Enquanto o país se prepara para celebrar o Dia Internacional da Mulher, um dado coloca o Acre no centro de uma realidade dura. O estado registra a maior taxa de feminicídio do Brasil, com 3,2 mulheres assassinadas a cada 100 mil. O número revela uma verdade incômoda. No Acre, ser mulher ainda significa viver sob risco constante.

Os dados reunidos pelo Ministério Público do Acre (MPAC) e pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que 14 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. Todas morreram em um contexto de violência doméstica ou familiar. Nenhum caso ocorreu fora desse cenário.

O dado desmonta um mito recorrente. O perigo raramente vem de desconhecidos. Ele costuma estar dentro de casa. Nos 14 casos registrados, o autor mantinha relação íntima com a vítima. Maridos, companheiros ou ex-parceiros aparecem como protagonistas dos crimes.

A maioria dessas vítimas já convivia com a violência antes do desfecho fatal. Doze mulheres tinham histórico de agressões anteriores. Mesmo assim, a proteção não chegou a tempo.

Entre as vítimas, 11 não possuíam medidas protetivas ativas no momento do crime. Apenas três estavam amparadas judicialmente. O dado expõe um dos principais gargalos no enfrentamento à violência doméstica. Muitas mulheres não conseguem acessar ou manter a proteção do Estado.

O local dos crimes também revela um padrão. Onze feminicídios ocorreram dentro de residências. Apenas três aconteceram em via pública. A casa, espaço associado à proteção, tornou-se o principal cenário da violência letal contra mulheres.

As armas utilizadas reforçam a brutalidade desses crimes. Facas e outros objetos cortantes aparecem em 64% dos casos, com nove registros. Armas de fogo foram usadas em quatro homicídios, o equivalente a 29%. Outros meios aparecem em menor escala.

O comportamento dos agressores também chama atenção. No momento do crime, seis autores estavam sóbrios, quatro embriagados, um sob efeito de drogas e um sob efeito combinado de álcool e entorpecentes. Em dois casos não há informação.

Após os assassinatos, 13 autores fugiram. Um deles cometeu suicídio.

No andamento dos processos, nove suspeitos permanecem presos preventivamente. Há ainda um condenado, um foragido, um preso temporariamente, um autor morto e um que tirou a própria vida após o crime.

Mas os feminicídios representam apenas a ponta mais extrema de um problema muito maior.

Dados da Secretaria de Segurança Pública apontam 39.541 ocorrências relacionadas à Lei Maria da Penha no Acre entre 2018 e 2026. Os registros incluem ameaças, agressões físicas, violência psicológica e descumprimento de medidas protetivas.

A curva segue em crescimento. Em 2018, o estado registrou 2.336 ocorrências. Em 2025, o número chegou a 7.038 casos, quase o triplo.

A violência se concentra nas cidades mais populosas, Rio Branco lidera o ranking, com 20.847 registros, Cruzeiro do Sul aparece em seguida, com 3.636 casos, Sena Madureira soma 2.097 ocorrências.

O perfil das vítimas também aparece nos dados. Mulheres pardas concentram a maior parte dos registros, com 20.734 ocorrências. Em seguida aparecem mulheres brancas, com 4.976, e pretas, com 3.907. Há ainda casos envolvendo mulheres indígenas, amarelas e situações sem informação registrada.

Esses números revelam uma realidade que vai além das estatísticas. Eles mostram um padrão persistente de violência que atravessa bairros, cidades e relações familiares.

No calendário, o 8 de março celebra conquistas, direitos e avanços das mulheres. No Acre, porém, os dados lembram outra face dessa data. A de um estado que permanece no topo de um ranking negativo e que convive com um dos cenários mais graves de violência contra mulheres no país.