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O segundo mandato de Gladson Camelí entendeu a importância da habitação popular. Não coincidentemente, esse “entendimento” veio ao mesmo tempo da versão Lula 3 em Brasília. Atendendo ao bom senso e lembrando que o primeiro mandato de Gladson foi marcado pela pandemia e as consequências para a gestão pública em um Estado empobrecido, é possível afirmar que, no setor de Habitação, as coisas começam a acontecer agora. E não é um capricho do atual governo estadual ou uma exposição de incompetência: política de habitação popular, em lugares como o Acre, só se faz com apoio do Governo Federal. A justificativa está no custo. Praticamente, é impossível de ser bancada exclusivamente pelos cofres dos governos locais.
E há outro detalhe: em Brasília, é preciso que o maior mandatário tenha sensibilidade com as coisas que acontecem aqui. Quem não se lembra da famosa entrevista do Bar do Vaz, em outubro de 2022, quando Gladson Camelí disse que havia conversado com o então presidente Jair Bolsonaro e este lhe prometera 18 mil unidades habitacionais?
A quem pede não se pode exigir muito pudor: o governante vai a Brasília passar o pires e o faz “de com força”, obedecendo à lógica “se colar, colou”: já que não tem projetos inovadores, que respeitem a geografia local, o jeito é se aventurar. Mas um presidente se comprometer em construir 18 mil unidades habitacionais no Acre, ou mente de forma descarada; ou fala por falar, sem compromisso nenhum de cumprir o que deve ao povo. O resultado não podia ser outro: foi necessário tempo e muita modéstia nos números.
A Fundação João Pinheiro é uma referência clássica quando se busca dados sobre política habitacional. No Acre, por exemplo, calcula-se que o déficit atual seja de 30,8 mil moradias. Aumentou. A cena piorou nos últimos anos. O que é lógico: se não se constroem casas populares, alguém vai se acomodando nos fundos dos quintais de mães e avós.
Mas a política (partidária/ideológica) não entende assim. A política tem uma lógica própria. Em recente entrevista à imprensa local, o governador deu a seguinte declaração: “Cidadania é dar um lar para uma família poder viver com dignidade. Esse foi um dos grandes projetos desse segundo mandato como governador que nós abraçamos, não só na Capital, como no interior também. Vai ter moradia do Casa… do Minha Casa… minha… casa própria…”.
O governador cometeu um ato falho. Tentou ser verdadeiro, mas a verdade lhe engasgou a goela. O gesto acabou expondo a estratégia política apequenada do Gabinete Civil de não dar o devido crédito na autoria da política pública que estava sendo oferecida ao povo.
Nem isso se pode dizer que o atual governo é inovador. Jorge Viana fazia o mesmo, mas tinha melhor desenvoltura. Dissimulava melhor: nas declarações públicas, até falava, aqui ou acolá, as expressões “Governo Federal” ou “presidente Lula”. Mas “as arvorezinhas” eram tantas e em tantos lugares que encobriam qualquer ameaça do slogan oficial do companheiro de Brasília dizer quem tinha mandado fazer esta ou aquela obra.
Outro detalhe sobre a política habitacional do atual governo precisa ser observado. E é algo positivo: percebe-se um tratamento mais institucionalizado, menos politiqueiro. Neste aspecto, ninguém supera Flaviano Melo. Ninguém utilizou melhor as casas populares e apartamentos populares do que Flaviano para “fazer política”. Ele foi imbatível. Na gestão de Gladson, não tem sido assim. Ao contrário, há unidades habitacionais que já estão em uso e que nem foto oficial foi feita. Percebe-se uma certa falta de cuidado, até. Em habitação popular, a cena é esta por aqui.