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O arrendamento de um sonho

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O futebol acreano vive uma realidade que precisa ser debatida com franqueza. Poucos são os clubes que estão sob comando de investidores eleitos. Isso, por si só, não é o problema. O capital privado é legítimo e muitas vezes mantém as portas abertas. O desafio surge quando o comando se orienta exclusivamente pelo retorno imediato, transformando o clube em um projeto de temporada.

Monta-se um elenco para vencer o estadual e garantir vaga no calendário da CBF. A premiação sustenta o ano seguinte. É uma lógica compreensível em um mercado pequeno, mas que cria dependência de um unico resultado. Se ganha, respira. Se perde, afunda. O sonho da torcida passa a ser administrado como contrato de curto prazo.

Quase não se investe como deveria nas categorias de base e nas escolinhas. Sem base estruturada, não se formam atletas, não se criam ativos e não se constrói patrimônio esportivo. Mais grave ainda: o futebol deixa de cumprir seu papel social. Em um estado como o Acre, a escolinha pode ser disciplina, orientação, pertencimento e oportunidade para crianças e jovens que precisam de referência. Quando a base é negligenciada, o clube perde futuro e a sociedade perde proteção.

O investimento público, quando existe, muitas vezes chega tarde. Estamos no meio do campeonato e nenhum recurso foi liberado. Quando o apoio institucional não acompanha o calendário esportivo, ele deixa de ser investimento e vira socorro emergencial. E socorro não constrói projeto. Obriga dirigentes a improvisar e aumenta a instabilidade.

Mas antes de falar em recursos, é preciso lembrar algo essencial: antes de ser apenas um time, precisamos ser clubes recreativos. Clubes com sócios participativos, conscientes e comprometidos em defender os interesses e o propósito que o estatuto rege. Quando o quadro social é forte, a instituição ganha identidade, estabilidade e legitimidade. O clube deixa de ser apenas arrendado financeiramente e passa a ser sustentado moralmente por sua comunidade.

Trabalhar com pouco dinheiro exige união, criatividade e, sobretudo, transparência. Prestação de contas clara gera confiança. Confiança mobiliza sócios, aproxima empresários e fortalece a torcida. Sem essa base social ativa, qualquer projeto se torna frágil.

O futebol acreano não pode continuar vivendo o arrendamento de um sonho. O time profissional é vitrine, mas o clube é a raiz. O título é importante, mas formar cidadãos é estratégico. Se quisermos transformar o futebol em instrumento de inclusão social e orgulho coletivo, precisamos fortalecer nossas instituições, respeitar nossos estatutos e construir legado. O Acre não precisa apenas de campeões de temporada; precisa de clubes fortes, organizados e comprometidos com o futuro.

Marcello Moura é empresário e diretor do Rio Branco F. Club.

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