algo dava errado, lembrava que não havia consultado religiosamente o seu horóscopo. Ficava de mau humor, alguma coisa lhe faltava.


Os astros não revelaram, mas a vida conduziu Samuel para ser repórter justamente do jornal A Gazeta. Se bem que o horóscopo dizia que ele poderia ser artista, escritor, pintor, músico e escultor – como escultor, a única coisa que sabia fazer era bolota de barro para atirar de baladeira quando menino -; a voz de taquara rachada nunca faria dele um músico, porém, gostava de ler e escrever (poderia ser um sinal). Sobre ser artista ainda andou fazendo um curso de teatro com o professor Gregório da Ufac, em sua primeira estadia no Acre, na década de 70, a convite do saudoso professor Antônio Dourado, escritor e poeta, cachaceiro dos bons, uma alma livre das amarras dos mundo capitalista.


Na verdade, o primeiro contato de Samuel com a ciência babilônica aconteceu quando ele, por volta de 1979, aos 17 anos, foi estudar em um colégio interno em Iguape, Vale do Ribeira (SP). Fez amizade com uma família que possuía um grau de parentesco com um famoso astrólogo da capital paulista chamado Olavo de Carvalho, o agoureiro dos céus, que depois virou filósofo, anticomunista e guru do ex-presidente Bolsonaro e seus séquitos.


O pai do astrólogo Olavo de Carvalho possuía um sítio onde Samuel frequentava quando o Dr. Olavo descia ao Vale. O jovem estudante ouvia de boca aberta um monte de baboseiras que achava ser o máximo para quem acabara de sair de um mundo religioso fechado para a amplitude do conhecimento das estrelas.


Até ganhou uns folhetos sobre astrologia que passou a ser o seu manual durante algum tempo. O horóscopo da revista “Capricho”, também. Depois abandonou, era como um amuleto das trevas em sua mente neurótica. Deus estava vendo, o diabo também. Se sentia perseguido. Horóscopo era proibido por Deus.


Anos depois, quando começou a trabalhar como foca no jornal A Gazeta, a curiosidade para saber quem escrevia o horóscopo lido todos os dias por ele e outras milhares de pessoas o atiçava. Queria saber quem era o guru, o mestre, o sábio na arte surgida a milhares de anos. Tímido e acanhado não queria perguntar. Tinha vergonha de Deus e dos homens. Até porque ouviu dizer que só gente atoa e sem miolo lê horóscopo de jornal. Mas, por quê?


Sua curiosidade foi saciada no dia em que o editor-chefe o mandou cuidar do horóscopo do jornal que estaria nas bancas no dia seguinte. Como? Fazer o horóscopo? O que aprendera com o astrólogo e professor Olavo de Carvalho não era suficiente para entender os astros.


Outra preocupação adicional: iria mexer com o mundo das trevas, o que era proibido por Deus. E agora, o que fazer? Não iria perder o emprego. Timidamente Samuel aproximou-se de uma colega que parecia bastante confiável para pedir ajuda.


_ Por gentileza, você pode me ajudar. É que o editor-chefe pediu para que eu cuidasse do horóscopo, mas não sei como fazer, não sou versado nesta importante ciência babilônica e a responsabilidade é muito grande. Afinal de contas, milhares de pessoas vão orientar suas vidas pelas informações contidas no horóscopo do jornal.


A colega, que leva o nome da musa de Dom Quixote, riu docemente com pena de Samuel e lhe disse quebrando todo o encanto e fé que ele tinha em horóscopo:


_ Não colega, você não vai ler os astros não. Vá ali no arquivo e pegue um jornal de seis meses atrás e repita o horóscopo porque é tudo a mesma coisa. Pegue qualquer um, aqui não tem astrólogo não. Samuel caiu em um abismo de silêncio. Gaguejou baixinho um muito obrigado. Foi ao arquivo e pegou um jornal velho e fez o recorte com tesoura, o Ctrl “C” e Ctrl “V” dos dias das Olivettis.


Encerrado o expediente ele foi para casa mudo e cabisbaixo. Tomou banho e jantou sem dar uma palavra. Foi para o quarto, cobriu pés e cabeça, não conseguiu dormir. De repente explodiu em gargalhadas rindo de si mesmo, da sua ignorância e neurose. Chegaram a pensar que tinha endoidecido tal era as gargalhadas de um louco. No dia seguinte, na redação, pegou o jornal e foi ler o horóscopo lembrando do profeta Elias que disse:


_ Cansaste-te na multidão dos teus conselhos; levantem-se, pois, agora os agoureiros dos céus, os que contemplavam os astros, os prognosticadores das luas novas, e salvem-te do que há de vir sobre ti. (Isaías 47:13)


Naquela manhã Deus e o diabo observavam Samuel…