Foto: Kennedy Santos/ac24horas
Morador há mais de cinco décadas às margens do Rio Acre, no bairro Cidade Nova, em Rio Branco, o ribeirinho Amâncio Vieira, conhecido na região como “Mão de Ferro”, relatou as dificuldades enfrentadas durante as últimas alagações e chamou atenção para as mudanças no comportamento do rio e do clima nos últimos anos. O depoimento foi concedido ao repórter do ac24horas Play, Kennedy Santos, durante reportagem realizada na beira do rio na manhã desta quarta-feira (04).
Com cerca de 58 anos de vida ribeirinha, Mão de Ferro contou que, no passado, era possível prever cheias apenas observando a natureza. “Agora está meio difícil, o tempo está mudado. Quando a gente pensa que vai encher e não enche, quando a gente pensa que vai vazar e não vaza, e assim vai”, afirmou.
De dezembro para cá, o nível do Rio Acre avançou diversas vezes sobre a área onde ele mora. “Três vezes. Duas vezes a água veio até aqui, aí uma vez chegou mais pouco. Mas duas vezes foi agora, a passada e essa”, relatou.
Foto: Kennedy Santos/ac24horas
Durante a última alagação, Mão de Ferro chegou a passar semanas vivendo dentro do próprio barco, ancorado próximo à residência. “Eu botei um bocado de coisa aqui, dormia aí, eu e minha neta. Botei fogão, botei até o cachorro dentro do barco. Passei quase dois meses. Quando a gente queria tirar as coisas, enchia de novo, aí voltava para o barco. Perdi uma televisão de 35 polegadas, perdi um guarda-roupa”, lamentou.
Mesmo em meio às dificuldades, o ribeirinho segue tirando o sustento da pesca. Ele contou que recentemente fisgou um peixe de grande porte. “Nessa linha eu peguei um pirarara. A semana atrasada deu 38 quilos. Tenho até foto no celular”, disse.
Sobre a possibilidade de novas cheias, Mão de Ferro demonstrou cautela. “O coordenador do bombeiros falou que de uma hora para a outra pode vir mais água, mas eu acho meio difícil. Já deu duas em seguida, agora acho que vai maneirar. Se tem abril, ainda tem alagação. Vamos rezar que não venha mais”, afirmou.
Mais preparado do que muitos vizinhos, o ribeirinho afirmou que construiu a casa em nível mais alto justamente para reduzir os impactos. “Eu não me perturbo muito não, porque fiz a casa mais alta para não ter problema. Mas tem muita gente aí que já saiu de casa, já perdeu as coisas”, observou.
Ao final, resumiu a relação de quem vive à beira do rio com fé e resignação: “Com Deus não tem quem possa não”, finalizou.