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É sobre o futuro que devemos falar; sobre a construção da realidade em que viverão as próximas gerações de acreanos 

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Passadas longas semanas deste o final das eleições, quando é possível voltar a falar sobre assuntos outros que não política eleitoral; e mesmo diante da imensa vontade de tratar de futebol, afinal estamos no ápice da Copa do Qatar, minha motivação ao retomar a rotina de escrever para a coluna é bem específica: quero aqui, a partir de agora, colaborar na reflexão coletiva sobre o desenvolvimento do Acre – uma reflexão que precisamos fazer e que é fundamental para as próximas gerações de acreanos.

Você pode até não gostar; provavelmente dirá que é um assunto chato, clichê. Mas, tudo bem, mesmo assim seguiremos com ele por uns tempos. E explico o porquê. Nada é mais importante para nossa terra e nossa gente neste momento que o debate sobre o futuro. E não se pode falar do futuro sem falar em desenvolvimento. Então, gostemos ou não, é o assunto.

E são tantos os temas possíveis que, por hora, preciso falar sobre um bem específico. Trata-se da gestão pública, área que considero fundamental para o progresso do Acre. Sobre isso, pense um pouco. Você imagina o Acre dando certo sem o governo do estado e as prefeituras trabalhando bem, construindo boas políticas públicas, investindo em infraestrutura, apoiando as empresas e cuidando do povo? Isso parece tão óbvio, não é mesmo? E é. Mas não tem sido assim no cotidiano da nossa vida coletiva.

Ocorre que por alguma razão desconhecida esse tema simplesmente desapareceu das discussões públicas e da preocupação das pessoas. Passou ao largo até mesmo dos debates para escolhas eleitorais tanto na eleição de há pouco quanto em 2020. Veja, é a qualidade da gestão público e, portanto, dos gestores, que determinará a qualidade do ensino ministrado nas escolas, do atendimento e da assistência prestada nos hospitais e unidades básicas de saúde. É preciso ter bom gestor na prefeitura para haver apoio aos produtores, praça iluminada, ruas decentes e apoio às famílias vulneráveis por meio de CRAS que funcionem É preciso ter governo que seja capaz de cuidar das estradas, dos ramais; que realize investimento público para que os empregos apareçam. É preciso ter governo que saiba gastar bem o recurso público e, assim, construir o futuro.

Ocorre que hoje, aqui, ninguém está debatendo esses assuntos. E você sabe por quê? Porque na hora das principais decisões, na hora do voto ou da opinião do deputado na tribuna; na hora do dirigente sindical se posicionar, em nenhum desses momentos isso está sendo levado em consideração, o que indica o tamanho da distopia social e da tragédia política em que estamos envolvidos.

É de espantar que diante de carências sociais tão grandes e precisando tanto de bom governo, não haja qualquer debate público acontecendo.

A verdade é que o Acre está diante do desafio de não deixar que a radicalização da política, centrada em temas como a pauta de costumes e a estigmatização das esquerdas, possa camuflar a responsabilidade dos gestores púbicos na geração de resultados concretos em seus mandatos.

Mas, reconheço, isso passa também pela reeducação dos eleitores sobre o que realmente importa na hora de decidir seu voto, o que torna o desafio muitas vezes maior que apenas juntar todo mundo para falar sobre temas relevantes.

Houve um tempo em que se olhava para o governante esperando competência na gestão de governo, capacidade de investir e gerar empregos, de melhorar a saúde e a educação e de apontar uma direção para o futuro. Hoje, para decidir o voto houve-se mais ao pastor que ao professor; recorre-se mais ao grupo de zap que ao debate entre especialistas nos meios de comunicação. Fala-se mais sobre temas etéreos e sem sentido como aborto e casamento gay que sobre os caminhos para a construção do futuro. Para onde iremos desse jeito?

Veja, se os gestores públicos não se verem cobrados por resultados para todos, cuidarão apenas daqueles poucos que importam para a vitória na próxima eleição. E essa cobrança deve ser feita por todos. Pelos eleitores, é fato, mas também pelas instituições, pela imprensa, pela oposição, pela academia, enfim, por tantos quantos forem os agentes políticos capazes de cumprir um papel relevante na vida social do estado.

Melhor seria se fosse essa a compreensão do governador Gladson Cameli e de todos os prefeitos com mandato. Mas, dos políticos precisamos esperar quase sempre uma postura pragmática e focada na próxima eleição. Não é a atitude ideal de um líder, mas é o que temos. Então, é preciso incluir a todos na questão, independente de partidos e ideologias. Aqui, pelas próximas semanas, espero trazer alguma contribuição.

Vida que segue…

 

Irailton Lima

Combater o terrorismo bolsonarista é a mais importante tarefa

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O dia 8 de janeiro de 2023 entrará para a história do Brasil. Os atos terroristas contra as instituições que simbolizam a República tinham como objetivo destruir a democracia e instaurar um regime de força baseado no poder das armas empunhadas por militares a serviço das pautas da extrema-direita. O país esteve muito perto de um levante que, em tese, poderia resultar numa guerra civil. A irresponsabilidade de quem promoveu tamanho absurdo é semelhante à inconsequência de quem o apoia.

Os responsáveis são grupos bolsonaristas inconformados com o resultado da eleição de outubro dispostos a promover um levante político. Estimuladas por uma verdadeira avalanche de publicações de fake news em redes sociais, essas pessoas acreditam que estavam realizando uma missão superior destinada a livrar o Brasil do perigo comunista que, segundo seus delírios, quer destruir suas famílias e patrimônios. Acreditam que Lula não venceu a eleição e que as urnas foram fraudadas. Estranhamento, acham isso somente em relação à eleição presidencial, sem qualquer consideração sobre as escolhas de deputados, senadores e governadores.

O Acre aparece hoje como um kluster bolsonarista. Mas, resisto em acreditar que seja um apoiador majoritário do que o bolsonarismo fez em Brasília no domingo, e do que pode fazer caso continue agredindo as instituições e a normalidade democrática. Como já escrevi nesta coluna, o Acre foi terreno fértil para a resistência aos militares no poder durante a Ditadura. Aqui a ARENA, que era o partido do regime, perdeu praticamente todas as disputas entre 1978 e 1989. O Acre, em verdade, tem uma raiz de oposição que nasceu com o levante contra o exército boliviano na gloriosa Revolução Acreana. Somos herdeiros de uma certa veia democrática e antissistema. Paradoxalmente, é o que explica o crescimento do bolsonarismo raiz por aqui. Mas, indica também que quando esse movimento descamba para práticas golpistas de feição autoritária, como os atos terroristas de 8 de janeiro, arrisca perder o apoio majoritário que recebeu até agora.

O que a extrema-direita bolsonarista fez no domingo atenta contra todos os princípios da vida democrática. Invadir e vandalizar palácios que simbolizam os poderes da República é em si algo que deve receber a repulsa de toda pessoa civilizada deste país. Pior ainda quando se percebe que, a rigor, o objetivo era gerar um estado de caos e, com isso, justificar a intervenção das Forças Armadas e a instauração de um regime estranho à normalidade democrática.

Essa é daquelas coisas que ninguém sabe onde vai dar. O Golpe de 1964 foi realizado sob a promessa de rápida restauração da ordem constitucional. Grande mentira. Durou 25 longos anos, muitas vidas ceifadas e outros tantos de brasileiros torturados ou expulsos do país. Um regime de vergonha que jamais deveria ter acontecido. Da mesma forma como os generais assaltaram o poder para si em 1964, sob desculpas as mais variadas, Bolsonaro deseja um levante antidemocrático para tomar o poder e colocá-lo a serviço de sua vaidade e dos sonhos de grandeza dos filhos, além, é claro, de servir aos inconfessos desejos dos grupos econômicos de seguir na pilhagem do patrimônio do povo por meio das famosas privatizações.

São os mesmos grupos que mandam neste país desde sempre e que, a cada vez que vêm seus interesses ameaçados, rapidamente produzem levantes e golpes (militares ou parlamentares) que garantam meios para que sigam com suas medidas de concentração da riqueza e da renda nacional. Foi assim que se trouxe de volta a extrema pobreza e a fome aos lares de milhões de famílias brasileiras após o golpe contra Dilma em 2016.

Hoje, entretanto, o sucesso de um levante como esse poria em ruína todo o país. A comunidade internacional se fecharia para o Brasil. Viriam sanções econômicas, bloqueios financeiros e rejeição diplomática que colocariam o país em condição de penúria, à semelhança da Venezuela neste momento. E, como sempre acontece nesses casos, os pobres e vulneráveis pagariam a conta mais pesada da aventura golpista. Mas, diferente de outros tempos, toda a nação sofreria.

O papel das pessoas conscientes, dos democratas, da imprensa e dos operadores das instituições é, neste momento, combater os arroubos autoritários dos grupos bolsonaristas. É denunciar os propagadores de narrativas mentirosas que põem em dúvida a lisura da justiça e do sistema eleitoral brasileiro. Neste momento a República, a democracia e a vida econômica do Brasil estão em jogo. Defendê-las é defender nossas famílias, nossas casas e nossas vidas.

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Irailton Lima

Caminhos percorridos e o resgate de nossa alegria e fé no futuro

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Sempre que penso nos caminhos percorridos pelo Acre entre os anos 1980 e hoje, em que quatro décadas tortuosas e intensas nos arrastaram por vias que, inadvertidamente, substituíram rios e varadouros, jogando nossas consciências para cima e para baixo, para a direita e para esquerda, num sacolejo de visões e convicções que irremediavelmente alteraram nossos sonhos e desejos, abrindo cominho para esse mundo líquido, insípido e inodoro em que estamos hoje.

Sempre que penso neles, os caminhos, fico a refletir sobre em quais pontos críticos, “tipping point”, como diz Malcolm Gladwell em seu livro magistral, estariam as marcas da virada que pivotou nossa trajetória e conduziu as coisas até aqui. Talvez não tenha sido apenas uma virada. O mais provável mesmo é que tenham sido várias. O fato é que hoje não se pode dizer que estejamos felizes com quem somos. Se não, como explicar que tantos jovens talentos acreanos estejam preferindo tentar a vida em outras terras. Ou que pelas ruas, nos encontros casuais ou nas confraternizações, não se encontre pessoas felizes e esperançosas com o futuro. É quase certo que uma pesquisa de opinião que procurasse levantar o estado de humor e as expectativas das pessoas, concluiria o que estou a dizer – presumo que de forma esmagadora.

Advogo a tese que aos poucos, lamentavelmente, estamos deixando de ser acreanos para nos tornamos algo que ninguém sabe dizer o que é ou o que será, já que “o processo” segue em pleno curso. E que isso não está nos fazendo bem. Pode ser apenas a dor da passagem, da transição, como a dolorosa experiência do parto para a criança que se vê expelida de um lugar quente e seguro para um outro frio e hostil. Desconfio que seja mais do que isso.

Exemplifico com uma passagem marcante. Foi quando estive pela primeira vez na Terra Indígena Puianawa, em Mâncio Lima, pelos idos de 2010, e ouvi sobre como o povo vinha lutando para resgatar tradições e reconectar-se com sua ancestralidade. Mais que ouvir, eu vi as perturbadoras dores da passagem que aquele povo decidira fazer. Implicava restaurar a tradição da dança, do pajé e da transcendência com a ayahuasca, restaurando junto mitos fundadores e rituais do cotidiano – tudo na intenção de resgatar a identidade perdida no redemoinho de relações desiguais com não-índios da cidade e missionários evangelizadores, ambos a lhes negar os costumes herdados. Dores de quem decide empreender uma jornada necessária, ainda que dura e longa.

Uma cultura não fica parada no tempo. É movimento que cria e recria, adaptando permanentemente modos de vida e estratégias de sobrevivência. Alguma coisa, uma linha, um rio, precisa conectar passado e futuro, percorrendo gerações e fazendo com que valores e costumes caros ao povo sejam preservados.

O ponto de ruptura acontece quando novos ventos alteram a curva dos desejos e subvertem o mundo dos sonhos. Pode ser um missionário, um padre ou um vendedor. Ou quem sabe um capitalista montado em malas de dinheiro. Ou um político sequioso por poder e prestígio. Em muitos casos é tão somente a onda eletromagnética que, antes, adentrava casas pela antena da tv e agora irradia na brilhante tela do smartphone. Podem trazer o desejo pela camionete do fazendeiro ou o apego pela vida glamourosa do influencer da ocasião.

Um ponto de ruptura pode ser algo mais singelo como o desemprego ou a fome. Pode ser a desesperança pela frustração de expectativas não realizadas. Enfim, tipping point. Eles existem.

O que fazer para nos resgatarmos das viradas que instalaram a insensatez de uma vida líquida e sem sal, e que nos levam à condição de um povo perdido no vazio da falta de identidade e sentidos? Talvez possamos começar por pensar a respeito. Pode ser mesmo um bom começo. Um dia, quem sabe, tenhamos a sabedoria e a coragem do povo Puyanawa.

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Irailton Lima

Seguiremos sendo quem somos ou nos tornaremos estrangeiro em nossa própria terra?

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Passada a ressaca eleitoral, é hora de olharmos para os eventos recentes e, num ato de imensa ousadia, tentar antever o futuro. E, nele, projetam-se grandes desafios para nosso chão acriano. 

Um deles é sobre a definição de quem somos e para onde vamos. Isso é grave, porque somos terra amazônica querendo ser, cada vez mais, cerrado do agronegócio. É como o cão que a partir de certo momento passa a assumir identidade de felino. É evidente que não vai dar certo. Mas, achando-se órfãos de opções, as pessoas aqui têm aceitado de bom grado a “adoção” pelo sertanejo goiano. Já tem até gente falando com o sotaque carregado de “erres” do Centro-Oeste. 

Outra questão importante é a que trata do funcionamento dos governos e das instituições de Estado. Será que as coisas voltarão a fazer sentido? Você deve estar achando essa pergunta estranha, não é mesmo? Não deveria. Porque, não faz mesmo nenhum sentido que governos pobres de realização tenham boa avaliação da população e sejam tão bem-sucedidos eleitoralmente. Vejamos o caso do Governo Federal sob Bolsonaro. Não há legado do mandato do atual presidente no Acre. Pelo contrário. Tomemos como exemplo o caso da BR-364 entre Feijó e Rio Branco. Quem trafega por essa estrada sabe bem a lástima em que ela se encontra. Sem manutenção, a estrada é buraco do início ao fim. Quando olhamos para as outras áreas, é a mesma coisa. Nada na educação, na agricultura ou na geração de empregos, para ficar em apenas algumas áreas. E, no entanto, o acreano deu vitória de 70 a 30 para Bolsonaro no último dia 30. Qual o sentido disso? Nenhum.

Alguns dirão: ah, é pela defesa da família, ou “ele é temente a Deus”. Afinal, o que se está querendo? Eleger um presidente da República ou o líder da igreja? Outros atestarão: “é pela liberdade de desmatar e queimar”. De novo, o que estamos buscando? um estadista que nos conduza em direção a um futuro de esperança e harmonia ou um incendiário doidivanas que toque fogo no mundo, num selvagem salve-se-quem-for-capaz?   

Liberdade de desmatar e queimar para transformar nossas florestas em pasto ou monocultura para exportação faz algum sentido? Nenhum. A geografia acreana não é a do Centro-Oeste. Nossas terras, na maior parte, não são apropriadas para cultivo extensivo com uso intensivo de máquinas. O solo não suporta e o relevo não permite. O volume de recursos necessários para mantê-la produtiva seria tão elevado que inviabilizaria economicamente a atividade. Mas, o mais grave de tudo isso é a estupidez de se substituir a floresta e tudo que ela pode nos prover de recursos materiais, existenciais e financeiros por atividades com potencial econômico dez vezes menor. Ainda assim, tem acreano começando a se achar goiano ou mato-grossense, como o cão que se transfigura em gato numa tentativa desesperada de assumir nova identidade. O fato é que mais cedo ou mais tarde a natureza cobrará seu preço. 

Renunciar a uma identidade fundada na história das pessoas e na interação que construíram com seu meio natural; abdicar de ritos de vida e mitos que emprestam sentido à existência – e fazer tudo isso na velocidade de uma geração – é aventurar-se rumo a uma crise existencial e de sentidos logo à frente. As consequências de tamanha irresponsabilidade são imprevisíveis. 

Isso não quer dizer que uma sociedade não possa mudar. Claro que pode. Na verdade, deve. A questão é que a mudança precisa, primeiro, respeitar o tempo e ter dinâmica de processo. Segundo, obedecer a um certo sentido de direção em que esteja guardada a correspondência entre o lugar de partido e o ponto de chegada. Assim como um cão não vira gato apenas porque quer, nossa natureza acriana não permite que viremos sertanejos mato-grossenses apenas porque está na moda ser “agro”. No mais provável dos cenários, seremos transformados em estrangeiros em nossa própria terra – como certos vizinhos aqui ao lado. Definitivamente, esse não parece um bom destino para quem já teve orgulho de ser acriano.  

 

      

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Irailton Lima

Democracia, crescimento, Amazônia, desmatamento, desigualdade, aborto… na eleição, o que realmente importa para você?

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O assunto do momento é a eleição do dia 30 – e não poderia ser diferente, não é mesmo? Trata-se de um embate direto entre, de um lado, a esquerda e, de outro, a extrema-direita; uma disputa em que os eleitores decidirão não apenas quem será o próximo presidente da república, mas, acima de tudo, qual projeto de país governará nossas instituições pelos próximos anos, sabendo que o reflexo de tal decisão ecoará por muito mais tempo que os quatro anos da próxima gestão de governo.

O Brasil em disputa política é também um país partido em vários aspectos. Partido em classes, com os pobres e a baixa classe média majoritariamente votando na esquerda, representada por Lula, e os ricos e remediados-ricos votando na extrema-direita de Bolsonaro. Partido geograficamente, com o Sul e o Centro-Oeste bolsonaristas, e o Nordeste esmagadoramente lulista, com as demais regiões divididas ao meio. O Brasil também está dividido por religiões, com evangélicos com Bolsonaro e católicos com Lula.

Acima de tudo, o Brasil está dividido entre quem tem compromisso com a democracia e quem não critica e nem se incomoda com as práticas comuns da extrema-direita aqui e pelo mundo: preconceito de classe, racismo, homofobia e machismo; atitudes que, na verdade, anunciam o autoritarismo que tão bem caracteriza a extrema-direita como força social e política.

Aqui em nossa região outra característica marcante distingue a extrema-direita: o negacionismo ambiental, a recusa em reconhecer que o clima do planeta está mudando e que a derrubada e queima de florestas vem contribuindo decisivamente para isso. Nos últimos quatro anos, desde o golpe parlamentar que levou Michel Temer ao poder, os índices de desmatamento da Amazônia vêm crescendo assustadoramente. Recentemente, com as medidas adotadas pelo governo Bolsonaro, de afrouxamento das ações de fiscalização, desmonte dos órgãos de comando e controle da política ambiental e incentivo indireto às práticas criminosas de garimpo em terras indígenas e grilagem de áreas públicas, principalmente no sul do Amazonas, a situação piorou bastante.

Qual a consequência, no médio prazo, dessa atitude negligente com a manutenção das florestas? Grandes especialistas em mercados internacionais dizem que é apenas uma questão de tempo (não muito) para os produtos do agronegócio brasileiro começarem a sentir o peso das barreiras que serão erguidas pelos compradores mundo afora para produtos e produtores que tenham, direta ou indiretamente, contribuído para a destruição de florestas tropicais e, assim, liberado bilhões de toneladas de gases estufa na atmosfera.

A questão do clima será o grande tema do mundo pelos próximos anos. A extrema-direita continuará a tratá-lo como uma pauta ideológica, a exemplo do que fez com as vacinas durante a pandemia? A esquerda aborda esse assunto com mais responsabilidade e cuidado, ainda que, pelo que vejo, esteja sendo malsucedida em mostrar que é possível gerar desenvolvimento cuidando das florestas, da biodiversidade e das populações indígenas.

Outros assuntos fundamentais para nós, acreanos, são a superação da pobreza e o combate às absurdas desigualdades regionais. Morar na Amazônia precisa deixar de ser sinônimo de vida precária. Isso só é possível com fortes investimentos do governo federal em nossa região.

Também nesses assuntos as posições da extrema-direita e da esquerda são profundamente diferentes, antagônicas mesmo. Enquanto Bolsonaro e sua maioria parlamentar não fizeram qualquer movimento em direção ao fortalecimento das regiões Norte e Nordeste, que são as com maiores problemas sociais e econômicos, os governos de esquerda investiram fortemente no Nordeste e na Amazônia, com fortalecimento dos bancos regionais, como BASA e BNB, e das agências de desenvolvimento regional, além do grande volume de recursos aplicados em infraestrutura e produção familiar.

Já em relação à questão da desigualdade – a meu ver, a grande questão brasileira – as diferenças de procedimento entre as duas forças políticas são ainda mais claras. A direita não encara a pobreza e a grande diferença de renda entre ricos e pobres como problemas a serem atacados prioritariamente pelo Estado. Eles seriam resolvidos pela via do mercado, como consequência da ação dos agentes econômicos. Já a esquerda assume o combate à pobreza e a redução da desigualdade como temas centrais de suas políticas sociais e econômicas.

Esses são os debates do momento. As questões sobre costumes, religião e corrupção não passam de cortinas de fumaça. Mas, infelizmente, são o que mais chamam a atenção de boa parte do eleitorado, confundindo o jogo e escondendo o que realmente importa.

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