Menu

Desequilíbrios climáticos: ausências e responsabilidades

Foto: David Medeiros/ac24horas

O inverno no Acre não está fugindo ao roteiro. No plano geral, é a chuva dos dezembros, dos janeiros e dos fevereiros de sempre. A intensidade com que ela tem vindo e a fúria com que ela tem se ausentado no verão é o que tem causado espanto por aqui.

Mas é claro que 561 milímetros de chuva fizeram do dezembro de 2025 um mês atípico. Foi o mais chuvoso da história. Esperava-se 268,4 mm. Foi mais que o dobro, portanto. Erro de cálculo dos engenheiros e meteorologistas da Defesa Civil? Não, necessariamente. O desequilíbrio ambiental tem sido de tal ordem que é difícil prever com precisão. As gestões têm trabalhado com a seguinte referência: “preparemo-nos para o pior cenário”. O que vier aquém disto, é saldo positivo.

Qual a dificuldade que se tem para massificar as causas do desequilíbrio? Uma das maiores dificuldades é fazer com que o cidadão se inclua no processo de solução. Normalmente, há uma percepção distante, teórica, quase acadêmica, que segue o seguinte roteiro: o uso de combustíveis fósseis impacta diretamente a emissão de gases de efeito de estufa e isso tem relação direta com o aquecimento global. Portanto, é ruim para todos.

Para o cidadão comum, essa é uma percepção simpática e até compreensiva, mas distante. Ele aceita, concorda com a tese. O problema é que, na hora de mexer na rotina dele, a história muda. É aquele militante partidário que sempre defendeu a ideia do “Desenvolvimento Sustentável”, mas que vibra quando a Petrobras descobre uma nova frente de exploração de petróleo. E o pior: quer encontrar “coerência” nisto, usando como muleta o conceito de transição energética.

No andar debaixo desse debate, tem-se a rotina das prefeituras. Endividados, com equipes reduzidas e pouco qualificadas, os chefes do Poder Executivo dos municípios vão se virando no improviso de sempre. Com um detalhe dramático: muitos desses prefeitos são negacionistas climáticos. Entendem a relação da Economia com o Meio Ambiente no nível “prefiro defender o Homem a defender macacos”.

A cidade de Rio Branco, por exemplo. De acordo com os dados da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios do Censo Demográfico de 2022, do IBGE, a capital acreana é a terceira capital pior arborizada do país. Só perde para São Luís (MA) e Salvador (BA). E neste quesito ninguém pode apontar o dedo na cara de ninguém. Até mesmo o TCE, que resolveu atacar de Ministério Público mais recentemente, derrubou ipês que defendiam-lhe o frescor e a beleza, para plantar palmeiras que nada têm a ver com a flora regional.

Ao que se saiba, não há nenhum indicativo que Rio Branco vá melhorar o cenário. A previsão orçamentária para arborização dentro de um projeto urbanístico que não priorize viadutos não alimenta esperanças. Se a sibipiruna era ou não era adequada à cidade é um debate até saudoso. Tem feito falta.

Sem árvores, sem planejamento urbano consorciado com o que deveria ser uma cidade amazônica, sem saneamento básico, as enchentes são consequências elementares. Esse é outro referencial que não se consegue mudar: a gestão pública não consegue nem fingir um certo contentamento em decretar “situação de emergência”. É um instrumento da administração direta que permite mil e uma imaginações e que tanta alegria gera a tão poucos próximos do poder.

Há um descompasso até mesmo entre os entes federados. Por exemplo: o Governo do Acre enche o peito de orgulho ao fazer parte das discussões sobre Programa de Resiliência Socioambiental. No entanto, a maior cidade do estado não tem claramente definida uma proposta urbanística. Não há resiliência que aguente o descaso.

Uma equipe de gestores trabalha em um nível e a outra não consegue oferecer segurança às mães e avós do Papoco: segurança de que se a família for transferida haverá escola e creches aos netos; de que haverá transporte coletivo de qualidade. Nada é garantido. “Se nada é garantido, fico onde estou!”. É lógico.

Os desequilíbrios ambientais têm como fatores inéditos a abrangência e a intensidade. Mas as causas desses desequilíbrios compõem uma agenda velha; uma percepção envelhecida sobre “crescimento econômico”. São reflexos de decisões em que os agentes públicos são apenas parte da responsabilidade.

Siga o ac24horas no Google Notícias e seja o primeiro a saber tudo que acontece no Acre

Seguir no Google

Veja também

Newsletter

Fique por dentro do que acontece no Acre

Receba em primeira mão as notícias mais importantes do estado direto no seu e-mail. Política, economia, segurança e tudo que impacta a vida dos acreanos.