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Diário do Acre: Alcoolbras/Capixaba

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Ainda era cedo quando cheguei na sede do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Capixaba. Chagas, o presidente, e a secretária Márcia já estavam pegados no serviço. Ouvi um pouco dos desafios da gestão sindical, enquanto aguardava junto com Luan e o Ronaldo a Leidiane, para começar nossas visitas.

Não deu tempo nem do café esfriar no copo, quando ela chegou e partimos. Entramos rapidinho no ramal da sementeira para encostar na casa do João, um jovem produtor que estava estudando pedagogia pela internet. Raimundo Rocha seu Rochinha da Sementeira, pai do João, chegou com pão e muitas histórias do tempo que morava na Cidade Nova em Rio Branco e da organização do polo.

Do lado da usina, entramos na Alcoolbras. Seguimos no asfalto até fazer a transição para a estrada de terra batida, o ramal estava molhado, caiu uma chuvinha ontem, chuva em agosto vai segurar as mangas mais cedo por aqui, mas revela também que, esse ano, talvez o ramal não seja feito a tempo.

Cruzamos uma porteira e encontramos seu Milton ajeitando umas telhas próximo a um caniço fincado no chão. “Peguei uma traíra mais cedo”, afirmou seu Milton, enquanto caminhávamos para sua casa. Na cozinha, dona Bal já estava com a panela no fogão. O perfume de madeira queimando, enquanto a panela chiava, fazia a conversa mais agradável. “Estou economizando o gás”, disse dona Bal tangendo um pintinho que ciscava por ali.

Seu Milton nos contou a história da dona Gleiciane, que teve 45% do seu corpo queimado em um choque de alta tensão e que não estava bem. Fomos fazer uma visita e saber se podíamos ajudar. Em sua casinha, a beira do ramal, ela sofria com a cicatrização e o descaso do acompanhamento, sem deixar de agradecer por estar viva. Pediu ajuda. Tenho fé que vamos conseguir dar encaminhamento ao pedido.

Era meio dia, quando chegamos na casa do Seu Eduardo, um mineiro simpático que cresceu em Mato Grosso e que mudou-se há pouco para o assentamento. Ele estava chegando do campo que está preparando para plantar milho. Dona Célia servia o almoço para os trabalhadores e nos convidou pra comer. Carne de Porco com macaxeira, feijão, arroz e ovo acompanhados de muitas histórias foram postos a mesa, Nós nos servimos e nos fartamos de tudo.

Seguimos para fazer a volta no Ramal do Barriga, mas antes, paramos na casa da Peruana, uma brasileira dos cabelos bem pretinhos e bem lisinhos, que carrega o apelido desde criança. As panelas ainda estavam no fogão, de bucho cheio, recusamos o convite para o almoço. Leidiane perguntou por uma das filhas. “Está no açude curando uma ressaca”, afirmou a Peruana, que me falou ter 11 filhos, quase todos morando em casas ao redor da sua.

Saímos correndo para Capixaba, converso de mais e isso terminou nos atrasando. Mesmo assim, Leidiane pediu pra parar na hortifrugranjeiro. Não podíamos deixar de passar no João do Gol. Nosso velho amigo estava deitado na rede, sofreu um acidente tirando cipó para ayahuasca e machucou as pernas, mas já estava bem melhor. Animado seu João só lamentou não estar podendo ir esperar. No mais, foi só gratidão a Deus por estar bem e a nós pela visita.

No retorno para a cidade, estávamos animados, Leidiane, Luan, Ronaldo e eu, mesmo atrasados seguíamos felizes. Eu talvez mais que eles, pois carregava comigo novos amigos e uma grande certeza: que a pouca chuva que vai segurar as mangas na alcoolbras, também vai fazer brotar a boa semente de sonhos que ali plantamos nessa visita.


Cesário Braga escreve todas às sextas-feiras no ac24horas.com

Diário de um Acreano

Diário do Acre: Comunidade Rio Branco, Resex Chico Mendes e Xapuri

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O sol ainda estava dormindo quando busquei Raimundinho, sua esposa e filho para seguir viagem. A visita era especial, íamos participar do aniversário da Raiara, irmã do Raimundinho e filha do Raimundão. No caminho de Xapuri paramos no posto de gasolina de Capixaba, onde você pode se servir de uma deliciosa baixaria, acompanhada de um farto copo de café com leite.

Buscamos a Ângela Mendes e seu esposo Lenon, em Xapuri, cruzamos a balsa para a Sibéria e começamos uma das missões mais importantes do dia: levar o bolo de aniversário. Raimundinho não queria levar o bolo, pois o balançado do ramal com certeza iria danificá-lo e ele não queria ser o responsável. Porém, todos decidiram que essa seria sua missão. Nem bem saímos e a cobertura do bolo já sentia o impacto do ramal.

Choveu na noite anterior, mas o ramal estava bom, eu andava preocupado, não sabia como estava a tração do carro, minha cachorra havia comido os fios do sistema. Um trecho conhecido onde formava um atoleiro não saia da minha cabeça, mas mesmo com ramal molhado, o trajeto estava sendo bem tranquilo. Já perto da casa do Raimundão, descendo a ladeira do “chifre quebrado”, o carro derrapou e caiu em uma vala.

O motor roncava, enquanto os pneus traseiros patinavam na lama, a tração mesmo não dava nem sinal de vida. Vamos seguir a pé, está perto dá nem cinco quilômetros até lá. Depois vemos o que fazer com carro. O bolo já não estava tão simpático como quando pegamos. Raimundinho passou o bolo para o Lenon, que com a destreza de um garçom carregava apenas com uma mão, vamos revezando disse para Lenon, Ângela depois de carregar o bolo e deixar sua marca na cobertura recolhia flores no caminho, já pensando em cobrir as falhas.

Chegamos e os convidados já estavam por lá, a comida estava cheirando bem, lavamos os pés na subida e fomos conversar. A história do carro atolado e do bolo foi o centro das conversas por um tempo. Um tempinho depois, Nelsinho apareceu por lá com a Leila, sua filha Gabriela e Noquinha. Quando contei a história do carro, Noquinha disse que quando o Nelsinho viu o carro parado, chamou de barbeiro o motorista que havia atolado na ladeira, no caso eu.

Juntamos alguns cabos de aço e fomos no carro do Nelson para desatolar, um quadriciclo nos acompanhou. Tentamos arrancá-lo com o quadriciclo, que patinava e o carro nem molgava. O jeito foi amarrar na caminhonete, que com certa facilidade nos tirou da vala. Chegamos e lavamos novamente os pés pra subir. A mesa do almoço já estava posta e tinha comida pra um batalhão.

Algumas falas abriram a festividade. Por fim, a aniversariante falou da felicidade em contar com a presença de todos. Liberam a comida e a festa era grande, galinha caipira, pato no tucupi, tinha de tudo um pouco. Tomei tanto caldo de tucupi que terminei suado.

Ainda não tinha nem dado tempo da comida “sentar na barriga”, quando começou os parabéns. O bolo, cansado da viagem, foi decorado com alguns enfeites do Lula, que cobriam as imperfeições. Aliás, a festa era toda vermelha e tinha como tema principal o ex-presidente. Raimundão fundador do PT no Acre, transmitiu a toda a família o amor ao partido e ao companheiro que inclusive é seu amigo pessoal.

Depois do bolo, os convidados foram saindo, eu fiquei, dormi por lá nesta noite. Me chamaram para ir ao campo bater uma pelada, mesmo sem ter levado minhas chuteiras, coloquei um short e fui ver esse futebol. Já chegamos e marcamos nossa cerca, eu, Raimundinho e Rogério juntos com mais alguns que estavam atrás da trave assistindo.

A pelada foi boa, animada, ganhamos algumas cercas, não consegui deixar o meu, mas alguns dribles e passes estão anotados por lá. Depois do banho, Raimundão ligou a TV no Fantástico, assistimos, conversamos e debulhamos o milho das galinhas. Raimundão me perguntou sobre política e a guerra na Ucrânia, por lá só dar de saber o que a TV conta.

Maria nos chamou pra jantar, fomos depois de terminar com o milho, ainda tinha pato no tucupi. De barriga cheia, chamei o Raimundinho pra ir na escola pegar um pouco de internet e saber como estavam as coisas lá na minha casa. Quando cheguei, tinha um quartinho arrumado só me esperando pra dormir, abri a janela e fiquei sentindo a brisa fria refrescar o ambiente, cansado, o sono me pegou que eu nem vi.


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Diário de um Acreano

Diário do Acre / Rio Envira / Comunidades Barés e Curralinho / Feijó

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A correria começou cedo. Ainda era madrugada quando embarcamos nosso bote na carroça, caminhando tranquilamente pelas ruas desertas de Feijó o boi seguia rumo ao porto.

No porto, retiramos a canoa e a colocamos na água para dar início a nossa viagem. Raylane, minha esposa, vestiu minha capa para escapar do friozinho da madruga; Cabeça embarcou por último; no timão, André, nascido e criado na comunidade Curralinho, era o nosso guia.

O Envira estava enchendo, mesmo aparentemente sem haver muita chuva. Por todo o rio descia uma pauzada e formava alguns balseiros. A serração cobria o ambiente e fazia a madrugada ainda mais fria. Comentei com a Raylane que era a friagem anunciada pelo Friale, mas o sol começava a despontar no horizonte fazendo o mago do tempo errar mais uma vez.

Três horas rio acima, já na comunidade Barés, chegamos na casa do Biapino, sindicalista antigo, do tempo da fundação do sindicato. Gabou o trabalho do Cabeça no tempo que ele foi presidente, sem esquecer dos velhos amigos Juarez e Zequinha, que sempre estiveram na luta sindical.

Biapino me falou da história do seringal e a pendenga com a Funai, quando tentaram tirá-los dali. Lembrou, que graças ao sindicato e a alguns companheiros, não perderam a terra. Enquanto conversávamos, foi juntando gente da comunidade e quando menos esperávamos já era uma reunião. A garrafa de café rodava junto com a conversa, que sempre terminava com um ou outro indignado com o preço de tudo.

Cabeça disse que uma parte da minha família era de Feijó e logo todos perguntaram de quem eu era filho. Expliquei e dona Vanda, esposa do Biapino, já foi me dizendo que éramos parentes. Contou que ainda jovenzinha ficou órfã de mãe e foi morar e trabalhar na casa da minha falecida vó Maria. Fomos pra cozinha tomar um açaí e bacaba, enquanto dona Vânia perguntava por todos da família e lembrava da infância. Disse que vez ou outra falava na cidade com tio Chico. Tirei uma foto com ela e prometi levar lembrança a todos.

Enquanto tomávamos o açaí, Junior, filho do Biapino, foi me contar de um comício que certa vez aconteceu ali perto. Disse que o comício estava bom e todos da comunidade estavam por lá. Quando chegou a vez do Pedro Mucura falar, todos foram saindo, só ficou um. Pedro Mucura continuou seu discurso como se fosse uma multidão e não deixou de agradecer ao homem que permaneceu. Porém, o cara gritou de lá: “eu também já vou, seu Pedro, só estou esperando o meu camburão, que o senhor está em cima”.

Duas voltas adiante chegamos no Curralinho, na varanda da casa da Maria. Pingo admirava o rio, fomos subindo e nos abancando na varanda. Com pouco tempo, Maria veio ao nosso encontro e nos deu boas vindas. Conheci Maria na assembleia do STTR de Feijó. Reencontrá-la na sua comunidade foi uma felicidade. Não demorou e o Tonhão, outro filho da Maria, chegou por lá. Segundo Pingo e André, Tonhão sempre foi o irmão mais gaiato, e ele fazia jus à fama.

Tonhão dava conta de tudo da comunidade. Falou de um vizinho, pequeno igual rabo de tatu de couro, e me contou que na aldeia ali pertinho tem uma índia que diz ter 126 anos e que ainda está atrás de um marido.

Nosso barqueiro também tinha boas histórias. Contou da viagem que fez com uns americanos para as aldeias e que durante os 6 dias da viagem eles não tomaram banho nenhuma vez. Mas ele disse que ficou intrigado mesmo era que eles trouxeram a bolsa cheia de coisas, entraram na mata com elas, saíram com a bolsa vazia e no último dia voltaram pra buscar. Sugeri que fossem câmeras, mas ele não se convenceu e ficou o mistério.

Maria chamou pra almoçar peixe frito, peixe cozido e galinha caipira. Tratei de fazer um pirão de peixe. Maria perguntou o que queríamos fazer com o capadinho que o Tonhão matou. Era pro almoço falou o Cabeça. A comunidade estava sem luz e consequentemente sem telefone ha três dias. Não deu de avisar e o porco não virou churrasco. “Deixa que a gente leva”, avisou Cabeça enquanto comia peixe frito.

Voltamos para a varanda onde o vento fazia a curva junto com o rio. Raylane batia fotos maravilhada com tanta beleza. Eduardo, vizinho do outro lado do rio, encostou e nos convidou para passar lá antes de ir embora. Embarcamos e fomos visitar Eduardo. Ele nos ofereceu umas bananas madurinhas, prata e maçã, um café e muita prosa.

Eduardo mostrava com orgulho a casa nova, ainda por terminar, mas feita com muito esmero. A hora avançava e André nos chamou pra seguir viagem e não termos que navegar à noite, ninguém tinha uma lanterna. Descendo o rio a viagem fica mais curta. O sol se punha no horizonte e calmamente nos despedíamos das barrentas águas do rio Envira. Não nos deixaram pagar pelo porco, mas nos comprometemos de pagar na próxima vinda. Esse era o modo de terem certeza que por esses dias voltaremos lá.

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Diário de um Acreano

Diário do Acre: Rio Bagé, Comunidade Remanso e Marechal Thaumaturgo

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Com sol a pino embarcamos nas voadeiras, a comitiva era grande assim como a nossa expectativa. Eu estava animado, visitaria mais uma vez a comunidade do Remanso, que fica no Rio Bagé. Muitos ali a conheceriam pela primeira vez, eu queria mesmo era rever os amigos.

O Juruá estava na tampa, o que facilitou a navegação. Aldemir ia ao meu lado conversando sobre pescarias e apontando para as casas na beira do rio, me contando como estavam os amigos. Nosso tempo estava corrido e não podíamos subir em todos os portos, como eu gostaria. Mas, só de saber que estava tudo bem, já era motivo de felicidade.

Saímos do Juruá, passamos pelo Tejo e adentramos o Bagé. Estava acostumado a fazer essa viagem de canoa, na voadeira tudo é mais rápido, confesso que senti falta da tranquilidade, não gosto de visita corrida. Contudo, saímos tarde de Marechal e tínhamos que chegar no Remanso antes do anoitecer.

Mesmo com tempo corrido deu tempo de dar uma paradinha na casa do Quima e tomar um cafezinho quente, passado na hora. Perguntei pelo açude que ele estava fazendo no braço, a última vez que fui por lá, a cheia arrombou. “No verão vou tentar ajeitar, não tem peixe. Mas tem carne de caça”, afirmou Quima, apontando para a pia onde uma bacia de carne de caça estava sendo tratada. Me encantei com um macaquinho que se escondia por entre as bacias no chão, o nome dele é “Chico”. Eu soube por uma das filhas do Quima. Deve ser regra dar nome de Chico aos macacos, criados em casa.

Na parede da cozinha, um calendário chamava a atenção. Na verdade é difícil uma casa à margem Rio do Juruá e afluentes que não tenha uma foto, calendário ou mesmo uma imagem do Irmão José da Cruz, de barba longa e densa e vestes franciscanas e alvas que, segundo os moradores, nunca sujava. Irmão José se perpetua por suas histórias, milagres e devoção por todo o Juruá. Me contaram que certa vez um ribeirinho estava com ele e precisava fazer uma viagem longa, porém, não tinha combustível no motor e de varejão demoraria dias. Então, Irmão José pegou o querosene de uma pequena lamparina, colocou no motor e mandou ele ir. Reza a lenda que o combustível que não daria nem pra andar uma curva de rio, deu pra ir e voltar.

Chegamos no Remanso ainda com dia, encostamos na casa do seu Jonas, que estava sozinho, pois sua esposa está fora (viajando) fazendo um tratamento de saúde. Aldemir não perdeu tempo, já foi dizendo que as noites do Jonas devem ter ficado mais frias. Ele riu e concordou. Aldemir contou uma história de que numa outra vez que ela viajou, para um tratamento em Cruzeiro, depois de muitos dias fora, o médico disse que teria que ir a Rio Branco e a viagem se estenderia mais ainda. Jonas preocupado disse que tinha que levar uns documentos para ela, Aldemir de pronto disse que mandaria pelo voo no dia seguinte. Porém, Jonas olhou fundo nos olhos de Aldemir e disse que tinha que entregar pessoalmente. Todos gargalharam, ao perceberem que era só mais uma desculpa de um homem sempre apaixonado, que não se aguentava mais de saudades de sua velhinha.

Na casa ao lado mora o Carlos, um dos irmãos mais novos do Jonas. Chegamos bem na hora que ele estava chegando do roçado com alguns de seus filhos, são bem uns 14. Aldemir desafiou Carlos a dizer o nome de todos, a esposa dele riu e preferimos não insistir, vai que o homem erra e algum fica chateado. Uma rodada de café animou a conversa e uma tapioca foi servida junto, senti que tinha um negócio diferente na tapioca, parecia castanha. Perguntei de onde tiraram castanha, pois na região do Juruá não tem. “É cocão”, me disse um dos meninos. “Ficou muito bom!”, respondi.

Tava findando a tarde quando subimos mais um pouquinho o Bagé e chegamos na casa do Zequinha e da dona Gata, onde dormimos. Rapidinho se formou uma roda na sala e a conversa fluiu, conforme ia chegando gente, mais animada ficava a roda. Alemão que nos acompanhava na viagem, conhecido de todos, virou o centro da conversa. Léo lembrou de um amigo que já se foi chamado Dedé Verissimo, em épocas de campanha quando disputava eleição de vereador com Alemão e encontrava um voto dele, fazia questão de tentar tirar o voto, dizia o Dedé: “não vote no Alemão, ele é tão ruim que nem a cobra quis”.

Alemão teve que contar a história para que todos entendessem, nos contou que quando era pequeno na beira de um lago foi atacado por uma cobra grande que se enrolou em seu corpo, mesmo apertado conseguiu puxar a faca da cintura e ferir a cobra, que machucada deixou ele em paz. Moisés que escutava atento a história disse que provavelmente a cobra morreu, pois se furar a cobra ela não escapa, na água a traíra vai comendo na ferida e no seco a formiga ataca. “Se o Dedé estivesse aqui ai ter história pra noite toda”, afirmou Alemão, que aproveitou pra falar que antes de morrer, Dedé pediu desculpa a todos que um dia ele poderia ter ofendido.

A noite foi caindo e a sala começou a ficar pequena, chegava gente de todo o Remanso por lá. Na cozinha Dona Gata e as mulheres preparavam um porco pra janta, o cheiro da comida tomava de conta de todos os lugares da casa. Descemos para tomar um banho no Bagé, mergulhávamos no rio e subíamos nas canoas para se ensaboar, confesso que ficava meio acuado, vai que a cobra que pegou o Alemão não estava por ali caçando seu jantar.

O terreiro estava lotado quando subimos. O caminho para a casa, o motor de luz roncava alto e iluminava a casinha de madeira. Dentro de casa não cabia todos, então, resolvemos reunir no quintal. Desligamos o motor para que todos pudessem se ouvir e a luz das lanternas iluminava quem falava. Eu estava para lá de animado de ver boa parte dos meus amigos do Bagé por ali, principalmente, a família do seu Hélio, na qual dormi a última vez que fui por lá. Dona Gata chamou todos para jantarem, e a comida estava maravilhosa! Foi servida no chão da cozinha, porco, arroz e farinha tinha pra quem quisesse.

Com todo mundo de barriga cheia, os barcos iam seguindo seus rumos guiados pelas lanternas, enquanto na cozinha, o Zequinha armava uma rede para eu dormir ao lado do Aldemir. A conversa ainda se estendeu até tarde acompanhada de café com bolachas. Quando o motor desligou, o rangido da rede balançando e o cantar da floresta transmitiam serenidade.

“Amanhã saímos cedo”, disse Aldemir, antes de virar para o lado e dormir. Sozinho com meus pensamentos lembrava de cada história, desde as mais engraçadas às conversas sobre visagens e almas na mata, que levavam o mais corajoso dos homens a fazer uma oração antes de dormir.


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Diário de um Acreano

Diário do Acre: Igarapé Vai Se Ver – Rio Branco II

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A noite parece que foi curta, quando pisquei já era dia, guardamos a dormida e fomos nós organizar para sair. Quando fui tomar banho cedo percebi que o banheiro era um dos que o CTA (Centro de Trabalhadores da Amazônia) havia feito na Resex. Senti orgulho, porque já trabalhei no CTA, quando falei isso ao “Diploma”, imediatamente me perguntou da Júlia e pediu que levasse um abraço.

Sentamos na cozinha para tomar café e a risadagem era grande. Noca nos falava do homem mais bruto que ele conhecia na região. Contou que “certa vez saiu pra comprar castanha com um comprador amigo e encostou na casa desse véi. Depois do acordo firmado, o chefe da compra deixou dois peões quebrando as castanhas no barracão do véi. Os peões nó cego que eram, escreveram no barracão que o véi num era homem e ainda lhe roubaram um machado quando se foram. O véi não lia, mas um dia sua mulher foi lá e lhe contou o que tinha escrito. O véi ficou enfurecido jurando todos.

No ano seguinte o comprador desavisado foi por lá, não conseguiu nem descer do barco, o véi estava brabo no terreiro querendo limpar sua honra com os fatos do comprador, já que não sabia onde andava os peões. Depois de muita conversa, Noca disse que conseguiu apazigua já que o comprador não tinha nada a ver. Infeliz, o comprador ainda teve a coragem de tentar pôr preço na castanha do véi e o viu tacar fogo no barracão com castanha e tudo, praguejando que preferia ver as castanha queimarem que vender pra ele de novo”.

“Vamos”, alertou Antônio do Bill que conhece a distância e sabe o desafio da viagem de volta. Descemos e seguimos a pé para o centro do Belém. Uma picada larga na mata de várzea com água e lama era o caminho. “Esse é o ramal”, me disse o Diploma, apresentando, “quando o igarapé alaga, a água passa por aqui e é melhor andar de canoa no ramal do que no igarapé”. Quem foi o esperto que decidiu fazer ramal na margem do igarapé? Questionei. O ICMBIO, respondeu ele de lá, observando que não foi por falta de aviso da comunidade que apontou o melhor local.

Os meninos me alugavam na caminhada, passei a viagem inteira olhando para as margens do igarapé atrás de uma onça e pedindo pro Noca encontrar uma, já que ele é meio mateiro também. Já pensou encontrar ela nessa mata dizia o Josa? Ela vai pegar só tu, Josa que caminha com mais dificuldades, a gente some na carreira. O caminho acaba numa ladeira de onde já se vê a igreja da comunidade. Azul como o céu, o prédio da Assembleia de Deus sempre bem cuidado é referência em muitas comunidades por todo o Acre.

Arrodeamos uns cachorros e finalmente chegamos na casa do seu Luiz Ribeiro. Era cedo mais parecia que ia ter uma festa por lá, pois em todos os cantos que se olhava havia amigos e parentes do Luiz. “Vamos embarcar um castanha”, avisou Luiz enquanto a mesa estava sendo posta para o café da manhã.

Rapidinho uma roda se formou e a conversa fluía por todos os lados. Josa aproveitou para falar do sindicato, que teria eleição e que o sonho de fazer um sindicato mais representativo e próximo dos trabalhadores e trabalhadoras não podia morrer. Antônio do Bill também deu seu discurso e todos dividiam o sonho de construir dias melhores para aquela comunidade tão distante dos centros urbanos.

“Vamos comer? Já está na mesa”, avisaram da cozinha. Era o verdadeiro quebra jejum: arroz, feijão, farofa e porco. Um banquete já no café da manhã. “Eu gosto da casa cheia e da mesa farta”, avisou Luiz enquanto se servia. Ligou o som com um louvor pra animar o café, todos se serviram e se abancavam pela varanda, sentei num saco de castanha enquanto comia do porco cozido e conversava sobre a comunidade.

Josa se admirou do som do Luiz, ele pra se gabar aproveitou pra contar uma história. “Certa vez fui esperar na baginha aqui perto de casa e pedi pra ninguém ligar o som, pra eu ouvir as pacas roendo. Mas, menino já se viu, né! Pensa o que não, a menina ligou o som, aí alteou, eu atrás de ouvir roendo e não ouvia nada. Começou uma zoada de folhas remexendo num arrastado, eu pensei comigo é uma pico de jaca, armei a espingarda, quando eu reparei com a lanterna, as pacas estavam grudadas dançando”. Todos riram alto com seu Luiz contando e dançando.

A conversa estava ótima, mas tínhamos que voltar. O igarapé secou quase meio metro e já prevíamos uma volta mais complicada. Nos despedimos e demos meia volta no caminho. Diploma chamou pra almoçar em sua casa, bati no vaso da farofa e disse pra ele não se preocupar.

Com o igarapé mais seco galhos e árvores surgiram e formavam balseiros ainda maiores, tornando a viagem igarapé abaixo ainda mais difícil. Fizemos duas forquilhas com galhos para facilitar o controle do barco, fiquei com uma, Josa com a outra e Noca foi pra proa com facão em mãos. A cada balseiro era uma luta descendo, cortando e empurrando.

Na comunidade Cumaru paramos para visitar o Victor, presidente do núcleo de base da RESEX Chico Mendes em Rio Branco. Lembrei que tinha conhecido seu pai, que presidiu a associação antes dele. Nunca esqueci o nome da associação, era tão longe e esquecida que eles se intitulavam “Os Desprezados do Vai Se Ver”. Victo assumiu depois que seu pai faleceu, mas, me disse como era difícil lhe dar com a associação sem o devido apoio do ICMBIO.

Já estava ficando tarde e a volta era longa, apertamos o paço para descer antes de anoitecer. A ideia era pegar a gasolina e seguir até a casa do Augusto no riozinho. Peguei um sinalzinho de internet em uma escola e fui me atualizar sobre as notícias. Uma emergência surgiu e decidi voltar direto pra casa do Noca, remarcando a visita no Augusto para depois. Aproveitei que tinha uma gasolina entocada e resolvi fazer uma doação para a comunidade do Vai Se Ver que estava precisando do combustível para limpar o igarapé dos galhos e árvores com os motosserras.

Mesmo correndo, despontamos no riozinho quando já era noite, as lanternas iluminavam nosso caminho em uma noite sem lua. Atracamos no porto do Noca bem tarde, mas ainda com tempo para voltar para a cidade. Antônio do Bill resolveu dormir por lá, segui com Josa rumo zona urbana de Rio Branco, conforme íamos avançando na Transacreana, a paisagem ia mudando, a floresta e campo acolhedores iam dando espaço para as casas e prédios, na rotários da saída parece que entramos em outro mundo, também cheio de histórias, mas onde não é possível ver um casal de pacas a dançar.


Cesário Braga escreve todas às sextas-feiras no ac24horas.com

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