Fonte: CLP/2025
Para qualquer dos milhões de brasileiros de outras regiões, o Acre é um espaço singular no imaginário brasileiro: Terra de Chico Mendes e de Marina Silva, a brasileira mais aplaudida em todas reuniões e convescotes de premiação relativos à Amazônia. Somos donos de uma biodiversidade exuberante, de vastas áreas de floresta preservada e de comunidades tradicionais que há décadas resistem ao desenvolvimento predatório. No entanto, quando observamos o Ranking de Competitividade dos Estados 2025, construído pelo Centro de Liderança Pública a partir de informações oficiais, o contraste entre o imaginário e a realidade das políticas públicas se torna gritante – o Acre aparece na 26ª posição em Sustentabilidade Ambiental. Isso é mais que um dado estatístico, é uma vergonha coletiva que reflete décadas de negligência.
Neste ano eleitoral, precisamos largar as lamúrias e cobrar dos candidatos responsabilidade e ação urgente. O Acre, que deveria estar entre os líderes nacionais em sustentabilidade, apresenta indicadores vergonhosos: saneamento básico precário, reciclagem inexistente e baixa transparência. O paradoxo é: Como um estado que possui menos de 0,4% da população brasileira e abriga parte da maior floresta tropical do mundo consegue figurar entre os piores do país em políticas ambientais?
A resposta passa por fatores estruturais, entre eles o saneamento básico, que é a questão mais grave. O dado mais alarmante é o tratamento de esgoto – apenas 13,2% (2023). Para o mesmo ano, em Rio Branco, a capital, o cenário não melhora — a coleta de esgoto é de apenas 46,5% e tratamento 30%, pior que a média nortista (o Acre incluído) de 56,6% e 47,7%. A capital está abaixo da média regional em todos os indicadores de saneamento. Isso não é apenas um problema ambiental; é um problema de saúde pública, de dignidade e de desenvolvimento econômico. Estados líderes, como o Distrito Federal e Paraná, tratam de 70% a 90% do esgoto.
Em outra ponta, os números da reciclagem e coleta seletiva tendem a ZERO. Isso significa que o Acre opera como se estivesse décadas atrás das práticas mínimas de gestão de resíduos. Sem coleta seletiva, sem logística reversa, sem cooperativas fortalecidas, o lixo simplesmente se acumula de modo disperso, e o impacto ambiental se multiplica.
O Acre na Região Norte é o último entre os últimos. Mesmo com toda a exibição nos fóruns nacionais e internacionais, o Acre consegue se destacar negativamente. Tem o pior desempenho ambiental da Amazônia Legal. Estados como Amazonas, Rondônia e Amapá, mesmo com dificuldades semelhantes, apresentam resultados significativamente melhores. No contexto brasileiro, o Amazonas está em 8º, Amapá em 12º e Roraima em 13º. Isso mostra que o problema não é apenas geográfico ou econômico. O foco está equivocado, a gestão precisa ser reavaliada, redirecionar e concentrar esforços na busca de resultados.
Neste sentido, talvez seja interessante perguntar: o que os estados líderes fazem que o Acre não faz? Os estados que ocupam o topo do ranking têm como características comuns: saneamento avançado; reciclagem estruturada; transparência ativa, participação social; monitoramento ambiental contínuo e transparente; políticas integradas entre governo, municípios e sociedade. Não parece que essa agenda seja algo inalcançável. O que falta é prioridade política, planejamento e continuidade — três elementos que historicamente nos foram escassos.
Então, no decorrer da campanha de 2026 para o governo do Acre, esse tema deverá vigorar como um dos mais importantes. Precisamos de respostas que levem a investimento pesado em saneamento, com PPPs e metas vinculadas; monitoramento 24/7 do desmatamento, com tecnologia e resposta rápida; implantação real de coleta seletiva e reciclagem e Transparência total, com dados abertos e acompanhamento dos órgãos de controle e da sociedade e compromisso com o rigor técnico das ações.
A Amazônia não é apenas um patrimônio — é uma responsabilidade. O Acre, mais do que qualquer outro estado, precisa assumir essa responsabilidade com seriedade, planejamento e coragem política. A hora é de mudar o foco e o ritmo do desenvolvimento. Fazer mais e melhor.
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, “Arquipélago do Breve”, encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.