Romária Pessoa hoje faz sucesso com seus bolos, brigadeiros, tortas, copos e taças da felicidade, cookies, brownies e pudins, mas essa história nem sempre foi cheia de açúcar refinado e chocolate assim.

 

A hoje doceira já trabalhou em loja de roupas, seguradora de veículos e em restaurantes por várias oportunidades. O primeiro emprego no Acre foi como auxiliar de cozinha na antiga Churrascaria Rio Branco, localizada Avenida Getúlio Vargas, anexa à sede do Estrelão. Na época com 16 anos, ela conta que foi nesse período que surgiu o desejo de trabalhar com gastronomia.

 

Depois da churrascaria Romária trabalhou em uma transportadora, em outro restaurante e em um supermercado, mas ainda faltava alguma coisa. Em 2012, já em Rondônia, ela foi gerente de uma loja de roupas por alguns meses e conseguiu economizar dinheiro para voltar ao Acre, onde abriu o primeiro restaurante no ano de 2014. O Sabores Diferentes funcionava na região da Baixada do Sol, onde ela empregou a família e mais três funcionários durante quatro anos.

 

Mas como nem tudo são flores, um assalto fez Romária desistir do negócio e repensar a ideia de voltar à Porto Velho. Em junho de 2018 ela vendeu tudo que tinha no Acre e se mudou de vez para a capital rondoniense, para onde também trouxe o restaurante de tempero acreano, que acabou não funcionando por muito tempo.

 

O golpe

 

Com o fechamento definitivo do Sabores Diferentes, Romária precisou vender os utensílios e maquinário do restaurante. Um conhecido da família se interessou e ela resolveu fechar o negócio, mas o que parecia ser uma solução acabou virando um pesadelo.

 

A doceira e o esposo sofreram um golpe de mais de R$ 60 mil. O “amigo” da família que comprou os equipamentos do restaurante repassou um cheque sem fundo e no início de 2019 eles estavam sem o dinheiro e todo material adquirido para tocar o negócio. O valor nunca foi recuperado pelo casal.

 

Da ideia de uma amiga, de aproveitar a onda dos bolos de pote, Romária começou a produzir a guloseima e vender de maneira ambulante. Eram cerca de 40 potinhos comercializados todos os dias. Lojas, postos de gasolina e outros tipos de comércio eram os mais visitados por ela e o marido, mas o preparo e o desgaste das vendas porta a porta acabaram por fazer Romária desistir e, de novo, ela deixou a gastronomia.

 

“Eu comecei a trabalhar em uma seguradora de veículos. Tinha um salário fixo, cumpria meu horário e ia pra casa. Ainda não era k que eu queria, mas me dava a estabilidade que eu precisava naquele momento para me reerguer”, afirmou.

 

 

Mas a fama do bolo continuava

 

Ainda trabalhando na seguradora, ela começou a receber encomendas de bolos de aniversário dos próprios colegas de trabalho e pessoas indicadas por eles. Os fins de semana já não eram livres e ela chagava a entregar até oito bolos no sábado e domingo. A fama dos bolos se espalhou e ela já não conseguia dar conta das encomendas.

 

Os bolos decorados e o caseiro estão entre os produtos mais vendidos na doceria. (Foto: Mágnus Wilian)

 

O ano de 2020 começava sem que Romária soubesse se continuava no emprego na seguradora ou voltava a investir de vez nos bolos. A renda complementar já estava maior que a renda do mês no emprego formal, mas assim se passou mais um ano e meio até que ela decidisse pedir demissão.

 

“Só na semana em que pedi demissão do emprego na seguradora, vendi mais de R$ 3 mil. Foi preciso contratar uma pessoa pra me ajudar, porque não dei conta de fazer tudo sozinha”, lembrou Romária.

 

A irmã incentivadora cricri

 

Regiane Pessoa, irmã e sócia de Romária, precisou se mudar de Rio Branco para tomar posse no cargo de professora da rede municipal de Porto Velho também em 2020. Morando juntas desde então, ela só perde pro marido de Romária quando o assunto é incentivar o trabalho da doceira.

 

Mesmo com incentivo diário, foi difícil convencer a irmã a voltar de vez ao negócio dos doces. Somente com a proposta de uma sociedade entre as duas foi que Romária acreditou que aquele era de fato o caminho a seguir dali em diante e se iniciaram as vendas do “bolo caseirinho”. O carro-chefe da doceria hoje era transportado no bagageiro do celta vermelho até as feiras e exposições por toda Porto Velho.

 

O celta 2013 levou os bolos de Romária à várias feiras de Porto Velho. (Foto: Eduardo Gomes)

 

“Um dia nós enchemos o carro com bolos e quando chegamos ao lugar da feira já não tinha quase nenhum. Durante o trajeto as pessoas nos pararam na rua e compraram quase tudo”, afirmou Regiane.

 

A Páscoa 2022 e o divisor de águas

 

Mesmo já tendo concluído o curso de tecnóloga em gastronomia, Romária ainda não se sentia segura ao manipular chocolate, mas era preciso aproveitar a data e alavancar as vendas. Ela se programou para faturar dois mil reais, na produção de 50 ovos de chocolate, mas as encomendas não paravam de chegar, principalmente em razão das postagens no whatsapp, facebook e instagram.

 

Na semana que antecedeu a Páscoa ela vendeu 39. Na seguinte foram três dias sem dormir, o que rendeu uma produção e comercialização de 718 ovos. A maioria para funcionários de empresas e grandes lojas de Porto Velho. Um resultado jamais imaginado por nenhum envolvidos no preparo, embalo e entrega dos doces.

 

Os pedidos delivery continuam em alta, mas há clientes que não abrem mão de visitar a doceria. (Foto: Mágnus Wilian)

 

Pelo faturamento com ovos, a doceira recebeu um convite do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para dar um curso a jovens empreendedores. Além disso, uma empresa que leva expositores ao Porto Velho Shopping também a convidou para expor durante 21 dias do mês de agosto no maior espaço logístico do estado, realizando um dos antigos sonhos da doceira.

 

Entrar na rede de expositores de Rondônia levou Romária a participar de importantes feiras em Porto Velho, como o Varanda Criativa e o Festival Arte com as Mãos. “Eles fazem pesquisa e identificam aqueles empreendedores que estão se destacando nas vendas. Tentam saber o porquê das pessoas estarem gostando do produto”, disse.

 

A inauguração da Due Love Doceria

 

Setembro, outubro e novembro deste ano foram meses decisivos. Romária e Regiane precisaram registrar a marca Due Love Doceria e dar início ao planejamento para executar aquele grande sonho. Além da marca, todo o projeto gráfico e identidade visual do espaço foi planejado por elas.

 

“As pessoas ficavam interessadas no produto, mas não tínhamos espaço fixo para expor nossos produtos. Perdi encomendas de casamento e aniversário, pois as pessoas queriam conhecer o lugar onde aqueles doces eram feitos. Precisávamos sair da cozinha da minha casa e ter um loja”, lembrou.

 

No dia 3 de dezembro elas abriram as portas da doceria e zeraram o estoque da vitrine. Pensando nas datas comemorativas, elas resolveram focar nos mais procurados em dezembro, os panetones, guirlandas de doces e taças da felicidade. Sempre com receitas autorais desenvolvidas por Romária.

 

Os projetos para 2023

 

A tecnóloga em gastronomia planeja iniciar a comercialização de cursos em plataformas online para quem tem o sonho de iniciar o próprio negócio. Cursos para que as pessoas aprendam a produzir ovos de Páscoa, tortas recheadas e bolos de andares estarão a disposição para quem quiser acessar.

 

“Estamos nos tornando referência em bolos de casamento aqui na cidade. A fama dos bolos confeitados de três e quatro andares fazem pessoas perguntarem qual parte é falsa, mas tudo é massa. Eu preciso fortalecer a vontade que os iniciantes têm de aprender a fazer e agradar o paladar rondoniense, que gosta de bolo de verdade”, destacou Romária.

 

A Due Love segue forte nas vendas delivery, mas para os que não dispensam aquele cafezinho com bolo no fim da tarde em um espaço agradável aos olhos, a loja na Avenida José Vieira Caula, nº 4022, Bairro Agenor de Carvalho, está aberta de segunda a sábado, das 10 às 19 horas.

 

Para os que vem do Acre à Rondônia, vale muito a pena visitar a conterrânea e levar um pouco do sabor da Due Love Doceria para casa.

 

 

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