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O fim do manejo florestal no Acre – artigo de Marky Brito

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O verão chegou, a safra de madeira do manejo florestal acreano está a pleno vapor e começaram os protestos contra a atividade. Basta que caminhões madeireiros transitem carregados, para que fotos e reclamações apareçam na imprensa e redes sociais, muitas vezes confundindo o manejo florestal com o desmatamento ilegal.

Pois bem, conforme é o desejo de alguns, vejamos o que aconteceria se o manejo florestal fosse proibido no estado.

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Primeiro, haveria o cancelamento do curso de graduação em engenharia florestal da UFAC, ofertado em Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Há duas décadas, o curso vem formando dezenas de jovens, habilitados para aplicar as mais modernas técnicas de planejamento, exploração, pesquisa e extensão florestal. Não foi à toa que o curso ganhou um mestrado em Ciências Florestais, que também seria cancelado.

Perderíamos milhões de reais investidos para criar e estruturar esses cursos, tais como a contratação e formação de professores, laboratórios, equipamentos, insumos e bolsas de pesquisa.

As toras do manejo florestal vistas em caminhões são apenas uma pequena fração de um trabalho técnico, extremamente complexo, altamente custoso e por vezes arriscado que esses jovens alunos, quando formados, são capacitados para executar. É um trabalho sempre visto com lupa e rigidez pelo CREA, IMAC, IBAMA, ICMBio, Ministérios Públicos e ONGs.

Também haveria o cancelamento do curso Técnico em Florestas do campus do IFAC em Tarauacá, dos cursos Técnico em Floresta, Técnico em Projetos Florestais e Marcenaria para Reeducandos do Sistema Prisional do IEPTEC e dos cursos oferecidos pelo Instituto SENAI de Tecnologia da Madeira e Móveis “Carlos Takashi Sasai”.

Acabar com esses cursos tiraria mais uma possibilidade de estudo, emprego e renda de jovens da capital e do interior do estado, que praticamente nascem muito próximos ou no interior de nossas florestas, onde o manejo florestal e sua cadeia de serviços é um forte aliado contra o descaminho para o crime.

A profissão de identificador parabotânico, o nosso mateiro, sofreria o derradeiro final. Profissionais essenciais no planejamento do manejo florestal, os mateiros vêm há anos sofrendo com a desvalorização da profissão e mais recentemente com cortes em atividades e pesquisas que utilizam seu vasto conhecimento sobre a flora amazônica.

Ao Governo do Estado restaria demitir as engenheiras e engenheiros florestais dos seus quadros e cancelar os programas de fomento ao manejo florestal. Esses profissionais não teriam utilidade e teriam que procurar emprego em outros estados, enquanto centenas de beneficiários dos programas de governo ficariam desassistidos.

Sabemos que a madeira de desmatamento é finita e que será cada vez mais difícil desmatar ilegalmente sem punição. Por exemplo, em Rondônia, onde o desmatamento legal e as áreas privadas de manejo parecem não mais atender a demanda, restou às quadrilhas de grileiros e madeireiros ilegais avançar sobre o estoque de madeira de unidades de conservação, terras indígenas e assentamentos.

Portanto, não sendo mais possível obter madeira de desmatamento legal e do manejo florestal, no Acre ocorreria a progressiva desinstalação das 40 madeireiras e das mais de 700 marcenarias do estado. Além de centenas de empregos, com elas também perderíamos em torno de R$ 90 milhões gerados anualmente somente com a exportação de madeira e derivados.

Haveria prejuízo tanto para o poder público, que deixaria de arrecadar impostos, quanto para dezenas de prestadores de serviços como consultores, contadores, restaurantes, papelarias, malharias, oficinas mecânicas, empresas de limpeza e transporte, que perderiam importantes clientes.

Com a saída gradual dessas empresas, a produção de móveis e de artesanatos, como a marchetaria, teria que ser realizada quase que exclusivamente com madeira de desmatamento. Por um tempo, nossos artesãos e marceneiros continuariam a produzir um dos artesanatos e móveis mais bonitos do Brasil, mas com madeira de uma atividade insustentável.

Centenas de produtores acreanos ficariam sem a alternativa de explorar suas Áreas de Reserva Legal, pois o manejo florestal é uma das poucas atividades produtivas permitidas nessas áreas. Em vez do manejo florestal, que incentiva a manutenção e existência das Reservas Legais, muitas mais sucumbiriam a retirada ilegal de madeira, ao desmate e queimadas.

Áreas de Reserva Legal são essenciais para conservar cursos d’água, proteger animais e até plantas importantes para a nossa cultura religiosa, como o cipó jagube e a chacrona, usadas para a produção da ayahuasca e impossíveis até o momento de serem cultivadas, cuja extração na floresta faz parte dos rituais das diversas religiões que as utilizam.

O setor da construção civil acreana, que tem um dos mais elevados custos do país, sofreria mais um impacto negativo, pois teria que comprar a finita madeira do desmatamento legal ou adquirir de outros estados. Poderia ser muito mais custoso construir prédios, casas, armazéns e conseguir produtos como pisos, caixarias e molduras.

Olarias e cerâmicas também seriam afetadas, já que parte dos resíduos de madeira utilizada nessas empresas é produzida a partir do manejo florestal. Produtos como tijolos e o carvão para fazer aquele churrasco ficariam mais caros, pois seria necessário importar mais resíduos e carvão de outros estados.

Finalmente, após o manejo florestal ser extinto, o desmatamento avançaria como nunca em função da demanda contínua por madeira. Se não houver um controle à altura, sofreremos com uma intensidade inédita de queimadas e fumaça. E todos sabem o que isso significa em tempos de síndromes gripais e coronavírus.

Há problemas no manejo florestal? Sim.

Sem alternativas, algumas empresas são obrigadas a usar vias públicas inadequadas para o transporte de toras. Cabe ao poder público, com o auxílio de especialistas e a colaboração das empresas, encontrar a melhor solução para as comunidades afetadas, estabelecendo rotas e horários adequados, além da aplicação efetiva de medidas de redução de impacto da atividade.

Há falhas no monitoramento e transparência da atividade, pressão sobre espécies, como o ipê, que exigem um ciclo mais longo de produção e impactos temporários sobre a fauna. Porém, esses problemas vêm sendo ajustados com a floresta em pé, com indicativos favoráveis quanto a importância do manejo como barreira ao desmatamento e degradação pela exploração predatória de madeira.

Na Amazônia, técnicas de manejo florestal são desenvolvidas há décadas por instituições como a FUNTAC e o Instituto Floresta Tropical. Hoje, a Embrapa Acre lidera essa corrida, com a criação do sistema MODEFLORA, que permitiu a aplicação de métodos da agricultura de precisão à quase totalidade dos planos de manejo florestais planejados e em execução no estado, o que nos coloca à frente para participar da nova bioeconomia amazônica.

Os acreanos não podem ficar alheios a esses avanços, que custaram um esforço gigantesco de pequenos produtores, empresários, pesquisadores, professores, alunos, ambientalistas e poder público. Não é possível colocar o manejo florestal no mesmo balaio da grilagem e desmatamento ilegal. Temos que discutir, ajustar e fortalecer o seu papel em nosso bem-estar social, econômico e ambiental, principalmente através de concessões florestais.

É necessário descriminalizar o manejo florestal, levá-lo para as escolas, cursos de jornalismo, câmaras municipais, festivais culturais, rádios, TVs e internet para que o acreano saiba que quem maneja cuida da manutenção e permanência da floresta em pé. É preciso separar o joio do trigo, ou melhor, a tora legal e manejada do crime ambiental.

Saiba como funciona o manejo florestal aqui, o MODEFLORA aqui e as concessões florestais aqui.

Marky Brito é engenheiro florestal (UFRA), especialista em Gestão de Projetos (FGV) e atualmente chefe do Departamento de Estudos, Pesquisas e Indicadores da SEPLAG.

 

 

 

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