Legenda: Stenio Soares e o famoso Gaúcho tornaram-se sócios recentemente (FOTO: Sérgio Vale)
Uma das churrascarias mais antigas e tradicionais de Rio Branco carrega sangue gaúcho em seu DNA. Exala o carisma e aconchego exagerado deixado pela descendência italiana na cidade de Marau, no Rio Grande do Sul. É de lá que vem Diovanio Salla, ou, literalmente, ‘Gaúcho’, empresário determinado e perseverante que rapidamente tornou-se símbolo vivo da Estância Gaúcha.
Aberta há mais de 14 anos na capital acreana, a Estância Gaúcha utiliza cerca de uma tonelada de carne por mês, já atendeu 638 pessoas numa mesma noite e vive atualmente um processo de reformulação com a chegada de Stenio Soares, sócio, advogado e administrador de empresas que surgiu com a proposta de unir inovação e modernidade à reputação e trabalho já consolidado por Gaúcho e sua equipe na churrascaria.
Mas quem pensa que o caminho percorrido por Gaúcho até tornar-se empresário foi fácil e repleto de flores, engana-se. De família humilde com seis irmãos, nasceu na roça e precisou deixar a casa dos pais aos 12 anos para trabalhar em troca de comida e um lugar para dormir. Chegando ao Acre, não foi muito diferente: “dormi por cima de cimento e areia enquanto tentava abrir minha primeira churrascaria em Rio Branco”.
A Estância Gaúcha traçou uma verdadeira história de superação frente a obstáculos e adversidades, todos vencidos à base de muito esforço.”Comecei no ramo de churrascaria aos 12 anos, quando meu pai me levou para trabalhar numa churrascaria lá em Marau (RS). Se chamava Churrascaria do Porão. Lá, eu limpava o salão da churrascaria [que era enorme], sozinho, e depois atendia os clientes”, conta Gaúcho.
“Eu trabalhava para comer e dormir, não ganhava nada de dinheiro. De manhã cedo eu ia para a escola, saía por volta de 11 horas e ia direto para a churrascaria. Naquele tempo não tinha buffet. Eu levava na mesa a maionese, o arroz, o espeto de carne, e colocava tudo no prato para o cliente”, relembra.
Foi essa a vida que o jovem Gaúcho levou por aproximadamente três anos. “Depois fui trabalhar numa padaria. Mas ainda era no mesmo sistema: trabalhava para comer e dormir. Um tempo depois, voltei para casa. Trabalhei numa rodoviária vendendo passagens e também como motorista de caminhão na prefeitura”.
A primeira sociedade ocorreu em meados de 1980. Entrou de cabeça no mundo das carnes e abriu sua primeira churrascaria. “Infelizmente, não deu certo. Mas aí montamos outra churrascaria. Um tempo depois, vendemos ela, e dessa vez, outra má sorte: o comprador não nos pagou”.
Três anos depois, já em 1983, Gaúcho mudou-se para Limeira, no estado de São Paulo, onde passou a trabalhar numa churrascaria. “Trabalhei como funcionário e fui conquistando experiência. Nessa mesma cidade, também cheguei a montar uma churrascaria em sociedade. O negócio foi ‘mais ou menos’. Ainda não tinha a experiência necessária para gerir e não consegui [levar adiante]”.
Vida no Acre
Em 1990, na cidade de Piracicaba (SP), Gaúcho voltou a trabalhar como funcionário, onde permaneceu até fevereiro de 2006, quando finalmente mudou-se para Rio Branco, no Acre. “Meu irmão já morava no Acre e tinha alugado um ponto na região conhecida como ‘Correntão’. Me disse que era ideal para montar uma churrascaria. E assim fizemos. Dormi por cima de areia e cimento para colocar a Estância funcionando”.
O primeiro local que recebeu a Estância Gaúcha virou um sucesso, atraindo milhares de clientes por mais de cinco anos. No entanto, Gaúcho precisou sair desse espaço e no ano de 2012 abriu a Estância Gaúcha no endereço onde funciona até hoje, na Estrada do Amapá, próximo à Via Chico Mendes.
“Quando vim para cá, não tinha praticamente nada nessa região. Não tinha supermercado, não tinha esse tanto de comércios. Era só a Estância Gaúcha e um posto de gasolina. Me chamaram de louco, disseram que eu tinha ficado doido de vez por ter aberto a churrascaria no meio do nada e ainda com rodízio de pizza todos os dias, algo que não tinha aqui ainda”.
O que ele não esperava era que os clientes mantidos anteriormente, o acompanharam e foram em busca da Estância no novo endereço. “Aqui passamos pela pandemia, que foi devastadora em todos os pontos de vista. Mas o dono deste ponto me ajudou muito, abriu mão de aluguéis, me emprestou dinheiro. Sou muito grato. Se não fosse ele, não estaríamos abertos. Grato aos clientes também que nunca nos abandonaram”.
‘Gaúcho raiz’
Gaúcho sai para trabalhar diariamente às 6 horas da manhã e encerra seu expediente por volta das 23 horas. Ele garante nunca ter se preocupado com a concorrência. “Cada um tem seu espaço. Eu sei o que eu compro, eu sei a qualidade do meu produto. Concorrência sempre existiu e sempre vai existir”.
Entre suas atribuições, está a distribuição de tarefas entre os colaboradores, verifica as carnes na churrasqueira e não abre mão de temperá-las a seu gosto. “O tempero é mantido como o grande segredo e sucesso das carnes. Carnes, verduras e outros itens são comprados todos os dias. Tudo tem que ser bem fresquinho. A picanha de búfalo é a estrela da casa, ao lado da fraldinha a la fugazzeta, uma receita argentina, e variações da tradicional picanha brasileira”.
A linguiça cuiabana produzida pelo próprio Gaúcho também é outro item de muita procura na churrascaria. “É a mesma receita que eu faço há 20 anos. Muita gente vem comprar congelada para levar para fora do estado. Mas a nossa costela, cupim e suínos em geral saem bastante. No rodízio, a picanha, fraldinha comandam”.
Gaúcho comenta que algumas pessoas acham que ele tem cara de bravo, mas garante que é apenas um estilo raiz. “Eu sou descendente de italiano, falo alto, gesticulo muito. Mas eu sou assim. Não sou melhor do que ninguém, apenas uma pessoa normal”.
O empresário passou a usar recentemente as redes sociais da churrascaria, fazendo sucesso com os internautas e seu jeito gaúcho de ser. “É bom, é bem legal. Chego num lugar e as pessoas falam: olha, é o Gaúcho!. Só tenho esse jeitão, que é meu estilo. Tem uma música que diz muito sobre mim, como canta Porca Véia em ‘no Estilo’:
“Esse meu jeitão de rude foi Deus que me
fez assim
Guri criado sem luxo num ranchinho de
capim
Nunca tive a pretensão de o mundo gostar
de mim
Cada um tem seu estilo, sou mais ou
menos assim”.
Novo sócio
Gaúcho e seu atual sócio, Stenio Soares, conversaram por cerca de um ano para só então oficializar a sociedade. Stenio é cearense e chegou ao Acre em dezembro de 2006. “Tive dois restaurantes aqui em Rio Branco, o Esquina do Baião (no Aviário) e o Esquina do Camarão (Avenida Ceará). Em 2011, me formei em Direito e deixei os restaurantes de lado”.
Na época, Stenio era bastante jovem e acredita não ter sabido lidar muito bem com a gestão dos empreendimentos. “Fiquei um tanto traumatizado com essa vida de restaurantes, até cheguei a dizer que nunca mais trabalharia com isso. Mas foi mais forte do que eu”.
Advogado da churrascaria há quatro anos, Stenio conheceu Gaúcho em 2014. “Eu sempre frequentava a churrascaria como cliente. Comemorava aniversários aqui e desde que assumi como advogado da empresa, vi muito potencial na Estância. O que o Gaúcho tem, nenhum outro lugar tem, que é a expertise, a experiência dele”.
Stenio passou a atualizar Gaúcho sobre novas formas de empreender. “Hoje a forma de tocar a empresa mudou. Falei para ele que dava de a gente melhorar a Estância trazendo um pouco mais de inovação. A questão de ele estar nas redes sociais. Quem não o conhece, acha que ele é político, porque todo mundo cumprimenta ele na rua. É uma pessoa muito querida, além de ser bastante carismático”.
Com o passar dos anos, Stenio percebeu que a Estância tinha bagagem para manter seu sucesso por muito mais tempo e resolveu apostar na sociedade. “Outra coisa que me motivou muito foi o fato de ele [Gaúcho] ser um homem de palavra. Um cara muito justo e muito íntegro”.
Gaúcho recebeu a proposta de Stenio de forma positiva e de braços abertos. “Foi a melhor coisa que já aconteceu. Ele tem outra visão, é um cara novo, que também tem experiência, é administrador, advogado. Eu sei trabalhar, mas não sei administrar direito e ele vem com essa ajuda tão necessária”.
A dupla trabalha agora na inauguração de um novo cardápio e na retomada do sistema de delivery na churrascaria. A Estância Gaúcha oferece rodízios de churrasco, pizzas, massas, risotos e lasanhas, incluindo bebidas como água, sucos e refrigerantes. Com cerca de 50 funcionários, o espaço é famoso por receber figuras conhecidas, como políticos, celebridades e artistas.
“Vamos implementar muita inovação ainda. Vamos abrir a partir das 17 horas para happy hour, com um cardápio novo e a abertura do nosso Espaço Kids, que deve ocorrer na primeira quinzena de março. Já temos produtos de ótima qualidade, mas agora repaginando outros setores do restaurante, tentando melhorar e elevar ainda mais esse sucesso”.
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