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Diário do Acre: Rio Bagé, Comunidade Remanso e Marechal Thaumaturgo

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Com sol a pino embarcamos nas voadeiras, a comitiva era grande assim como a nossa expectativa. Eu estava animado, visitaria mais uma vez a comunidade do Remanso, que fica no Rio Bagé. Muitos ali a conheceriam pela primeira vez, eu queria mesmo era rever os amigos.

O Juruá estava na tampa, o que facilitou a navegação. Aldemir ia ao meu lado conversando sobre pescarias e apontando para as casas na beira do rio, me contando como estavam os amigos. Nosso tempo estava corrido e não podíamos subir em todos os portos, como eu gostaria. Mas, só de saber que estava tudo bem, já era motivo de felicidade.

Saímos do Juruá, passamos pelo Tejo e adentramos o Bagé. Estava acostumado a fazer essa viagem de canoa, na voadeira tudo é mais rápido, confesso que senti falta da tranquilidade, não gosto de visita corrida. Contudo, saímos tarde de Marechal e tínhamos que chegar no Remanso antes do anoitecer.

Mesmo com tempo corrido deu tempo de dar uma paradinha na casa do Quima e tomar um cafezinho quente, passado na hora. Perguntei pelo açude que ele estava fazendo no braço, a última vez que fui por lá, a cheia arrombou. “No verão vou tentar ajeitar, não tem peixe. Mas tem carne de caça”, afirmou Quima, apontando para a pia onde uma bacia de carne de caça estava sendo tratada. Me encantei com um macaquinho que se escondia por entre as bacias no chão, o nome dele é “Chico”. Eu soube por uma das filhas do Quima. Deve ser regra dar nome de Chico aos macacos, criados em casa.

Na parede da cozinha, um calendário chamava a atenção. Na verdade é difícil uma casa à margem Rio do Juruá e afluentes que não tenha uma foto, calendário ou mesmo uma imagem do Irmão José da Cruz, de barba longa e densa e vestes franciscanas e alvas que, segundo os moradores, nunca sujava. Irmão José se perpetua por suas histórias, milagres e devoção por todo o Juruá. Me contaram que certa vez um ribeirinho estava com ele e precisava fazer uma viagem longa, porém, não tinha combustível no motor e de varejão demoraria dias. Então, Irmão José pegou o querosene de uma pequena lamparina, colocou no motor e mandou ele ir. Reza a lenda que o combustível que não daria nem pra andar uma curva de rio, deu pra ir e voltar.

Chegamos no Remanso ainda com dia, encostamos na casa do seu Jonas, que estava sozinho, pois sua esposa está fora (viajando) fazendo um tratamento de saúde. Aldemir não perdeu tempo, já foi dizendo que as noites do Jonas devem ter ficado mais frias. Ele riu e concordou. Aldemir contou uma história de que numa outra vez que ela viajou, para um tratamento em Cruzeiro, depois de muitos dias fora, o médico disse que teria que ir a Rio Branco e a viagem se estenderia mais ainda. Jonas preocupado disse que tinha que levar uns documentos para ela, Aldemir de pronto disse que mandaria pelo voo no dia seguinte. Porém, Jonas olhou fundo nos olhos de Aldemir e disse que tinha que entregar pessoalmente. Todos gargalharam, ao perceberem que era só mais uma desculpa de um homem sempre apaixonado, que não se aguentava mais de saudades de sua velhinha.

Na casa ao lado mora o Carlos, um dos irmãos mais novos do Jonas. Chegamos bem na hora que ele estava chegando do roçado com alguns de seus filhos, são bem uns 14. Aldemir desafiou Carlos a dizer o nome de todos, a esposa dele riu e preferimos não insistir, vai que o homem erra e algum fica chateado. Uma rodada de café animou a conversa e uma tapioca foi servida junto, senti que tinha um negócio diferente na tapioca, parecia castanha. Perguntei de onde tiraram castanha, pois na região do Juruá não tem. “É cocão”, me disse um dos meninos. “Ficou muito bom!”, respondi.

Tava findando a tarde quando subimos mais um pouquinho o Bagé e chegamos na casa do Zequinha e da dona Gata, onde dormimos. Rapidinho se formou uma roda na sala e a conversa fluiu, conforme ia chegando gente, mais animada ficava a roda. Alemão que nos acompanhava na viagem, conhecido de todos, virou o centro da conversa. Léo lembrou de um amigo que já se foi chamado Dedé Verissimo, em épocas de campanha quando disputava eleição de vereador com Alemão e encontrava um voto dele, fazia questão de tentar tirar o voto, dizia o Dedé: “não vote no Alemão, ele é tão ruim que nem a cobra quis”.

Alemão teve que contar a história para que todos entendessem, nos contou que quando era pequeno na beira de um lago foi atacado por uma cobra grande que se enrolou em seu corpo, mesmo apertado conseguiu puxar a faca da cintura e ferir a cobra, que machucada deixou ele em paz. Moisés que escutava atento a história disse que provavelmente a cobra morreu, pois se furar a cobra ela não escapa, na água a traíra vai comendo na ferida e no seco a formiga ataca. “Se o Dedé estivesse aqui ai ter história pra noite toda”, afirmou Alemão, que aproveitou pra falar que antes de morrer, Dedé pediu desculpa a todos que um dia ele poderia ter ofendido.

A noite foi caindo e a sala começou a ficar pequena, chegava gente de todo o Remanso por lá. Na cozinha Dona Gata e as mulheres preparavam um porco pra janta, o cheiro da comida tomava de conta de todos os lugares da casa. Descemos para tomar um banho no Bagé, mergulhávamos no rio e subíamos nas canoas para se ensaboar, confesso que ficava meio acuado, vai que a cobra que pegou o Alemão não estava por ali caçando seu jantar.

O terreiro estava lotado quando subimos. O caminho para a casa, o motor de luz roncava alto e iluminava a casinha de madeira. Dentro de casa não cabia todos, então, resolvemos reunir no quintal. Desligamos o motor para que todos pudessem se ouvir e a luz das lanternas iluminava quem falava. Eu estava para lá de animado de ver boa parte dos meus amigos do Bagé por ali, principalmente, a família do seu Hélio, na qual dormi a última vez que fui por lá. Dona Gata chamou todos para jantarem, e a comida estava maravilhosa! Foi servida no chão da cozinha, porco, arroz e farinha tinha pra quem quisesse.

Com todo mundo de barriga cheia, os barcos iam seguindo seus rumos guiados pelas lanternas, enquanto na cozinha, o Zequinha armava uma rede para eu dormir ao lado do Aldemir. A conversa ainda se estendeu até tarde acompanhada de café com bolachas. Quando o motor desligou, o rangido da rede balançando e o cantar da floresta transmitiam serenidade.

“Amanhã saímos cedo”, disse Aldemir, antes de virar para o lado e dormir. Sozinho com meus pensamentos lembrava de cada história, desde as mais engraçadas às conversas sobre visagens e almas na mata, que levavam o mais corajoso dos homens a fazer uma oração antes de dormir.


Cesário Braga escreve no ac24horas todas às sextas-feiras. 

Diário de um Acreano

Diário do Acre: Transacreana, km 80 e Rio Branco

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Lisiane mandou mensagem cedinho avisando que estava pronta, disse que iríamos dar carona para a Luana, filha do professor Walter, que estava voltando de um encontro da CONTAG. Na correria, ela não havia comprado uma lembrancinha para seu filho e nos fez parar no caminho para não deixar passar em branco. Na Baixada, encontramos Paulo Brasil e juntos começamos nosso trajeto pela Transacreana.

Entramos na vila Manoel Marcos para buscar o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Extrativistas e Assemelhados (SIMPASA) nosso companheiro Josa, que ainda estava terminando de se arrumar, a chuvinha da noite anterior deixou o ramal um pouco melado, problemas cotidianos para quem vive na zona rural, no Acre.

Paulo Brasil estava animado, já presidiu a associação Itamaraty I anos atrás, lembrou quando o Incra ainda estava cortando a terra. Há alguns anos vendeu sua propriedade, disse não se arrepender, mantém contato sempre com todos, mas a vontade de rever os amigos parece sempre contrariar as afirmações.

Uma equipe mexia no asfalto da Transacreana, castigado pelo tempo e pela falta de manutenção. Nossa viagem era até o km 80, combinamos de tomar café com professor Walter. Chegamos e o café já estava posto a mesa. Corri no pão de milho e completei com leite de castanha, o casamento perfeito para um quebra jejum de respeito.

Professor Walter estava animado com nossa chegada, o dia era de eleição na comunidade da associação Itamaraty I e mais uma vez ele recebeu da comunidade a responsabilidade de cuidar dela. Antes de irmos, contou um pouquinho de como foi sua despedida da escola, depois de muitos anos de trabalho e dedicação, o professor se aposentou.

Chegamos e a associação ainda estava fechada, a chuva do dia anterior não dava muitas esperanças do povo todo vir. O ramal estava bem castigado, fomos esperar ao lado em uma cobertura. Devagarzinho o povo começou a chegar, a maior parte na carroceria de uma bandeirante, a bruta encara qualquer desafio. Uma bandeirante com pneus bons é capaz de subir até em árvore.

Enquanto o povo ia chegando, jogávamos conversa fora. O clima era tão bom que vou lembrar em verso e prosa.

Na roda que eu estava uns já diziam: quem tiver com a conversa irregular, é melhor ir colocando em dia.

Paulo Brasil e professor Walter eram só nostalgia, dos tempos que a associação era tudo que eles tinham.

Aqui juntava muita gente era tudo no mutirão, sobrava companheirismo e nunca faltava o pão.

Observava atento aquela discussão, me peguei imaginado como era linda a comunhão.

Um companheiro falou alto, já fez logo uma proposta. A próxima tem que ser festa todo mundo vem, todo mundo gosta.

Se é pra ter reunião, nada melhor que churrasco e um forró. Quando falaram de doar um bicho, olhei pros lados e já estava quase só.

Era um olhando para a cara do outro, atrás da novilha. Fui saindo de fininho, vai sobrar para a visita.

Já era quase hora da boia e o professor chamou para começar. O Sindicato e a Federação juntos para ajudar.

Depoimentos e falas fortes falavam da importância, uma associação organizada é símbolo de bonança.

Depois da foto oficial e do presidente eleito discursar, refrigerantes e bolachas pra todos que estavam por lá.

Botei umas bolachas no bolso, ninguém sabia se iríamos almoçar. Melhor sempre prevenir do que remediar.

O salão foi ficando vazio, conforme o povo já ia. A chama da esperança com todos seguia.

Já estávamos de saída, Walter avisou pra parar em sua casa. Um feijão com calabresa na mesa já nos esperava.

Na estrada, no rumo de casa com sentimento de dever cumprido. Sabíamos que esse era só um pequeno passo para o grande desafio.

Organizar os trabalhadores e promover consciência de classe. É a missão de todo dia desde a hora em que o sol nasce.

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Diário de um Acreano

Diário do Acre: Equador e Cachoeira, em Xapuri

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Esperamos no posto na entrada de Xapuri, a chegada do Paulão, morador do Equador, foi de moto, pois já ia ficar pela comunidade no final de semana. Como era cedo, ainda não tinha café na conveniência, o jeito foi correr pra chegar na casa do Assis. Antes de tomar um gole de café preto parece que o dia ainda nem começou.

Chegamos cedinho na casa do Assis, ele ainda estava no curral tirando leite para a sua produção de queijo. Sua filha com destreza ajudava na lida com as vacas. Mandou nos afastarmos, só faltava desgotar uma preta metida a brava que ainda estava solta no campo.

Por esses dias estamos por aqui, apontou para uma casinha de criar carneiros e que estava servindo de morada enquanto a casa estava em reforma. Eliane, esposa do Assis, serviu um pão de milho com calabresa, fritou uns ovos e partiu um bolo para tomarmos com café. O filhinho mais novo do Assis fez questão de ir até o Paulão e afirmar que ele era quem tinha batido o bolo, por sinal estava ótimo.

Assis perguntou quem era o jovem que me acompanhava, Danilo se apresentou e disse que era filho da Fátima Silva, Assis olhou mais de perto e disse que ele era a cara do pai dele, Armando. Fátima e Armando andaram muito pelas comunidades de Xapuri nos tempos do projeto seringueiro que levou alfabetização para a floresta. Assis foi um que aprendeu e depois virou professor ajudando os companheiros do movimento, o caminho das letras. Tido por todos como curioso e sabido, até hoje carrega o apelido de Assis Macaco desse tempo de aluno e professor.

Paulão acelerou a conversa que já ia longe, “temos de passar no Nego Maia e combinei de pegar o Feijão lá pelo Mualdo”, disse. Nos despedimos e seguimos no ramal que quanto mais percorríamos ia se fechando em floresta. Paulão deixou sua moto em casa e entrou no carro. Aproveitou pra nós contar um pouco da sua história na comunidade, lembrou com nostalgia o dia que chegou na terra onde mora, na época não tinha nem ramal, foi uma viagem de carroça e depois a cavalo.

Nego Maia estava na varanda descascando uma laranja quando chegamos, alguns sacos azuis empilhados chamaram minha atenção. Nego Maia me disse que era café, plantou duas mil mudas que comprou de um vizinho e tinha colhido um pouco. Não perdi a oportunidade e já falei da experiência de Mâncio Lima com café. Sem dúvida é uma alternativa economicamente viável para levar renda para os agricultores familiares, um dia vou lhe apresentar o Jonas Lima, prometi.

Alguns vizinhos encostaram por lá e foram entrando na conversa sobre o roçado, a vida, política e futebol, sobrou até pro Neymar que todos queriam que nessa copa do mundo fosse banco do Vinicius Jr, mesmo jogando em posições diferente, um abarcou de lá: “se o Tite mantiver esse ritmo o Brasil pode ganhar essa copa!” Brasileiro é só esperança! A garrafa de café parecia que tava dando cria, os copos não paravam vazios e ela não secava. Paulão mais uma vez disse que estava na hora! “Daqui pro Mualdo é longe”, disse.

Quando íamos saindo Nego Maia nos chamou na cozinha e disse que tinha mandado matar uma galinha, mesmo sabendo que estávamos programados para almoçar no Mualdo, não fizemos desfeita, além do mais um caldinho de galinha caipira sempre faz bem. Já disse pra Raylane, não come muito que vamos almoçar duas vezes hoje.

Mualdo estava esperando, já tinha ido até cortar hoje. Ele tem uma excelente produção de borracha. Cortei a vida inteira, até pelas bandas da Bolívia, sempre fui seringueiro me contou. Serviu um cafezinho enquanto dona Isis servia a mesa. Perguntamos pelo Ronaldo um de seus filhos que nos avisou que estaria por lá, mas infelizmente ele não foi.

Depois de comer e conversar aquele tempinho frio convidava para tirar um cochilo, Mualdo ofereceu uma rede. levantei de um pulo antes que a preguiça me abraçasse e chamei todos para dar um pulinho no Romildo, um amigo de anos que assim como Mualdo era amigo do meu pai do tempo dos empates.

Romildo parece que tomou água de chocalho quando criança e fala por três, é uma história por cima da outra. “Cumpadi” do Mualdo contou de uma caçada de capelão, lembrando que Mualdo não come nada da mata e não carrega bicho morto no lombo, terminou lamentando que os bichos da mata sumiram muito de uns tempos pra cá.

Nos despedimos do companheiro Romildo e fomos na casa do Mucuin, sábado à tarde junta muita gente por lá pra participar do futebol. Não trouxe nem um short e nem deu de jogar, mas foi bom mesmo assim, o ventinho frio deixava o fim de tarde agradável, numa roda alguns degustavam uma pinguinha pra aquecer e outros um café quente passado na hora.

As horas parecem passar mais tranquilas em meio à floresta cortada pelos ramais e varadouros, mas quando demos fé já estava anoitecendo enquanto cruzávamos por essas comunidades que são parte da história de lutas dos seringueiros da Amazônia. Um dia Chico Mendes esteve por ali, caminhado e lutando pela organização dos trabalhadores e trabalhadoras contra os patrões, anos depois a luta continua necessária, os ideais continuam os mesmos e em cada palavra com os seringueiros percebemos como é importante manter Chico Mendes Vivo.

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Diário de um Acreano

Diário do Acre: Comunidade Rio Branco, Resex Chico Mendes e Xapuri

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O sol ainda estava dormindo quando busquei Raimundinho, sua esposa e filho para seguir viagem. A visita era especial, íamos participar do aniversário da Raiara, irmã do Raimundinho e filha do Raimundão. No caminho de Xapuri paramos no posto de gasolina de Capixaba, onde você pode se servir de uma deliciosa baixaria, acompanhada de um farto copo de café com leite.

Buscamos a Ângela Mendes e seu esposo Lenon, em Xapuri, cruzamos a balsa para a Sibéria e começamos uma das missões mais importantes do dia: levar o bolo de aniversário. Raimundinho não queria levar o bolo, pois o balançado do ramal com certeza iria danificá-lo e ele não queria ser o responsável. Porém, todos decidiram que essa seria sua missão. Nem bem saímos e a cobertura do bolo já sentia o impacto do ramal.

Choveu na noite anterior, mas o ramal estava bom, eu andava preocupado, não sabia como estava a tração do carro, minha cachorra havia comido os fios do sistema. Um trecho conhecido onde formava um atoleiro não saia da minha cabeça, mas mesmo com ramal molhado, o trajeto estava sendo bem tranquilo. Já perto da casa do Raimundão, descendo a ladeira do “chifre quebrado”, o carro derrapou e caiu em uma vala.

O motor roncava, enquanto os pneus traseiros patinavam na lama, a tração mesmo não dava nem sinal de vida. Vamos seguir a pé, está perto dá nem cinco quilômetros até lá. Depois vemos o que fazer com carro. O bolo já não estava tão simpático como quando pegamos. Raimundinho passou o bolo para o Lenon, que com a destreza de um garçom carregava apenas com uma mão, vamos revezando disse para Lenon, Ângela depois de carregar o bolo e deixar sua marca na cobertura recolhia flores no caminho, já pensando em cobrir as falhas.

Chegamos e os convidados já estavam por lá, a comida estava cheirando bem, lavamos os pés na subida e fomos conversar. A história do carro atolado e do bolo foi o centro das conversas por um tempo. Um tempinho depois, Nelsinho apareceu por lá com a Leila, sua filha Gabriela e Noquinha. Quando contei a história do carro, Noquinha disse que quando o Nelsinho viu o carro parado, chamou de barbeiro o motorista que havia atolado na ladeira, no caso eu.

Juntamos alguns cabos de aço e fomos no carro do Nelson para desatolar, um quadriciclo nos acompanhou. Tentamos arrancá-lo com o quadriciclo, que patinava e o carro nem molgava. O jeito foi amarrar na caminhonete, que com certa facilidade nos tirou da vala. Chegamos e lavamos novamente os pés pra subir. A mesa do almoço já estava posta e tinha comida pra um batalhão.

Algumas falas abriram a festividade. Por fim, a aniversariante falou da felicidade em contar com a presença de todos. Liberam a comida e a festa era grande, galinha caipira, pato no tucupi, tinha de tudo um pouco. Tomei tanto caldo de tucupi que terminei suado.

Ainda não tinha nem dado tempo da comida “sentar na barriga”, quando começou os parabéns. O bolo, cansado da viagem, foi decorado com alguns enfeites do Lula, que cobriam as imperfeições. Aliás, a festa era toda vermelha e tinha como tema principal o ex-presidente. Raimundão fundador do PT no Acre, transmitiu a toda a família o amor ao partido e ao companheiro que inclusive é seu amigo pessoal.

Depois do bolo, os convidados foram saindo, eu fiquei, dormi por lá nesta noite. Me chamaram para ir ao campo bater uma pelada, mesmo sem ter levado minhas chuteiras, coloquei um short e fui ver esse futebol. Já chegamos e marcamos nossa cerca, eu, Raimundinho e Rogério juntos com mais alguns que estavam atrás da trave assistindo.

A pelada foi boa, animada, ganhamos algumas cercas, não consegui deixar o meu, mas alguns dribles e passes estão anotados por lá. Depois do banho, Raimundão ligou a TV no Fantástico, assistimos, conversamos e debulhamos o milho das galinhas. Raimundão me perguntou sobre política e a guerra na Ucrânia, por lá só dar de saber o que a TV conta.

Maria nos chamou pra jantar, fomos depois de terminar com o milho, ainda tinha pato no tucupi. De barriga cheia, chamei o Raimundinho pra ir na escola pegar um pouco de internet e saber como estavam as coisas lá na minha casa. Quando cheguei, tinha um quartinho arrumado só me esperando pra dormir, abri a janela e fiquei sentindo a brisa fria refrescar o ambiente, cansado, o sono me pegou que eu nem vi.


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Diário de um Acreano

Diário do Acre / Rio Envira / Comunidades Barés e Curralinho / Feijó

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A correria começou cedo. Ainda era madrugada quando embarcamos nosso bote na carroça, caminhando tranquilamente pelas ruas desertas de Feijó o boi seguia rumo ao porto.

No porto, retiramos a canoa e a colocamos na água para dar início a nossa viagem. Raylane, minha esposa, vestiu minha capa para escapar do friozinho da madruga; Cabeça embarcou por último; no timão, André, nascido e criado na comunidade Curralinho, era o nosso guia.

O Envira estava enchendo, mesmo aparentemente sem haver muita chuva. Por todo o rio descia uma pauzada e formava alguns balseiros. A serração cobria o ambiente e fazia a madrugada ainda mais fria. Comentei com a Raylane que era a friagem anunciada pelo Friale, mas o sol começava a despontar no horizonte fazendo o mago do tempo errar mais uma vez.

Três horas rio acima, já na comunidade Barés, chegamos na casa do Biapino, sindicalista antigo, do tempo da fundação do sindicato. Gabou o trabalho do Cabeça no tempo que ele foi presidente, sem esquecer dos velhos amigos Juarez e Zequinha, que sempre estiveram na luta sindical.

Biapino me falou da história do seringal e a pendenga com a Funai, quando tentaram tirá-los dali. Lembrou, que graças ao sindicato e a alguns companheiros, não perderam a terra. Enquanto conversávamos, foi juntando gente da comunidade e quando menos esperávamos já era uma reunião. A garrafa de café rodava junto com a conversa, que sempre terminava com um ou outro indignado com o preço de tudo.

Cabeça disse que uma parte da minha família era de Feijó e logo todos perguntaram de quem eu era filho. Expliquei e dona Vanda, esposa do Biapino, já foi me dizendo que éramos parentes. Contou que ainda jovenzinha ficou órfã de mãe e foi morar e trabalhar na casa da minha falecida vó Maria. Fomos pra cozinha tomar um açaí e bacaba, enquanto dona Vânia perguntava por todos da família e lembrava da infância. Disse que vez ou outra falava na cidade com tio Chico. Tirei uma foto com ela e prometi levar lembrança a todos.

Enquanto tomávamos o açaí, Junior, filho do Biapino, foi me contar de um comício que certa vez aconteceu ali perto. Disse que o comício estava bom e todos da comunidade estavam por lá. Quando chegou a vez do Pedro Mucura falar, todos foram saindo, só ficou um. Pedro Mucura continuou seu discurso como se fosse uma multidão e não deixou de agradecer ao homem que permaneceu. Porém, o cara gritou de lá: “eu também já vou, seu Pedro, só estou esperando o meu camburão, que o senhor está em cima”.

Duas voltas adiante chegamos no Curralinho, na varanda da casa da Maria. Pingo admirava o rio, fomos subindo e nos abancando na varanda. Com pouco tempo, Maria veio ao nosso encontro e nos deu boas vindas. Conheci Maria na assembleia do STTR de Feijó. Reencontrá-la na sua comunidade foi uma felicidade. Não demorou e o Tonhão, outro filho da Maria, chegou por lá. Segundo Pingo e André, Tonhão sempre foi o irmão mais gaiato, e ele fazia jus à fama.

Tonhão dava conta de tudo da comunidade. Falou de um vizinho, pequeno igual rabo de tatu de couro, e me contou que na aldeia ali pertinho tem uma índia que diz ter 126 anos e que ainda está atrás de um marido.

Nosso barqueiro também tinha boas histórias. Contou da viagem que fez com uns americanos para as aldeias e que durante os 6 dias da viagem eles não tomaram banho nenhuma vez. Mas ele disse que ficou intrigado mesmo era que eles trouxeram a bolsa cheia de coisas, entraram na mata com elas, saíram com a bolsa vazia e no último dia voltaram pra buscar. Sugeri que fossem câmeras, mas ele não se convenceu e ficou o mistério.

Maria chamou pra almoçar peixe frito, peixe cozido e galinha caipira. Tratei de fazer um pirão de peixe. Maria perguntou o que queríamos fazer com o capadinho que o Tonhão matou. Era pro almoço falou o Cabeça. A comunidade estava sem luz e consequentemente sem telefone ha três dias. Não deu de avisar e o porco não virou churrasco. “Deixa que a gente leva”, avisou Cabeça enquanto comia peixe frito.

Voltamos para a varanda onde o vento fazia a curva junto com o rio. Raylane batia fotos maravilhada com tanta beleza. Eduardo, vizinho do outro lado do rio, encostou e nos convidou para passar lá antes de ir embora. Embarcamos e fomos visitar Eduardo. Ele nos ofereceu umas bananas madurinhas, prata e maçã, um café e muita prosa.

Eduardo mostrava com orgulho a casa nova, ainda por terminar, mas feita com muito esmero. A hora avançava e André nos chamou pra seguir viagem e não termos que navegar à noite, ninguém tinha uma lanterna. Descendo o rio a viagem fica mais curta. O sol se punha no horizonte e calmamente nos despedíamos das barrentas águas do rio Envira. Não nos deixaram pagar pelo porco, mas nos comprometemos de pagar na próxima vinda. Esse era o modo de terem certeza que por esses dias voltaremos lá.

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