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Desequilíbrios climáticos: ausências e responsabilidades

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Editorial ac24horas

O inverno no Acre não está fugindo ao roteiro. No plano geral, é a chuva dos dezembros, dos janeiros e dos fevereiros de sempre. A intensidade com que ela tem vindo e a fúria com que ela tem se ausentado no verão é o que tem causado espanto por aqui.


Mas é claro que 561 milímetros de chuva fizeram do dezembro de 2025 um mês atípico. Foi o mais chuvoso da história. Esperava-se 268,4 mm. Foi mais que o dobro, portanto. Erro de cálculo dos engenheiros e meteorologistas da Defesa Civil? Não, necessariamente. O desequilíbrio ambiental tem sido de tal ordem que é difícil prever com precisão. As gestões têm trabalhado com a seguinte referência: “preparemo-nos para o pior cenário”. O que vier aquém disto, é saldo positivo.


Qual a dificuldade que se tem para massificar as causas do desequilíbrio? Uma das maiores dificuldades é fazer com que o cidadão se inclua no processo de solução. Normalmente, há uma percepção distante, teórica, quase acadêmica, que segue o seguinte roteiro: o uso de combustíveis fósseis impacta diretamente a emissão de gases de efeito de estufa e isso tem relação direta com o aquecimento global. Portanto, é ruim para todos.


Para o cidadão comum, essa é uma percepção simpática e até compreensiva, mas distante. Ele aceita, concorda com a tese. O problema é que, na hora de mexer na rotina dele, a história muda. É aquele militante partidário que sempre defendeu a ideia do “Desenvolvimento Sustentável”, mas que vibra quando a Petrobras descobre uma nova frente de exploração de petróleo. E o pior: quer encontrar “coerência” nisto, usando como muleta o conceito de transição energética.


No andar debaixo desse debate, tem-se a rotina das prefeituras. Endividados, com equipes reduzidas e pouco qualificadas, os chefes do Poder Executivo dos municípios vão se virando no improviso de sempre. Com um detalhe dramático: muitos desses prefeitos são negacionistas climáticos. Entendem a relação da Economia com o Meio Ambiente no nível “prefiro defender o Homem a defender macacos”.


A cidade de Rio Branco, por exemplo. De acordo com os dados da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios do Censo Demográfico de 2022, do IBGE, a capital acreana é a terceira capital pior arborizada do país. Só perde para São Luís (MA) e Salvador (BA). E neste quesito ninguém pode apontar o dedo na cara de ninguém. Até mesmo o TCE, que resolveu atacar de Ministério Público mais recentemente, derrubou ipês que defendiam-lhe o frescor e a beleza, para plantar palmeiras que nada têm a ver com a flora regional.


Ao que se saiba, não há nenhum indicativo que Rio Branco vá melhorar o cenário. A previsão orçamentária para arborização dentro de um projeto urbanístico que não priorize viadutos não alimenta esperanças. Se a sibipiruna era ou não era adequada à cidade é um debate até saudoso. Tem feito falta.


Sem árvores, sem planejamento urbano consorciado com o que deveria ser uma cidade amazônica, sem saneamento básico, as enchentes são consequências elementares. Esse é outro referencial que não se consegue mudar: a gestão pública não consegue nem fingir um certo contentamento em decretar “situação de emergência”. É um instrumento da administração direta que permite mil e uma imaginações e que tanta alegria gera a tão poucos próximos do poder.


Há um descompasso até mesmo entre os entes federados. Por exemplo: o Governo do Acre enche o peito de orgulho ao fazer parte das discussões sobre Programa de Resiliência Socioambiental. No entanto, a maior cidade do estado não tem claramente definida uma proposta urbanística. Não há resiliência que aguente o descaso.


Uma equipe de gestores trabalha em um nível e a outra não consegue oferecer segurança às mães e avós do Papoco: segurança de que se a família for transferida haverá escola e creches aos netos; de que haverá transporte coletivo de qualidade. Nada é garantido. “Se nada é garantido, fico onde estou!”. É lógico.


Os desequilíbrios ambientais têm como fatores inéditos a abrangência e a intensidade. Mas as causas desses desequilíbrios compõem uma agenda velha; uma percepção envelhecida sobre “crescimento econômico”. São reflexos de decisões em que os agentes públicos são apenas parte da responsabilidade.


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