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Diário do Acre / Rio Envira / Comunidades Barés e Curralinho / Feijó

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A correria começou cedo. Ainda era madrugada quando embarcamos nosso bote na carroça, caminhando tranquilamente pelas ruas desertas de Feijó o boi seguia rumo ao porto.

No porto, retiramos a canoa e a colocamos na água para dar início a nossa viagem. Raylane, minha esposa, vestiu minha capa para escapar do friozinho da madruga; Cabeça embarcou por último; no timão, André, nascido e criado na comunidade Curralinho, era o nosso guia.

O Envira estava enchendo, mesmo aparentemente sem haver muita chuva. Por todo o rio descia uma pauzada e formava alguns balseiros. A serração cobria o ambiente e fazia a madrugada ainda mais fria. Comentei com a Raylane que era a friagem anunciada pelo Friale, mas o sol começava a despontar no horizonte fazendo o mago do tempo errar mais uma vez.

Três horas rio acima, já na comunidade Barés, chegamos na casa do Biapino, sindicalista antigo, do tempo da fundação do sindicato. Gabou o trabalho do Cabeça no tempo que ele foi presidente, sem esquecer dos velhos amigos Juarez e Zequinha, que sempre estiveram na luta sindical.

Biapino me falou da história do seringal e a pendenga com a Funai, quando tentaram tirá-los dali. Lembrou, que graças ao sindicato e a alguns companheiros, não perderam a terra. Enquanto conversávamos, foi juntando gente da comunidade e quando menos esperávamos já era uma reunião. A garrafa de café rodava junto com a conversa, que sempre terminava com um ou outro indignado com o preço de tudo.

Cabeça disse que uma parte da minha família era de Feijó e logo todos perguntaram de quem eu era filho. Expliquei e dona Vanda, esposa do Biapino, já foi me dizendo que éramos parentes. Contou que ainda jovenzinha ficou órfã de mãe e foi morar e trabalhar na casa da minha falecida vó Maria. Fomos pra cozinha tomar um açaí e bacaba, enquanto dona Vânia perguntava por todos da família e lembrava da infância. Disse que vez ou outra falava na cidade com tio Chico. Tirei uma foto com ela e prometi levar lembrança a todos.

Enquanto tomávamos o açaí, Junior, filho do Biapino, foi me contar de um comício que certa vez aconteceu ali perto. Disse que o comício estava bom e todos da comunidade estavam por lá. Quando chegou a vez do Pedro Mucura falar, todos foram saindo, só ficou um. Pedro Mucura continuou seu discurso como se fosse uma multidão e não deixou de agradecer ao homem que permaneceu. Porém, o cara gritou de lá: “eu também já vou, seu Pedro, só estou esperando o meu camburão, que o senhor está em cima”.

Duas voltas adiante chegamos no Curralinho, na varanda da casa da Maria. Pingo admirava o rio, fomos subindo e nos abancando na varanda. Com pouco tempo, Maria veio ao nosso encontro e nos deu boas vindas. Conheci Maria na assembleia do STTR de Feijó. Reencontrá-la na sua comunidade foi uma felicidade. Não demorou e o Tonhão, outro filho da Maria, chegou por lá. Segundo Pingo e André, Tonhão sempre foi o irmão mais gaiato, e ele fazia jus à fama.

Tonhão dava conta de tudo da comunidade. Falou de um vizinho, pequeno igual rabo de tatu de couro, e me contou que na aldeia ali pertinho tem uma índia que diz ter 126 anos e que ainda está atrás de um marido.

Nosso barqueiro também tinha boas histórias. Contou da viagem que fez com uns americanos para as aldeias e que durante os 6 dias da viagem eles não tomaram banho nenhuma vez. Mas ele disse que ficou intrigado mesmo era que eles trouxeram a bolsa cheia de coisas, entraram na mata com elas, saíram com a bolsa vazia e no último dia voltaram pra buscar. Sugeri que fossem câmeras, mas ele não se convenceu e ficou o mistério.

Maria chamou pra almoçar peixe frito, peixe cozido e galinha caipira. Tratei de fazer um pirão de peixe. Maria perguntou o que queríamos fazer com o capadinho que o Tonhão matou. Era pro almoço falou o Cabeça. A comunidade estava sem luz e consequentemente sem telefone ha três dias. Não deu de avisar e o porco não virou churrasco. “Deixa que a gente leva”, avisou Cabeça enquanto comia peixe frito.

Voltamos para a varanda onde o vento fazia a curva junto com o rio. Raylane batia fotos maravilhada com tanta beleza. Eduardo, vizinho do outro lado do rio, encostou e nos convidou para passar lá antes de ir embora. Embarcamos e fomos visitar Eduardo. Ele nos ofereceu umas bananas madurinhas, prata e maçã, um café e muita prosa.

Eduardo mostrava com orgulho a casa nova, ainda por terminar, mas feita com muito esmero. A hora avançava e André nos chamou pra seguir viagem e não termos que navegar à noite, ninguém tinha uma lanterna. Descendo o rio a viagem fica mais curta. O sol se punha no horizonte e calmamente nos despedíamos das barrentas águas do rio Envira. Não nos deixaram pagar pelo porco, mas nos comprometemos de pagar na próxima vinda. Esse era o modo de terem certeza que por esses dias voltaremos lá.

Diário de um Acreano

Diário do Acre: Rio Bagé, Comunidade Remanso e Marechal Thaumaturgo

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Com sol a pino embarcamos nas voadeiras, a comitiva era grande assim como a nossa expectativa. Eu estava animado, visitaria mais uma vez a comunidade do Remanso, que fica no Rio Bagé. Muitos ali a conheceriam pela primeira vez, eu queria mesmo era rever os amigos.

O Juruá estava na tampa, o que facilitou a navegação. Aldemir ia ao meu lado conversando sobre pescarias e apontando para as casas na beira do rio, me contando como estavam os amigos. Nosso tempo estava corrido e não podíamos subir em todos os portos, como eu gostaria. Mas, só de saber que estava tudo bem, já era motivo de felicidade.

Saímos do Juruá, passamos pelo Tejo e adentramos o Bagé. Estava acostumado a fazer essa viagem de canoa, na voadeira tudo é mais rápido, confesso que senti falta da tranquilidade, não gosto de visita corrida. Contudo, saímos tarde de Marechal e tínhamos que chegar no Remanso antes do anoitecer.

Mesmo com tempo corrido deu tempo de dar uma paradinha na casa do Quima e tomar um cafezinho quente, passado na hora. Perguntei pelo açude que ele estava fazendo no braço, a última vez que fui por lá, a cheia arrombou. “No verão vou tentar ajeitar, não tem peixe. Mas tem carne de caça”, afirmou Quima, apontando para a pia onde uma bacia de carne de caça estava sendo tratada. Me encantei com um macaquinho que se escondia por entre as bacias no chão, o nome dele é “Chico”. Eu soube por uma das filhas do Quima. Deve ser regra dar nome de Chico aos macacos, criados em casa.

Na parede da cozinha, um calendário chamava a atenção. Na verdade é difícil uma casa à margem Rio do Juruá e afluentes que não tenha uma foto, calendário ou mesmo uma imagem do Irmão José da Cruz, de barba longa e densa e vestes franciscanas e alvas que, segundo os moradores, nunca sujava. Irmão José se perpetua por suas histórias, milagres e devoção por todo o Juruá. Me contaram que certa vez um ribeirinho estava com ele e precisava fazer uma viagem longa, porém, não tinha combustível no motor e de varejão demoraria dias. Então, Irmão José pegou o querosene de uma pequena lamparina, colocou no motor e mandou ele ir. Reza a lenda que o combustível que não daria nem pra andar uma curva de rio, deu pra ir e voltar.

Chegamos no Remanso ainda com dia, encostamos na casa do seu Jonas, que estava sozinho, pois sua esposa está fora (viajando) fazendo um tratamento de saúde. Aldemir não perdeu tempo, já foi dizendo que as noites do Jonas devem ter ficado mais frias. Ele riu e concordou. Aldemir contou uma história de que numa outra vez que ela viajou, para um tratamento em Cruzeiro, depois de muitos dias fora, o médico disse que teria que ir a Rio Branco e a viagem se estenderia mais ainda. Jonas preocupado disse que tinha que levar uns documentos para ela, Aldemir de pronto disse que mandaria pelo voo no dia seguinte. Porém, Jonas olhou fundo nos olhos de Aldemir e disse que tinha que entregar pessoalmente. Todos gargalharam, ao perceberem que era só mais uma desculpa de um homem sempre apaixonado, que não se aguentava mais de saudades de sua velhinha.

Na casa ao lado mora o Carlos, um dos irmãos mais novos do Jonas. Chegamos bem na hora que ele estava chegando do roçado com alguns de seus filhos, são bem uns 14. Aldemir desafiou Carlos a dizer o nome de todos, a esposa dele riu e preferimos não insistir, vai que o homem erra e algum fica chateado. Uma rodada de café animou a conversa e uma tapioca foi servida junto, senti que tinha um negócio diferente na tapioca, parecia castanha. Perguntei de onde tiraram castanha, pois na região do Juruá não tem. “É cocão”, me disse um dos meninos. “Ficou muito bom!”, respondi.

Tava findando a tarde quando subimos mais um pouquinho o Bagé e chegamos na casa do Zequinha e da dona Gata, onde dormimos. Rapidinho se formou uma roda na sala e a conversa fluiu, conforme ia chegando gente, mais animada ficava a roda. Alemão que nos acompanhava na viagem, conhecido de todos, virou o centro da conversa. Léo lembrou de um amigo que já se foi chamado Dedé Verissimo, em épocas de campanha quando disputava eleição de vereador com Alemão e encontrava um voto dele, fazia questão de tentar tirar o voto, dizia o Dedé: “não vote no Alemão, ele é tão ruim que nem a cobra quis”.

Alemão teve que contar a história para que todos entendessem, nos contou que quando era pequeno na beira de um lago foi atacado por uma cobra grande que se enrolou em seu corpo, mesmo apertado conseguiu puxar a faca da cintura e ferir a cobra, que machucada deixou ele em paz. Moisés que escutava atento a história disse que provavelmente a cobra morreu, pois se furar a cobra ela não escapa, na água a traíra vai comendo na ferida e no seco a formiga ataca. “Se o Dedé estivesse aqui ai ter história pra noite toda”, afirmou Alemão, que aproveitou pra falar que antes de morrer, Dedé pediu desculpa a todos que um dia ele poderia ter ofendido.

A noite foi caindo e a sala começou a ficar pequena, chegava gente de todo o Remanso por lá. Na cozinha Dona Gata e as mulheres preparavam um porco pra janta, o cheiro da comida tomava de conta de todos os lugares da casa. Descemos para tomar um banho no Bagé, mergulhávamos no rio e subíamos nas canoas para se ensaboar, confesso que ficava meio acuado, vai que a cobra que pegou o Alemão não estava por ali caçando seu jantar.

O terreiro estava lotado quando subimos. O caminho para a casa, o motor de luz roncava alto e iluminava a casinha de madeira. Dentro de casa não cabia todos, então, resolvemos reunir no quintal. Desligamos o motor para que todos pudessem se ouvir e a luz das lanternas iluminava quem falava. Eu estava para lá de animado de ver boa parte dos meus amigos do Bagé por ali, principalmente, a família do seu Hélio, na qual dormi a última vez que fui por lá. Dona Gata chamou todos para jantarem, e a comida estava maravilhosa! Foi servida no chão da cozinha, porco, arroz e farinha tinha pra quem quisesse.

Com todo mundo de barriga cheia, os barcos iam seguindo seus rumos guiados pelas lanternas, enquanto na cozinha, o Zequinha armava uma rede para eu dormir ao lado do Aldemir. A conversa ainda se estendeu até tarde acompanhada de café com bolachas. Quando o motor desligou, o rangido da rede balançando e o cantar da floresta transmitiam serenidade.

“Amanhã saímos cedo”, disse Aldemir, antes de virar para o lado e dormir. Sozinho com meus pensamentos lembrava de cada história, desde as mais engraçadas às conversas sobre visagens e almas na mata, que levavam o mais corajoso dos homens a fazer uma oração antes de dormir.


Cesário Braga escreve no ac24horas todas às sextas-feiras. 

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Diário de um Acreano

Diário do Acre: Igarapé Vai Se Ver – Rio Branco II

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A noite parece que foi curta, quando pisquei já era dia, guardamos a dormida e fomos nós organizar para sair. Quando fui tomar banho cedo percebi que o banheiro era um dos que o CTA (Centro de Trabalhadores da Amazônia) havia feito na Resex. Senti orgulho, porque já trabalhei no CTA, quando falei isso ao “Diploma”, imediatamente me perguntou da Júlia e pediu que levasse um abraço.

Sentamos na cozinha para tomar café e a risadagem era grande. Noca nos falava do homem mais bruto que ele conhecia na região. Contou que “certa vez saiu pra comprar castanha com um comprador amigo e encostou na casa desse véi. Depois do acordo firmado, o chefe da compra deixou dois peões quebrando as castanhas no barracão do véi. Os peões nó cego que eram, escreveram no barracão que o véi num era homem e ainda lhe roubaram um machado quando se foram. O véi não lia, mas um dia sua mulher foi lá e lhe contou o que tinha escrito. O véi ficou enfurecido jurando todos.

No ano seguinte o comprador desavisado foi por lá, não conseguiu nem descer do barco, o véi estava brabo no terreiro querendo limpar sua honra com os fatos do comprador, já que não sabia onde andava os peões. Depois de muita conversa, Noca disse que conseguiu apazigua já que o comprador não tinha nada a ver. Infeliz, o comprador ainda teve a coragem de tentar pôr preço na castanha do véi e o viu tacar fogo no barracão com castanha e tudo, praguejando que preferia ver as castanha queimarem que vender pra ele de novo”.

“Vamos”, alertou Antônio do Bill que conhece a distância e sabe o desafio da viagem de volta. Descemos e seguimos a pé para o centro do Belém. Uma picada larga na mata de várzea com água e lama era o caminho. “Esse é o ramal”, me disse o Diploma, apresentando, “quando o igarapé alaga, a água passa por aqui e é melhor andar de canoa no ramal do que no igarapé”. Quem foi o esperto que decidiu fazer ramal na margem do igarapé? Questionei. O ICMBIO, respondeu ele de lá, observando que não foi por falta de aviso da comunidade que apontou o melhor local.

Os meninos me alugavam na caminhada, passei a viagem inteira olhando para as margens do igarapé atrás de uma onça e pedindo pro Noca encontrar uma, já que ele é meio mateiro também. Já pensou encontrar ela nessa mata dizia o Josa? Ela vai pegar só tu, Josa que caminha com mais dificuldades, a gente some na carreira. O caminho acaba numa ladeira de onde já se vê a igreja da comunidade. Azul como o céu, o prédio da Assembleia de Deus sempre bem cuidado é referência em muitas comunidades por todo o Acre.

Arrodeamos uns cachorros e finalmente chegamos na casa do seu Luiz Ribeiro. Era cedo mais parecia que ia ter uma festa por lá, pois em todos os cantos que se olhava havia amigos e parentes do Luiz. “Vamos embarcar um castanha”, avisou Luiz enquanto a mesa estava sendo posta para o café da manhã.

Rapidinho uma roda se formou e a conversa fluía por todos os lados. Josa aproveitou para falar do sindicato, que teria eleição e que o sonho de fazer um sindicato mais representativo e próximo dos trabalhadores e trabalhadoras não podia morrer. Antônio do Bill também deu seu discurso e todos dividiam o sonho de construir dias melhores para aquela comunidade tão distante dos centros urbanos.

“Vamos comer? Já está na mesa”, avisaram da cozinha. Era o verdadeiro quebra jejum: arroz, feijão, farofa e porco. Um banquete já no café da manhã. “Eu gosto da casa cheia e da mesa farta”, avisou Luiz enquanto se servia. Ligou o som com um louvor pra animar o café, todos se serviram e se abancavam pela varanda, sentei num saco de castanha enquanto comia do porco cozido e conversava sobre a comunidade.

Josa se admirou do som do Luiz, ele pra se gabar aproveitou pra contar uma história. “Certa vez fui esperar na baginha aqui perto de casa e pedi pra ninguém ligar o som, pra eu ouvir as pacas roendo. Mas, menino já se viu, né! Pensa o que não, a menina ligou o som, aí alteou, eu atrás de ouvir roendo e não ouvia nada. Começou uma zoada de folhas remexendo num arrastado, eu pensei comigo é uma pico de jaca, armei a espingarda, quando eu reparei com a lanterna, as pacas estavam grudadas dançando”. Todos riram alto com seu Luiz contando e dançando.

A conversa estava ótima, mas tínhamos que voltar. O igarapé secou quase meio metro e já prevíamos uma volta mais complicada. Nos despedimos e demos meia volta no caminho. Diploma chamou pra almoçar em sua casa, bati no vaso da farofa e disse pra ele não se preocupar.

Com o igarapé mais seco galhos e árvores surgiram e formavam balseiros ainda maiores, tornando a viagem igarapé abaixo ainda mais difícil. Fizemos duas forquilhas com galhos para facilitar o controle do barco, fiquei com uma, Josa com a outra e Noca foi pra proa com facão em mãos. A cada balseiro era uma luta descendo, cortando e empurrando.

Na comunidade Cumaru paramos para visitar o Victor, presidente do núcleo de base da RESEX Chico Mendes em Rio Branco. Lembrei que tinha conhecido seu pai, que presidiu a associação antes dele. Nunca esqueci o nome da associação, era tão longe e esquecida que eles se intitulavam “Os Desprezados do Vai Se Ver”. Victo assumiu depois que seu pai faleceu, mas, me disse como era difícil lhe dar com a associação sem o devido apoio do ICMBIO.

Já estava ficando tarde e a volta era longa, apertamos o paço para descer antes de anoitecer. A ideia era pegar a gasolina e seguir até a casa do Augusto no riozinho. Peguei um sinalzinho de internet em uma escola e fui me atualizar sobre as notícias. Uma emergência surgiu e decidi voltar direto pra casa do Noca, remarcando a visita no Augusto para depois. Aproveitei que tinha uma gasolina entocada e resolvi fazer uma doação para a comunidade do Vai Se Ver que estava precisando do combustível para limpar o igarapé dos galhos e árvores com os motosserras.

Mesmo correndo, despontamos no riozinho quando já era noite, as lanternas iluminavam nosso caminho em uma noite sem lua. Atracamos no porto do Noca bem tarde, mas ainda com tempo para voltar para a cidade. Antônio do Bill resolveu dormir por lá, segui com Josa rumo zona urbana de Rio Branco, conforme íamos avançando na Transacreana, a paisagem ia mudando, a floresta e campo acolhedores iam dando espaço para as casas e prédios, na rotários da saída parece que entramos em outro mundo, também cheio de histórias, mas onde não é possível ver um casal de pacas a dançar.


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Diário de um Acreano

Diário do Acre: Igarapé Vai Se Ver e Rio Branco I

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A banquinha de café da manhã estava abrindo, quando Antônio do Bill chegou na saída do Boa União na estrada da Sobral. Tomamos um pretinho e pegamos uma sacola de pão pra tomar café. Buscamos o Josa em casa e seguimos até a casa do Noca.

Noca tinha ficado de nos encontrar na entrada do ramal, temíamos que a chuva não nos deixasse entrar, mas o tempo estava bom e, antes que ele saísse para nos encontrar no ramal, já estávamos chegando em sua casa. Tomamos um cafezinho com pão na cozinha de madeira, enquanto a esposa do Noca terminava de fazer a farofa para levarmos na viagem.

Fui rapidinho com Josa na casa da Nega mãe do Noca, que nos contou sua ida para a comunidade. Morava no Purus e vivia as dificuldades da vida, mas o Noca conseguiu se organizar e a trouxe pra morar perto dele. Ela fala com orgulho de cada filho e filha e fez questão de mostrar a foto de todos no celular. Pertinho da casa da nega fica a escola da comunidade, um prédio de madeira modesto que parece olhar com inveja para a parada de ônibus toda em ferro feita na sua frente. Lembrando do detalhe, não passa ônibus lá.

Embarcamos a carga em nossa canoa e Antônio do Bill foi pro comando do motor. O Riozinho do Rola estava bem cheio, mas não dava de correr, nossa canoa ia pesada. Entramos no igarapé vai se ver e resolvemos deixar metade do combustível para nossa canoa ir mais leve. Subi no porto de uma casa abandonada com o Noca e escondemos os corotores atrás de uma moita. “Coloca na parte alta gritou Antônio do Bill, vai que o igarapé enche”.

Numa curva fechada, Antônio contou a história de um acidente que sofreu. Eu subia e ele descia quando nós encontramos aqui, fintei para um lado ele para o mesmo, voltei pro outro e ele também, só lembro quando ele me abarrou, tornei com o queixo quebrado e a canoa jogada no seco. Cada um fica com o seu prejuízo foi o acordo. Tem que ter cuidado o vai se ver é enrolado e traiçoeiro.

Com água pela cintura Odailson mexia no motor de água na beira do igarapé, enquanto o filho dele brincava na tábua de lavar roupa! Da casinha de longe sua esposa nos observava, Antônio do bill soltou logo o apelido, “esse aqui é o Maldito”, todos riram. Como estão as coisas por aqui? Perguntei interessado na história, mas o relato foi das dificuldades, nem uma diária tá tendo pra fazer um troco.

Seguimos viagem até chegar no porto do Antônio do Bill, a casa ficava uns 5 min de pés longe do igarapé, a várzea grande empurrou a casinha para o topo de uma terra alta. Quando vimos a casa de longe Antônio lembrou do Raimundinho, que dali já perguntava pela rede. Tomamos uma água gelada um café quentinho e arrochamos na farofa, me escorei pelas tábuas da varanda e foi bem difícil levantar depois.

Na beira do igarapé, Antônio Oliveira e seus filhos estavam medindo castanha e embarcando. Uma canoa de 4 toneladas já estava pela metade. Perguntei quanto estavam pagando e constatei que era quase 10 reais a menos que na COOPERACRE. Os marreteiros ganham muito nessa região que produz muita castanha e tem dificuldades de escoamento, porque os ramais não prestam e o igarapé esta cerrado.

Já era fim de tarde quando continuamos nossa subida. Perguntamos ao Antônio quantas horas ainda ia até o Belém, ele falou três, decidimos não atracar mas seguir direto, pois já iríamos chegar bem tarde por lá. Conforme subíamos o igarapé ia ficando mais fechado, balseiros, espera aí, os furos que não davam mais acesso, o negócio foi se complicando e a cada porto que perguntávamos parece que a distância nunca diminuía.

Com o cair da noite ficava um impasse na canoa. Dormimos no próximo porto ou seguimos viagem? Eu, mesmo sem conhecer nada por ali, não queria parar antes de chegar ao destino final. Antônio do Bill dizia que também era desses que se dizia que ia num canto não parava até chegar. Cada vez que tínhamos que descer da canoa para empurrar ou cortar os balseiros com terçado, me perguntava se realmente era a decisão mais acertada.

Já era umas oito da noite quando chegamos num porto onde a canoa do funcionário do marreteiro da castanha estava encostada. Paramos pra conversa e ele disse que não tinha como chegar no centro do Belém, o igarapé estava cheio de galhos e troncos e era impossível passar. Mas ainda dá de ir até o Diploma, que já mora na ponta do Belém. De lá dá de ir de pés. Resolvemos seguir e encarar mais uma hora na canoa guiados pelas lanternas.

Atracamos na casa do diploma já era umas nove horas da noite. Quando encostamos percebi que a luz da casa se apagou. “Acho que não somos bem-vindos”, disse ao nosso amigo Noca e Josa. Tu vai na frente Noca, quando o homem te ver o negócio muda. Cruzando por trás da casa os focos de lanterna chegavam a residência. Quando Noca e Antônio chamaram pelo Diploma as luzes se reacenderam e as portas se abriram.

Na casa a esposa do Diploma e seus filhos se encontravam na sala, barco atracando às nove não é comum, “apaguei as luzes e chamei meu filho pelo rádio” nos disse a senhora. Diploma está pra mata, mais já volta. Cansado da viagem estava sentado na porta da casa quando um foco de lanterna se aproximava. Subi pra dentro, diploma não me conhece e está com uma espingarda. Não vou arriscar ser a próxima caça.

Quando ele chegou foi só alegria, ficou muito feliz de receber o Noca e Antônio do Bill em sua casa e eu e o Josa que ainda não o conhecíamos fomos tratados como os mesmos cuidados dos amigos de anos. Depois do banho ainda ficamos até tarde na cozinha conversando e comendo, e contado a histórias dessa viagem até sua casa. Fomos dormir e combinamos de ir cedo para a o centro do Belém onde fica a casa do seu Luiz Ribeiro, pai do Diploma e referência da comunidade.

Na sala as redes enfileiradas balançavam com cadência enquanto o cansaço virava sono. Pelas janelas abertas a brisa da noite adentrava esfriando o ambiente e perfumando a casa com cheiro úmido da mata. Os sons da floresta rompiam o silêncio da noite e embalavam os sonhos de todos, alguns impossíveis outros tão simples, como apenas a limpeza do igarapé.


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Diário de um Acreano

Diário do Acre: Comunidade Mato Grosso e Epitaciolândia – Parte II

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A barriga já estava encontrando com espinhaço, quando chegamos no Ramal do Mato Grosso. Messias apontou pro campo de futebol e mandou encostar. Farofinha já estava pegado no prato, mandou subir e nos servirmos. Cozidão de comer suando, logicamente pedi a farinha pra fazer um pirão e a pimenta pra temperar.

Farofinha estava animado como de costume, me contou como foi o último bingo que fizeram na comunidade, para ajudar uma amiga que precisava de uma cirurgia. Tem sido rotineira essas coisas por aqui. Bingo, rifas, torneios, o povo se vira como pode, para cuidar um dos outros, na dificuldade. Se gabou de ser o melhor narrador da área e das tentativas de incentivar o esporte na comunidade.

Dentro do Mato Grosso pegamos o Ramal São José. O mato quase cobria o caminho e a lama era um desafio. O inverno ainda nem começou direito, mas por aqui parece que nunca foi embora. Com dificuldades chegamos na casa do Marinho. Quando encostamos, ele ainda estava chegando do roçado para o almoço. Quis dividir um prato conosco, mas já estávamos cheios. No meio da conversa, negociamos alguns litros de banha de porco, um litro de óleo em dois de porco foi a troca. Ainda tenho da banha lá em casa.

Queria ver o Doutor da Borracha, que está morando por ali. Eu o conheci quando ainda morava em Assis Brasil e eu trabalhava no CTA (Centro de Trabalhadores da Amazônia). As cores enchem os olhos de alegria e os detalhes mostram o esmero do doutor e da sua família com o feitio do artesanato. “Doutor não tá”, me disse seu filho, enquanto eu admirava as sandálias. Perdi a última que o Doutor me deu, lamentei. Diga que o Cesário que trabalhou no CTA esteve por aqui e deixou um abraço!

De chapelão e óculos escuro Adalberto conversava na varanda, quando encostamos. Bom de prosa, deu conta de todos os amigos e amigas do ramal. O céu começou a nublar e resolvemos apertar o passo, ainda tínhamos algumas visitas e encarar o ramal de baixo de chuva não é uma boa ideia!

Paramos rapidinho na casa do João Mota, ele também estava apressado, de saída para o roçado, mas ao nos ver fez questão de acalmar nosso avexa-me, servindo um suco de graviola gelado enquanto proseávamos. Messias perguntou como estava o vizinho Toinho e a nega. “Estão em casa e já estão melhor de saúde. Se forem lá cuidado com a porteira, tem um cavalo que foge quando deixam ela aberta”.

No alto de um morro ficava a casinha do Toinho e da Nega. Chegaram há pouco da cidade. Nega estava na rede, ainda meio baleada de um tratamento que está fazendo. Messias me contou das proezas que Toinho fazia no campo. Toinho lamentou não poder mais jogar o futebol que tanto gostava. Os dias difíceis estão passando já já tudo se acerta a esperança é o que mantém todos de pé.

Seu Antônio Gaúcho estava limpando o terreiro. Chegamos e a chuva chegou junto fazendo todos subirem rápido para a varanda da casa. Assim que a chuva passou, voltamos para o ramal da laranjeira e entramos rapidinho no ramal do Tucundubá, para conversar com Paulo e tomar um café quentinho.

Antes de encerrarmos nossas visitas, de saída pelo ramal do 21, Messias insistiu que eu tinha que conhecer o Bem-te-vi, um bom amigo que ele tem no ramal e que conta muitas histórias do sindicato do tempo que morava em Xapuri. Ele estava certo, me identifiquei de cara com bem-te-vi que me contou dos empates, do tempo de Chico Mendes, dos forrós que levantavam poeira e da luta dos seringueiros pela terra. Bem-te-vi me fez um pedido e eu não pude negar. “Quando voltar traga uma bandeira vermelha com a estrela”, apontou pro alto da porteira e disse que lá ia colocar, para que todos no ramal saibam que é um companheiro que mora nesse lugar.


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