Editorial

Linhas, agulhas, tijolos, espelhos e a fotografia

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Editorial ac24horas

O cenário das eleições no Acre deveria estar muito mais tranquilo. “Deveria” está no futuro-do-pretérito. Portanto, condicional. Falando simples: “tem vários ‘se’ na história”. Tem para todos os gostos e siglas partidárias, como se verá.


O primeiro detalhe a se observar é que, no Acre, a vitória para os cargos majoritários, provavelmente, será protagonizada por homens e mulheres de bem; defensores dos valores cristãos; por Deus; pela Liberdade; menininhos de azul e menininhas de rosa. Se todos defendem essas mesmas “referências”, por que se observa uma briga tão visceral para chegar ao Palácio Rio Branco ou para estar no Congresso Nacional entre as lideranças dos partidos da direita?
A resposta mais óbvia é: “dinheiro”. Outra no mesmo rumo é: “dinheiro e poder”. Há ainda quem se lembre do projeto de “impeachment” dos ministros do STF ou quem deseja “varrer a esquerda do mapa político brasileiro”. Tem de tudo.


A arenga mais quente e atual está entre o senador Marcio Bittar (PL) e o colega de partido e prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom. O primeiro mais afinado com as prioridades da executiva nacional e o segundo vociferando honestidade e fidelidade ao histórico de direita, mesmo tendo integrado o PSDB e tendo sido secretário de Estado na primeira gestão petista do Governo do Acre.


Para a direção nacional do PL, é evidente que um senador é cargo muito mais valoroso do que a primeira cadeira do Palácio Rio Branco. Para o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, ter ou não ter o Governo do Acre é uma questão que toda a honestidade dele não consegue abarcar a importância, principalmente, neste momento de trincheira armada contra o Supremo Tribunal Federal.


E Bittar transita bem por esse sentimento. Bem articulado, faz as costuras com personagens corretas para os cálculos sempre precisos. Lembrando um antigo conto de uma literatura fora de moda, entre a linha, a agulha e o alfinete, desde a época de Fernando Henrique Cardoso, Bittar sempre bailou nos salões, entre as mãos e encaixes de barões e viscondes, para desespero do trabalho de algumas agulhas que lhe ficaram pelo caminho.


Por sua vez, Bocalom tem estado tão ansioso nesse projeto de ser candidato ao Governo que até mesmo antecipou o anúncio. Inicialmente marcado para o dia 24, foi antecipado para esta segunda (19). O argumento pedestre é de que, em 2010, sem apoio, conseguiu 49,18% dos votos válidos. Foi vencido por 4.497 votos e uma suposta urna perdida em Feijó. Ele entende que, agora, poderoso e com o factóide “inteligente” de duas torres de 40 andares, um shopping e a cidade de Rio Branco como cartão de visitas, ele tem chances reais de vencer.


Entre a Rua Rui Barbosa e a Avenida Brasil, uma personagem se espreme em agonia. Alysson Bestene é uma liderança alçada pelos fatos. Tem dificuldade de protagonizar cenas e decisões. Ainda não percebeu que, mesmo entre os pares que dizem defender os “mesmos princípios”, o projeto de agradar a todos sempre fracassa.


E no endereço mais poderoso da Avenida Brasil outra liderança com perfil político ainda em construção teima em montar tijolos. Mailza Assis segue observando algumas movimentações confusas, sempre fundamentadas na fala do governador Gladson, que (justiça seja feita) não perde oportunidade de lhe conferir lealdade: “Ela é a minha candidata” é o mantra.


Sem nunca ter sido testada nas urnas como protagonista, Mailza precisa passar pelo crivo da escolha popular. Ela precisa dessa pia batismal para nascer politicamente. O problema são os sinais trocados do fiel colega da cadeira ao lado. Vez por outra uma declaração do governador foge ao mantra; sugere um tijolo de difícil encaixe na construção de Mailza que, atordoada, tem preferido o silêncio.


Uma lembrança ocorre: depois de ter sido prefeito de Xapuri (1955), deputado federal (1962) e governador biônico (1964), Jorge Kalume conheceu outras vitórias e derrotas. Perdeu para Adalberto Sena ao Senado (1974), mas, quatro anos depois, derrotou Alberto Zaire na disputa pelo mesmo cargo. Sofreu nova derrota quando disputou o governo do Acre com Nabor Júnior em 1982. Em nova disputa ao Senado, em 1986, perde. Mas em 1988, tem aquela que seria a sua última vitória política: foi eleito prefeito de Rio Branco, em uma vitória que deixou a soberba peemedebista na lona.
A trajetória de Kalume poderia servir de referência a Mailza com o sinal trocado. Mailza é a candidata da situação. Kalume era o representante da direita à época. Pode ser inimaginável agora, mas o MDB (partido da situação à época) ainda tinha quadros que simbolizavam uma postura mais à esquerda. Tire o riso faceiro e desconfiado, leitor.
É verdade. Ao seu modo, o Acre soube responder democraticamente ao trauma da deposição do governador José Augusto. E o MDB, também ao seu modo, foi esse instrumento. É bem verdade que, depois de eleger todas as prefeituras e quase toda bancada federal, o partido foi se perdendo. Até chegar aonde está hoje, dependente das decisões de terceiros para fazer a travessia da eleição “na bubuia”.


O que pesa contra Mailza é que, diferente de Kalume, ela, obrigatoriamente, precisa da estrutura da máquina do Governo do Acre para ser batizada politicamente. É uma cabeça que não cabe em qualquer pia. Outra ausência em Mailza é quase fatal: falta-lhe o Acre no coração e nos gestos.


Por fim, o senador Alan Rick e o médico Thor Dantas completam a fotografia. O primeiro já está sentindo, na prática, que a formação de chapas e atração de partidos não são conquistas feitas com murros no balcão e gritos ofensivos, desrespeitosos e humilhantes. Os “caralhos”, em Política, são apresentados de outra forma e em outro tom. Assim como Bocalom, Alan Rick terá um inimigo quase imbatível: o espelho. Thor Dantas, com carreira médica em ascensão, terá na campanha de 2026, um instrumento para endurecer o couro rumo ao desafio de ser um parlamentar de primeira linha. Uma parte da foto da campanha política no Acre tem essa luz.


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