Orlando Sabino

Purus puxa crescimento, mas Estado desacelera geração de empregos

Por
Orlando Sabino

O emprego com carteira assinada é um dos principais pilares da estabilidade econômica e da proteção social, especialmente em um estado como o Acre, onde a informalidade ainda tem peso relevante. Cada vaga formal criada significa renda estável para as famílias, acesso a direitos como férias, 13º salário e aposentadoria, além de maior segurança jurídica para trabalhadores e empresas. Do ponto de vista econômico, a formalização fortalece o consumo, amplia a arrecadação e sinaliza maior organização produtiva; do ponto de vista social, reduz vulnerabilidades e cria trajetórias ocupacionais mais sustentáveis. Por isso, acompanhar a evolução do emprego formal é fundamental para compreender o ritmo do desenvolvimento e a distribuição de oportunidades no território acreano. Analisaremos no artigo de hoje os números dos empregos com carteira assinada no Acre, em 2025.


O Brasil criou cerca de 1,28 milhão de empregos com carteira assinada, em 2025, segundo o Novo Caged, resultado positivo, porém o menor dos últimos cinco anos e cerca de 23% inferior ao registrado em 2024. O estoque total chegou a aproximadamente 48,5 milhões de vínculos formais, mas o ritmo de geração desacelerou em meio a um cenário de crédito caro e atividade econômica menos dinâmica. Apesar disso, todos os grandes setores encerraram o ano com saldo positivo, e a taxa de desemprego medida pela PNAD atingiu níveis historicamente baixos, indicando que o mercado de trabalho continuou se expandindo, ainda que com menor intensidade na formalização.


O mesmo ocorreu no Acre, que registrou a geração líquida de 5.058 empregos formais, elevando o estoque de trabalhadores com carteira assinada de 110.509 para 115.567 vínculos, segundo dados do Novo Caged. Em termos relativos, o crescimento foi de 4,6%, ritmo inferior ao observado em 2024, quando o estoque havia avançado 6,3%, sinalizando desaceleração na expansão do mercado formal. Quando esse resultado é cruzado com a população estimada de 884.372 habitantes, chega-se a uma média de aproximadamente 5,7 empregos formais criados para cada mil acreanos no ano. A última taxa de desocupação, medida pela PNAD/IBGE, apontou uma taxa de desocupação de 7,4% no terceiro trimestre de 2025, uma das menores dos últimos 4 anos, o que também indica que o mercado de trabalho continua se expandindo, porém com menor intensidade de formalização.


À primeira vista, os dados do Novo Caged, indicam um desempenho positivo. Mas o mapa regional do emprego formal revela um Estado muito menos homogêneo do que a média sugere, conforme gráfico a seguir.


O desempenho da Regionais e Município na geração dos empregos formais no Acre

No Juruá, o crescimento foi consistente e relativamente distribuído, ainda que concentrado em Cruzeiro do Sul. A regional gerou 925 empregos formais, dos quais 715 apenas em Cruzeiro, que mantém sua centralidade econômica ao concentrar mais de 60% da população regional. Ainda assim, o dado mais expressivo veio de Rodrigues Alves, que registrou alta de 31,5% no estoque de empregos, um avanço proporcional bastante elevado para seu porte populacional. Mâncio Lima apresentou crescimento moderado, enquanto Marechal Thaumaturgo e Porto Walter tiveram expansão discreta. O conjunto indica um dinamismo regional relativamente equilibrado, com destaque para municípios menores que ampliaram sua base formal acima da média.


Na Regional do Tarauacá/Envira, o desempenho foi positivo, porém desigual. Tarauacá liderou a geração de vagas, com 166 novos empregos e crescimento de 13,4% no estoque, seguida por Jordão, que teve expansão proporcional expressiva de 18,3%, mesmo partindo de uma base pequena.


Fonte: NOVO CAGED – MTE

Já Feijó, o segundo mais populoso da regional, apresentou crescimento bastante modesto, de apenas 1,7%. O resultado regional acabou sustentado pelos municípios mais populosos e o menor, enquanto um centro urbano importante, cresceu em ritmo bem mais lento.


No Alto Acre, o avanço foi relativamente homogêneo. Brasiléia e Epitaciolândia puxaram a geração de empregos, com 208 e 185 vagas, respectivamente, mantendo o eixo de fronteira como principal polo econômico regional. Assis Brasil também apresentou crescimento relevante em termos proporcionais, enquanto Xapuri registrou expansão mais contida. A regional cresceu de forma consistente, sem oscilações bruscas, sinalizando estabilidade e integração econômica entre os municípios.


Já no Baixo Acre, apesar de concentrar a maior parte da população e do estoque formal do Estado, o crescimento foi heterogêneo. Rio Branco liderou amplamente em números absolutos, com 1.919 vagas, mas o ritmo percentual foi modesto diante do seu tamanho. Municípios como Senador Guiomard e Capixaba tiveram desempenho positivo, porém Acrelândia e Porto Acre cresceram de forma discreta. O destaque negativo ficou para Bujari e Plácido de Castro, que registraram perda de empregos formais, indicando fragilidade econômica localizada dentro da região mais populosa do Estado.


Por fim, na Regional do Purus, o cenário foi marcado por forte assimetria. Sena Madureira concentrou praticamente toda a expansão regional, com impressionante crescimento de 41% no estoque de empregos e 1.675 vagas geradas. Em contraste, Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus apresentaram retração no número de vínculos formais. O resultado regional, portanto, foi inteiramente sustentado por um único município, evidenciando um ciclo altamente concentrado e possivelmente vinculado a fatores específicos de investimento público ou atividade econômica localizada.


Portanto, o dado mais surpreendente vem da Regional do Purus. Com apenas 64,1 mil habitantes — 7,3% da população estadual — a região respondeu por 1.639 das 5.058 vagas criadas no Acre em 2025, ou seja, 32,4% de todo o emprego formal gerado no ano. Isso significa uma impressionante taxa de 25,5 empregos por mil habitantes, quase quatro vezes acima da média estadual. ,


Na outra ponta, o Baixo Acre — que concentra 54,9% da população do Estado e mais de 88 mil vínculos formais — respondeu por 1.724 empregos gerados, o equivalente a 34% do total. A taxa de geração foi de apenas 3,5 empregos por mil habitantes, abaixo da média estadual. Rio Branco liderou em números absolutos, com 1.919 vagas, mas o ritmo proporcional foi discreto, de 2,5% no estoque.


O quadro de 2025 indica uma inflexão interessante no padrão tradicional de concentração do emprego formal. Historicamente, o dinamismo se concentra no eixo Rio Branco–Baixo Acre. Neste ano, porém, o impulso veio de uma regional menor, alterando temporariamente o mapa da formalização no Estado. A questão que se impõe é se estamos diante de um processo sustentável de interiorização do crescimento ou de um ciclo pontual concentrado em projetos específicos.


Em síntese, embora 2025 tenha mantido o Acre no campo positivo da geração de empregos formais, os números revelam uma desaceleração clara em relação ao ano anterior. O crescimento do estoque caiu de 6,3% em 2024 para 4,6% em 2025, acompanhando a tendência nacional de perda de fôlego na formalização. Além disso, o dinamismo mostrou-se concentrado em poucos polos, especialmente no Purus, enquanto regiões mais populosas cresceram abaixo da média. O desafio para 2026 será transformar episódios pontuais de expansão em um movimento mais equilibrado e sustentável, capaz de distribuir oportunidades de forma mais homogênea e manter o emprego formal como vetor estruturante do desenvolvimento econômico e social do Estado.


Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas


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