Escuto essa pergunta com muita frequência. Pois bem, no feriado de Carnaval, uma festa que deveria ser regada por alegria, veio a público a notícia de um episódio grotesco de estupro coletivo envolvendo atletas vinculados a um clube de futebol do Acre, o Vasco da Gama. Há uma investigação policial formalmente instaurada, que seguirá seu curso regular, com apuração técnica dos fatos e respeito ao devido processo legal e ao contraditório.
O fato é gravíssimo, mas o que me chamou muita atenção e gerou indignação foi a declaração pública do treinador da equipe. Em manifestação amplamente repercutida na imprensa e nas redes sociais, o técnico da agremiação – e, portanto, liderança do time de jovens atletas – afirmou com muita naturalidade tratar-se de “homens longe de casa”; mencionou que mulheres teriam “invadido o alojamento”, o que seria algo corriqueiro; e recorreu ao estereótipo “Maria Chuteira”. Alguns comentários em sites de notícias e postagens também corroboram a visão esposada pelo técnico.
No mesmo compasso, circulou também na imprensa local a possível contratação, pela mesma agremiação esportiva, do goleiro Bruno, autor com condenação transitada em julgado de um feminicídio repercutido nacionalmente.
Não vou me deter ao caso específico, pois o episódio ultrapassa o fato e nos convoca a refletir para além da apuração rigorosa e responsabilidade penal exemplar dos envolvidos no caso concreto e da necessidade de acolher e garantir integralmente todos os direitos das vítimas.
A pergunta que é inevitável e que todos nós deveríamos estar fazendo é: que cultura estamos legitimando — e que vínculo ela mantém com os elevados índices de feminicídio, estupro, violência doméstica e todas as outras violências de gênero que persistem no nosso estado de forma assustadora e em crescimento exponencial, apesar das várias políticas públicas e de prevenção e enfrentamento e dos esforços em implementá-las?
O Acre, como é de conhecimento geral, figura reiteradamente entre os estados com as mais altas taxas proporcionais de feminicídio e de estupro do país, com índices alarmantes e inaceitáveis. Para os incrédulos, as estatísticas sangrentas e cruéis podem ser consultadas na página do Feminicidômetro e do Anuário de indicadores de violência do Acre. Esses dados não são desvios episódicos. São padrões que estruturam a vida social. Se as estatísticas revelam mortes e violência desmedida, discursos como esses revelam permissões.
Quando se invoca a condição de “homens longe de casa”, sugere-se que circunstâncias atenuam escolhas. Mas responsabilidade ética não se relativiza com a geografia. Nenhuma distância física reduz a autonomia da decisão individual.
Quando se afirma que mulheres teriam “invadido o alojamento”, o verbo escolhido não é neutro. Ele enquadra moralmente a narrativa antes mesmo da apuração dos fatos, deslocando o foco da decisão masculina para a presença feminina, apontando diretamente o dedo para a vítima, responsabilizando-a pelo ato criminoso. Ou seja, ao fazê-lo, reconfigura simbolicamente a vítima como agente do próprio dano.
Quando se utiliza o rótulo “Maria Chuteira”, a mulher deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser categoria. E categorias são mais fáceis de desumanizar do que pessoas.
Essas expressões não são meras opiniões. São enunciados que operam no plano simbólico — e o plano simbólico precede a violência concreta. A violência de gênero não começa no ato extremo; começa na narrativa que o autoriza — e o torna tolerável. Como afirma Rita Segato, trata-se, antes de tudo, de uma linguagem de poder. E, como ensina Pierre Bourdieu, a violência simbólica é eficaz justamente porque se naturaliza — porque deixa de ser percebida como violência.
Quando a culpabilização da vítima encontra justificativas sociais (basta olhar os comentários, caros leitores), enfraquece-se a cultura do consentimento. Quando a responsabilidade do agressor é deslocada para circunstâncias ou para o comportamento feminino, reforça-se exatamente o padrão que os números evidenciam. Tudo isso amplia o risco social, a violência a que as mulheres estão expostas e que, frequentemente, acaba em morte, como podemos testemunhar por aqui no nosso estado.
Não basta apenas reagir ao fato consumado; é preciso revisar as estruturas simbólicas que o antecedem e que, silenciosamente, o tornam possível. Nesse contexto, a responsabilidade social da sociedade como um todo, na qual se incluem as agremiações esportivas, é inequívoca, e, para além de um dever ético, moral e humano, decorre de um dever constitucional.
Instituições que formam juventudes e mobilizam paixões coletivas não podem tratar a dignidade das mulheres como variável discursiva. Suas falas e decisões comunicam valores, influenciam modelos de masculinidade e integram o ambiente cultural em que direitos são fortalecidos ou fragilizados.
Desde 2014, o Ministério Público do Estado do Acre colocou a vítima na centralidade de sua estratégia institucional. Desde 2016, a violência de gênero contra mulheres e pessoas LGBTQIA+ passou a contar com porta de entrada específica para acolhimento qualificado. Em 2018, o Ministério Público brasileiro instituiu a Ouvidoria da Mulher, voltada à escuta qualificada de vítimas de violência. Neste ano, essa agenda assume dimensão ainda mais estratégica no âmbito da gestão institucional do MPAC.
Há um esforço coletivo das instituições públicas e do movimento de mulheres para conter e prevenir o avanço da inaceitável desigualdade e da violência de gênero.
Embora precisemos avançar muito no fortalecimento e implementação efetiva das políticas públicas de prevenção e repressão, especialmente no que tange ao aspecto orçamentário, são essas medidas o reconhecimento de que o enfrentamento da violência de gênero exige estrutura, investimento, priorização, educação em direitos e gênero (formal e não formal), mas, sobretudo, RESPONSABILIDADE COLETIVA, do setor público e do privado, do indivíduo e das organizações.
Não são apenas fatos que definem uma sociedade, mas os limites que ela impõe às próprias narrativas. A pergunta que permanece é coletiva: que sociedade estamos dispostos a sustentar? Aquela que relativiza a dignidade feminina ou aquela que afirma, sem ambiguidades, que nenhuma mulher é circunstância, provocação ou justificativa?
A fala do técnico da agremiação esportiva dialoga diretamente com a pergunta que escuto com frequência: Por que as mulheres continuam sendo mortas por homens no Acre?
Todos nós que vivemos no Acre precisamos enfrentar essa reflexão com maturidade institucional e coragem cívica. Temos que olhar e podar a raiz, a origem. O que vimos, nesse fim de semana de Carnaval, a fala do técnico e os comentários que a ratificam são absolutamente inaceitáveis para uma sociedade civilizada que almeja paz. O que começa na palavra, muitas vezes, termina nos fatos (violência, morte, estupro, suicídio) e se converte em estatísticas (que as pessoas se perguntam por que não param de crescer). Nenhuma sociedade democrática e civilizada pode aceitar que mulheres continuem sendo violentadas e morrendo — literal ou simbolicamente — pelo fato de serem mulheres.
Patrícia de Amorim Rêgo é acreana, casada, mãe de quatro filhos homens, Procuradora de Justiça, ex Procuradora-Geral de Justiça e atualmente ocupa o cargo de Corregedora-Geral do Ministério Público do Estado do Acre.


















