Não é exagero dizer que o comércio está no sangue de Núcia de Sales Melo, 50 anos, dona das lojas A Cruzeirense Magazine e Cabana Mix, localizadas em Cruzeiro do Sul. Neste mês de outubro, ela firma mais uma sociedade com a filha, Maria Eduarda de Melo Bardi, a Duda, para iniciar um novo empreendimento, com foco em móveis populares. Mãe e filha também almejam abrir outras lojas em mais cidades do Acre.

Formada em Pedagogia pela Universidade Federal do Acre (Ufac), Núcia optou pelo comércio na década de 1990, como sócia na empresa da família. Entretanto, desde 2018 ela mantém uma sociedade apenas com a filha. As empresárias vivem uma fase de grande ascensão empresarial, realidade de poucas mulheres na região do Vale do Juruá.

Dos sete empreendimentos que ela teve e tem com a família, todos apresentaram sucesso e geram emprego e renda para Cruzeiro do Sul. Na Cruzeirense Magazine, há móveis, eletroeletrônicos, itens de decoração, vestuário e calçados para toda a família, além de utensílios para cama, mesa e banho. A Cabana Mix vende roupas e calçados de marcas famosas, como Arezzo. O novo empreendimento, localizado no centro da cidade de Cruzeiro do Sul, terá móveis com preços mais populares.

A presença de Núcia nas empresas não se restringe ao escritório. Filha de comerciante e conhecedora do ambiente desde antes mesmo da adolescência, ela transita no espaço de 3.241 metros quadrados divididos em três andares, onde estão dispostos mais de 100 mil itens, com a desenvoltura dos que dominam o negócio e se adaptam aos novos tempos.

No comércio, atende e prospecta demandas de clientes. Vê entrar ao local compradores que conhece desde a década de 1990, quando iniciou, mas também comemora a conquista diária de novos clientes. Tem ainda os que nem pisam na loja, mas compram tudo de forma online, o que durante a pandemia de covid-19 foi o diferencial, potencializando os negócios. A coragem e o espírito empreendedor fez a diferença: A Cruzeirense Magazine se firmou alcançando um crescimento superior a 100 % de faturamento e aumento da clientela. Tudo porque apostou e investiu em marketing digital e vendas online, o que já era feito de forma mais tímida antes da pandemia.

Sua filha, Duda, advogada com formação MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), soma com a mãe na coragem e no espírito empreendedor. Em meio à pandemia e pagando dívidas, elas resolveram transformar as lojas de roupas e de móveis, que até então dividiam um único espaço, o que demandou recursos e reforma nas instalações físicas. A integração do espaço resultou em otimização, economia e satisfação da clientela, que gostou da modernidade e ampliação do local.

Transformação

O primeiro passo foi transformar a loja em um magazine. “O nosso objetivo era deixar a loja mais prática. Por que o cliente tinha que sair de uma loja, pagar as contas lá, sair, entrar por outra porta, fazer outras compras, pagar de novo no mesmo crediário, se podia comprar nas duas, fazer uma parcela só e fechar uma compra só? Então mudamos e economizamos caixas, pacotes. Porque antes era um caixa lá, outro caixa aqui, um pacote lá e outro aqui. Principalmente a gente ficou com uma ideia de unidade dentro da empresa, até pros nossos colaboradores”, relata Núcia.

Duda afirma que tudo valeu a pena, mas que foi necessário ter coragem para assumir os compromissos bancários que oportunizaram a obra de reforma e as mudanças. “A gente falou assim: é agora ou nunca. Vamos aproveitar que a loja está fechada, por causa da pandemia, e vamos fazer as coisas que precisam ser feitas. Quebramos as paredes. Primeiro trocamos todo o piso de um andar e subimos o infantil pra lá, descemos o masculino. O início da pandemia pra gente foi de obras. Tínhamos acabado de reformar a Cabana, a gente estava pagando as contas da reforma de lá, e tivemos que fechar a loja. Foi na cara e na coragem. Como todo empresário, principalmente no nosso ramo, recorremos ao banco, a gente sempre recorre ao banco. Trocamos a fachada da loja com o financiamento também, do Banco da Amazônia, mas a gente foi fazendo o que precisava. E a clientela gostou dessa interação assim. É uma loja única, é um magazine, onde se encontra tudo. As vendas aumentaram depois disso, entendeu? E os clientes ficam satisfeitos”.

A praticidade de Duda descende da mãe e da avó, porque, assim foi criada. Núcia levava as duas filhas para a loja desde quando elas eram pequenas. Queria que elas conhecessem a mesma realidade que a mãe, Agamedina, havia ensinado a ela. Hoje Duda agradece pela responsabilidade que recebeu da mãe. “Lembro uma vez que cheguei em casa umas seis horas da manhã de uma festa e minha mãe só acordou, me deu um chá e falou: ‘Pode tomar um gole e abrir a loja’. Outra vez eu e a Fernanda, a gente estava dormindo, e ela pediu para a secretária lá de casa colocar o telefone no meu ouvido. Aí ela falou assim: ‘Você não tem vergonha, não, de tá dormindo enquanto seus pais estão trabalhando?”.

Fernanda fez Medicina e Duda, Direito. Núcia relembra que no começo não queria Duda nas empresas, preferia que ela seguisse o Direito em uma carreira jurídica, mas o destino agiu de outra forma. “Agradeço muito a meu pai por minha filha ser minha sócia hoje, porque foi ele que trouxe ela pra dentro da empresa e que segurou a barra dela. Sempre pensei em um concurso público, que ela tivesse estabilidade, que seria uma juíza. Hoje eu entendo que estabilidade não é um concurso público, não é de jeito nenhum”.

A sua firme vontade e o apoio de seu Epitácio Melo, seu avô, fizeram Duda permanecer no mundo dos negócios. “Eu queria fazer Administração e fiz Direito. Aí minha mãe ligou e falou que me pagaria um salário por mês para ficar em Fortaleza estudando pra passar em um concurso, ter uma vida mais tranquila, família, ter férias, décimo terceiro. Eu falei que não queria e que voltaria para Cruzeiro para trabalhar. Aí eu voltei…Era comerciante mesmo que eu falava. E meu avô me incentivava muito. Lembro que minha primeira venda foi com 12 anos e meu avô pagou a minha comissão. Ele pagou, ele fazia questão”.

Aumento de 100% nas vendas com a pandemia e negócios digitais

Em meio à pandemia, em 2020, a A Cruzeirense Magazine aumentou em mais de 100% as vendas e manteve os funcionários. De quarentena em casa, a clientela demandou itens da linha branca (geladeira e outros eletrodomésticos), móveis, além de itens de home office. Para a compra, buscava comércios com vendas online, o que a empresa tinha para oferecer. “As pessoas ficaram mais em casa por causa da pandemia e trocaram os móveis. Passaram a cozinhar mais e quiseram fogões e geladeiras novos. As roupas e calçados não tinham saída, mas o crescimento foi de cerca de 120% nas vendas de móveis e eletrodomésticos. As pessoas queriam deixar a casa mais confortável. Home office também. Para melhorar, as pessoas compraram cadeiras de escritório, mesinhas. Chegou a faltar os produtos da linha branca. Neste período, o marketing digital, as redes sociais e as vendas online mais que dobraram nossas vendas. Esse é um caminho que não tem mais volta, o do uso da tecnologia para impulsionar as vendas. Tem esse nicho dos jovens, que acompanham tudo pelas redes sociais. E aí vai morar só, ele é jovem, ele é ligado, ligado na moda atual, na decoração com um design atual. É um novo público, que resolve tudo pelas redes sociais e estamos prontos para atender com excelência”, conta Núcia.

O uso da tecnologia para divulgar e vender seus produtos durante a pandemia foi o diferencial da A Cruzeirense Magazine. Foi graças à Duda, sempre antenada nas redes sociais e com o conhecimento técnico adquirido com o MBA, que a empresa deu um salto no período considerado mais crítico para o comércio. Do enxoval do bebê à máquina de lavar roupas, tudo é mostrado nas redes sociais da empresa e o cliente faz a compra e recebe tudo sem sair de casa, mesmo que more na mesma rua da loja ou na capital, Rio Branco. Essa possibilidade já existia antes da pandemia, por meio do site, mas foi aprimorado e ampliado. Os vendedores foram treinados para vender usando as redes sociais.

“Eu sempre usei muito o Instagram e investi em propaganda na internet, na divulgação das lojas desde quando ainda estávamos com meu avô, mas eu era muito questionada por isso. Já aqui na nossa loja, os funcionários não acreditavam naquilo que eu falava. Antes da pandemia falava que tinha que tirar foto, mandar pros clientes. A gente já tinha uma pessoa que cuidava do nosso Instagram. Quando a loja ficou fechada por causa da pandemia, eles começaram a acreditar e aí começaram. Ainda bem que já estávamos preparadas no ramo de marketing digital. Quando começou a dar certo todo mundo acreditou. Quando eu morava lá em Fortaleza já fazia o Instagram aqui da loja, da Cabana, eu sempre fui muito antenada assim com a internet. Pensava que estava acontecendo aqui (em Fortaleza) que é cidade grande, lá é pequeno, também dá certo. O MBA na FGV serviu muito também, mas eu fui pra muitos congressos. Passei uns dois anos e todo mundo perguntava pra quê, que não agregava em nada e a realidade atual e o feedback dos clientes, mostrou que a gente estava no caminho certo”.

Todas as etapas da venda no Magazine podem ser feitas por meio das mídias sociais. “O WhatsApp e o Instagram da loja já são direcionados para área de vendas. Você quer vendedor de roupa ou você quer vendedor de móveis, e aí já vai mandando as fotos e já faz a venda direta”, explica Eduarda. A venda de roupas e calçados, que no período crítico da pandemia teve grande queda, já voltou ao normal e com crescimento nas duas lojas.

As empresas têm atualmente 60 funcionários e as contratações estão abertas. A busca é por um perfil diferenciado de vendedor. “Não tem mais volta. É daqui pra frente e o funcionário já vai ter que vir com essa habilidade. A pessoa que tem vergonha de postar, de tá aí buscando a mídia, não vai ter lugar, eu acho, em loja, em atendimento”. Outra lição da pandemia é a necessidade da organização financeira, com capital extra, para evitar os altos juros bancários. “A gente não estava preparado, então tivemos que apelar para o banco neste período de crise com alta de juros. Mas também não devemos entrar em pânico, porque depois tudo dá certo”, lembra Núcia.

Vendas para Rio Branco

Na contramão da compra da capital para o interior, a Cruzeirense vende itens para clientes de Rio Branco. Além da linha branca, o que mais vende é guarda-roupas, em uma viagem de mais de 600 quilômetros. O que acontecia de maneira tímida se intensificou na pandemia e, dependendo do valor da compra, o frete grátis.

“Nós já mobiliamos apartamentos e casas inteiras. Antes eram pessoas que eram clientes nossos, foram embora para Rio Branco ou alguma família que conhecia a loja. Com o avanço do marketing digital, a clientela de Rio Branco, que não conhecia a empresa de Cruzeiro do Sul, passou a pedir os produtos da loja. Queremos expandir cada vez mais essa venda para a capital. A pessoa faz a compra, paga por Pix e recebe lá. A gente tem link de cartão também. A pessoa mesmo entra no link, faz sua forma de pagamento, em dez vezes no cartão, igual a uma venda por site”, explica Núcia.

O começo de tudo, com o patriarca, Epitácio Tomé de Melo

O começo da vida empresarial de Núcia e da filha Duda foi com o patriarca da família, Epitácio Tomé filho, com quem Núcia diz ter aprendido tudo o que sabe. Juntos e com o irmão, Epitácio Junior, montaram negócios de sucesso, como A Cruzeirense, a Quilo a Quilo e a Cabana Mix. Cresceram, diversificaram em itens, buscaram públicos diferenciados, do mais popular ao mais sofisticado, mas sempre mantiveram a qualidade e a inovação nos produtos ofertados. Além da A Cruzeirense do Mercado, mais popular, outra foi aberta na rua Pedro Teles, com estrutura mais moderna.

Antes de Núcia nascer, o pai, Epitácio, já era comerciante junto de seu irmão, João Melo, nas décadas de 60 e 70, em Cruzeiro do Sul. Vendiam secos e molhados e depois abriram a Casa Melo e a Super Móveis Melo. A mãe, Agamedina, incentivava Núcia e os irmãos para o trabalho e para que fossem junto com o pai. Ela foi tendo cada dia mais intimidade com o comércio. Na década de 90, com o pai já atuando sozinho, surgiu a loja A Cruzeirense e Núcia assumiu novas funções, como o gerenciamento da empresa.

“Minha mãe, Agamedina Sales Melo, era professora, estudava. Então ela foi pra esse lado da educação. A gente foi crescendo e meu pai e meu tio sempre trabalharam com muita dificuldade financeira, tudo sempre foi muito apertadinho e isso foi sendo repassado pra gente. Eu lembro até as vezes em que a minha mãe dizia: “Não pode gastar muito! Não pode gastar muito porque essa casa não é nossa, é do banco, tudo é do banco (risadas)”. Nós somos quatro filhos, eu sou a mais velha. Depois vem a Núbia, a Núria e o Epitacinho. O tempo foi passando e a gente sempre teve fartura, nunca faltou nada na nossa vida graças a Deus, mas meus pais passaram pros filhos sobre as dificuldades, a realidade mesmo. E meu pai sempre foi muito vendedor. Lembro que quando começou a venda de televisão, em Cruzeiro do Sul, ele foi um dos primeiros que vendeu aqui com meu tio. Era da marca Telefunken. A gente assistia televisão, aí vinha alguém e comprava a televisão que a gente estava assistindo (risadas) e ia embora. Ele vendia mesmo a TV”.

Eduarda diz que esse “espírito terrorista das dificuldades e do mundo real”, que Núcia recebeu da mãe dela, Agamedina, também passou para os próprios filhos em casa. “Essas coisas das dificuldades, ela repassou pra gente também, pros filhos também e a gente trabalhava todo sábado na loja. Eu e minha irmã fomos estudar fora, mas nas férias vínhamos e trabalhávamos. Era sempre esse ‘terrorismo’ em casa também e assim como meu avô Epitácio vendia as TVs que os filhos estavam assistindo, eu já tirei Havaianas do pé no meio da loja pra vender também pra cliente que gostou e queria. É de família. Desde pequena queria vender e não era pelo dinheiro, eu queria vender mesmo. Levava canetinhas e camisetas para vender na escola”, lembra.

Já na década de 90, Núcia morava em Rio Branco quando os pais a chamaram para atuar na A Cruzeirense. A lembrança da infância e da adolescência nas lojas do pai e do tio ainda era presente nela e Núcia voltou à terra natal e assumiu o gerenciamento da loja. “Meus pais me chamaram com a ideia dessa loja. Minha mãe deu esse nome: A Cruzeirense, ali no Mercado. Minha mãe tinha passado no concurso da Receita estadual e não queria, nem poderia, ficar dentro do comércio. Eles me chamaram pra voltar de dois filhos que seria meu pai, meu irmão e eu. Então A Cruzeirense começou disso. O nome da empresa é Epitácio Melo e Filhos. A gente vendia muita coisa porque viajava, ia vendo outras coisas e o meu pai também é muito inovador. Eu administrava, fazia compras, cuidava do financeiro, ajudava nas vendas. Eu gerenciava a loja toda. Meu irmão era jovem e teve até que ser emancipado na época para se tornar sócio. Ele gostava muito dessa coisa de fazenda, então era muito envolvido com isso. Das minhas irmãs, a Núbia é advogada e a Núria, dentista. Então eu e meu irmão seguimos nessa sociedade. Em 2007, abrimos a loja da rua Pedro Teles, que depois virou duas até agora em 2018, que é A Cruzeirense. A gente vendia só móveis e eletros, porque lá no Mercado não havia espaço para os móveis e o estacionamento era ruim. Em seguida, fizemos o outro prédio para confecções”, pontua Núcia.

Nesse meio tempo, Duda, que havia se formado em Direito na Unifor, em Fortaleza, voltou para Cruzeiro do Sul, virou sócia da empresa e passou a gerir a loja Cabana Mix, especializada em multimarcas. Entre 2018 e 2019, Núcia, o pai e o irmão fizeram uma cisão na sociedade e Duda se tornou sócia da mãe.

“Com a Duda na sociedade nós já éramos quatro. Chegou ao ponto em que estava na hora da divisão, de um próximo passo. A gente deu esse passo, e hoje eu e a Duda temos nossa empresa, a Melo & Melo”, diz. Para a .empresária este foi um processo natural, o de perceber que estava na hora

“E quem percebeu que estava na hora foi meu avô, Epitácio. Pra ver como ele está à frente do tempo dele. Percebeu que estava na hora e tomou a iniciativa para a cisão. Esses dias, meu avô falou que a gente precisa de um depósito maior, ou seja, ele sabe que vendemos muito, nos acompanha e torce por nós”.

Sucesso de mãe para filha

Núcia tem quatro filhos: Fernanda, Eduarda, Ana e João. Com Duda a relação perpassou as bases familiares, o que nem sempre foi fácil. Como aprendeu com a mãe, Núcia pôs as filhas para trabalhar na loja para que entendessem a importância do trabalho e da empresa, mas queria a estabilidade funcional delas por meio de concursos. Quando Duda passou a demonstrar total interesse em seguir a vida empresarial, tentou fazê-la desistir, mas não houve jeito e há seis anos a jovem passou a ser sócia na empresa da família e, em seguida, só da mãe.

As relações nem sempre são harmônicas, mas uma complementa a outra. Núcia dá os meios, as asas e a coragem, e Duda executa. “Eu sempre falo pra todo mundo, já falei até pra minha mãe que eu não sou empreendedora, ela que é e tem a coragem de fazer as coisas. Eu tenho mais medo, mas eu gosto de executar. Minha mãe é mais ‘vamos, vamos fazer que vai dar tudo certo’ e eu vou lá e executo. Ela é corajosa e faz a gente acreditar que as coisas darão certo. Por exemplo, na pandemia, imagina reformar uma loja, reformar uma fachada, pegar dinheiro em banco com tudo fechado? Mas com a coragem que vem dela, faz realmente dar tudo certo”.

Para ter certeza que tudo realmente daria certo, Núcia exigiu que Duda, assim que terminou a faculdade, fizesse o exame da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, para poder atuar na área de formação, em caso de necessidade. “O que ninguém tira de você é o estudo. Eu falei ‘se algo der errado’, se Deus quiser não vai dar, aí você pega um papel, uma folhinha branca, um sulfite e escreve Dra. Maria Eduarda, OAB número tal”.

Quando Duda entrou para o negócio, o objetivo inicial era que ela tomasse conta da loja Cabana Mix, que vende roupas multimarcas, diferenciadas, com valor agregado. Ela ficou poucos meses só lá e ia para A Cruzeirense quando a mãe viajava. Núcia passou a viajar mais para visitar feiras. Até que Duda exigiu uma mesa e um computador para ela no local.

“É uma grande parceria, mas a gente teve dificuldades de adaptação no começo porque eu estava fora há oito anos e voltei para a casa da minha mãe e fomos trabalhar juntas. A gente é muito parecida e se eu tivesse a OAB nessa época, eu não estaria mais aqui, porque a gente tinha muito arranca-rabos e nosso relacionamento era estremecido. Nessa época quem me protegia era meu avô, que fazia questão que eu continuasse trabalhando. Minha mãe me chamou com um salário baixo, baixo, baixo, que eu acho que era pra ver se eu desistia, e aí eu tive que vender meu carro e comprar outro. Eu ainda tinha que pagar a parcela do meu carro e o que eu ganhava só dava pra isso, na verdade (risadas). Mas eu coloquei na minha cabeça que era só um período e que ia passar. É tanto que eu não queria fazer a prova da OAB, porque eu sabia que eu fizesse e tivesse outra coisa pra fazer, eu ia desistir. Só fiz a prova da OAB quando eu senti que eu já estava mais segura no trabalho, já sabia qual era o meu papel aqui. E o que minha avó passou para minha mãe, de não sermos ricos, ela passou para mim e durante o tempo em que eu morei fora, a gente andava de ônibus, calculava quanto é que a gente ia precisar por mês, até o lanche da escola, e ela mandava exatamente aquilo, porque ela dizia que adolescente não tinha que ter dinheiro sobrando. Depois, já na faculdade, veio o carro”.

Aos 50 anos, Núcia ainda não pensa em parar, mas tem a certeza de que Duda estará preparada para ficar à frente de tudo. “Mesmo que seja uma empresa familiar, não pode eternizar. Tem a hora que você para de produzir. Eu quero chegar nesse momento, eu quero me aposentar, eu quero isso pra mim mesmo que eu faça outra coisa. Mas eu quero. Eu não quero ficar pra sempre dentro da loja”.

Casada, Duda, está grávida de 4 meses de uma menina. O objetivo é seguir trabalhando ao lado da mãe e, quem sabe, já preparar a filha, para ser a nova geração de mulheres na A Cruzeirense. “Ela vai crescer aprendendo a trabalhar. Pode fazer outra coisa da vida dela, não tem problema, mas ela vai ter que aprender a ter responsabilidade né, mãe? Igual a gente aprendeu”.

Qualidade que atinge terceira geração de clientes

Ao longo de décadas, A Cruzeirense tem sido referência de qualidade em Cruzeiro do Sul. Diversidade, qualidade dos produtos e atendimento personalizado sempre foram o diferencial do negócio da família. Núcia e Duda seguem em busca constante da excelência e já vendem itens para a terceira geração de cruzeirenses. Apostam no aprendizado constante e em dar brilho na prata da casa, qualificando os colaboradores, crescendo e se desenvolvendo com o município.

“Nosso intuito é sempre prezar pela qualidade com a diversidade de produtos. Comprar na A Cruzeirense já é tradição, uma coisa passada de mãe para filho, né? Desde sempre eles vão na loja. E nós estamos sempre aqui, somos a cara da loja e garantimos atendimento personalizado. Pergunto sempre pros clientes o motivo de comprarem aqui e eles se referem à qualidade. Quando a pessoa pensa ‘eu quero uma roupa boa pro meu filho, eu vou na Cruzeirense. Eu quero um roupeiro bom, eu vou na Cruzeirense Magazine’. É tanto que a gente já tentou trazer pra cá produtos com menos qualidade, mas com preço mais baixo, mas não saem”, acrescenta Duda.

Muitos clientes mobíliam e decoram toda a casa com produtos da loja. Há também os que compram os móveis antes mesmo de terem o imóvel. “Eu tenho um cliente que vai construir e já comprou muita coisa. Tem uma pessoa que havia comprado uma geladeira tinha dois anos, esperando terminar pra gente entregar. E é legal também quando falam assim: ‘Na minha casa quero os móveis da Cruzeirense, porque eu quero só coisa boa’, sabe? A Cruzeirense virou sinônimo de qualidade. A gente pensa todo dia em melhorar, crescer pelos clientes, porque Cruzeiro do Sul merece. Até os clientes novos, que Cruzeiro do Sul tá com muitas pessoas novas, e eles entram e falam que não imaginavam que Cruzeiro do Sul tinha uma loja assim igual a Cruzeirense Magazine, que iam encontrar de tudo, tipo de departamento, que nunca imaginaram que podiam comprar roupa pros filhos tão boas, nunca que poderiam ir na Cabana Mix e encontrar Arezzo. A gente gosta de usar e a gente confia, a gente gosta também de oferecer. A gente usa os nossos produtos diariamente. A gente usa, a gente consome o que a gente vende”.

A confiança da clientela garante fidelidade que perpassa as gerações. Núcia relembra de pessoas para as quais vende desde a década de 90 ainda no Mercado, e que agora vende para os netos. Alguns desses antigos clientes são do tempo da fichinha verde de crediário da loja. “Lembro da Lucila Brunetta vindo comprar roupa para as meninas dela pequenininhas, uma delas, a Sofia. E agora, a Sofia estava aqui esses dias já comprando pra filha dela. São três gerações de mulheres usando nossos produtos. Eu já atendia essas meninas, com sandalinhas daquela época da Grendene que vinha com brinquedinho e tem vários outros casos. Eu fico muito feliz”.

A excelência da empresa passa pela atualização constante de ideias, estoques e aprendizados. Núcia e Duda se mantêm de olho em tudo o que surge no mercado, participam de feiras e eventos do setor e investem também na qualificação dos 60 colaboradores. Até em viagens de férias, as duas não param de aprender sobre como melhorar cada vez mais. O número de clientes aumentou depois da pandemia com a divulgação, com a internet, com os meios de comunicação e com os investimentos no marketing. Viajar, se atualizar, é fundamental para elas também porque, cada viagem, é um aprendizado. Em viagens de férias, aproveitam a oportunidade para aprender a melhorar a empresa. Ao entrar em lojas da área em que atuam, observam tudo: o que está vendendo, o que é tendência, o que está no auge. Uma ida ao shopping é uma pesquisa.

“Eu acho que a vida do empresário, do comerciante é assim. Você está viajando, mas não para de trabalhar nunca. Você vai pra uma viagem, sei lá, de saúde, mas a oportunidade que você tem de analisar alguma coisa e vê dali o que você pode aplicar não pode ser perdida Isso é contínuo e você trabalha no celular 24 horas. Quando a gente vai numa feira tem o networking. A gente aprende com os outros empresários. Há uma troca. Eles perguntam pra gente, a gente pergunta. Há trocas de experiência, de produtos, de marcas, do que vende, não vende. E isso é muito interessante. Então a gente tenta ser sempre muito bem atualizado”.

Fazer a prata da casa brilhar também é garantir retorno positivo da clientela. Elas optaram por ter pouca rotatividade entre os colaboradores e têm funcionários como a Ergleide, no grupo desde os anos 90. “A pessoa vem aqui e procura a vendedora que sabe até a cor da roupa que ela mais gosta e eu acho que esse é o ponto positivo de não ter muita rotatividade de funcionário. A gente investe em cursos e aperfeiçoamento. Daqui, só sai quem quer”, explana Duda.

Como o número de funcionários é grande, as empresárias optam por fechar pacotes de capacitação dentro da empresa mesmo. “A gente traz consultores de Rio Branco, já trouxemos de outros lugares, pra dar cursos aqui. A gente passava o final de semana em cursos às vezes, de aperfeiçoamento de vendas, atendimento ao cliente. E, sempre pro final do ano, a gente faz um encontrão assim de incentivo, de inteligência emocional, essas coisas. O último curso foi de mídias sociais para eles entenderem o Instagram, Facebook. Não tem mais volta”.

Responsabilidade social com Cruzeiro do Sul

Os sete empreendimentos de que Núcia fez parte geraram e geram emprego e renda no município, seguem crescendo e se desenvolvendo junto com Cruzeiro do Sul. Casada com o presidente da Associação Comercial do Vale do Juruá, Luís Cunha, Núcia é presidente do Centro Educativo Adilis Nogueira Maciel – Ceanom, centro de cultura ligado à Associação, que promove ações de cidadania e cursos de música. A mãe de Núcia, Agamedina, realiza o mesmo trabalho na instituição desde a década de 90.

“Me sinto, hoje com muita responsabilidade social em relação ao município. Nós geramos empregos aqui, contribuímos com o município. Além disso, tem as questões sociais que nos envolvemos como no Ceanom, que busca preparar as pessoas para o mercado de trabalho. É uma instituição que dá o peixe, mas também dá a vara de pescar. Também em pequenas ações do dia a dia, podemos fazer a diferença. Aqui na loja, por exemplo, separamos o lixo, o que os colaboradores já adotam também, e assim as ações se multiplicam”.

Nova Loja

O sucesso na continuidade dos negócios será mais uma vez comprovado com a expansão dos empreendimentos. Neste mês de outubro, mãe e filha vão abrir uma nova loja de móveis no Centro de Cruzeiro do Sul, próximo à Praça dos Taxistas. Será um espaço menor com produtos mais populares para atender a clientela que circula pela região central.

“Será uma loja menor onde o cliente comprará mais rápido, sem precisar subir escada e com produtos mais baratos. O público que vem dos ramais, vem de barco e gosta de ficar no Centro é o que queremos alcançar. Empreender é isso, é você sempre está sonhando com os próximos passos. Mesmo que esses passos demorem muito, você está sempre sendo movido por alguma coisa. A gente sonhou muito com a abertura das duas lojas juntas e realizou. Agora abriremos essa nova de móveis”.

O desejo de crescer e fazer parte do desenvolvimento da cidade, segue nas gerações. Núcia se diz emocionada que a semente plantada por seu Epitácio e dona Agamedina, agora com ela e Duda, vira árvore frondosa no caminho de sucesso iniciado por ele. A empresária lembra que o nome A Cruzeirense foi ideia de Agamedina, “a general”.

“Meu pai é um homem de coragem e inovador. Minha mãe sempre foi nossa general, a pessoa que também tinha uma visão, e a gente conseguia realizar. Então ela sempre foi nosso suporte e nosso pilar emocional, eu acho. Quando houve necessidade, já chegou a tirar licença para ficar na empresa. Agora é aposentada do Estado, não gosta de ficar em comércio, mas gosta de tá metendo o bedelho. Ela é a que manda, e sei que eles ficam felizes com nosso sucesso, porque a semente que plantaram, virou árvore frondosa, que seguirá dando bons frutos”, conclui Núcia.

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