Valterlucio B. Campelo

Sucessão no Acre – a novidade é que não tem novidade

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Valterlucio Campelo

Na segunda-feira passada, o prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, resolveu anunciar em um auditório minúsculo, sem presenças importantes do seu partido, que também está na fita para 2026 como candidato ao governo do Acre. Para quem o conhece um pouquinho que seja, não é nenhuma surpresa. Já passado dos setenta anos de idade, ele sabe que essa é sua última oportunidade, não dá para esperar mais quatro ou oito anos e uma conjuntura mais favorável. Some-se o seu conhecido narcisismo misturado com egocentrismo e o quadro fica completo, se enganou quem quis.


Qualquer um que preste atenção ao cenário político verá que desde a sua reeleição para prefeito o governo do estado entrou na mira. Ele nem ao menos despistou. Sem pejo, aproveitou-se do cargo de presidente da associação dos municípios para fazer seguidos périplos em todos eles e, segundo sua própria interpretação, ouvir “o chamado do povo”. Em política, cada um escuta o passarinho que quer, no volume que precisa.


Como uma balinha estendida a uma criança, em sua fala Bocalom deixou uma fresta para recuo, sugerindo que se o seu nome não permanecer competitivo (está em segundo lugar nas pesquisas, atrás do Alan Rick), ele poderia mudar de ideia. Jogo de cena. Sabe ele, e lutará com unhas e dentes neste sentido, que dificilmente até início de abril, sem campanha aberta, a vice-governadora Mailza de Assis o ultrapassará, portanto, joga com cartas marcadas. É candidato até se, por uma decisão drástica de interesse nacional, lhe for negada a legenda PL, acreditando que no futuro, indo ao segundo turno, “o caminhão de abóboras se ajeita” (royalties para um amigo da SEAGRI).


A consequência imediata da decisão é um certo constrangimento do senador Marcio Bittar que, sendo dirigente máximo do Partido Liberal no Acre, fica um tanto atado ao correligionário que apadrinhou e potencializou nas últimas eleições. A candidatura de Bocalom diminui o campo de articulação que lhe facilitaria a reeleição, considerada fundamental e prioritária para os propósitos do partido em nível nacional. Bocalom desconsiderou esse aspecto – sempre de olho no espelho, a prioridade de Bocalom é Bocalom e fim de papo.


Estará o ótimo senador Márcio Bittar, preso numa armadilha, sem condições de se articular, crescer e mitigar o crescimento dos concorrentes em outras siglas e coligações? Se sim, ponham na conta do prefeito. Lembremos que, a rigor, há apenas uma vaga em disputa, considerando-se, como apontam todas as pesquisas, que uma delas está assegurada ao governador Gladson. Além disso, com dois votos à disposição, o eleitor é fugaz como uma bolha de sabão.


E os outros candidatos, Mailza de Assis e Alan Rick? Como a “novidade” não era nova, nada muda na estratégia de nenhum dos dois. A candidata, que disputará a eleição no exercício do cargo, já declarou várias vezes que esperava alguma gratidão do Bocalom, mas, sabendo que essa moeda não anda fácil nas mesas políticas, deu de ombros e mirou na campanha, como quem promete: “me aguarde, seu mal-agradecido!”. Isso, antes de ser publicado em

ÁUDIO gravado que segundo o Boca, foi ele, ele mesmo, quem “botou a Mailza e o James Gomes na política” e que a bendita suplência do Gladson também lhe é devida. Para o Bocalom, se nessa relação tem alguém com gratidão a receber, é ele. Resta saber se a pré-candidata vai passar esse recibo.

Nos bastidores, porém, há um grupo no próprio governo que torce pela candidatura de Bocalom, vendo aí a única possibilidade de ocorrer um segundo turno. Faz sentido, se considerarmos que até a última pesquisa, o senador Alan Rick se posiciona em primeiríssimo lugar, por volta dos 44%, afastado uns 20% do segundo colocado. As contas levam a isso. Com a insignificância do candidato esquerdista, não é demais supor que, sem o Bocalom na disputa, Alan Rick liquidaria a fatura no primeiro turno, bastando que a diferença fosse maior que o índice alcançado pelo Thor. Então, há quem pense que o prefeito prestará um bom serviço ao governo se for candidato para ficar em terceiro. Dependerá da campanha mesma da candidata, ultrapassá-lo e chegar em segundo, o que, segundo seus capitães no comando da campanha e na imprensa, será conseguido com a força bruta da máquina pública. 


Provavelmente as caneladas que recebeu do Bocalom serviram também para liberá-la de alguns senões e reticências, fazendo com que se volte para o acordo com o MDB, o que também não será novidade. O “glorioso” há tempos quer passar da paquera à alcova, restando saber por qual porta entrará. A ver.


E o senador Alan Rick? Bem, creio que ele provavelmente gostaria que houvesse logo um téte a téte, seria menos desgastante e o desenho atual poderia se consolidar com mais facilidade. Entretanto, quem está com a pipa pegando vento não pode escolher a pipa alheia. Venha quem vier, quantos vierem, como vierem, terão que ser vencidos com a arma de que dispõe – a elevada sintonia com as expectativas do eleitorado acreano. Sem recursos materiais sobrados para empurrar ou engraxar a máquina eleitoral que alguns tomam como decisiva, Alan Rick terá que se mover com suas próprias pernas, seus apoiadores orgânicos e um discurso de renovação sem ruptura, de modernização sem cavalo de pau, de ultrapassagem sem revanchismo, de prosperidade sem abandono dos desvalidos. É na leveza e na credibilidade da mensagem que estará centrada a sua viabilidade.


Um fato interessante é que todos os três candidatos viáveis se posicionam com maior ou menor radicalismo à direita no espectro ideológico. Com isso, fica praticamente anulada a arenga ideológica e uma virtual ligação preferencial com o candidato à presidência. A preço de hoje, levando em conta que o governador de São Paulo se declarou candidato à reeleição, todos são Flavio Bolsonaro, de modo que a disputa será maximamente estadualizada, com os candidatos respondendo a questões e problemas do nosso dia a dia, da nossa infraestrutura e de um necessário projeto de desenvolvimento acreano articulado com um Brasil moderno, reintegrado aos valores e princípios que construíram o ocidente.


Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, “Arquipélago do Breve”, encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.


 


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