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Renda do trabalho atinge quase R$ 1 bilhão por mês no Acre e impulsiona a economia local

Por
Orlando Sabino

A massa salarial — ou massa de rendimento do trabalho — é um indicador fundamental para compreender o funcionamento de uma economia, pois representa o volume total de renda proveniente do trabalho efetivamente recebido pelos trabalhadores em determinado período. Em outras palavras, é a soma dos rendimentos individuais de todas as pessoas ocupadas e constitui um dos principais motores do consumo das famílias, da atividade comercial e da dinâmica econômica local.

Do ponto de vista analítico, a massa salarial resulta da combinação de dois elementos centrais do mercado de trabalho: o nível de ocupação e o rendimento médio real. Assim, sua evolução depende diretamente do desempenho da taxa de desocupação e da qualidade dos empregos gerados. Quando a taxa de desocupação cai, cresce o número de pessoas recebendo renda do trabalho, o que tende a ampliar a massa salarial. Da mesma forma, quando o rendimento médio real aumenta — isto é, quando os salários crescem acima da inflação — a massa salarial também se eleva, mesmo que o número de ocupados permaneça estável.

Por essa razão, a massa salarial é considerada um indicador síntese do mercado de trabalho. Ela capta simultaneamente quantidade e qualidade da renda gerada: mais pessoas empregadas e salários mais elevados resultam em maior volume de recursos circulando na economia. Esse crescimento costuma repercutir diretamente sobre o consumo das famílias, impulsionando o comércio, os serviços e a arrecadação tributária, especialmente em economias regionais onde o mercado interno possui papel relevante.

Entretanto, é importante destacar que a massa salarial representa apenas uma parte da renda total existente em uma economia. Além da renda do trabalho, há outras formas relevantes de geração de renda, como os lucros empresariais, rendimentos do capital financeiro, aposentadorias e pensões, transferências governamentais, programas sociais, aluguéis e outras receitas não diretamente ligadas ao trabalho. Em muitos territórios — especialmente nas economias regionais — esses componentes podem ter peso significativo na sustentação do consumo e da atividade econômica.

Portanto, embora a massa salarial seja um indicador central para avaliar o dinamismo do mercado de trabalho e o poder de compra das famílias, ela deve ser analisada em conjunto com outras fontes de renda e com o contexto econômico mais amplo. Somente essa visão integrada permite compreender de forma completa a capacidade de geração de riqueza, a distribuição da renda e o grau de sustentabilidade do crescimento econômico. Na tabela a seguir, constam alguns indicadores selecionados da força de trabalho acreana nos últimos 14 anos.

Evolução da força de trabalho e da massa salarial (2012–2025)

Os indicadores da PNAD Contínua permitem observar mudanças importantes no mercado de trabalho acreano ao longo da última década, destacando três dimensões centrais: taxa de desocupação, rendimento médio real e, sobretudo, a massa de rendimento mensal real — variável que sintetiza simultaneamente emprego e renda.

Entre 2012 e 2017, o Acre atravessou um período de perda gradual de dinamismo econômico. A taxa de desocupação subiu de 8,2% para 12,3%, enquanto a massa salarial caiu de R$ 785 milhões para R$ 694 milhões, redução acumulada próxima de 12%. Esse movimento reflete um mercado de trabalho mais restrito, com menor número de pessoas ocupadas e queda do rendimento médio real, que saiu de R$ 2.821 para R$ 2.455 no período.

A partir de 2018 até 2021, observa-se uma fase de transição. Mesmo com a elevação da desocupação — que atinge o pico de 15,7% em 2020, influenciada pela pandemia — a massa salarial mostra relativa estabilidade, oscilando entre R$ 728 milhões e R$ 772 milhões. Esse comportamento sugere que mecanismos de proteção de renda e recomposição parcial do mercado de trabalho evitaram queda mais intensa.

Recuperação recente e aceleração da massa salarial

A mudança mais relevante ocorre entre 2023 e 2025. Embora a taxa de desocupação permaneça em patamar intermediário (entre 6,7% e 7,4%), a massa salarial apresenta forte expansão, passando de R$ 755 milhões em 2023 para R$ 931 milhões em 2025 — crescimento superior a 23% em apenas dois anos.

Esse avanço é significativo por três razões:1. indica aumento da renda total circulando na economia estadual; 2. sugere expansão do número de ocupados e/ou melhoria da qualidade dos postos de trabalho e 3. mostra recuperação mais intensa do que a observada no ciclo anterior. Trata-se do maior valor da série histórica, sinalizando uma fase de fortalecimento do mercado de trabalho acreano.

Papel do rendimento médio real

O rendimento médio mensal real também ajuda a explicar esse movimento. Depois de uma tendência de queda entre 2012 e 2017, os salários passam por recuperação gradual, alcançando R$ 2.864 em 2025, valor superior ao observado no início da série.

A elevação simultânea da renda média e da massa salarial indica que a expansão recente não decorre apenas do aumento do emprego, mas também da melhora do rendimento real do trabalho — elemento essencial para o consumo das famílias e para o dinamismo econômico local.

Finalmente, a trajetória da massa salarial mostra que o Acre passou por três fases distintas:1. 2012–2017: contração econômica e queda da renda do trabalho; 2. 2018–2022: estabilidade com alta volatilidade e efeitos da pandemia e 3. 2023–2025: recuperação acelerada e recorde histórico da massa de rendimento.

Do ponto de vista econômico, a massa salarial é um indicador estratégico porque funciona como elo entre mercado de trabalho e atividade econômica. Quando cresce, tende a impulsionar consumo, arrecadação e serviços locais; quando cai, reduz o ritmo da economia.

Portanto, aumento recente da massa salarial no Acre representa um sinal positivo de recomposição do mercado de trabalho e de ampliação da renda das famílias. Contudo, a estabilidade da taxa de desocupação em torno de 7% sugere que o ciclo ainda não está plenamente consolidado, exigindo políticas e estratégias capazes de sustentar a geração de empregos de maior produtividade e manter o crescimento da renda real.

Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas

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Orlando Sabino