Toda terça e quinta-feira, um grupo de mulheres ocupa um espaço aberto na Cidade do Povo, em Rio Branco. Ali não há equipamentos sofisticados nem mensalidade de academia. Há cones, barras improvisadas, equipamentos simples e uma rede de apoio que nasceu de um projeto da Polícia Militar.
À frente da iniciativa está a sargento Hálida Prado, que coordena o Funcional com a PMAC, ação que completa dois anos e reúne cerca de 100 participantes do bairro.
O projeto nasceu dentro da proposta da Polícia Comunitária, aproximar a corporação dos moradores e atuar na prevenção. No lugar de operações e sirenes, a estratégia aqui passa por algo mais simples: atividade física, convivência e escuta. “O projeto foi criado dentre tantos outros da Polícia Militar para interação com a comunidade. A gente busca trazer qualidade de vida para dentro da comunidade e trabalhar também a prevenção”, explica Hálida Prado.
Mas o funcional que acontece na Cidade do Povo não se resume a exercícios. A rotina inclui rodas de conversa, apoio psicológico, encontros comunitários e atividades que tratam de temas como saúde mental e violência contra a mulher. A estrutura conta com apoio da Coordenadoria de Polícia Comunitária da PM.
“A gente traz não só o treino em si. Também tem atividades ecumênicas, apoio psicológico e rodas de conversa. É um trabalho que busca saúde e cuidado dentro da comunidade”, afirma a sargento.
O projeto também recebe incentivo da tenente-coronel Ana Cássia e da comandante-geral da Polícia Militar, coronel Marta Renata, segundo Hálida.
Para quem participa, o impacto vai além da atividade física. A agente de saúde Maria Valéria da Silva, de 38 anos, conheceu o projeto por indicação de amigas. Chegou curiosa e decidiu ficar.
“Tudo que é bom se espalha rápido. Chegou aos meus ouvidos por amigas. Eu fui lá conhecer, cheguei, me apaixonei e fiquei”, conta.
Hoje ela enxerga o funcional como um espaço de pausa na rotina. “Aqui a gente não se reúne só para um treino. É um lugar onde a gente sai da rotina, conhece pessoas novas, faz amizades. Cansa o corpo e relaxa a mente”, afirma.
A mudança também chegou à saúde mental, segundo as alunas. “Quando eu cheguei eu usava medicamentos psicotrópicos. Hoje eu não faço mais uso. O funcional veio para somar no tratamento da minha saúde mental”, relata.
A esteticista Ana Maira Nascimento, de 33 anos, acompanha o projeto desde que se mudou para o bairro. “As amizades que a gente faz aqui vão além do treino. A gente se encontra fora daqui também. Viraram amizades para a vida”, diz.
“Quando a gente está prestes a parar, vem outra e fala ‘bora, tu consegue’. Uma vai incentivando a outra. Isso faz muita diferença”, afirma.
Um recomeço após a perda
Para Diana Aquino, de 34 anos, o projeto marcou o início de uma virada pessoal. Há três anos e meio, ela perdeu o marido e enfrentou um período de depressão. “Eu era só dona de casa e não cuidava da minha saúde. Quando meu esposo faleceu, eu me afundei na depressão”, conta.
“Quando eu vi a professora Hálida, pensei: é isso que eu quero para a minha vida. Quero buscar qualidade de vida por meio do exercício. Eu largo tudo que tenho para fazer no dia do funcional. Toda terça e quinta eu estou aqui. Isso mudou minha história”, afirma.

Embora a maioria dos participantes seja formada por mulheres, o projeto também atrai moradores de diferentes idades com o propósito de acolher. O aposentado Antônio Pinheiro da Silva, de 70 anos, participa das atividades e valoriza o convívio.
“Eu gosto porque a gente fica com mais saúde. Eu vivo sozinho e aqui eu me distraio mais”. Moradores também afirmam que a presença da Polícia Comunitária e do funcional ajudou a alterar a forma como o bairro é visto.
Durante anos, a Cidade do Povo ganhou destaque nas notícias por episódios de violência. Hoje, iniciativas como o projeto da PM ajudam a contar outra história.

“Quando a polícia comunitária entrou no bairro, ela veio fazer a diferença. Hoje, o nosso bairro está sendo visto de outra forma”, afirma Diana Aquino.
Em meio ao esforço físico e às conversas depois do treino, o funcional virou algo maior do que o exercício. Virou encontro, apoio. E, para muitas mulheres da Cidade do Povo, virou o primeiro passo para recomeçar.