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A agricultura nossa de cada dia

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Quando o caçador-coletor homem da caverna enterrou algumas sementes, a humanidade, dali em diante, passaria a conviver com a agricultura. Assim, milênio após milênio, passou a fazer parte da história do homem. Das antigas civilizações, passando pela a Idade Média, Moderna e Contemporânea, o setor primário sempre foi vanguardista. Nenhum povo ou nação atingiu etapas de desenvolvimento sem investir maciçamente nesse setor.

O Brasil, mesmo fazendo parte do Novo Mundo, tem parte considerável de seu PIB oriundo do agronegócio. De dimensões continentais, o nosso território tem as condições naturais para se tornar a maior potência mundial na produção e exportação de alimentos. Esse caminho é quase inevitável e já pode ser notado pela expansão das nossas fronteiras agrícolas.

O Acre, por sinal, é o único estado da federação que ainda não entendeu o quanto esse setor é estratégico. Saímos do combalido extrativismo para o nada. O saudoso economista e escritor, Celso Furtado, defendia que a agricultura chegasse aos rincões para desenvolvê-los de forma exógena (de fora para dentro), ou seja, do interior para os grandes centros urbanos.

Assim dizia o velho mestre: “se tivermos uma grande produção agrícola, nos alimentaremos melhor e o excedente irá para a exportação”. Óbvio que Furtado formulou uma bem definida cadeia produtiva, chamando-a de autodesenvolvimento ou agroindustrialização. Além de criar uma classe média no campo, essa política agrícola ajudaria a conter o êxodo rural.

O Acre tem as condições naturais para ser um estado desenvolvido. Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária (Embrapa) mostram que o solo acreano é apropriado para o cultivo da mandioca. A fécula ou goma, subproduto da raiz, é versátil como matéria-prima industrial, que pode ser utilizada em setores tão diversos quanto o alimentício, o têxtil e o de papel, entre outros.

A mesma pesquisa também aponta o açaí com um grande potencial econômico, pois o produto tem grande aceitação no mercado nacional e internacional.

Estes exemplos dependem de políticas públicas para chegar aos agricultores familiares e estes, por sua vez, poderiam viabilizar a produção agroindustrial, agregando valor a sua produção, gerando trabalho e renda e a consequente melhoria em suas vidas. A agroindustrialização precisa ser uma política de Estado.

Para falar sobre este e outros assuntos, a reportagem de ac24horas procurou o chefe-geral da Embrapa Acre, Eufran Amaral, o primeiro acreano a assumir o cargo. Formado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Acre (Ufac), com mestrado e doutorado na Universidade Federal de Viçosa (MG), ele é uma das maiores autoridades do Estado quando o assunto é agricultura. Vejam os principais trechos da entrevista:

EMBRAPA_02ac24horas – O saudoso economista Celso Furtado dizia que a agricultura era a principal saída para desenvolver a nossa região. Propunha também que a exploração e o cultivo de produtos regionais deveriam ser amparados pela indústria. Ele chamou isso de autodesenvolvimento. O que o senhor tem a comentar?

Eufran Amaral Concordo plenamente com ele. Somos um estado estrategicamente bem localizado e com um enorme potencial produtivo na agricultura, pecuária e na floresta. O Celso Furtado propôs uma bem definida cadeia produtiva. Isso é possível na nossa região, principalmente com a agroindústria e a consequente exportação de produtos regionais.

ac24horas – E por que isso não acontece? O Acre ainda tem jeito?

Eufran Amaral Mas está acontecendo. Somos um dos estados mais novos da federação. Temos um pouco mais de 50 anos de autonomia. Até a década de 70, tínhamos somente o extrativismo com gerador de riquezas. Na década seguinte, foram criados os Projetos de Assentamento, os PAD,s, um modelo muito questionado tanto pelo tamanho das propriedades como pelas formas de exploração delas. O Zoneamento Ecológico e Econômico, um estudo que durou uma década e envolveu cerca de 300 profissionais, apontou que não só temos jeito como podemos ser um estado desenvolvido.

ac24horas – Então temos terras de fato agriculturáveis?

Eufran Amaral Sim. Hoje temos 13% de área já convertida. Desses 13%, a maior parte é ocupada por pastagens. Mas nós temos 6% da área desmatada que é ocupada por culturas anuais e perenes. Hoje, do ponto de vista do cultivo anual, a mandioca é a principal cultura do Estado. Se somarmos a mandioca e o milho, teremos mais de 60% de área cultivada no Acre. Do ponto de vista da cultura permanente, temos banana e o café. Essas são as principais culturas do Estado. Isso indica que devemos trabalhar de acordo com a vocação da região. É pouco provável que sejamos grandes produtores de arroz. Por quê? Porque não temos vocação para isso. No entanto, a nossa capacidade produtiva de mandioca (toneladas por hectares) é a maior do país, a maior da Região Norte. Conseguimos eficiência em sistemas produtivos que são nossos. O Milho, agora com a questão da mecanização, estamos com a produtividade acima da média nacional, que é atualmente de duas toneladas por hectare. Estamos chegando a quatro no Acre. Isso significa que temos o potencial e um milho de qualidade.

ac24horas – A região do Vale do Juruá se destaca pela produção de farinha de mandioca. O município de Feijó pelo açaí, Tarauacá pelo abacaxi e Acrelândia com o café e a banana. Todavia, esses produtos não geram boa renda. Como se explica isso?

Eufran Amaral Temos que incorporar valor aos produtos. Temos que discutir a indicação geográfica da farinha. Isso significa que, assim como você toma o vinho do Sul, o queijo canastra de Minas, tem que ter um selo para nossa farinha de mandioca. Sem contar que poderíamos ter aqui uma indústria de fécula. Isso é uma fórmula de incorporar valor ao produto primário. A mesma coisa pode acontecer com o açaí, que tem grande aceitação no mercado internacional. Podemos exportá-lo na forma de pó. Podemos ainda intensificar o melhoramento genético do abacaxi, que é produzido em um dos solos mais férteis do Acre. Temos, também, a possibilidade de uma das culturas mais rentáveis, que é a produção do óleo de safrol, que extraído da pimenta longa. Cerca de 85% dos nossos produtores são familiares. Temos que avançar nas culturas anuais deficientes como a fruticultura e bovinocultura de leite, que tem a ver com a produção de grãos. Isso tudo sem contar com a criação de peixes, que faz parte de uma cadeia produtiva.

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ac24horas – Desde 1992, a Embrapa pesquisa a pimenta longa com o objetivo de transformá-la uma alternativa produtiva para a agricultura familiar na Amazônia É possível criar um sistema de cultivo que agregue valor através do processamento primário no campo? Isso ainda não se converteu em alternativa de renda. Por quê?

Eufran Amaral Até o início da década de 90, o Brasil era o principal produtor de safrol quando obtinha o produto extraído da Canela de Sassafrás (Ocotea pretiosa Mezz) no sul do país. No entanto, a produção não sustentável criava o perigo iminente de extinção da espécie. Foi aí que, em 1991, o Ibama proibiu a exploração da Canela de Sassafrás. De uma hora para outra, o Brasil passou de principal produtor mundial para importador. Em todo o mundo, o consumo de safrol excede 3 mil toneladas/ano, mas a oferta do produto encontra-se comprometida. Hoje, os únicos produtores mundiais de safrol são China e Vietnã que usam os mesmos métodos destrutivos que eram empregados no Brasil. Tal prática compromete a oferta de safrol natural a longo prazo. Neste contexto, a pimenta longa é uma fonte alternativa de safrol natural que pode ser explorada de forma não destrutiva, pois o óleo essencial se concentra na copa da planta que rebrota com facilidade após o corte. Muito em breve estaremos estimulando o cultivo de uma espécie, que terá um valor agregado muito significativo.

ac24horas – Isso tudo sem desmatar?

Eufran Amaral Hoje temos, de todas as áreas desmatadas, 83% de pastagens, mas os 40% dessas pastagens estão degradadas ou em vias de degradação. Temos 200 mil hectares só de capoeiras, que estão abandonadas. Se a gente trabalhar com a capoeira e área de pastagem degradada, iremos aumentar, em fator de quatro, a produção do Estado. Então o que falta é um planejamento integrado, em nível municipal e estadual, para que possamos potencializar a ampliação das áreas já plantadas.

ac24horas – Os solos da nossa região, formados basicamente por argila e areia, não são apropriados para a produção de grãos. O que o agricultor tem que fazer?

Eufran Amaral A Seaprof tem um programa de distribuição de calcário, que é muito utilizado pelos pequenos agricultores. Essa é uma estratégia ligada à agricultura familiar. A outra é a inserção da mucuna nesses ambientes de forma que você possa incorporar matéria orgânica, melhorando a fixação de nitrogênio no solo. O agricultor precisa procurar os órgãos de assistência técnica, busca o Incra e a Embrapa para levar conhecimento para dentro da propriedade.

ac24horas – Por que o Acre não é potencialmente bom para o plantio de arroz?

embrapa_04Eufran Amaral Os nossos solos são inadequados. Haverá locais que até dará, mas não são grandes áreas. Por que o Sul produz arroz? Porque lá são áreas planas e têm potencial estabelecido, além de uma cadeia já estabelecida (produtores, indústrias). Então é muito mais fácil a gente comprar o arroz de fora do que produzir aqui, pois, se insistirmos em plantar aqui, teremos um produto de baixa qualidade, que não competirá com o produto lá de fora. As áreas disponíveis devemos usar para culturas que têm maior rentabilidade. Um exemplo agora é o cultivo de café em região entre Sena Madureira e Assis Brasil. Só precisamos fazer o uso adequado dessas áreas.

ac24horas – O senhor costuma enaltece a nossa floresta. Também propõe a distribuição de riquezas com o pagamento de royalties pelo uso dela. Explique isso?

Eufran Amaral Os projetos de infraestrutura a serem executados em nossa região devem incorporar o que podemos chamar de royalties pelo uso dos recursos naturais. É preciso criar um mecanismo que envolva e beneficie diretamente a população amazônida, não importando se sejam moradores da cidade ou da floresta. Se encontrarmos essa formulação, vamos ter respondido ao desafio de ter encontrado um modelo de desenvolvimento que seja sustentável e de alta inclusão social.

ac24horas – O Acre está à altura desses novos desafios?

Eufran Amaral O Acre não reproduziu um modelo de fora da região. Ao contrário, está buscando o seu próprio modelo, adequado à sua realidade, a partir de um olhar para dentro, para suas raízes, para sua história. Esse reencontro natureza e homem resultará numa economia sustentável, contemporânea e que ajuda a estabilizar o clima no planeta. A floresta tem um potencial econômico incalculável. Se lutamos para fazer parte do Brasil e, anos depois, sermos um estado autônomo, iremos lutar, agora, para sermos um ente federativo desenvolvido e com um povo feliz.

 

 

 

 

 

 

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Entrevista com José Adriano Silva, presidente da Energisa

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A chegada de uma nova concessionária de serviço público essencial traz consigo desafios em diversas frentes: obras, serviços, demandas distintas em cada região, mas principalmente entender a necessidade dos clientes e alcançar o melhor resultado na resolução dessas situações. Em dezembro de 2018 a Energisa chegou ao Acre com o compromisso de mudar a realidade do setor elétrico no estado, com qualidade no serviço oferecido e tendo o cliente ainda mais próximo como parte fundamental nesse processo de mudança.

Em três anos, a Energisa já investiu quase R$600 milhões de reais no Acre em obras de ampliação da rede distribuidora, novas subestações de energia, além de ações voltadas ao consumo consciente e otimização dos canais de atendimento.

O projeto de transformação no Acre também contou com ações sociais voltadas ao cliente com campanhas de negociação de débitos, doações de cestas básicas para famílias em vulnerabilidade social e trocas de lâmpadas e geladeiras antigas por modelos mais eficientes e seguros.

Durante a pandemia, a Energisa esteve junto a outros parceiros, no projeto Unidos pela Vacina, para doar equipamentos de armazenamento seguro de vacinas e insumos que tornassem o processo de imunização mais ágil e efetivo em alguns municípios do Acre, principalmente aqueles mais distantes e pertencentes aos sistemas isolados.

A chegada da empresa ao Acre também foi sentida em comunidades mais remotas, com a chegada de serviços e obras que pareciam longe dessa realidade: a mais recente foi a inauguração da usina solar na Vila Restauração, comunidade na fronteira da Amazônia brasileira com o Peru, onde moradores passaram a ter energia limpa e renovável 24h por dia.

Conversamos com o Diretor-Presidente da Energisa Acre, José Adriano Mendes Silva sobre esses últimos três anos no estado, os desafios do setor elétrico e as ações futuras para melhorar a prestação do serviço.

Há 3 anos a Energisa chegava ao Acre, qual foi o cenário encontrado por vocês no estado?

A Energisa chegou ao Acre em dezembro de 2018, e encontramos situações consideradas críticas no fornecimento de energia, no atendimento aos clientes, na qualidade da energia. As obras estavam paralisadas, as redes de energia e frota de veículos sucateados, sistemas de TI limitados, falha no controle dos processos, time de profissionais com pouca motivação. Enfim um cenário que precisava de mudanças.

Algumas ações precisaram ser feitas logo nos primeiros meses para ajustar o padrão de atendimento e serviços prestados, você pode destacar algumas delas?

Inicialmente implantamos um plano para 100 dias, com ações emergenciais e de curto prazo: organização da casa, estruturação de áreas operacionais e administrativas; Implantação de novo modelo organizacional, mais ágil e com foco nos clientes; Adequação da frota de veículos, e dos almoxarifados com a compra de materiais; Reforma de instalações, principalmente das nossa agências de atendimento; Retomada das obras, reformas e manutenções nas redes; Implantação de novos procedimentos de segurança no trabalho.

Quais ações foram mais importantes para começar a mudar o cenário do suprimento de energia no Estado?

Foram muitas, mas destaco duas: lembro-me que ao chegar no Acre tínhamos a missão de construir duas subestações em tempo recorde: A subestação de Alto Alegre, na saída da estrada para Porto Acre, e a subestação de Epitaciolândia. A primeira devido às limitações no fornecimento de energia a capital Rio Branco e às cidades vizinhas, e a segunda também por restrições no fornecimento de energia à região do alto Acre. Em seis meses construímos e entregamos a subestação de Alto Alegre, aumentando em 50 MW a capacidade de fornecimento de energia para a capital, e duplicamos com mais 12,5 MW a subestação de Epitaciolândia, resolvendo a questão energética na região.

A empresa atende mais de 270 mil clientes em todo o estado, mas as demandas para cada município e região são bem diferentes, quais os principais desafios de uma distribuidora de energia elétrica atuando no Acre?

São muitos desafios, e a gente precisa conhecer de perto os problemas de cada região, entender as demandas locais, as necessidades dos clientes. As regiões apresentam características diferenciadas. A Energisa como Concessionária de Distribuição de Energia no Acre, tem implementado ações para poder fazer frente às essas diferenças e atender a todos nossos clientes.

Melhoramos os atendimentos aos clientes nas áreas rurais, adquirindo os veículos especiais como os quadriciclos “Defender” para poder entrar nesses locais, principalmente nos períodos de chuvas. Reforçamos o atendimento nas cidades dos sistemas isolados, onde os acessos são feitos em sua grande maioria de barco e através dos igarapés.

Construímos e inauguramos as subestações e as linhas para Manoel Urbano e Assis Brasil, eliminando a geração termoelétrica a óleo diesel dessas duas cidades, beneficiando com energia de qualidade toda a população local.

O combate ao furto de energia, que além de ser um risco de morte, e à segurança de quem pratica, prejudica o fornecimento de energia, e a maioria dos clientes que mantém suas contas adimplentes, também se tornou prioridade com a nossa chegada ao Acre. Ainda temos muitos desafios, mas com muito trabalho iremos superá-los.

O modelo de atendimento ao cliente também teve mudanças, o foco agora está no digital?

O objetivo é de sempre atender bem aos nossos clientes que procuram a empresa. Temos investido muito no atendimento digital para facilitar e agilizar os atendimentos, em muitos casos possibilitando que os clientes resolvam suas demandas no sossego do seu lar. Implantamos a agência digital, pelo site energisa.com.br, a Gisa, assistente virtual da Energisa pelo WhatsApp (68) 99233-0341, o aplicativo Energisa ON onde você acessa os serviços do celular, e pode baixar das lojas de aplicativos.

O número de pessoas cadastradas na tarifa social teve um aumento significativo durante os últimos 3 anos no Acre, como foi possível essa mudança de cenário?

Esse é um trabalho muito importante e graças a parcerias junto às Secretarias de Assistência Social das prefeituras, os CRAS, e consultas ao Site do Ministério de Desenvolvimento temos conseguido resultados expressivos no cadastramento.  Em quase 3 anos mais que duplicamos a quantidade de clientes cadastrados na tarifa social. São mais de 37 mil novos cadastrados nesse período, totalizando em dezembro de 2021 68 mil famílias cadastradas na tarifa social.

A empresa tem um braço social forte, com ações voltadas para a comunidade, quais os principais projetos executados nesse sentido, e sua importância nos últimos anos?

Tivemos diversos projetos executados nesse período de interesse da sociedade e que beneficiaram nossos clientes, aqui destaco o Caminhão Nossa Energia, visitando várias cidades no estado levando educação aos jovens nas escolas, com informações sobre o Uso Eficiente da Energia, riscos e perigos.

Através do programa de eficiência energética doamos na base de troca, 1.655 geladeiras, e mais de 33 mil lâmpadas led. Também fizemos as adequações de iluminação pública em 7 municípios, incluindo-se as estradas dos aeroportos de Rio Branco e Cruzeiro do Sul; Programa Geração Energia, onde atendemos 2.500 jovens acreanos em situação de vulnerabilidade social, dando formação profissional para 87 jovens; Eficiência de Energia na Fundação Hospitalar Estadual Acre, Educandário Santa Margarida, Hospital da Mulher e da Criança do Juruá, UFAC e FIEAC. Doação de cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade social na época das alagações, materiais de limpeza, etc. Projetos Energisa na Comunidade, fizemos 23 eventos, inclusive no interior do Estado, com serviços de cadastramento na tarifa social, atendimentos, troca de titularidade, negociações, parcelamentos de débitos.

A pandemia trouxe uma realidade totalmente inesperada em todos os setores da economia mundial, aqui no Acre não foi diferente. Quais os principais impactos na atuação da Energisa, sobretudo em obras e prestação de serviços?

Como empresa responsável pela distribuição de energia, nossas equipes operacionais não pararam e os nossos funcionários continuaram na rua para prestar o serviço, principalmente naquele momento da pandemia em que as pessoas em casa precisavam muito da energia. Para isso adotamos um rigoroso protocolo de prevenção da Covid-19, com ações de higienização, utilização de álcool gel, máscaras, e sempre mantendo o distanciamento nos atendimentos. O nosso reconhecimento para essas equipes, que não mediram em bem atender aos clientes.

Em 2021 a Energisa inaugurou o projeto inovador para a região amazônica: a Vila Restauração levou energia solar através de usina fotovoltaica para uma comunidade isolada na floresta amazônica. Como foi possível fazer tudo isso em meio ao grande desafio logístico de chegar até lá?

Vila da Restauração é um projeto de grande alcance social e de inclusão das pessoas, utiliza tecnologia de ponta, e está perfeitamente integrado ao ecossistema local, a Amazônia.

Muitos desafios foram enfrentados para a execução desse projeto, como a logística de transporte de equipamentos, materiais e pessoas, desembarque dos materiais no local e a construção do empreendimento no período de chuva.

Só foi possível executar a obra no prazo, devido ao planejamento, gestão e execução do empreendimento de forma objetiva e com muita determinação pela equipe do projeto.

Através dele as pessoas poderão com o acesso à energia elétrica 24h por dia, renovável, limpa e confiável, ter os benefícios da utilização de equipamentos e eletrodomésticos para a conservação de alimentos, ter acesso a informações, entretenimento e cultura. As pessoas estarão integradas à sociedade, com acesso também à educação e assistência médica de forma virtual.

O Mais Luz Para a Amazônia e Luz Para Todos tiveram grandes avanços nos últimos anos, qual o balanço desses projetos? Quais as expectativas para eles em 2022?

Para execução do Mais Luz para a Amazônia, assinamos o Termo de Compromisso com o Ministério de Minas e Energia, e em 2022 iremos executar cerca de 1360 ligações no Acre, em diversos municípios, para aquelas pessoas que estão em áreas bem distantes e com dificuldades de acesso. As ligações serão com energia solar, sistema individual de placas e baterias, denominados SIGFI.

Estamos com projeto de levantamento e cadastramento em campo, para avaliar o potencial de mais ligações com os critérios determinados pelo MLPA, de formar a estabelecer os montantes de atendimentos para os próximos anos.

Já no LPT – Programa Luz para Todos, daremos continuidade às ligações em 2022, seguindo a prioridade definida conforme relação expedida pelo Comitê Gestor Estadual.

Em três anos a Energisa avançou em vários pontos da prestação de serviço aos acreanos, qual a sua avaliação desse período?

Foi um período de muito trabalho, realizações, projetos implementados e entregues, ou seja, um período de muita intensidade nas ações e de grandes avanços. De forma resumida constatamos que avançamos na confiabilidade e qualidade da energia fornecida, no acesso e atendimento aos nossos clientes, inclusão digital, nos projetos sociais e de interesse das comunidades, na formação de um time comprometido com os clientes e com a melhoria continua dos serviços.

O que podemos esperar para o futuro da Energisa no Acre?

O futuro é muito promissor, temos muito trabalho pela frente e projetos relevantes para o Acre, no sentido de consolidar o fornecimento de energia em todas as regiões do estado.

Ações que irão beneficiar a capital Rio Branco e todos os demais municípios, regiões de Acrelândia e Mâncio Lima. Destaque especial para os projetos de eliminação da geração térmica na região do Juruá, compreendendo os municípios de Feijó, Tarauacá, Cruzeiro do Sul e os demais.

Iremos trabalhar muito nesses projetos estruturantes para consolidar o fornecimento de energia ao Acre, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social do Estado.

 

 

 

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Única livraria de grande porte no Acre resiste ao tempo pelo amor: “pela razão, já teria fechado”, diz Paim

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É num prédio de 4 mil metros quadrados que se encontra a única livraria de grande porte da capital acreana. A história desse estabelecimento é longa, mas muito simples. Um jovem que amava livros escolheu o ramo da cultura para ganhar dinheiro com a única coisa que gostava de fazer: ler. Manoel Maria Paim, acreano natural de Xapuri, é fundador da Livrarias Paim Mega-Store e tem 68 anos, mas começou a atuar na área bem antes dos 20, quando trocava e vendia gibis na adolescência.

Apesar de toda dedicação, a comercialização de livros se encontra num momento crítico, não só na Paim, mas em todo o mundo. Por isso, o empresário afirma que vem trabalhando somente pelo amor nos últimos anos. “Se fosse pela razão, já teria fechado”, lamenta, indo às lágrimas. Antes de se tornar empreendedor, Manoel Paim trabalhou em uma padaria, foi cobrador de ônibus, salgadeiro e até vendedor de picolé. Quando decidiu sair do trabalho administrativo para viver da literatura, aos 25 anos, vendeu tudo que tinha para conseguir pagar a mercadoria.

“Desde novo sempre tive vontade de trabalhar por conta própria. Trabalhei em construtora, fiz serviço administrativo, trabalhava muito, não parava quieto. Mas fora isso, eu gostava muito de ler, leio muito. Com 12 anos, vendia gibis no antigo Cine Acre, Cine Rio Branco. Zorro, Tarzan, Tio Patinhas, Pato Donald, entre outros”. Paim sempre pensou em ter um negócio próprio, primeiramente no ramo da construção, onde trabalhava, mas depois percebeu que não seria bem isso. “Precisaria de um engenheiro e eu nunca gostei nem de matemática. Aí vi que não daria certo porque tudo que eu ganhasse na construtora iria gastar com engenheiro”, brinca.

Ele ficou um bom tempo pensando no que teria prazer em fazer e ainda ganharia dinheiro. “Sempre pensei no sucesso, nunca coloquei o dinheiro em primeiro lugar. Pensava sempre mais no sucesso, porque tendo sucesso, o dinheiro vem”, garante. Como gostava de ler, pensou em atuar com escrita ou tradução de livros em meados de 1978, quando tinha 18 anos, no entanto, o destino fez diferente.

“Fui trabalhar com serviço administrativo no Departamento de Estradas e Rodagens do Acre (Deracre) e só andava com livro nas mãos, lendo pra todo canto. O pessoal me perguntava: “Paim, tú conhece o livro tal? O professor passou um trabalho pro meu filho e disse que encontraria nele”, relembra. O entusiasta da leitura dizia que conhecia. “E assim comecei a emprestar os livros que eu tinha, do meu uso mesmo. Só que os colegas começaram a me perguntar: “Eu quero comprar, tú não quer me vender, não? Aí eu dizia: vendo”.

De porta em porta

Antes da loja física da livraria Paim existir, Manoel vendia os livros de porta em porta entre seus colegas de trabalho no Deracre. Nessas andanças, lhe despertou pela primeira vez a ideia de abrir oficialmente uma livraria. “Eu comprava muito livro pelo reembolso postal, pelos correios. Comecei a mandar buscar mais livros e foi quando eu comecei mesmo a pensar numa livraria. Eu não tinha recurso pra fazer isso e comecei comprando livro com o meu salário e revendia para os servidores. E assim revendia livro pra tudo que era funcionário do Deracre”.

A venda aos colegas de trabalho foi tamanha que chegou ao ponto de não haver mais ninguém da repartição para comprar. “Os funcionários se encheram de livros. Alguns estavam devendo e não queriam mais comprar, e cada vez mais chegavam livros pra mim. Aí comecei a procurar outros órgãos públicos”. Paim se dirigiu ao Sesc, que funcionava no bairro Triângulo, e ao Senac, onde vendeu livros aos estudantes de cursos técnicos de culinária, corte e costura, etc.

Em 1979, passou no vestibular para o curso de Letras enquanto continuava a trabalhar no Deracre. “Só que toda folga que tinha ficava vendendo livros. Quando cheguei à universidade, já disse logo que era representante de editora e tudo que era livro quem quisesse eu vendia. Os alunos começaram a me pedir livro, daí fui fazendo negócio com os estudantes de História, Geografia, Pedagogia e comecei a vender nos outros cursos também”.

40 anos de história

Foi em 1981, quando Paim montou uma simples banquinha na instituição de ensino, que tudo começou a mudar. “Coloquei uma mesinha pequena cheia de livros e comecei a vender. Em agosto de 1981 mudei do curso de Letras para Heveicultura e conheci outros nichos de mercado e outros livros técnicos. E assim fui vendendo livros na Ufac até que um ano depois abri uma livraria pequenininha próximo à Difusora, onde atualmente funciona a livraria universitária. Comecei ali, oficialmente, as raízes da livraria Paim”.

Além desse ponto de vendas no centro da cidade, continuou comercializando livros na universidade por cerca de 20 anos. Nesse momento, ele já não fazia mais serviços junto ao Deracre, e dividia os afazeres entre estudo e trabalho. Para ele, o problema do livro não era vender, pois sempre tive facilidade nesse sentido, mas sofria com outro problema. “As editoras não me davam crédito e eu tinha que comprar os livros todos à vista. Como meu capital era pequeno, saía vendendo tudo, motocicleta, aparelho de som, vendia tudo e transformava em livros”.

A primeira editora que deu crédito a Paim, no ano de 1982, foi a atual WW Martins Fontes. Em seguida, foi a vez da editora Saraiva. Segundo ele, as editoras didáticas eram mais difíceis de darem crédito que ele precisava. “Na época, o governo não doava livros e todo mundo comprava esses materiais, tanto escola pública como particular. Não existia nem apostila, nosso maior concorrente eram apenas as xérox”.

Hoje, tem plena consciência de que a livraria faz parte da história de muitos acreanos. “Muitos alunos da Ufac compravam livros meus e depois passaram a frequentar a livraria já pra comprar livros para os filhos. Mais recentemente, esses filhos começaram a comprar para os netos”, conta, relatando que se vê na terceira geração de clientes nessa faixa etária.

Dificuldades

A Livraria Paim é a única mega-store da cidade e que vem resistindo a duros golpes, como diz o proprietário. “Está muito difícil. Dizem que o brasileiro não lê ou só lê no meio virtual. Mas se fosse assim, o comércio dos ebooks cresceria e a gente vê que não cresce, pelo contrário, vem caindo no Brasil e até no exterior”. De acordo com o empresário, os livros físicos caíram nas vendas há 10 anos e se sobressaem os livros chamados best sellers, de autores famosos. “Não é que o brasileiro não lê, é que ninguém estuda mais, não precisam mais estudar tanto. O estudo hoje está muito fraco”.

Para ele, não foi a internet que atrapalhou a busca pelos livros, mas o sistema de ensino. Paim observa que a política educacional no Brasil é falha. “Há outros países com nível elevado de aprendizagem mesmo com a internet, que na verdade é uma ajuda, mas que no Brasil passou a substituir a cultura e a cultura da internet é algo muito simples, superficial”.

No decorrer desses 40 anos de trabalho, já pensou mais de uma vez em fechar as portas da livraria e se emociona ao contar detalhes. “Faz tempo que venho pensando nisso, só não fechei ainda porque estou trabalhando com o coração, porque se fosse com a razão, já teria fechado”. Para tentar reverter a situação, vem buscando repaginar a empresa. “Quando comecei a construir esse prédio, as pessoas diziam: pra que construir uma livraria? isso [livro] está acabando. Mas a Paim está resistindo. Eu dizia: um prédio, sempre vai ser um prédio. Se a livraria não der mais certo, aluga e acaba a história, não vai ser dinheiro perdido, nem jogado fora”.

Paim tem um casal de filhos, mas nenhum dos dois pensa em seguir adiante com a livraria, segundo o pai. “Os meninos não querem saber de trabalhar em livraria. Meu filho mais velho é nutricionista e minha outra filha é design de moda, trabalha em São Paulo e não quer mais nem voltar pro Acre. Gostaria que tivesse um dos herdeiros que pudesse continuar, mas não me iludo muito com isso, porque as pessoas de hoje não pensam da nossa forma, que nós já estamos ultrapassados. Se um dos meus filhos continuasse meu trabalho seria excelente, mas se não for…”.

Depois de mudar a livraria para o atual endereço, na rua Rio Grande do Sul, 182, há oito anos, o dono começou a colocar mais objetos para vender além dos livros, principalmente relacionados à papelaria. “Mas isso não é o principal, é só uma ajuda. O principal ainda é o livro. Há 40 anos sobrevivo do livro”. Ele conta que antigamente vendia para os municípios porque as escolas e prefeituras compravam, mas hoje em dia, não mais. “O governo doa livros didáticos desde o primário até o ensino médio e escolas particulares estão investindo em sistema de ensino, que é mais rentável”.

Houve uma época em que a venda de livros era satisfatória no Acre, no tempo em que os governos estaduais investiam a compra e realização de bienais de livro. “Acabou-se o estado em relação a investir em cultura. Não houve mais”. Para Paim.

Esperança

O empresário já chegou a ler dois livros por semana quando residiu por um período em Porto Velho (RO). “Trabalhava num acampamento sem televisão, só tinha lâmpada, e mesmo assim, às 21 horas desligava tudo. Lá eu lia dia e noite”. O livro Grandes Vidas, Grandes Obras foi um marco para Paim, que leu a publicação duas vezes, que apresenta biografia de personalidades famosas.

A livraria Paim é majestosa e conta com 12 funcionários atualmente, mas já chegou a possuir 50 colaboradores. O local tem 16 salas de escritório alugadas e um auditório, além da biblioteca. Desde o início até hoje, Paim tem a ajuda de sua esposa, a professora Luiza de Brito, na condução da livraria. Em 2007 abriu uma filial da livraria em Porto Velho, que funciona como ponto de apoio para atender escolas e professores. Apesar de ter sentido ainda mais queda nas vendas durante a pandemia, tem tentado se reerguer com o apoio de clientes antigos que mantêm viva até hoje a fantasia da leitura.

“Há diferenças do leitor de quando comecei a trabalhar para hoje. Naquela época, a gente lia bastante porque não tinha televisão, só tinha o cinema mesmo e no interior nem cinema tinha. Para mim, esse cenário poderia ser diferente e não precisava ninguém procurar as livrarias, bastava que o governo incentivasse o estudo, melhorasse o nível desses alunos, que os próprios pais passariam a procurar as livrarias”, finaliza.

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Em 30 anos, Charles construiu casa e manteve 7 filhos vendendo bombons em frente ao Cerb

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O centro da cidade de Rio Branco é composto por diferentes monumentos históricos. Praças, prédios, espaços culturais e administrativos. Mas há um pequeno e simples lugar que, apesar de ser avistado diariamente pelos transeuntes, pode passar despercebido pela maior parte da população. O pequeno e tímido empreendimento está por lá há exatos 30 anos, sempre no mesmo local. Fez e continua fazendo parte da rotina de muita gente. Trata-se de uma banquinha de bombons situada em frente ao Colégio Barão do Rio Branco, bem ao lado da Biblioteca da Floresta.

Desta vez, a coluna não irá retratar a história de uma empresa famosa, empresários notáveis de sucesso ou algo parecido. Hoje, o espaço é dedicado a Charles de Alcântara Oliveira, de 51 anos, ou simplesmente Charles, que em três décadas vendendo bombons conseguiu construir sua casa, sustentar uma família com sete filhos e alcançar um lugar ao sol para chamar de ‘seu’. Mais do que sucesso, o comerciante nato conquistou sozinho a própria dignidade.

Charles está no mesmo ambiente desde quando tinha 21 anos de idade. Embora seja um ofício não tão valorizado pela sociedade, sua dedicação na venda de bombons lhe rendeu, além de independência financeira, boas histórias e uma centenas de clientes/amigos. “Vi muitas mudanças por aqui desde que cheguei ao centro da cidade. Querendo ou não, tivemos um grau de desenvolvimento. O Centro ficou mais bonito”, comenta.

Se tem alguém que conheça o cotidiano da capital acreana, esse alguém é Charles. Nesse período que trabalha por lá, chegou a uma triste constatação: “falta o povo vir para cá, como vinha antes. As pessoas não vêm mais da mesma forma”, lamenta. O vendedor conta que antigamente o local era um verdadeiro “point”, recebia moradores diariamente e tinha significativa movimentação de pessoas. “O povo vinha para se encontrar, para ter prazer de estar aqui na praça. Hoje, deixaram de fazer isso. Não por falta de opções do que fazer, mas porque aqui também não oferece mais o que tinha antes”.

Ele refere-se às atrações culturais que aconteciam na região. “Antes o povo chegava, fazia seus shows, podia ficar, colocar um palco aqui na praça, chamar o público, realizar atrações, podia divulgar. Hoje, se você fizer alguma coisa aqui na praça, não tem divulgação, ninguém sabe de nada, é tudo mais difícil e complicado”.

Recomeço de vida

Charles montou uma banquinha e tornou-se vendedor de bombons por simples pura necessidade. Antes disso, trabalhava na empresa Coca-Cola em Rio Branco, onde ficou por cerca de um ano. “Só que nessa época a empresa começou a dispensar funcionários, por já estar “mal das pernas”. Eles diziam que tinham impostos muito altos e que iriam fechar”. E assim aconteceu. A empresa fechou de vez, deixando a capital acreana, que ficou sendo abastecida pela filial de Porto Velho (RO).

“Na terceira leva de demissões, eu saí. Foi aí que eu fiquei sem saber o que iria fazer. Estava difícil naquele tempo até para trabalhar em construção ou coisas parecidas. Fiz curso de balconista, tentei trabalhar numa farmácia, mas nada aparecia. Aí eu passei aqui nessa praça [da Revolução], vi uns ambulantes e disse: sabe de uma coisa? Vou fazer isso também”. Até se convencer de que iria comercializar pequenos produtos por ali, ficou um dia inteiro observando o movimento de clientes e vendedores. Analisando de perto o que era vendido.

“Era pouquinho o que eles faturavam, mas ganhavam. Montei minha barraquinha e fui ver no que ia dar. Na verdade, esperei para ver o que o homem lá de cima [Deus] iria fazer comigo. E até hoje estou aqui”.

A vida no comércio

Durante esses 30 anos com a banquinha, seu carro-chefe sempre foram os bombons, os doces em geral. Nunca saiu desse nicho. Quando chegou ao local, o Cerb já existia, era o nostálgico Ceseme. “Eu estava formando minha família com a primeira esposa ainda quando cheguei aqui. Depois de uns cinco anos trabalhando na praça, tive o primeiro e segundo filho. Hoje tenho sete, com idades que vão de 2 a 27 anos. E sempre sustentei minha família só com a venda dos bombons, e ainda paguei pensão aos mais velhos”.

A rotina do trabalho é árdua como em qualquer outro ofício. Engana-se quem pensa que a vida de Charles é ficar sentado esperando pelos clientes. “Chego cedo e saio muito tarde. Começo o dia aqui entre 7h e 9h, dependendo do dia, e saio entre 21h e 2h da madrugada. Essa rotina já dura 30 anos”. Nascido em Rio Branco, se desloca diariamente de um bairro distante até a região central da cidade.

São três décadas construindo muitas amizades com os clientes. A clientela varia desde turistas a colaboradores de empresas localizadas na região. “As pessoas que trabalham aqui por perto sempre vêm conversar comigo. Elas param aqui e batem papo. Já vieram até atores da Globo aqui comigo, quando eles vêm fazer alguma gravação”. Parar na banquinha do Charles é quase que um ponto de encontro para quem convive na localidade, no cotidiano da cidade.

“Daqui eu não saio. Só se me expulsarem”

O vendedor que montou uma banquinha de bombons por necessidade, continua atuando no mesmo ramo há 30 anos porque, segundo ele, tomou gosto pelo que faz. “Continuo vendendo aqui porque depois de construir minha família, fazer minha casa, tudo com fruto dessa banquinha, pensei: rapaz, daqui eu não saio mais, só se me expulsarem”. Atualmente, fora a necessidade, trabalha porque gosta e porque as vendas seguem dando retorno.

As vendas não param. A todo instante chega um cliente em busca do bombom, ou de qualquer outra coisa. Charles não consegue mensurar com exatidão quantos clientes atende por dia, mas chega a uma média de 40 a 50 compradores diariamente. “Alguns são clientes repetitivos, aqueles que vêm aqui comigo todos os dias. Às vezes, quando eu não venho trabalhar, eles perguntam por que eu não vim, querem explicação, o motivo para que eu ficasse em casa”, brinca.

Nem tudo são flores no caminho do pequeno comerciante. No momento em que decidiu partir para o ramo do comércio, passou a se deparar com a concorrência. Ele afirma que tem lidado bem com isso, apesar de ser bastante severo. “A concorrência cresceu bastante nos últimos tempos. Mas ainda lembro que antigamente era bem maior, pois em cada ponto dessa praça existia um comércio”. Houve um tempo em que a praça da Revolução tinha um enorme corredor lotado de lanchonetes, tanto de um lado, quanto do outro.

Queda de 80% no movimento com a Covid-19

Não foram só os grandes e médios empreendedores que sofreram com a chegada da pandemia de Covid-19 ao Acre. Vendedores como Charles amargaram o pior momento econômico que o estado viveu nos últimos tempos. Segundo ele, o movimento de clientes caiu pelo menos 80% nesse período de quase dois anos. “O número de comerciantes na redondeza diminuiu, mas o movimento de clientes também caiu na mesma medida”.

Sem aulas presenciais, o movimento de alunos também despencou. “Era algo que me ajudava pra caramba. Nunca imaginei que os alunos fossem me fazer tanta falta. Antes da pandemia, quando eles ficavam de férias, dois ou até três meses, eu não sentia tanta diferença no movimento, que pra mim era o mesmo. Mas nesses quase dois anos de pandemia, o “bichinhos” me fizeram muita falta. Eles compram mitos doces e são esses produtos que me dão aquele lucro”.

A crise foi tamanha no pico da contaminação pelo novo coronavírus que ele teve de dar uma pausa no trabalho (pela primeira vez). “Tive que parar por causa da redução do movimento de clientes na pandemia. Reduziu muito as vendas, as pessoas não estavam mais nas ruas. Chegou ao ponto de eu abrir a minha banquinha e a polícia vir mandar eu fechar”. Charles ficou duas semanas com a banca fechada e, enquanto isso, faltava comida em sua casa. “Eu vivia aperreado. Mas decidi: vou brigar com eles [poder público], vim aqui e abri a barraquinha. Não tinha aquele movimento todo, mas conseguia levar alguma coisinha para casa”.

Nesse mesmo período, um de seus filhos também estava passando dificuldades por causa do desemprego. Foi quando seu pai começou a ajudá-lo, e, para isso, doou seu próprio sustento. “Entreguei a barraquinha para ele e fui atrás de um trabalho novo para mim. Consegui um serviço de entregador. Com 50 anos, fui trabalhar de entregador e tinha que correr de igual pra igual com os meninos de 20 anos. Foi como consegui me sustentar nesse tempo lá em casa”.

Expectativas de um futuro melhor

O que mais intriga o pequeno comerciante é não poder mais realizar atrações no centro da cidade, como existia antigamente “Tudo que se vai fazer tem que ter permissão da secretaria de obras e outros setores. Vejo que o poder público acabou atrapalhando um pouco. O estado deveria ajudar tentando deixar acontecer os eventos que tinham aqui, chamar a população, fazer acontecer, criar eventos em datas comemorativas, apresentação de bandas”, comenta.

Nesse período que atua no centro, criou vínculo de amizade com os funcionários do colégio. “Tento me adequar a todo mundo. Cada um com sua forma de ser, seja brincalhona, seja séria. Os funcionários param aqui, conversam”. Para ele, seria um prazer ajudar a cidade com informações relevantes aos turistas.

“Se aqui tivessem uns folhetos informativos, acho que eu distribuiria muitos e passava muita informação, porque os turistas gostam de perguntar demais as coisas pra mim. Tem coisas que eles perguntam que eu poderia saber, mas ninguém me repassa nada Os pontos turísticos que eu conheço, ou outros que poderia repassar para eles, sempre tento ajudar, dizendo onde estão os lugares”, afirma.

Antes da pandemia, há cerca de cinco anos, ele tinha o objetivo de querer montar um comércio maior, estava indo no caminho certo, estava juntando dinheiro, o propósito estava caminhando, mas a pandemia o derrubou. “Tinha um dinheiro guardado, mas gastei devido a pandemia e ainda fiquei devendo. Agora, estou tentando pagar o que eu devo, vendendo a mercadoria devagarinho. Vou mantendo o sustento da minha família com minha banca, e é dessa forma que eu vivo. Não tem outro lugar para fazer dinheiro, não tenho mais idade para estar correndo atrás, e quando corro é de forma autônoma também, e assim vamos indo. Só esperando coisas boas na vida”, conclui.

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Gente - Economia e Negócios

Emprego, segurança e qualidade de vida atraem acreanos para Santa Catarina

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O aumento populacional vivenciado pelo estado do Acre nos últimos anos tem confrontado diretamente com um comportamento que vem se intensificando  na mesma medida. Não é necessário ter acesso a dados ou estatísticas para notar cada vez mais a saída de moradores para outros estados brasileiros. Observa-se ainda que os motivos dessa debandada em massa são quase sempre os mesmos: falta de emprego, falta de segurança e qualidade de vida.

Apesar da constatação empírica (sem dados oficiais), a situação poderá ser confirmada com a publicação do próximo Censo Demográfico feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que virá à público em 2022. O economista Orlando Sabino diz que mesmo sem números de fator econômico que possam explicar esse movimento migratório, acredita que a situação também acompanha um nível elevado de aposentadorias que vêm ocorrendo nesse período no Acre.

Ítalo Lima, representante de uma empresa de transporte coletivo interestadual, relata que a procura está significativamente alta, principalmente para Santa Catarina.  “Florianópolis, Balneário Camboriú são os destinos mais procurados, mostrando que aqui [no Acre] a economia está muito fraca”. Para ele, na maioria das vezes, os clientes reclamam de desemprego no estado. “Eles dizem que faltam oportunidades e acabam indo embora, procurando outra cidade para morar. Todos os dias a gente atende esse tipo de cliente”, atesta.

É o caso de três, entre centenas de acreanos que decidiram mudar de lugar para viver. Jorlália, Rodrigo e Jendem levam vidas diferentes em Santa Catarina, mas compartilharam do mesmo sentimento: mudar de vida numa nova cidade. Todos escolheram cidades do estado sulista e, seja sozinho ou em família, o trio não pensa em regressar.

Ingresso no mercado de trabalho – Há cerca de nove meses, Jorlália de Souza Araújo, de 26 anos, decidiu mudar completamente o rumo que vinha tomando na capital acreana após concluir o curso de nível superior em Fisioterapia. Mesmo formada, não conseguia uma colocação no mercado de trabalho e resolveu arriscar. A falta de emprego foi, inclusive, um dos motivos que a fizeram mudar para Santa Catarina.

“Eu tinha algumas amigas que estavam aqui [Florianópolis] e falavam super bem. Comecei a pesquisar e vi que tinha bastante oportunidade de emprego. Antes mesmo de vir, comecei a mandar currículos e sempre era chamada para as entrevistas”. A recém-formada ainda chegou a fazer cinco entrevistas online, ainda vivendo no Acre. “Tanto que já cheguei aqui empregada. Na minha quinta entrevista, o dono da empresa disse que esperaria o dia que eu iria embora”.

Hoje, ela  reside em Florianópolis, mas não tinha preferência por cidades específicas. “Foi por impulso. Tinha um amigo que queria muito sair do Acre também e a gente se programou para vir junto. Acabou que ele desistiu, mas fui firme e vim sozinha. Tenho uma prima aqui também e ela me deu apoio no primeiro mês, até eu encontrar um lugar para”.

A fisioterapeuta não se arrepende da decisão que tomou. “Saudade dá, muita, principalmente saudade da família, mas aqui as oportunidades são melhores, a qualidade de vida também é bem melhor”, destaca. Para ela, as maiores dificuldades que passava no Acre estavam relacionadas a  segurança pública e falta de oportunidades profissionais. “Lá, se você não tiver indicação, não consegue nada”.

Agora, a jovem pretende evoluir ainda mais profissionalmente e não quer sair de Florianópolis. “Minha família me apoiou e me apoia até hoje. Quando eu disse que queria ir embora, eles me apoiaram. Para  quem pensa em fazer o mesmo, mas tem medo, aconselho a vir porque vale a pena. Dificuldade a gente tem, principalmente para quem vem só e fica longe da família, mas isso a gente supera”.

As migrações que estão ocorrendo de um estado para o outro serão detalhadas no próximo ano, com a atualização do Censo. Orlando Sabino explica que o Acre sofreu um grande inchaço da folha de pagamento, coisa de 30 anos atrás, quando as pessoas entravam no serviço público sem concurso. “E o grande “boom” de aposentadoria nós estamos vivendo agora. De uns 5 anos para cá o estado teve esse boom. As estatísticas do número de aposentadorias do quadro de funcionários do estado é um volume significativo”.

Segundo o especialista, muita gente que se aposenta escolhe uma cidade para se transferir. “E acredito que dentre essas cidades e estados, Santa Catarina possa merecer esse destaque. Mas não temos essa informação, se é algo exclusivo de Santa Catarina. Os estados do nordeste também são muito procurados. Temos notado muito, não em dados oficiais, mas por informações, que a Paraíba, onde tem o custo imobiliário baixo, está atraindo as pessoas para essas cidades à beira mar”, comentou.

Qualidade de vida – Situada num dos menores estados brasileiros, Rio Branco, apesar de pequena em extensão e arrecadação de impostos, se destaca a nível nacional quando o assunto é violência urbana. E isso foi o que levou o gerente de produção na área de transformadores, Rodrigo Campos da Silva, de 34 anos, a sair do estado. “Vim para Santa Catarina em busca de qualidade de vida, boa educação para minha filha, lazer e oportunidade de emprego”.

Rodrigo escolheu Blumenau por ser abrangente em sua área de atuação no mercado de trabalho. A mudança levou um tempo para ser amadurecida e ele pesquisou bastante antes de se mudar, uma vez que iria com esposa e filha. “Para sair do seu estado, sugiro que pesquise bastante, e quando falo em pesquisar, seria tudo mesmo: cultura, educação, preços de aluguel,  alimentação e etc”.

Para realizar o desejo, fez uma reserva financeira para poder se manter com a família na cidade por um curto período, até conseguir um emprego. “Essa dica é importantíssima. “Eu não me arrependo, apesar de ter uma carreira consolidada de 15 anos numa empresa, com salário de razoável para bom, no Acre temos quase nenhuma opção de lazer para a família”, lamenta.

Outro fator preponderante para ele foi a questão da educação. “Era uma briga grande para conseguir vagas nas creches. Aqui onde escolhi morar tem quatro creches em num percurso de apenas 2 quilômetros de distância da minha casa e oito em 6 quilômetro de distância”.

Saúde pública de melhor qualidade também estava na lista de desejo da família de Rodrigo. Agora, ele garante não precisar mais se deslocar às 5 horas da manhã para pegar uma ficha para ser atendido. “Aqui posso ir a qualquer hora do dia e tem médico para atender, com posto e ambulatório a 3 quilômetros de distância”.

A média salarial também foi importante no momento em que Rodrigo decidiu sair do estado. Segundo ele, a maioria das empresas de Santa Catarina pagam em média R$ 1.700 para auxiliar de produção, e muitas ainda fornecem vale alimentação e auxílio creche. “Isso para um cargo mais baixo. Lazer nem se fala, aqui é a cidade da cerveja e tem praia a 50 minutos e cachoeiras a 30 minutos”.

Agora almeja uma carreira profissional e estabilidade financeira. “Pretendo continuar morando aqui, cada dia que passo em Blumenau descubro pontos positivos para permanecer aqui. Em relação à minha família, tomamos a decisão juntos, pesquisamos bastante sobre a cidade, enfim, fomos totalmente a favor em relação à mudança de estado. Acreditamos que fizemos uma boa escolha”, salienta.

Aceitação e geração de renda – Jendem Thierley Cordeiro de Souza tem 36 anos e é tatuador. Apesar da vasta experiência e reconhecimento de seus clientes pelo trabalho executado, sentia-se incomodado pelo fato de como sua profissão ainda era ‘mal vista’ e até marginalizada no estado do Acre, mais precisamente em Rio Branco.  Além disso, a criminalidade, que só aumentava, deu o Xeque-Mate para que ele fizesse as malas.

Em seu caso, houve bastante pesquisa. Foram quase dois anos para finalmente decidir para onde ir. “Havia pesquisado as melhores cidades para se morar no Brasil e achei uma chamada Brusque, em Santa Catarina. Isso já faz uns cinco anos. Me organizei durante quase dois anos e resolvemos [ele e a esposa] vir para essa cidade”. Ocorre que antes mesmo de chegar lá, um amigo que morava na cidade vizinha, Itajaí, a 25 quilômetro, no litoral,  falou muito bem dela e do quanto era boa para o trabalho.

“Itajaí tem um porto e por isso gera muito dinheiro em torno na cidade. Aqui a tatuagem não é vista com maus olhos, como algumas pessoas fazem no Acre, não é marginalizada.  Não há tanto preconceito como eu percebia que algumas pessoas tinham no meu estado, principalmente os mais velhos”. Em Santa Catarina, Jendem possui vários clientes da terceira idade. “Tatuagem aqui é muito comum, em relação a trabalho, quase não há discriminação com pessoas tatuadas”, afirma.

Questionado se pretende voltar para o Acre, ele responde que não se arrependeu da mudança: “o que fez eu mudar é que no Acre a criminalidade estava muito grande. Vim para cá para sair dessa criminalidade e aqui é bem sossegado, tranquilo. Por isso resolvi ficar, pois além de gerar muito dinheiro, a minha área de trabalho é muito boa”.

Para ele, voltar ao estado só se for a passeio. “O conselho que eu daria para quem está pensando em sair do Acre é pesquisar bem antes.  Não adianta sair do nada, passar 3 meses fora, depois voltar com o rabo entre as pernas. Afinal, quando se faz algo programando, a chance de dar errado é muito menor”.

No momento, o tatuador planeja comprar uma casa em Itajaí e, assim que possível, levar sua mãe para perto. “Em relação à minha família, uns diziam que não iria passar 6 meses e já estaria de volta ao Acre. Outros falaram que iria dar certo. Mas não sou o primeiro da família que sai do estado. Tenho um tio que está em Pernambuco. Hoje, todos sabem que não pretendo mais morar no Acre”.

O economista Orlando Sabino afirma que é necessário ver o volume exato em que esse tipo de migração está ocorrendo, mas que, logicamente, quando se perde uma renda que circula no estado, o próprio estado é quem sai perdendo. “Mas não sei em que magnitude se encontra essa situação. E outra coisa, sai muita gente, mas vem muita gente também. Por exemplo, estamos vendo uma grande frente de expansão agropecuária ocorrendo de pequenos e médios produtores de Rondônia rumo ao Acre”.

Para Sabino, as regiões de Sena Madureira, Manoel Urbano e Feijó estão concentrando o recebimento dessa demanda. “Muitas transações com terras estão ocorrendo no estado e esse dado pode ser constatado no número de exploração de madeira. As pessoas estão ocupando as áreas, desmatando. Então, de certa forma, compensa. Não temos a magnitude de quanto o Acre está perdendo em função dessas pessoas que estão migrando para outros estados, mas tem um movimento também de equilíbrio. Estão saindo, mas também está entrando muita gente aqui”, declara.

 

 

 

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