Conecte-se agora

A Estrada do Pacífico no comércio exterior do Acre

Publicado

em

Era o início da década de noventa do século passado, quando começaram a criar as expectativas em torno da Rodovia Transoceânica, também chamada Estrada do Pacífico. Foi justificada como a estrada que ligaria os estados fronteiriços brasileiros com o Oriente, o que significaria um lucro de 100 dólares por tonelada de grãos devido à economia de 9 mil quilômetros na rota brasileira ao oriente. Também que os estados amazônicos e o cerrado brasileiro teriam grande capacidade de produzir excedente para exportação. Estimativas de que 400 caminhões diários de soja em direção ao Oriente passariam pelo Acre e que, em contrapartida, o Peru poderia exportar ao Brasil produtos minerais, sobretudo fertilizantes e gás. A proposta do artigo de hoje é mensurar o impacto da abertura da Rodovia Interoceânica nas transações comerciais do Acre com o exterior. Para a nossa análise, usaremos os dados da Comex Stat do Ministério da Economia e como metodologia utilizaremos as séries das exportações e das importações, desde 2008 (onde temos os primeiros registros de transações por Assis Brasil), até o mês de agosto de 2020.

No período 2008/2020, a média anual do total das exportações foi de US$19,2 milhões e o das importações foi de US$ 3,5 milhões.

No gráfico acima, temos o comportamento do valor total das exportações e importações, em milhões de dólares no período analisado (de janeiro de 2008 até agosto de 2020). Apesar do crescimento natural esperado de ambas, registramos, para efeito de comparação, que no período 1997-2007 a média das exportações acreanas foi de US$ 6,7 milhões e das importações US$ 2,2 milhões. Podemos inferir que a abertura da rodovia interoceânica, um pouco mais de uma década depois, em média, quase triplicou o valor das exportações e ampliou, em mais de 50% o valor das importações acreanas. 

No período analisado, em média, 38,5% das exportações e 27,6% das importações ocorreram por recintos aduaneiro localizados no Acre.

A quase totalidade das exportações e importações ocorreram pelas aduanas de Assis Brasil e Brasiléia (depois substituída por Epitaciolândia). Existem registros isolados de exportações realizadas por Rio Branco (2008) e importações por Cruzeiro do Sul (2010). Os produtos acreanos de maior valor que são exportados pela aduana de Epitaciolândia para a Bolívia são a castanha-do-brasil e recentemente a carne e os derivados de suínos. Além disso, são exportados produtos industrializados em geral, material de construção, dentre outros. As importações por Epitaciolândia, também oriundos da Bolívia, são geralmente madeira e cimento. 

Em 12 anos (2008-2020), o percentual do valor do fluxo do comércio internacional do Acre (exportações mais importações) realizado pela Rodovia do Pacífico foi de 16,7%. Nos últimos 6 anos (2015-2020), essa participação subiu para 22%.

No período analisado, o valor do fluxo comercial do Acre com o comércio internacional foi de US$ 295 milhões de dólares (250 das exportações e 45 das importações). Pela Transoceânica, o fluxo foi de somente US$ 49 milhões (37 das exportações e 12 das importações), correspondendo a somente 16,7%. É verdade que estamos observando um crescimento no fluxo pela rodovia, nos últimos cinco anos a participação no fluxo foi para 22%. Para os propósitos e expectativas que motivaram a construção da rodovia, é muito pouco.

Para as exportações, em 2020, a rodovia tem sido utilizada, principalmente para a exportação de castanha-do-brasil, milho, derivados da soja e pescado para o Peru. Observou-se também registros de exportações de carnes e derivados de suínos para o Peru, Dinamarca, Hong-Kong e Uruguai. Dos produtos mais exportados pelo Acre, como madeira, carne e miúdos de bovinos e castanha-do-brasil, somente a castanha está sendo transacionada pela rodovia. As importações estão concentradas em produtos de polímeros para a produção de peças e utensílios de plásticos e máquinas e equipamentos importados da China. A importação de produtos peruanos como cimento, cebola, alho e outros alimentos também são importados pela rodovia do vizinho país. 

É importante ressaltar que as atividades turísticas estão sendo incrementada pela rodovia. Conforme o Anuário Estatístico do Turismo de 2020, publicado pelo Ministério do Turismo, em 2019, a quase totalidade dos 30.448 estrangeiros que chegaram ao Acre foi via terrestre, parte deles, por Assis Brasil. 

Portanto, precisamos criar medidas concretas para melhor utilizar a Estrada do Pacífico e intensificar o comércio exterior do Acre. Existe no âmbito do Fórum Permanente do Desenvolvimento do Acre, uma Câmara Técnica de Comércio Exterior cuja missão é desenvolver e promover a cultura do comércio exterior no Estado do Acre. Em seu Plano para os próximos anos, constam 07 eixos que incluem: relacionamento e promoção de negócios, logística e infraestrutura, barreiras em mercados externos, inteligência comercial, assessoramento e capacitação empresarial, facilitação e desburocratização do comércio exterior e estímulo e apoio aos negócios acreanos para exportação. A proposta é que no âmbito da câmara e do Fórum, vários atores chave (autoridades governamentais, lideranças empresariais, academia, entidades de profissionais liberais, entidades de fomento, entidades de pesquisa e agências de desenvolvimento), possam estar juntos, mobilizando a sociedade para elevar as transações comerciais do Acre com o exterior.

Em conclusão, precisamos resgatar e ampliar a capacidade da Estrada do Pacífico para a realização de uma ampla integração econômica e social entre os povos da América do Sul e ampliar as nossas relações comerciais externas com outras partes do mundo. A resposta da rodovia ante as expectativas geradas pela classe empresarial, pelas autoridades governamentais e pela população em geral, parece-nos muito pequena. 


Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas. 

Destaque 2

Advogadas de paciente que praticou racismo são impedidas de entrar no Hosmac

Publicado

em

Continuar lendo

Acre 01

Estudante tem vaga por cota racial negada, mas consegue liminar para medicina na Ufac

Publicado

em

Continuar lendo

Destaque 6

Comissão de Ministérios quer zerar desmatamento até 2030

Publicado

em

Continuar lendo

Cotidiano

Lula parabeniza Marina Silva por seus 65 anos: “companheira nos meus 3 mandatos”

Publicado

em

Continuar lendo

Newsletter

INSCREVER-SE

Quero receber por e-mail as últimas notícias mais importantes do ac24horas.com.

* indicates required

Leia Também

Mais lidas

error: Este conteúdo é protegido.