Gente - Economia e Negócios

Marina Lavocat, a aposta feminina para a virada de jogo do Rio Branco FC

Por
Thais Farias

Um dos clubes mais tradicionais do futebol acreano carrega consigo uma centena de histórias de apaixonados pelo “Estrelão”. Uma delas atravessa gerações e compartilha o amor entre pai, filha e o Rio Branco Football Club. A nova diretora de Relações Externas e de Futebol, Marina Lavocat Barbosa, escolheu prolongar o legado de Wilson Barbosa, ex-presidente (1983-1984) que virou conselheiro vitalício do RBFC.

Rara figura feminina à frente de uma agremiação no Acre, Marina revive as memórias do pai quase que diariamente, pelas arquibancadas do Estádio José de Melo. Hoje, tem apenas dois desejos: resgatar a paixão torcedora e trajetória marcante do time que mais venceu o campeonato acreano (48x). Nos bastidores, já é carinhosamente chamada de “Tia Leila”, uma alusão à presidente do Palmeiras.

“Tenho um verdadeiro caso de amor com o Rio Branco. Praticamente nasci e fui criada dentro desse campo de futebol. A casa da nossa família, aqui bem de frente ao estádio, permanece conosco até hoje, onde reside minha irmã. Tenho muitas lembranças da minha infância e juventude com esse clube por causa do meu pai e sonho em trazer de volta a vibração do torcedor. Quero que o RBFC volte a ser a referência que sempre foi”, declara Lavocat.

Seja dentro ou fora de campo, Marina Lavocat sempre esteve envolvida com o Rio Branco Football Club. “Meu pai tornou-se presidente do clube na década de 1980, quando eu tinha apenas 7 anos. Eu já vinha para cá pequenininha e ficava assistindo aos treinos. Meu pai me ensinava tudo sobre futebol: o que era impedimento, tiro de meta e tudo mais. Sempre assisti futebol quando criança e sempre adorei esse momento”, conta.

A diretora do clube relembra o sucesso da antiga sede social do clube, também localizada na região central de Rio Branco. Lá, foram realizadas grandes festas que viraram uma marca da cidade, como o Carnaval do Rio Branco, que já foi retomado pela nova diretoria do RBFC neste ano de 2026. “Era uma festa maravilhosa. Lembro da minha irmã mais velha participando, muito bonita, toda arrumada no Baile Vermelho e Branco. Tenho muita memória disso”.

Havia também os famosos bailes de debutantes na sede. Todos os eventos arrecadavam recursos para serem destinados ao clube de futebol. “As meninas de 15 anos da minha geração se juntavam numa grande festa ao final do ano, onde eram apresentadas à sociedade. Elas dançavam com os príncipes e ali era palco de tudo. Dancei muita valsa de 15 anos. A sede era muito importante, pois nessa época quase não tinha lugar para festas aqui na cidade”.

Realização

Depois de adulta, Marina morou muitos anos fora do Acre e retornou há pouco tempo, aproximadamente seis anos. “Quando voltei, na primeira vez que passei em frente ao [estádio] José de Melo, eu falei para o meu marido: ‘ainda vou voltar para o clube’. E todo mundo ria, porque para todos que conhecia, eu dizia isso”.

A diretora sempre dizia que quando completasse 50 anos de idade, com as filhas já crescidas, passaria a se dedicar ao Rio Branco. “Meu marido achava engraçado eu dizer isso, mas as palavras têm poder. Fiz 50 anos em agosto de 2025 e, em outubro, o atual presidente do clube, Gerson Souza, me enviou uma mensagem. Ainda não nos conhecíamos, mas ele falou: ‘olha, eu soube, através de um assessor, que você tem um caso de amor com o Rio Branco e eu queria muito a presença de uma mulher no clube’.

O presente do Rio Branco Football Club buscava a sensibilidade feminina no time de futebol e perguntou se Marina topava o desafio. “Perguntei sobre a situação ao meu marido: ‘E aí? Será que agora chegou a hora?’. Ele só me perguntou se eu estava pronta e eu garanti que sim”. Inicialmente, o cargo seria para vice-presidente, mas Marina ficou com receio se conseguiria conciliar com seu outro trabalho, então optou por uma diretoria.

“Aqui temos carta branca para trabalhar em conjunto. Nosso presidente é Defensor Público, então ele tem um olhar muito voltado para essa parte contra a violência, seja em defesa da mulher ou outro caso. Ele tem buscado atuar bastante nessa parte social, olhar o futebol de maneira mais ampla”.

Recomeço

A nova diretoria do clube quer agora muito mais do que fazer futebol. Em artigo publicado no mês de fevereiro deste ano, o empresário Marcello Moura, atual diretor administrativo do Rio Branco FC, diz que o futebol não pode ser reduzido a um time profissional que aparece por alguns anos no calendário. “Precisa ser um instrumento permanente de inclusão social, especialmente por meio da base”.

Para Moura, a chamada escolinha de futebol, a partir dos 10 anos, tira as crianças da ociosidade, reduz o excesso de telas e cria disciplina, rotina, ética, respeito e senso de pertencimento. “Mesmo que poucos se tornem atletas, todos se tornam cidadãos melhores”, conclui.

A diretora Marina Lavocat compartilha do mesmo pensamento e garante a busca por fazer o clube retomar sua função social dentro e fora do futebol. “Pretendemos voltar com a escolinha de futebol e realizar ações sociais no clube voltados para a sociedade. Logo no início do campeonato, entramos em contato com a Secretaria da Mulher pedindo orientações de apoio à causa feminina e, já no segundo jogo, nossos atletas entraram em campo com uma faixa contra o feminicídio e contra a violência”.

O clube agora tem interesse em participar de mobilizações sociais. “Nós queremos, agora, envolver a causa das crianças autistas, para que elas possam vir ao estádio com os pais, que possam entrar com o time em campo, queremos fazer essa aproximação, que elas conversem com os atletas. A gente quer que o Rio Branco FC volte a ser uma referência no Acre, tanto no futebol quanto em ações sociais”.

Palestras educacionais e orientações de rotina são pensadas com frequência no envolvimento dos atletas. “Queremos ser pioneiros no respeito com a mulher”, garante a diretora.

Desafios

Ao longo das décadas, a proximidade do torcedor com o time estrelado mudou bastante. O estádio era cheio. As partidas lotadas, as pessoas vibravam. “Hoje em dia, a gente vai fazer os jogos e não tem público, praticamente. O campeonato acreano não tem mais aquela empolgação de antes”, lamenta Marina. “Por isso, queremos trazer o torcedor antigo do Rio Branco, que viveu o auge do clube”.

A retomada do clube quer alcançar ainda os eventos que ocorriam na sede tradicional, como os bailes. “Já começamos a fazer a Feijoada Vermelha e Branca. Tudo isso faz arrecadações ao time, é uma outra receita. A gente quer montar um calendário realmente de festas para voltar com a parte social do clube. Temos uma gestão de gastos grande com o clube, então precisamos de todos os tipos de recursos que a gente puder captar para ajudar”.

Alavancar a venda de camisas do time, empolgar a torcida, levar o torcedor para o campo, fazer conhecer os atletas e voltar a ser o clube mais querido é a meta da nova diretoria. “O Rio Branco, passou por muitas dificuldades. Temos todos os desafios: financeiros; estruturais. Precisamos montar time, alojamento, é uma responsabilidade muito grande. Manter 30 atletas. A gente tem a equipe principal, sub-20, sub-17. Tudo isso requer recursos”.

O clube usufrui de pouco dinheiro da federação, trabalha com contas apertadas, dependendo do aluguel de lojistas da galeria do estádio. “Não temos receita própria. Ao longo dos anos, o Rio Branco foi perdendo torcedor, que foi ficando distante. É um desafio voltar o amor do torcedor antigo pelo Rio Branco, voltar a ter calendário. Mas esse ano já estamos classificados, e a gente espera, se Deus quiser, conseguir um calendário para a Copa do Brasil em 2027”.

Empresário Marcello Moura é diretor administrativo do Rio Branco FC (FOTO: Sérgio Vale)

Inclusão feminina

As mulheres podem e devem estar presentes no futebol. É com esse pensamento que o clube inserir o público feminino no Rio Branco FC, seja nas arquibancadas ou jogando bola. “Queremos trazer as mulheres para cá. Uma diretora mulher no clube também traz essa proximidade maior com o público feminino. Pensamos, pela primeira vez, em montar um time de futebol feminino e nós entendemos o que elas precisam em alojamento”, destaca Marina.

O esporte muda vidas e o Estrelão acredita em reestruturação na base da inclusão. “Aqui dentro, me sinto extremamente bem. Inclusive já agradeci nossos atletas pelo carinho, pelo respeito. Hoje eu não poderia estar mais feliz. Temos a Síglia Abrahão em outra diretoria também, a esposa do nosso presidente coopera muito conosco. A filha do presidente, minhas filhas aqui comigo, então, hoje percebemos que as pessoas estão esperançosas com o clube. Entramos no calendário prestes ao rebaixamento e agora estamos classificados. A diretoria é nova, jovem, acredito que estejam todos bem animados”.

Marina tem a certeza de que seu pai estaria orgulhoso de vê-la na diretoria do Rio Branco. “Meu pai ficou conhecido pelo amor que ele tinha pelo Rio Branco FC e ele passou esse amor para mim. Tudo lembra meu pai aqui no clube. Às vezes, fico sentada na arquibancada e me sinto super bem, parece que sinto como se eu estivesse em casa. E, na verdade, é uma extensão mesmo da minha casa”, conclui.

Compartilhe
Por
Thais Farias