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Segundo reportagem do Valor Econômico do dia 12/01/2025, os investimentos dos governos estaduais ganharam forte impulso no segundo semestre de 2025, sustentados por superávits acumulados e, sobretudo, pela ampliação das operações de crédito. De acordo com a matéria, os 26 Estados e o Distrito Federal investiram R$ 67,7 bilhões entre janeiro e outubro de 2025, o que representa um crescimento real de 5,5% em relação ao mesmo período de 2024 e quase o dobro do volume registrado em 2021.
A reportagem destaca que o avanço dos investimentos ocorreu em 16 Estados e no DF, com aumentos superiores a 30% em nove unidades da Federação, entre elas o Acre. Além disso, as chamadas inversões financeiras alcançaram R$ 14,4 bilhões, com alta real de 34,8%, reforçando o movimento de expansão do gasto voltado à formação de capital, ainda que parte dessas despesas não represente investimento produtivo direto.
O Valor observa que, enquanto os investimentos cresceram em ritmo acelerado, as despesas correntes avançaram 4% reais, acima do crescimento das receitas correntes, que foi de 2,1%. O principal fator de sustentação desse ciclo foi o aumento expressivo das receitas de operações de crédito, que subiram 34,4% reais no período, viabilizadas pela melhora significativa das notas de Capacidade de Pagamento (Capag) dos Estados junto ao Tesouro Nacional.
Conforme a matéria, a consolidação das notas Capag A ou B — hoje predominante entre os estados — ampliou o acesso a financiamentos com garantia da União e a custos mais baixos, possibilitando a aceleração dos investimentos em infraestrutura. Esse, contudo, não é o caso do Acre, que atualmente possui nota C no Capag. Assim, o crescimento recente das despesas associadas às operações de crédito no estado não decorre da contratação de novos financiamentos, mas sim da execução financeira de operações firmadas em períodos anteriores, quando a classificação do Acre ainda permitia a obtenção de crédito com aval do Tesouro Nacional. Nesse contexto, embora o Valor Econômico observe que os governos estaduais já projetam 2026, ano eleitoral, com a expectativa de manter ou ampliar os investimentos, no caso acreano essa possibilidade permanece condicionada a severas restrições fiscais e institucionais, especialmente enquanto persistir a atual nota no Capag.
O cenário do Acre nesse contexto
A análise dos dados do 5º bimestre de 2024 e 2025 indica que o Acre reproduz, em escala local, o movimento nacional descrito pelo Valor Econômico, marcado pela aceleração dos investimentos no segundo semestre de 2025, ainda que com limitações relevantes de execução e forte dependência de fontes extraordinárias de financiamento.
O Estado ampliou de forma significativa o volume executado de investimentos, com crescimento expressivo entre os dois exercícios, embora a taxa de execução permaneça baixa, abaixo de 30%, evidenciando restrições operacionais na transformação do orçamento autorizado em obras e projetos efetivos. Diferentemente da média nacional, o Acre reduziu substancialmente as inversões financeiras, sinalizando uma opção por priorizar investimentos diretos em detrimento de aplicações financeiras ou participações indiretas.
As despesas correntes mantiveram crescimento moderado, em linha com o observado no conjunto dos estados, enquanto as receitas correntes avançaram em ritmo suficiente para preservar o equilíbrio fiscal, apesar da estagnação da arrecadação própria, o que reforça a dependência estrutural do Acre de transferências e receitas não recorrentes.
Nesse contexto, destaca-se o aumento do uso das operações de crédito, contratadas em períodos anteriores, e, sobretudo, a incorporação crescente de saldos de exercícios anteriores, que passaram a desempenhar papel central no financiamento do investimento público. Em 2024, o governo estadual utilizou R$ 394,23 milhões dessa fonte, valor que se ampliou significativamente em 2025, alcançando R$ 619,07 milhões até o período analisado. Esse expediente permitiu acelerar os investimentos sem pressionar o custeio corrente, mas também evidencia o caráter conjuntural do atual ciclo de expansão, uma vez que se trata de uma fonte finita de recursos, cuja disponibilidade tende a se reduzir nos exercícios seguintes.
A divulgação dos dados do 6º bimestre de 2025, prevista para o final de fevereiro de 2026, será decisiva para avaliar se a aceleração observada se consolidou no encerramento do exercício ou se permaneceu limitada à programação orçamentária. Em síntese, o caso do Acre confirma o diagnóstico do Valor Econômico: o avanço dos investimentos em 2025 foi sustentado por superávits acumulados e maior uso do crédito, mas a sustentabilidade desse movimento em 2026 dependerá fundamentalmente da capacidade de execução e da consolidação de fontes recorrentes de financiamento.
O desempenho recente dos investimentos no Acre confirma que o Estado conseguiu aproveitar, em 2025, o mesmo ambiente favorável observado no conjunto das unidades da Federação, marcado por maior espaço fiscal, uso de superávits acumulados e ampliação do crédito. Esse movimento permitiu acelerar o gasto de capital sem provocar desequilíbrios imediatos nas despesas correntes, preservando, até aqui, a estabilidade fiscal.
Entretanto, os dados também deixam claro que o desafio central não está apenas em dispor de recursos, mas em transformá-los em investimentos efetivamente executados. A baixa taxa de execução, a dependência de fontes extraordinárias — como saldos de exercícios anteriores — e a fragilidade da arrecadação própria indicam que o atual ciclo de expansão possui caráter predominantemente conjuntural. Sem avanços consistentes na capacidade de execução e na consolidação de receitas recorrentes, o fôlego observado em 2025 tende a se esgotar.
Nesse sentido, a divulgação dos dados do 6º bimestre de 2025 será crucial para compreender se a aceleração dos investimentos se consolidou no fechamento do exercício ou se permaneceu restrita ao plano orçamentário. Para 2026, o desafio do Acre será menos acelerar e mais sustentar: garantir que o investimento público seja executado com eficiência, gere impacto econômico duradouro e contribua para ampliar a base produtiva e fiscal do Estado. Só assim o impulso recente poderá se converter em um ciclo de desenvolvimento mais robusto e menos dependente de recursos excepcionais.
Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas