Foto: Iago Nascimento/ac24horas
O programa Médico 24 Horas, exibido nesta segunda-feira (16) pelo ac24horas.com e pelas redes sociais do jornal, recebeu a médica neuropediatra Dra. Larissa De Vito e o ortopedista Dr. Marco Pimenta, em uma entrevista conduzida pelo médico e apresentador Dr. Fabrício Lemos. A conversa abordou os principais desafios e demandas da saúde infantil no Acre, com destaque para condições ortopédicas frequentes e transtornos do neurodesenvolvimento.
Durante a entrevista, o ortopedista pediátrico Marco Pimenta relatou que sua rotina no estado é marcada por atendimentos de patologias como pé torto congênito, pé plano, marcha na ponta dos pés, displasia do quadril e escoliose. Ao comentar o impacto do trabalho com crianças, ele afirmou que o atendimento pediátrico tem um retorno imediato na vida do paciente e da família. “É uma delícia operar a criança. É excelente o bem que a gente traz, o benefício que a gente traz pra criança, pra família da criança”, disse. Segundo o médico, o objetivo do tratamento é garantir que a criança possa viver a infância com autonomia. “A gente consegue alterar a qualidade de vida, devolver para aquela criança o direito dela ser criança, dela brincar, dela correr”, completou.
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Entre os serviços citados por Marco, o médico destacou o ambulatório voltado ao tratamento do pé torto congênito, realizado na Fundação Hospitalar. “Nós temos um ambulatório na Fundação Hospitalar, porta aberta toda segunda-feira de manhã, às sete e meia da manhã, onde a gente trata pé torto congênito de todo o estado”, afirmou. Ele explicou que o atendimento se estende inclusive a pacientes de outras regiões e países vizinhos. “Bolívia, Peru, Rondônia, Amazônia, tudo vem pra cá”, relatou.
O ortopedista ressaltou ainda que o tratamento segue método reconhecido internacionalmente. “A gente faz através do método de POM-7, que é um método que é utilizado no mundo todo. Hoje, se a gente for pros Estados Unidos, pro Japão, eles vão tratar também os pés tortos congênitos através do método de POM-7”, disse.
Ao explicar sobre o pé plano, Marco reforçou que a condição é comum na infância e nem sempre representa doença. “Toda criança já nasce com o pé plano e, ao longo do crescimento, o arco plantar medial vai se formando. Quando isso não acontece, a gente tem de fato o pé plano valgo da infância”, explicou. Segundo ele, a necessidade de tratamento depende da presença de sintomas. “Esse pé plano pode ser doloroso ou não doloroso. Quando ele é doloroso, já é uma indicação de tratamento, muitas vezes cirúrgico. Quando ele é não doloroso, a gente tem a opção de aguardar”, afirmou.
O médico também alertou que alterações na pisada e na marcha podem trazer repercussões ao longo da vida se não forem acompanhadas. “Isso pode alterar a biomecânica da marcha e trazer sobrecarga para articulações adjacentes. Futuramente, o paciente pode ter dor, pode ter uma artrose precoce”, disse. Para ele, o acompanhamento especializado é fundamental. “É muito importante que essas crianças que tenham alterações nos pés, na marcha, na pisada, sejam avaliadas pelo ortopedista pra fazer o tratamento adequado”, acrescentou.
Outro ponto citado pelo especialista foi a incidência de escoliose em crianças. “Aquelas crianças com a coluna tortinha, com as curvaturas anômalas da coluna, também são muito frequentes”, afirmou. Ele destacou que mochilas escolares pesadas podem contribuir para o problema. “Atualmente as crianças têm uma sobrecarga muito grande, as mochilas estão sendo muito pesadas e muitas vezes pouco ergonômicas”, disse. Como alternativa, o ortopedista recomendou que, quando possível, seja adotado um modelo mais adequado. “A gente sempre orienta os pacientes de, quando possível, utilizarem aquela mochila de rodinha”, completou.
Marco também chamou atenção para um achado raro que, segundo ele, tem aparecido com maior frequência no Acre: a luxação congênita de joelho. Ele explicou que luxação é o desencaixe entre ossos de uma articulação. “As articulações são compostas por dois ossos e esses ossos têm que estar encaixados. Quando esses ossos ficam desencaixados, a gente chama de luxação”, explicou. Ele destacou que, quando ocorre no joelho, o quadro é incomum. “Quando é no joelho, é um acometimento raro. Não é comum acontecer a luxação congênita de joelho”, afirmou.
Apesar disso, ele relatou que já registrou diversos casos durante sua atuação no estado. “Aqui no Acre, eu pessoalmente tenho oito casos documentados”, disse. O médico comparou o número com o que havia visto durante sua formação. “Quando eu tava na residência médica, eu vi um caso. E eu lembro que o meu professor falou: talvez vocês não vejam mais ao longo da carreira. E aqui no Acre, a gente tem um número consideravelmente alto”, relatou.
Foto: Iago Nascimento/ac24horas
Na neuropediatria, a médica Dra. Larissa De Vito destacou que o perfil de atendimento no Acre tem forte presença de transtornos do neurodesenvolvimento e epilepsia. “Autismo é o transtorno mais frequente”, afirmou. “Seguido dele, acredito que o TDAH, o déficit de atenção e hiperatividade. A epilepsia também é muito comum”, completou.
Ao comentar sobre possíveis diferenças entre o Acre e estados como São Paulo, onde atuou anteriormente, Larissa avaliou que o autismo tem alta prevalência em todo o Brasil e no mundo, mas ressaltou uma observação clínica. “Eu vejo bastante aqui casos de síndrome genética que eu não via tanto lá”, disse. Segundo ela, isso pode estar relacionado a fatores como consanguinidade e idade dos pais. “Talvez por conta de consanguinidade. Alguns pais têm filhos mais tardiamente aqui. E isso propicia a ocorrência de alguma síndrome genética”, afirmou.
Larissa também abordou o aumento do diagnóstico de autismo nos últimos anos e citou dados internacionais para contextualizar a tendência. “A estatística americana mostra que, nos últimos dois anos, aumentou de 1 para 44 para 1 para 36 em dois anos a prevalência de autismo”, afirmou. Para ela, esse crescimento está associado principalmente ao diagnóstico mais frequente e precoce. “Isso se deve principalmente a um possível subdiagnóstico. Anteriormente eram feitos outros diagnósticos ou deixavam passar esses casos”, explicou.
A médica destacou que o maior conhecimento da população e dos profissionais têm impulsionado a identificação. “O maior conhecimento da população faz com que eles busquem mais apoio, mais investigações”, disse. Ela acrescentou que isso ocorre também na rede de profissionais. “O maior conhecimento da equipe multidisciplinar – do médico, fonoaudiólogo, psicólogo – faz com que eles encaminhem mais e com que a gente estude mais critérios, mais sintomas precoces do autismo”, afirmou.
Ao tratar sobre fatores associados ao autismo, Larissa explicou que o transtorno envolve múltiplos elementos. “O autismo é desenvolvido através de um componente genético e componentes ambientais. Então, a pessoa tem uma predisposição genética”, disse. Entre os fatores citados, ela mencionou idade parental acima dos 35 anos, além de intercorrências gestacionais e perinatais. “Fatores ambientais como idade dos pais acima dos 35 anos na gestação, ocorrência de parto cesárea”, afirmou, acrescentando que, em muitos casos, a cesárea está ligada a complicações que aumentam riscos. “Existem intercorrências gestacionais e periparto que vão levar à cesárea e isso pode aumentar a chance do autismo por conta da hipóxia, prematuridade, sangramentos na gestação”, explicou.
A neuropediatra também destacou a diferença de prevalência entre os sexos. “É uma proporção de 3 a 4 meninos para uma menina”, afirmou. Segundo ela, em parte, isso pode estar ligado a subdiagnóstico no sexo feminino. “Pode ser devido a um subdiagnóstico das meninas, porque elas têm uma maior capacidade de socialização e também elas têm mais sintomas internalizantes. Então, pode ser confundido com depressão, ansiedade”, explicou.
Sobre diagnósticos em adultos, Larissa ressaltou que o autismo não é adquirido ao longo da vida. “É importante que as pessoas saibam que os sintomas têm que serem iniciados nos três primeiros anos de vida. Ninguém se torna autista. Todo mundo que está no espectro nasce autista”, afirmou. Ela explicou que, quando o diagnóstico é tardio, a investigação precisa resgatar dados da infância. “Quando esse diagnóstico é feito tardiamente, a gente precisa buscar informações ali daquela primeira infância, com familiares, talvez relatórios escolares da época”, disse.
Ao falar sobre o TDAH, Larissa explicou que existem diferentes apresentações do transtorno. “O TDAH é o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. E existem graus sim”, afirmou. Segundo ela, há formas distintas de manifestação. “A gente pode ter um TDAH apenas com um quadro de hiperatividade e impulsividade, um TDAH apenas com sintomas de desatenção ou um TDAH combinado”, explicou.
A médica também alertou que desatenção isolada não significa necessariamente um transtorno. “Quadros de ansiedade podem se confundir muito com o TDAH”, disse. “A ansiedade inclusive atrapalha a concentração”, completou.
Por fim, a entrevista também evidenciou a importância do trabalho integrado entre ortopedia e neuropediatria, especialmente em casos em que condições neurológicas coexistem com demandas ortopédicas. Marco destacou que essa realidade é frequente no atendimento. “Como está tendo muita incidência de autismo, muitas crianças fraturadas têm também autismo”, afirmou. Segundo ele, o acompanhamento conjunto contribui para um cuidado mais completo. “Eu faço toda a parte ortopédica para esse paciente, cirurgia, recuperação, reabilitação, e a doutora Larissa faz toda a parte de neuropediatria, inclusive com o paciente internado”, relatou.
Veja a entrevista completa:
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