Valterlucio B. Campelo

Acre – capital humano para um grande desafio

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Valterlucio Campelo

O Centro de Liderança Pública (CLP), que divulga o Ranking de Competitividade dos Estados 2025, posiciona o Acre em 15º lugar entre os estados brasileiros no pilar Capital Humano, que vem a ser o “estoque de conhecimento, habilidades e características” que tornam as pessoas mais produtivas. É construído por meio de educação formal + experiência no mercado”. Essa avaliação é feita pelo exame da capacidade do estado de melhorar a qualificação da força de trabalho, aumentar a inserção no mercado de trabalho e elevar a produtividade real. Seu score (48,6 pontos) está pouco acima da média nacional (43,5 pontos).

O desempenho do Acre não é homogêneo quando analisado indicador a indicador. Há avanços bastante significativos: o estado ocupa a 8ª posição nacional no percentual da população economicamente ativa com ensino superior (22,9%) e a 11ª posição no custo de mão de obra. Além disso, figura em 7º lugar na subocupação por insuficiência de horas trabalhadas (2,6%), demonstrando que os trabalhadores ocupados têm, em geral, carga horária adequada.

Por outro lado, os retrocessos são preocupantes: queda de posições em qualificação da mão de obra (18º, com média de 10,7 anos de estudo), em formalidade no mercado de trabalho (17º, com apenas 54% de vínculos formais), em inserção econômica (16º, com 92,3%) e em produtividade do trabalho (16º, com R$ 2.059/hora). Esses números revelam uma estrutura produtiva ainda frágil, com trabalhadores razoavelmente escolarizados, mas inseridos em postos de baixa produtividade e sem proteção formal.

Historicamente, digo, desde o primeiro ranking, já esteve muito bem colocado (2º lugar em 2018) e mal colocado (18º em 2021). Na Região Norte, o Acre ocupa a 4ª colocação, atrás de Roraima (11º), Tocantins (12º) e Rondônia (13º), e à frente de Amazonas (16º), Pará (17º) e Amapá (18º). Ou seja, embora esteja na média regional, apresenta desempenho visivelmente inferior nos indicadores de inserção de jovens, qualificação da mão de obra e desocupação de longo prazo — justamente os fatores que mais comprometem o desenvolvimento sustentável do capital humano de um determinado território.

Entre todos os indicadores analisados, a inserção de jovens representa o ponto mais crítico e urgente do diagnóstico acreano. Com apenas 70,2% de inserção da população de 15 a 29 anos, o Acre ocupa o último lugar no Brasil nesse quesito — e manteve a posição estável, sem qualquer melhora em relação ao ano anterior. O dado traduz uma realidade alarmante: milhares de jovens acreanos vivem na condição Nem-Nem, ou seja, não estudam, não trabalham e não se qualificam. Essa parcela está concentrada especialmente nas periferias urbanas de Rio Branco e nos municípios do interior do estado, onde o acesso a emprego formal, educação técnica e serviços públicos é limitado.

Infelizmente, as consequências desse cenário ultrapassam a dimensão econômica. A exclusão produtiva da juventude alimenta ciclos de pobreza intergeracional, aumentando a vulnerabilidade social. Não por acaso, no Acre, cerca de 125.000 famílias são beneficiárias de algum programa assistencial do governo. Isso significa 35% dos lares e é o DOBRO da média nacional. Há uma pobreza crônica que se reproduz, e no contexto atual, os jovens estão destinados a repetir o passado.

O quadro descrito cria condições favoráveis ao recrutamento por organizações criminosas, ao tráfico de drogas e ao crescimento da violência. Trata-se, portanto, de um vetor direto de fragilidade estrutural do estado — e de perda irreversível de capital humano. Veja-se que os estados líderes no ranking, como Santa Catarina (1º) e Mato Grosso do Sul (2º), destacam-se exatamente pelos altos índices de inserção econômica e juvenil, baixa desocupação de longo prazo e produtividade elevada — resultado de anos de investimento integrado entre educação, qualificação profissional e mercado de trabalho.

De modo otimista como devemos ser, adianto que este destino não está selado. Há o que fazer. A superação dos gargalos identificados exige, porém, uma agenda de desenvolvimento do capital humano estruturada em eixos estratégicos, por exemplo: qualificação profissional; inserção de jovens com a criação de um Programa Estadual de Aprendizagem e Estágio com incentivos fiscais e Centros de Juventude e Tecnologia com acesso gratuito a programação, design e marketing digital, formalização do trabalho com incentivos tributários vinculados a metas de contratação formal para micro e pequenas empresas e, sem rodeios, aprender com quem está fazendo o certo.

Neste ano eleitoral, seria bom que os candidatos atentassem para questões como essa, e que sinalizassem para a sociedade com diretrizes e programas focados no cerne da questão do desenvolvimento. O Acre tem condições objetivas de avançar no acúmulo de Capital Humano, mas a verdadeira virada depende de uma escolha política clara: colocar a juventude no centro da estratégia de desenvolvimento. Romper o ciclo de vulnerabilidade que prende milhares de jovens acreanos fora da escola e do mercado de trabalho não é apenas uma meta de competitividade — é uma condição essencial para o futuro do estado.

Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, “Arquipélago do Breve”, encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.

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