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O quarto do João

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O calor no pequeno quarto era insuportável. O ar abafado, sufocante. João estava com a roupa ensopada de suor. Barba por fazer, por mais que se esforçasse não conseguia abrir os olhos vermelhos, a luz ardia como brasa; boca seca, amarga, pele gordurosa. O quarto, de tão baixo, podia tocar o teto com as mãos…

O cheiro de couro, cigarro e suor oprimia ainda mais o ambiente. Lúgubre. Suas pernas doíam de câimbras. A dor na cabeça pressionou as têmporas. Algo estranho lhe apertava o peito impedindo-o de se mover. Sua mente estava turva, embaçada.

Lembrou da mulher, filhos, dívidas, trabalho. Anos e anos de trabalho e não tinha nada. Aos 40 anos ainda vivia de aluguel. Até o time de sua preferência caíra para a 3ª divisão do campeonato. A vida lhe era ingrata, cruel e injusta. Acreditava.

Como viveria naquelas condições? Um medíocre, um infeliz, uma escória da sociedade. Tentou olhar para fora, mas as janelas de vidro estavam embaçadas pelo mormaço, por uma espécie de vapor que saía da sua boca. Tentou mudar de posição e não conseguiu. Estava paralisado.

Numa fração de segundos sonhou ter morrido e ficado preso ao corpo. Não, não, o quarto era pequeno, mas grande mais para ser um caixão. Sentiu-se como quem acorda dentro de um sonho e não consegue mover-se. É desesperador. Como foi parar ali, naquele lugar de tormento? O que fez para merecer tal castigo?

Sentiu uma sede insuportável, agonizante, uma sede indescritível. Se viu em um deserto desolado, hostil, sozinho. Teve ânsia de vômito. Imaginou ser o calor. Sabia que não estava no deserto. Estava em um quarto pequeno, apertado. Era isso. A sede o levava ao delírio. Tudo muito real, abafado, respirava um ar quente. Um zumbido no ouvido o perturbava ainda mais. As costas doíam…

Sonhou novamente em um oásis, coqueirais altos, sentiu mais sede. Não havia água no oásis, somente areia. Quis chorar, mas não conseguiu. Não havia lágrimas, seu corpo estava desidratado. Não saberia dizer se estava vivo ou morto. Talvez estivesse no inferno sem merecer, não era tão mal assim.

Cometera muitos pecados, principalmente com sua esposa, saía para beber com os amigos depois do expediente a deixava em casa sozinha com as crianças. Recordou da mãe, do pai e da infância. Os pensamentos giravam em sua cabeça como um redemoinho. Havia um buraco em sua alma, uma abismo escuro. Sentia sobressaltos. Medo, até.

João ouviu vozes distantes. Alguém estava chegando. Moveu a cabeça, a dor foi tanta que teve náuseas, vômitos. Estava febril, mãos trêmulas. Poderia estar doente. Seria ele um louco em um hospício preso a uma camisa de força dopado. Estaria em coma depois de um acidente de carro? Ouviu novamente vozes ao longe, distante. Alguém gritava pelo seu nome; sentiu batidas em uma das janelas de vidro do pequeno quarto embaçadas pelo calor:

_ Joao! Joao! João! Acorda infeliz!

Ao longe, a voz de uma criança soou como uma canção enchendo seu coração de um sentimento bom que se havia perdido em algum lugar do caminho.

_ O que foi mamãe?

_ O cínico do seu pai chegou bêbado de novo e dormiu dentro do carro na garagem, vai acabar morrendo sufocado. Deve ter torrado o dinheiro da feira com os amigos da laia dele. Que nojo, está todo vomitado, parece um porco.

_ Eu gosto do meu pai, mãe!

Com muita dificuldade João conseguiu baixar o vidro do carro e balbuciar com a boca seca, a língua volumosa e a voz pastosa:

_ Água, pelo amor de Deus! Tragam água que eu estou morrendo de sede nesse inferno.

Ao ver a filha de apenas oito anos correr e trazer água fria, João chorou; solveu as lágrimas salgadas de um alcoólatra e, pela enésima vez, jurou de si para si que nunca mais sairia com os amigos da sua laia para beber.

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